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A bem da Nação

CRÓNICAS DO BRASIL

Os  aromas  do  vinho

Cada época seu retrato. Hoje o que não se sofistica nada vale, e quanto mais dinheiro disponível mais as pessoas complicam as suas próprias vidas. O vestuário, quando não é o despeário com os fios dentais e os decotes até aos joelhos nas funções sociais e não só, o carro do ano, as jóias, os restaurantes sofisticados em que se pagam fortunas por pratos lindíssimos com pouco mais que zero de calorias! Tudo isto para aparecer.

Um dos modismos curiosos, a que os entendidos querem dar o rótulo de estudos científicos é a «descoberta» dos aromas dos vinhos.

Hoje vinho nenhum sabe a tinto ou a branco, ou, para os mais experientes, à casta de uvas de que procede. Uns cheiram a frutas silvestres vermelhas, noutros essas frutas silvestres são as pretas, aqueles sabem a canela ou a frutos secos, aqueloutros a maçãs ou pêras ou a...

 - Vossa Excelência deseja um vinho a saber a framboesa ou com um ligeiro aroma a alho porro?

Não tarda assistirmos num restaurante ver pedir ao sommelier ou ao escanção: "Por favor (por favor só as gentes mais educadas!) quero um vinho com sabor de framboesa, banana dos papuas com açaí e um leve toque de maboque. O sommelier, solicito, profissional e conhecedor, vai buscar um tinto do Cartaxo ou um branco de Torres Vedras que sabem tanto a banana dos papuas quanto as febras de porco fritas em Vendas Novas. O cliente, sofisticado, sofisticadíssimo, vai encontrar em qualquer carrascão que se lhe apresente aqueles aromas e paladares que solicitou! Feliz e orgulhoso paga uma nota alta!

Também ao Brasil já chegou esse modismo. Então aqui onde é tremenda a fúria para aparecer nas colunas socialites. Mas tem mais do que isso: aqui tem a lei do glúten! O glúten é uma proteína que se encontra nos cereais: trigo, cevada, aveia e centeio, não no arroz e milho. Como há gente com doenças sensíveis ao glúten, publicou-se uma lei obrigando os fabricantes de produtos alimentícios, sólidos ou líquidos, a indicar nos rótulos, em destaque, se o produto contém ou não glúten, em vez de se obrigar a indicar unicamente os que o contém. Pasmem: agora até nas garrafas de vinho é obrigatória a indicação de «Não contém glúten»! Boa piada, né?

Ora bem, vinho sem glúten e com aromas de canela e maçã... não será melhor comer um apfelstrudel?

Ou escolher os vinhos pela região, casta, ano, conceito do vinicultor, etc., e, quando não se conhece bem o assunto, aceitar a opinião do tal sommelier?

Há muitos anos, há mais de meio século (!), quando fui para Angola de navio, à saída de São Tomé foi apresentado aos novatos naquelas bandas um fruto desconhecido, pedindo o comissário de bordo que o provassem e emitissem não só a opinião, se haviam gostado ou não, mas sobretudo lhe dissessem a que sabia. Era um fruto lindo, rosa-alaranjado, macio. Só a cor era já tentadora. Provei. Saboreei. Gostei.

-«A que sabe?» - «A flores!» -«É verdade! Ando aqui há mais de 25 anos nestas viagens e nunca tinha conseguido definir o paladar - e aroma - deste fruto!»

Era papaia. Hoje sabemos bem que aquele paladar é mesmo de papaia, apesar das diferentes variedades terem paladares também diferenciados. Mas jamais sabem a febras!

Como os vinhos.

 Rio de Janeiro, 27 de Outubro de  2006

Francisco Gomes de Amorim

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