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A bem da Nação

LIDO COM INTERESSE – 9

 

 

Título: “Breve relação da vida e feitos de Lopo e Inácio Sarmento de Carvalho, grandes Capitães que no século XVII honraram Portugal no Oriente”

 

Autor: Major Charles Ralph Boxer

 (1904 - 2000)

 

Editor: Imprensa Nacional, Macau – 1940

 

 

- x – x – x –

 

 

Foi por mero acaso que topei com este pequeno livro de 73 páginas há decénios esquecido numa esconsa prateleira duma lúgubre arrecadação onde o meu Clube guarda os arquivos moribundos e a que fora em busca de um outro que lá não estava mas que hei-de encontrar não sei ainda bem onde, o da vida e obra do General Domingos de Oliveira.

 

Este que agora encontrei ainda estava fechado e tive que me munir duma “faquinha de abrir livros” para o ler e me embrenhar na vida e obra de dois importantes executantes da política subjacente ao modelo de desenvolvimento português de então, nomeadamente durante a dinastia filipina. Ironia máxima, a edição enquadrava-se nas comemorações dos centenários da Fundação e da Restauração da nossa nacionalidade. O pretexto do tema foi o da toponímia de Macau, no momento em que se deu o nome de Lopo Sarmento de Carvalho a uma via daquela cidade.

 

E porquê?

 

Porque foi esse cavalheiro que prestou alguns bons serviços ao seu rei – assim se raciocinava na época – aplacando as dores da bancarrota real e defendendo Macau das investidas holandesas. Trasmontano, foi para a Índia como militar e – a propósito da defesa de Malaca contra os holandeses – seguiu para Macau onde casou com Maria Cerqueira, macaense bisneta de um japonês e de «huma lascara Moira», ou seja, de sangue muito dúbio na perspectiva da Inquisição. Terá sido esta “impureza” hematológica que o aconselhou a não regressar ao Reino e em definitivo a fazer vida por lá. Metido em negócios proveitosos nos intervalos das acções militares a que ia sendo chamado como Capitão-mor, acabou por ter que ir a Goa pagar a pronto em xerafines (moeda da época) a compra de seis viagens de Macau ao Japão (a nau do tracto) e a Manila com o que salvou a Fazenda Real em Goa de sérias aflições. Foram várias as ocasiões em que – mesmo estando em simples comércio – teve que enfrentar os holandeses que lhe andavam na peugada por o saberem militar e por lhe quererem os muitos xerafines que se lhe conheciam. Quando os holandeses decidiram tomar Macau, foi Lopo Sarmento de Carvalho que liderou a defesa da cidade e conseguiu rechaçar a investida dos protestantes. Mas das viagens ao Japão e a Manila terá tirado tantos lucros com o negócio da prata e da seda que acirrou contra si muita inveja acabando por se aposentar quando enviuvou rumando a Goa com o sogro e com o filho Inácio. Manteve-se, contudo, no comércio, não chegou a utilizar a autorização que o rei lhe concedeu para regressar ao reino (não fosse o rei pedir-lhe mais algum contributo para a Fazenda) e morreu ainda mais rico do que quando regressara de Macau.

 

Quanto a Inácio Sarmento de Carvalho, teve que ir como militar a Ceilão resgatar os moribundos que lá tínhamos cheios de malária que já não se podiam defender das investidas holandesas, arcando com o odioso de regressar a Goa com o título da derrota. Compensou-o o Vice-Rei nomeando-o Capitão-mor da Província do Norte donde saiu de tal modo prestigiado que lhe foi entregue o Governo de Moçambique. Regressado a Goa com assinalável fama de bom militar e administrador, é enviado para o sul com o título de General do Mar onde derrota o Samorim de Calicute e reconquista Aicota. Não foi nomeado a tempo de preparar a defesa de Cochim para onde foi “in extremis” antes do ataque holandês. Viúvo, passou a viver em Goa na companhia do genro, João Corrêa de Sá (filho do célebre Salvador Corrêa de Sá), que também já era viúvo. Foi Inácio assassinado pelo genro para lhe herdar com mais presteza os muitos cabedais amealhados ao longo de duas gerações e que poderiam nunca lhe chegar à mão se surgisse alguma zanga e eventual testamento espúrio.

 

Mas se estas histórias de espada e bombarda sempre cativam a atenção de quem gosta de aprender com a História para não lhe repetir os erros, não menos assinalável é a história do Autor deste interessante livrinho, o Major Charles Ralph Boxer.

 

Inglês, morreu em 27 de Abril de 2000 com 96 provectos anos depois de ter sido o Chefe da espionagem britânica em Hong-Kong nos anos que antecederam a II Guerra Mundial. Sem outra formação académica que não a obtida militarmente, foi aos 43 anos de idade que mudou de vida reformando-se antecipadamente do Exército e passando a leccionar diversas matérias, nomeadamente História, actividade que o levou a cinco Universidades em Inglaterra e na América. Autor de mais de 300 livros e artigos-tese relativos à História dos Impérios Português e Holandês, dominava várias línguas, nomeadamente português e japonês. Casado sucessivamente com uma escritora inglesa e com uma jornalista americana, ambas peritas no “glamour” e no “diz-se diz-se” da espionagem, teve quem lhe fizesse a história por escrito para o bem e para o mal conforme as épocas e as “amizades” que cada um ia fazendo em paralelo ao casamento. E se todos muito escreveram, muito mais terá ficado por escrever pois se há coisas que configuram segredos de Estado, outras há que o decoro manda calar. Reformou-se do “King’s College” em 1967 depois de ter assumido a cátedra “Camões” desde 1947.

 

Notável, sem dúvida, para quem apenas aprendera a dar tiros.

 

Lisboa, Julho de 2006

 

Henrique Salles da Fonseca

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