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A bem da Nação

ONDE ESTARÃO ELES ?

 

Como Sultão em viagem pelo deserto e chegando-se ao mar, foi das costas de um camelo que vi a berbere Amogdul, "a bem guardada", a que nós, os portugueses, viemos a chamar Mogador. Mas o que primeiro me chamou a atenção foram as ilhas que acalmam a baía frente às muralhas da cidade. Soube mais tarde que a essas ilhas se lhes tinha chamado Purpurinas e que Júlio César ali mandou comprar a tinta para o seu manto imperial.

 

  

Ilhas Purpurinas, frente a Mogador

 

Cresce o respeito pelo lugar quando lhe sabemos da idade.

 

Inicialmente sob o domínio dos fenícios e dos cartagineses a região foi romana durante quase cinco séculos sendo então conhecida como Província Mauritana Tingitana. Os vândalos ocuparam-na em 429 mas Belisário, general bizantino, expulsou-os em 533 e Bizâncio passou a dominar toda a região. Do século VII ao X os berberes que habitavam esta região lutaram pela independência contra a dinastia árabe Omeya cujo reino se estendia até à parte sul da Península Ibérica. Contudo, no século XI, o fundador de Marraquexe, Yusuf ben Tasfin, incorporou Marrocos no Império Almorávida e a Amogdul passaram os árabes a chamar Essauira. Só que esta dinastia durou apenas 43 anos e os Almôadas que se lhes seguiram governaram apenas durante uma centena de anos não passando muito tempo até que as lutas pela hegemonia regional acabassem por enfraquecer o poder árabe e proporcionar finalmente o acesso dos berberes ao poder. Mas estes transferiram a capital para Fez e deixaram esta região como que ao abandono.

 

Abandono este muito propício à política atlantista portuguesa que ficou na História como tendo motivações religiosas – a Reconquista – mas que bem sabemos ter sido causada pelo espartilho europeu ao nosso desenvolvimento.

 

Eis a lógica da expansão portuguesa do Algarve dàquem para o de além-mar e da tomada pelas armas de vários portos considerados então importantes para o comércio com o interior africano e . . . saber-se-ía depois para que mais. Essauira foi conquistada e rebaptizada de Mogador e com ela Sebta (Ceuta), Agadir (Santa Cruz do Cabo de Gué, que viria a possuir importante hospital de apoio aos nossos navegantes descobridores), Melilha, Arzila, Larache, Casablanca e Tetuão. Foram os portugueses que a partir de 1506 construíram as primeiras fortificações de Mogador, como a famosa Escala, hoje seu ex-libris.

 Escala, fortaleza de Mogador

 

Mas em 1578 fomos derrotados na Batalha dos Três Reis perdendo o nosso mítico D. Sebastião e a região ficou novamente sob o poder árabe, concretamente do domínio da dinastia Alauí. Diz o nosso ditado que “quem tudo quer, tudo perde” e foi precisamente isso que ali nos aconteceu.

 

Aos portugueses que lá viviam só lhes restou a alternativa de morrerem ou de se integrarem pois o regresso a Portugal estava dificultado pelo descalabro que sobre o reino se abatera e não era o momento mais apropriado para fazer vingar em Essauira um estilo de vida que acabara de ser derrotado pelas armas.

 

No século XVIII, graças ao comércio com a Europa, o sábio sultão Sidi Mahomed Ben Abdallah tornou a cidade no porto mais importante de todo o reino e Essauira viveu a sua época dourada como porta marítima de todo o interior até Tumbuctu.

 

Afinal, duzentos anos depois da nossa derrota militar, pareceu que nem tudo estaria completamente perdido e que era novamente possível aos portugueses fazerem qualquer coisa por ali. À sabedoria do sultão se deve a instalação dos Consulados de Portugal e da Dinamarca ficando a época marcada por uma harmoniosa convivência entre berberes, judeus, árabes, portugueses e saharianos, etnias que puderam livremente viver na região. Só que estes portugueses já nada tinham a ver com os que lá tinham ficado esquecidos pela nossa soberania, entretanto misturados com o pó da terra.

 

Viver e deixar viver, eis a filosofia que preponderou durante o reinado de Sidi Mahomed Ben Abdallah. Que belo exemplo para os dias de hoje . . .

 

Entretanto Casablanca cresceu mais do que o esperado e Essauira adormeceu. Foi necessário chegar aos finais do século XX para que a cidade acordasse com a chegada de surfistas, estrelas da música pop, artistas em busca de inspiração... Dizem os cartazes que Essauira dispõe hoje de uma das melhores estruturas turísticas de Marrocos, sendo considerada como o melhor "spot" surfista da costa atlântica norte-africana. Eu vi os wind-surfistas por lá mas ainda nada que se compare com o Guincho.

