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A bem da Nação

Um Pouco de História – Século XVII

Gregório de Matos e Guerra

(Salvador BA 1636 - Recife PE 1696)

 

 

A primeira metade do século XVII, correspondente ao tempo de infância do poeta, viu crescer engenhos e  consolidar uma pequena nobreza luso-baiana beneficiada pelo amparo das leis metropolitanas que sustentavam a execução das dívidas quando estas fossem de produtores de açúcar.

 

A política proteccionista declina a partir da metade do século à medida que a economia portuguesa passa para a órbita da Inglaterra e perde sua independência com o Tratado de Methween em 1703.

 

A passagem do Antigo Estado à Máquina Mercante dá-se por abertura da barra de Salvador a navios estrangeiros. Durante mais de meio século apenas navios portugueses eram legalmente possuidores dessa regalia por leis de D. Sebastião (1571) e de Felipe II (1605). Elas proibiam a descida de negociantes flamengos, ingleses e franceses às costas da colónia. Com D. João IV, logo depois da Restauração em 1640, a política anti-castelhana converte-se em política de aliança com a Inglaterra.

 

Gregório de Matos viveu os efeitos da mudança. A sua família de antiga fidalguia lusa e proprietária de engenho, perdeu, como tantas outras, o sustento oficial e irrestrito que a protegia nos primeiros decénios do século. Com a queda dos preços do açúcar, a nova situação passa a favorecer três grupos económicos: as companhias estrangeiras, alguns latifundiários de maior poder que conseguiam sobreviver aumentando a produção e mantendo a escravaria (provavelmente a nobreza Caramuru, como o sátiro a chamava ressentida) e a classe dos intermediários, os comerciantes reinóis enraizados na Bahia e no Recife, receptores de protecção.

 

Como intelectual e clérigo, Gregório de Matos não se situava no lugar social da produção ou da circulação de bens materiais. O seu estamento de origem, os títulos  de doutor obtido em Coimbra, as nomeações para Juiz de Fora da Vila de Alcácer do Sal por D. Afonso VI; Juiz cível em Lisboa e representante da Bahia nas Cortes por duas vezes, procurador da cidade de Salvador para tratar em Lisboa dos negócios dessa Câmera e Cidade e funções que exerceu como Desembargador da Relação Eclesiástica da Bahia somado ao brilho de literato, faz dele vigário geral da Sé da Bahia e seu tesoureiro-mor por indicação de D. Gaspar Barata, primeiro titular daquela arquidiocese.

 

Mas os costumes livres e a língua ferina causaram-lhe embaraços e desafectos. O poeta perde os dois cargos e viveu algum tempo como advogado e afinal desperdiçou o património familiar. O intelectual eclesiástico resiste aos valores do mercantilismo e da impessoalidade funcional. Apega-se aos velhos direitos de sangue, do nome, às honras e aos privilégios de ordens estamentais fechados como a nobreza, a igreja, os tribunais, as armas, a Inquisição e a Universidade. Escárnio, maldizer, o moralizar são presenças constantes em suas sátiras.

 

O filho de algo em apuros não tolera o comerciante e nem o mercador cristão-novo. O que está em jogo não é uma consciência nacionalista ou baiana, mas uma oposição entre a nobreza que desce e a mercancia que sobe. É a disputa, entre nobreza e burguesia pelo poder político.

 

O desajuste desse brasileiro poeta e bacharel por Coimbra diante do Brasil seiscentista, imprimiu em sua sátira a conturbada imagem da terra natal como o "mundo às avessas" posto pelo mercador inglês (por ele apelidado de o Brichote, pejorativo), judeus e netos de Caramuru. Mestiços forros agregando a famílias abonadas ou conquistando posto no Fórum e na Sé recebiam deferências que a ele branco, nobre e douto eram recusadas!

 

Depois de destituído dos cargos eclesiásticos, o poeta satírico começa a peregrinar pelo Recôncavo Baiano como cantor itinerante.

 

Despachado para Angola pelo Governador Geral do Brasil, envolve-se na sublevação da Infantaria local. Apoia o Governador no sentido de superar a crise militar.

       

Retorna a Pernambuco em 1695 sob a condição de não escrever sátiras. Morre nesse mesmo ano.

       

A sátira de Gregório de Matos e Guerra reúne a forma ambígua, descontraída de determinados elementos estéticos que influenciaram o surgimento de um sistema intelectual brasileiro – o seu projecto literário.

      

A estrutura dramática e contraditória da forma humorística ajusta-se à crítica de uma fala cultural brasileira. Isto porque a nossa sociedade foi sendo estruturada pelas múltiplas influências do convívio do colonizador, dos costumes do escravo e do perfil do índio. Da repercussão da sua produção satírica, o mais importante é a abordagem textual como exemplo pioneiro do exercício de uma fala nacional. Ele é o gerador de uma atmosfera criativa e instigante.

       

Para Araripe Júnior, “Gregório de Matos é toda a poesia do século XVII”, porque se transformou, em seu tempo, em linguagem. Unificador, originou uma vasta produção em ritmo de sátira – irreverente, jocosa e multifacetada.

      

A sátira afinada ao carácter lúdico, ao popular e problematizador, características da crise do homem pós-renascentista, assume, na obra do poeta, o comando de uma vertente barroca.

       

Ao contrário da literatura séria, valorizada por toda a tradição cultural do ocidente, desde a poética de Aristóteles, as formas cómicas mais permeáveis às influências das festas e ritos populares, como o Carnaval que influi em seu estilo satírico confrontando ideias, opiniões ou interpretações estruturadas na estética do texto, vai apresentar uma visão de mundo mais revitalizada e saudavelmente transgressora diante de padrões de comportamento consagrados pelo poder oficial.

      

Esta vocação ambígua, ao inspirar o feitio da sátira de Gregório de Matos, vai transformá-lo no modelo acabado do “libertino” diante do poder colonial, do Brasil seiscentista:” O poeta profanador, adúltero, licencioso é o delator puritano das relações perigosas.”.

      

O seu mais famoso poema é paródia do soneto “Formoso Tejo Meu, Quão Diferente”, do poeta português barroco do século XVII, Francisco Rodrigues Lobo. Caetano Veloso, cantor e compositor brasileiro nascido na Bahia, compôs, em intertexto a esse poema, a música intitulada “Triste Bahia”.

 

Eis o poema de Gregório de Matos:

 

 

        Triste Bahia! Oh quão dessemelhante

        Estás, e estou do vosso antigo estado!

        Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,

        Rica te vejo eu já, tu a mi abundante.

 

      

        A ti tocou-te a máquina mercante,

        Que em tua larga barra tem entrado,

        A mim foi-me trocando, e tem trocado.

        Tanto negócio, e tanto negociante.

 

         Deste em dar tanto açúcar excelente

         Pelas drogas inúteis, que abelhuda.

         Simples aceitas do sagaz Brichote.

 

        

         Oh se quizera Deus, que de repente

         Um dia amanheceras tão sisuda

         Que fora de algodão o teu capote!

 

  

Outubro de 2006,

 

Therezinha Barreto de Figueiredo

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