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A bem da Nação

CRÓNICAS DO BRASIL

NO HOSPITAL DE EMERGÊNCIAS

 

 Para o médico residente ou para o estudante interno (antigo académico), estagiar na Emergência é uma verdadeira prova-de-fogo.

 

 

Sendo um hospital que, a priori,  não pode recusar atendimento, por se supor que aqueles que o procuram, ou a ele são levados,  estão em estado grave ou passando mal, muitos doentes que não conseguem consulta na rede ambulatorial buscam nesse tipo de assistência hospitalar a solução mais rápida para seus problemas de saúde.  A estes se ajuntam aqueles com doenças psico-somáticas que anseiam achar alguém que os ouça e ajude a resolver  as suas dores afetivo-emocionais. Engrossando a fila (bicha), chegam os carentes à cata de comida ou de alguma outra necessidade,  na esperança de encontrar alivio  para a fome ou o abandono que lhes impõe a família ou a sociedade. No meio desse caos, de tempos em tempos,  chegam  as ambulâncias com sirenes ansiosa e estridentes,  quebrando "a rotina de atendimento", trazendo alguma vitima de acidente, suicídio ou assassinato.

 

À falta de critérios médicos seguros e bem definidos de emergência, difíceis de avaliar, as salas de espera superlotam com acompanhantes e pessoas mais ou menos doentes que tumultuam o atendimento, dificultando a identificação com a pronta assistência aos pacientes  em estado grave,   e estressando com sobrecarga de trabalho a equipe de enfermeiros e médicos atendentes.

 

Quando chega a hora do Estágio no P.S, lá vai o estudante de maleta preta e roupinha branca, impecável, pela mãe orgulhosa lavada, com o coração a mil, antevendo as dificuldades e os sofrimentos que irá enfrentar. No hospital, o Staff vê com alívio e alegria o académico chegar. Prestativo, ansioso para aprender e socorrer o mundo, ele irá atender e trabalhar, como um escravo, quase sem descanso e sem muitas explicações, porque o tempo não dá, dentro de um esquema mais ou menos pré-determinado para este ou aquele problema que  não vai lhe  trazer muitos conhecimentos académicos, mas que com certeza vai iniciá-lo e prepará-lo nas habilidades de diagnosticar e tratar com rapidez uma emergência.

 

Nos grandes hospitais que têm Pronto-Socorro, os estudantes e médicos residentes são lotados em plantões diários, com horários pré-fixados,  nas salas de atendimento ( salas de mulheres, de homens e de crianças), sendo que cada sector apresenta um grupo de profissionais experientes que, respondendo pela equipe, supervisiona e ajuda os mais novos nas dificuldades e nos casos verdadeiramente emergenciais. É um aprendizado essencial, básico, quase sem palavras, onde o interno aprende vendo, acompanhando e repetindo o profissional mais velho, nos passos e atitudes,  como o elefantinho com a mãe,  no difícil atendimento de urgência. É uma tarefa desgastante, que exige conhecimento, vitalidade, controle emocional e rapidez com acções precisas e coordenadas na arte do pronto-atendimento.  

 0004dees Afinal, a vida dos médicos brasileiros é igual à dos médicos portugueses. Somos de facto uma Nação.

 Passados mais ou menos dois anos, em esquema de plantão semanal, quando o interno ou o médico residente está pronto, está na hora de partir para outras etapas da vida profissional. Para os que ficam,  o staff, a preocupação é acabar com as intermináveis filas, esvaziar as salas de espera do P.S,  para poderem atender com tranquilidade, junto com o novo grupo de académicos que vai se apresentar,  aqueles que vão chegar em carros ou ambulâncias, em estado grave, enquanto nos corredores os alto-falantes continuam na sua missão de solicitação:" Dr. Fulano de Tal, por favor comparecer à sala de crianças, COM URGÊNCIA"!  

 

Hoje em dia, nas grandes cidades, a Emergência tornou-se uma especialidade médica cada vez mais solicitada pelas crescentes necessidades que a violência e a superpopulação produzem.  O salvamento começa com a rapidez e competência das equipes de paramédicos (em geral estudantes e bombeiros bem treinados) que com coragem e técnica dão os primeiros socorros. Os hospitais por sua vez deveriam ter espaço, tranquilidade, organização e equipe descansada e aparelhada para o pronto atendimento, coisa que  nós brasileiros só conhecemos o contrário, com raras excepções, por falta de investimento político numa estrutura pública hospitalar adequada e pela abundância de carências  de uma população sob todos os aspectos empobrecida.

 

Uberaba, 26 de Novembro de 2006

 

Maria Eduarda Fagundes

 

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