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A bem da Nação

FANTASIA

 

Por várias vezes me apeteceu tratar os condutores de carroças de Marraquexe por “Vossa Boçalidade” mas considerando a facilidade que aquela gente tem para as línguas, limitei-me a expressar visualmente a minha repugnância pela atitude de mão daqueles fulanos evitando arranjar algum sarilho de que só eu poderia sair a perder.

 

À perfeita maneira boçal, a ordem dada ao animal para que ande mais de pressa é um ou vários toques na boca que frequentemente correspondem a puxões ou, mais apropriadamente, a verdadeiros “socos nos queixos”. Os animais correspondem à ordem como o cão do Professor Pavlov que salivava cada vez que à sua frente acendia uma luz eléctrica por reflexo condicionado e, naquele caso, sem qualquer relação com a lógica equestre civilizada.

 

As vítimas mais vulgares são burricos – enfezados por gerações sucessivas de fome e sede – mas as mulas também são frequentes e não apresentam quaisquer melhorias de tratamento em relação aos seus parentes mais pequenos. Os cavalos são raros no comércio e exclusivos nos trens para transporte de turistas mas o estatuto de cada classe não distingue mordomias e os “socos nos queixos” distribuem-se uniformemente por todos esses dóceis trabalhadores herbívoros.

 

Para sorte dos boçais, já lá vai o tempo em que os animais falavam . . .

 

Numa cidade com tanto animal, não deixei de reparar na inexistência de locais de abeberamento e cheguei a imaginar que aquelas gentes confundem burros, mulas e cavalos com camelos que só bebem quando o rei faz anos. Por uma única vez reparei num homem a dar água ao seu cavalo e temo poder concluir que todos os outros passam muita sede, o que se vê claramente pelo aspecto desidratado de todos eles e se sente no estrume pestilento que vai ficando pelas ruas. Daqui sugiro à nossa Sociedade Protectora dos Animais que estabeleça um protocolo de cooperação com a cidade de Marraquexe instalando por lá alguns chafarizes com um letreiro escrito em árabe, francês e português de modo a que todos os alfabetizados possam saber que se trata de uma iniciativa portuguesa destinada aos animais que trabalham naquela cidade. Não custa nada fazermos um brilharete com dinheiros da UE e ainda pomos uns estudantes de arquitectura a ganhar nome junto da população asinina marroquina.

 

Um dos programas turísticos mais procurados chama-se “Fantasia” – exactamente assim, à portuguesa – e consta de um jantar e de um espectáculo folclórico de música, alguma dança e muita participação equestre. Para quem como eu gosta de cavalos e de equitação, tem interesse e é agradável.

 

As imponentes instalações de recente construção em que tudo se desenrola consistem num castelo devidamente amuralhado mas no enorme terreiro que lhe dá acesso pode estacionar à vontade uma centena autocarros e o dobro de automóveis ligeiros.

  

Cavalo "berbere",  de certeza o antepassado do nosso "lusitano"

Fazemo-nos ao portão principal entre alas de cavalos berberes devidamente ajaezados e respectivos cavaleiros em traje a rigor e carabina em riste. Não resisti a posar junto de um deles, até para ficar com uma ideia mais nítida sobre o tamanho médio dos cavalos (pouco mais que 1,50 m ao garrote). Esperava ver freios de grandes alavancas e montadas pronunciadas mas apenas vi bridões sem história; as selas não estavam em exibição especial e para ver do que se tratava tive que vir aqui à Internet à procura de uma fotografia de “sela fantasia berbere”; as cabeçadas não tinham focinheira útil e por isso os cavalos – à semelhança de todos os burros e mulas que vi pela cidade – andam de boca aberta em atitude de esgar esteticamente desagradável e abominável na perspectiva equestre.

  O imaginário marroquino da Caverna do Ali Bábá põe-lhe um recheio de despojos cristãos, quiçá os de D. Sebastião

Entrando para o castelo propriamente dito, logo se nos depara a gruta do Ali Bábá e uma galeria com as fotografias dos visitantes ilustres, nomeadamente Ronald Reagan. Não sei se fiquei no mesmo lugar nem sequer na mesma mesa do grande Presidente americano mas, apesar de sermos cerca de 1500 convivas, o jantar foi muito bom. E – por esta é que eu não esperava – muito bem acompanhado por um vinho tinto marroquino chardonais cuja marca “quelque chose” esqueci. Todos os grupos folclóricos em presença nos visitam na mesa e as meninas não sossegam enquanto não desinquietam os cavalheiros para um pésinho de dança e nos presenteiam com estridente trilo de língua bem junto ao nosso desprevenido ouvido.

