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A bem da Nação

CRÓNICAS DO BRASIL

(…)  

Esta é a estória de Sebastião Salgado, mineiro de Aimorés, cidade próxima à fronteira do Estado do Espírito Santo. Esse economista, fotógrafo, transformou-se em cidadão do mundo por imperativo da sua grande capacidade de trabalho e sensibilidade diante dos graves problemas que afligem a humanidade. E por imperativo do seu país de origem.

 

Além de toda a sua riqueza,  Minas Gerais, às vezes, acaba exportando os seus filhos mais brilhantes (ou brilhante filhos - por favor, me ajude aqui. Nossa língua não é fácil).

 

Espero não demorar na segunda parte. Falta muito pouco para terminar.

(…)  

Therezinha B. de Figueiredo

  

   

 

SEBASTIÃO SALGADO – CIDADÃO DO MUNDO

1ª parte

 

 Será a fotografia um instrumento da Economia?

 

Para Sebastião Salgado uma pessoa começa a fazer fotografia quando nasce. Ela fotografa com a luz que traz.

 

No desenvolvimento da sua aprendizagem fotográfica considera a importância de sua origem no tipo de luz, enquadramento e na sua maneira de ver o mundo, na maneira que faz o corte representativo da realidade. Esse corte simples, essa fracção de segundo que é a fotografia, a pessoa faz com a sua história.

 

Na Vala do Padre, Conceição do Capim, um dos distritos de Aimorés, Minas Gerais, nasce Sebastião Salgado, onde mora por cinco anos. Em 1949 seu pai muda para a rua, jeito de falar dos mineiros daquela região; quer dizer, muda para a cidade. Mudar para a rua, Aimorés, inova experiências, formas diferentes de ver o mundo, que influenciaram no tipo de fotografia instintivamente trabalhadas contra a luz. Um exemplo é a quantidade de luz existente em Aimorés, muito sol, muito calor e a busca pela sombra. Outro exemplo: - seu pai vindo de dentro da casa andando contra a luz. Mais outro: - enquanto chovia o céu se cobria de tanta nuvem, raios, tanto trovão, que seguramente vem daí, afirma o fotógrafo, o tipo de fotografia revelando o céu muito baixo, com muita densidade. Como estas, outras surgiram como uma visão, um sonho com o resto do mundo, uma coisa fenomenal, uma descoberta de tudo.

 

Terminado o curso ginasial, migra para Vitória, Estado do Espírito Santo, onde faz o científico. Lá descobre uma abertura para o mundo nunca visto antes. Sentado na beira do porto, naquela época, aberto, vê entrar os navios que vinham pegar o minério. No fundo tinha luz. Eles seguiam para o Japão, para a Europa. Dois, três meses depois, voltavam a Vitória e os identificava pelo nome. Contemplar navios define o olhar distante, o sonho com o resto do mundo, o desejar sabê-lo.

 

Graduado em economia pela Universidade Federal do Espírito Santo, deixa Vitória em companhia da esposa Lélia rumo à Universidade de São Paulo (USP). Torna-se Mestre em economia.

  Subindo a mina da Serra Pelada - 1986

Como sempre um pouco ligados à militância política escolhem sair do Brasil, à época sob o regime militar, com destino a Paris, onde mora durante dois anos. Prepara-se para o doutorado em economia agrícola. De férias em Genebra, sua esposa, estudante na Universidade de Paris, compra uma "Pentax". Sua finalidade, fotografar arquitectura. Sebastião Salgado olha através do visor e descobre uma outra maneira de relacionar com as pessoas. Um mês depois adquirem um laboratório. Revela e copia para os estudantes.

 

Após o doutorado trabalha na Organização Internacional do Café, em Londres, como economista. Faz missões na África junto ao Banco Mundial, missões de identificação de projectos de desenvolvimento económico para substituição da produção do café. O café estava em excesso de produção nessa época. Elaborar os projectos era necessário para manter o mesmo nível mundial de preço. Trabalha no Quénia, Uganda, Ruanda, Burundi, Zaire. Leva consigo uma "Nikon". De volta a Londres, as fotografias davam mais prazer do que os relatórios económicos. Não teve jeito. Abdica da profissão.

 

Autodidacta, começa a preparar-se. Vê exposições, copia e revela em preto-e-branco, que segundo ele é essencial para quem faz fotografia. Devido à sua realidade, aos problemas sociais do Brasil, sua militância política e formação profissional, tem mais afinidade com a fotografia social.

 

Ainda na Organização Mundial do Café, esteve no Níger, onde faz sua primeira reportagem sobre a fome. A situação na África não estava bem.   Determinados países iam sofrer uma seca muito grande.  As informações adquiridas por ocasião dos projectos junto do Banco Mundial facilita antecipar-se a vários outros fotógrafos. Essa primeira reportagem, ele a publica em várias revistas mundiais sendo aceite rapidamente no mundo da imprensa.

 

Sua experiência como freelancer e em agências de foto jornalismo, Sigma primeiro, depois Gama, onde cobre a guerra na Irlanda, geralmente com garantia de uma grande publicação – Time, NewsWeek, Paris Match ou Le Monde, possibilita-o presidir à Agência Magnum na Europa. Lá conhece Cartier-Bresson, um dos fundadores, seu mestre e amigo.

 

"Antes de ser fotógrafo, declara, é importante aprender um pouco de economia, ciências sociais e geopolítica, base para entender o momento histórico que se está vivendo".

 

Cria a Agência Amazonas, de imprensa, mas também dedicada à cultura. Lélia dirige a parte artística e organiza exposições de livros. O primeiro, "Outras Américas", sobre o mundo rural, é ilustrado por ela. O segundo, é o livro "Terra". Eles se referem a uma série sobre os trabalhadores agrícolas, sobre o mundo agrícola da América Latina. Seis anos, dezasseis viagens a países, os mais próximos ao Brasil, é a somatória desse trabalho. Em "Outras Américas" existem várias fotos do Brasil, para onde voltam após a amnistia política em fins de 1979.

 

São suas as palavras: "Talvez por influência da economia, que me ensinou a pensar a longo prazo, durante toda a minha vida tentei aproximar meu trabalho de projectos a longo prazo".

 

Depois de "Outras Américas",  outro livro. Agora sobre a fome na África. Houve uma época, entre 1984 e 1985,  morreram de fome na África mais de um milhão de pessoas. Muito próximos da organização de médicos franceses, chamada Médicos sem Fronteiras, passa quinze meses fotografando, em cinco países diferentes, o problema do deslocamento da população fugindo da fome. Nasce o segundo livro ilustrado por Lélia, feito para criar a Organização Médicos sem Fronteiras, na Espanha.

 

 

Tem uma segunda parte.

 

Therezinha B. de Figueiredo

 

Fonte: Conferências do Centenário de Belo Horizonte, 1997   

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