 

Foi em pleno Festival Gnaua que entrei pela porta principal da cidade amuralhada e raramente vi tanta gente por unidade de superfície. Apesar de tudo, ainda conseguimos – a minha mulher e eu – tirar uma ou duas fotografias numa esquina que poderia perfeitamente ser na “Alcárcova de Baixo”, em Évora. Sim, a nossa Mogador está lá com todas as características urbanas e arquitectónicas de qualquer cidade portuguesa medieval e é uma pena que os sons de então se tenham arabizado por completo sem rasto da nossa memória.

  Mogador, cidade portuguesa medieval

 

Os gnaua são descendentes dos escravos, originários da África negra. Organizados em irmandades, são músicos, magos ("maalem"), encantadores de serpentes, videntes, médiuns e as suas práticas musicais, de iniciação e terapêuticas misturam ritos africanos, árabes e berberes. Os gnaua fundam a sua prática no culto dos "jinn" (espíritos) e os seus ritos têm características comuns aos cultos africanos da possessão, comparáveis ao vudu haitiano e à macumba brasileira mas oficialmente são muçulmanos como forma de garantirem a sobrevivência no seio de uma sociedade mais tolerante no discurso político do que nas prédicas dos Imãs.

 

O Festival Gnaua tem a música como pretexto mas acaba por misturar todas estas particularidades culturais. Para aumentar a confusão, é costume convidarem músicos de jazz, pop e rock mas o som que mais se faz ouvir ao longe é o dos tambores indígenas e dos cânticos e palmas do acompanhamento. Estava eu sobre um baluarte de construção portuguesa quando à distância de uma praia os vislumbrei e ouvi como se estivessem ao meu lado. Não precisei de me aproximar para acreditar que lá estivesse alguém em transe.

 

E se o transe resulta da excitação e da Fé nalguma forma de transcendência, já o maravilhoso da fábula se fica pelos ditos e contos. Contam-se 81 “coisas” sobre Mogador que nem contos chegam a ser mas que revelam o maravilhoso que a cidade inspira tanto a residentes como a visitantes.

 

Diz-se que em Mogador os amantes coleccionam e se oferecem pirilampos e com eles juram amor eterno porque são os únicos animais cujo brilho perdura para além da morte e que quando secam, os misturam com argânia fazendo uma pasta com que discretamente untam os lábios antes de se beijarem. E diz-se também que este “unto da luz” tem poderes afrodisíacos pois no escuro da noite é sempre “emocionante” ver como brilha o corpo amado mostrando por onde passaram os lábios em lânguido e longo desejo. Ah! E diz-se ainda que quando a felicidade é muita, que os corpos emanam um brilho interior que perdura por dias a fio e que se o quiserem esconder por baixo de roupas escuras, que o brilho se vê nos olhos de quem tanto ama. Eis por que se diz que a luz de Mogador transforma os amantes em seres luminosos.

Não sei se os portugueses que lá abandonámos em 500 e em 700 estavam inebriados pela luz dos pirilampos ou pela pasta de argânia mas duvido que o pó em que se transformaram nos dê algum brilho ao esquecimento a que os votámos.

 

Talvez seja mais do que a hora de os resgatarmos mas, entretanto, há que perguntar: onde estarão eles?

 

Lisboa, Julho de 2006

 

Henrique Salles da Fonseca

 

 

Notas de pé de página:

 

  • Almoçámos peixe fresco tão bom como o que se come no Algarve dàquem-mar num bom restaurante sobre o molhe resguardado do porto de pesca sobre o qual também funciona um estaleiro de construção e reparação. Não me apercebi de que por ali andassem interesses portugueses, nem sequer na multidão de barcos àquela hora em doca. Temo que o estrangulamento europeu às pescas portuguesas não esteja a ser sublimado por investimento nestas águas tão ricas;

 ´

Onde estarão os barcos portugueses?

  • Tanto dentro como fora das muralhas, há uma apreciável densidade de hotéis que devem ser da bitola das nossas 3 estrelas. Não me apercebi de que por ali andassem interesses portugueses, o que me espantou pois sempre fomos ávidos de dinheiro e por ali anda muito;
  • Uma referência de muita simpatia aos nossos companheiros de viagem, o Carlos e a Ana, casal residente em Viseu e que estavam em Lua-de-mel; ele, engenheiro numa empresa fabricante e exportadora de equipamentos de fitness e ela, enfermeira de oncologia. Quando conheço jovens desta qualidade, fico tranquilo quanto ao futuro do meu país e quando sei que eles vivem no interior, confirmo que as Universidades são o maior instrumento do desenvolvimento daquelas regiões. Companhia muito agradável que conhecêramos na véspera num jantar de “fantasia”. Este espectáculo de folclore equestre será tema de outro palavreado.

 

Carlos e Ana, óptimos companheiros de excursão

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