  As berberes não cobrem a cara e cantam e dançam com a alegria que as mulheres árabes podem não sentir

O recinto do espectáculo equestre deve ter uns 200 m de comprimento por uns 50 de largura e é nele que, vindos do breu, evoluem sob o foco dos holofotes em larguíssimo galope uns quantos ginastas saltando de um flanco para o outro do cavalo, fazendo o pino junto à espádua e outras tropelias que encantam a multidão expectante. Tudo acompanhado de música a condizer com o ritmo do espectáculo, o público marroquino conhecedor do seu folclore não deixa de nos contagiar com os cânticos que entoa e com as palmas com que tudo acompanha. Afinal, o espectáculo não é só no recinto equestre propriamente dito mas nas bancadas também.

 

O grande número é, no entanto, a “Fantasia” que consiste em duas equipas de 9 cavaleiros que vêm lá do escuro do fundo do recinto a correr lado a lado num galope muito forte e, imediatamente antes de pararem, devem dar um tiro de tal modo simultâneo que pareça um só. Cada equipa faz três exibições e são os aplausos das meninas dos grupos folclóricos que determinam qual das equipas é a vencedora.

 

Escusado será dizer que os cavalos pouco ou nada têm de árabe e são todos berberes pois caso contrário não conseguiriam passar do galope larguíssimo à paragem em menos de meia dúzia de metros. E, na verdade, sem que se trate de cavaleiros eruditos, não se vêem brutalidades chocantes para quem gosta de equitação fina. É claro que eles já nem sequer devem saber viver sem a boca escancarada mas, como era noite cerrada, não havia por ali moscas que os engasgassem e, com a repetição, todos aqueles cavalos sabem de cor onde acaba a pista e têm que parar mesmo sem acção especial da manápula do cavaleiro.

 

Música bem sonora, o público a cantar e a bater palmas, os cavalos quase à carga, os tiros e o fogo de artifício fazem da “Fantasia” um espectáculo a não perder por quem, como nós, decidira fazer uma viagem no tempo e ir até bem longe nos arquivos da História.

 

E, de facto, eu imaginara que esta viagem a Marrocos me levaria à Idade Média mas enganei-me claramente pois funcionam em paralelo dois estilos de vida que na boa verdade nada deveriam ter a ver um com o outro e, contudo, toleram-se sem que aparentemente existam conflitos: a vida dentro e fora do Souk; a avó de caftan e véu na companhia da filha de saia comprida e blusa com mangas mas de cara destapada e a neta de jeans e blusa de manga à cava; o velhote de caftan e cofió à conversa com outro fulano trajando completamente à ocidental; a maioria dos homens de cara completamente escanhoada e alguns barbudos à moda do Ben Laden (muito raros os bigodes, donde o meu “moustache” a dar-me a alcunha).

 

Mas – pese embora a dramática falta de água para a agricultura – vi os campos todos em produção a fazerem os mercados agrícolas portugueses enrubescerem de vergonha e imaginei o que aquele país poderá ser quando utilizar mais intensamente as águas provenientes do degelo do Atlas. Claro está que em Marrocos não existe por certo nenhuma política do estilo do “set aside” europeu e, pelo contrário, dá para acreditar que esteja em vigor algum mercantilismo e que a procura interna se vá satisfazendo sem interferências externas com objectivos paralisantes da produção nacional. Objectivos estes semelhantes ao que fazem os responsáveis pelo aprovisionamento das Grandes Superfícies portuguesas que tanto vibram quando a Selecção Nacional de futebol se classifica para as meias-finais do Mundial mas que profissionalmente não hesitam em sistematicamente beneficiar o adversário.

 

Lisboa, 5 de Julho de 2006, antes do jogo Portugal-França

 

Henrique Salles da Fonseca

 

 

 

Nota final:

 

  • No regresso a Portugal, demos uma volta por Casablanca em vez de desperdiçarmos 6 horas no aeroporto. O Guia que nos acompanhou disse-nos logo de início que íamos começar por visitar o que de mais importante existe em Casablanca, a Mesquita Hassan II. É de facto um monumento imponente mas eu continuo a acreditar que o que de mais importante existe em Casablanca são as pessoas.

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