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A bem da Nação

HISTÓRIA DIPLOMÁTICA - 1

DIPLOMACIA ECONÓMICA CASO ESTUDO N.º 1 UMA INICIATIVA BEM SUCEDIDA Em 1968, exercia eu o cargo de Cônsul Geral em São Paulo quando, por ocasião de uma passagem por Lisboa, fui convocado ao gabinete do então Secretário de Estado do Comércio, Dr. Valentim Xavier Pintado, o qual me explicou que um dos mais graves gargalos da economia portuguesa do tempo se situava ao nível da distribuição dos produtos agrícolas, campo infestado de intermediários cuja acção tinha por resultado o encarecimento do produto no consumidor e o barateamento do mesmo no produtor. Só via uma solução: a instalação das grandes redes de supermercados. Sabendo que os supermercados do Brasil eram controlados por portugueses radicados em São Paulo, pedia-me que os incitasse a montar redes similares em Portugal. Encontrei imediatamente boa recepção junto de Valentim Santos Diniz, Presidente da cadeia Jumbo-Pão de Açúcar. Porém, seu filho Abílio, enviado a Portugal, concluiu que os hábitos de consumo dos portugueses não eram de molde a vaticinar a viabilidade do empreendimento. O abastecimento caseiro era feito por empregadas domésticas, com instruções específicas. Também encontrara resistência por parte do Presidente de CML, General França Borges, o qual considerava o supermercado uma instituição anti-social, pois era “uma forma de levar as pessoas a comprarem o que não precisam”. A negociação entrou assim num impasse. Não deixei contudo que o assunto ficasse esquecido, mantendo vivo o interesse do Sr. Valentim Santos Diniz com quem conversava frequentemente, graças sobretudo ao facto de frequentarmos o mesmo clube – a Sociedade Hípica de São Paulo. Valentim considerava o projecto sob um ponto de vista emocional – fazer algo por Portugal – mas não queria contrariar o filho. O acaso veio ajudar a desencalhar o assunto. E isto aconteceu quando se deu a visita dos finalistas do ISCEF, entre os quais figurava. João Flores. Embora estudante, Flores geria já um negócio de instalação de balcões frigoríficos. Dispunha por isso de dados reais sobre as práticas e virtualidades do consumidor português, que projectavam um quadro mais animador do que o desenhado inicialmente por Abílio. João Flores e Abílio Santos Diniz entenderam-se rapidamente. Falavam a mesma linguagem. Faltava o espaço físico. O problema resolveu-se durante a visita a São Paulo do Sr. José Manuel de Melo. O Grupo CUF formou uma joint-venture com o grupo Pão de Açúcar e cedeu os armazéns de que dispunha em Alcântara, para instalação da primeira loja. Flores ficou com o quinhão de desempate. Este entendimento nasceu durante uma recepção que ofereci em minha casa aos empresários dos dois grupos e foi ali apadrinhado pelo Governador do Estado de São Paulo, Dr. Roberto de Abreu Sodré, também presente. Xavier Pintado encarregou-se de contornar a resistência do Presidente da CML e a do pequeno comércio. No fim, a CML proporcionou novos arruamentos e alterou o trânsito no local por forma a facilitar cargas e descargas e o acesso do público pagante. O empreendimento foi um êxito, embora os sócios se tenham posteriormente desavindo. [O grupo CUF retirou-se]. Lisboa habituou-se rapidamente a comprar em Alcântara. A visita ao Pão de Açúcar converteu-se em passatempo familiar. Gradualmente, o Jumbo estendeu a sua rede em Portugal e Angola. A economia [e a sociedade] portuguesa conheceu como consequência um grande surto de modernização. O Embaixador Calvet de Magalhães, atento observador da fenomenologia económica, diz, na sua contribuição para o livro “ Depois das Caravelas”, [página 246] que “a instalação do Pão de Açúcar em Lisboa constituiu um começo da concretização da nova política económica luso-brasileira e provocou uma verdadeira revolução no sistema tradicional do consumo de produtos domésticos em Portugal”. Eu diria mais: na mentalidade dos portugueses. Mas Calvet diz bem, pois foi de facto a primeira cousa concreta que saiu de um relacionamento até então votado ao verbalismo. Apenas um pequeno reparo: a génese do fenómeno descrita no livro não traduz a verdade histórica. A AIP e a FIESP nada tiveram a ver com o assunto, nem me parece que sejam entidades que possam tomar iniciativas ou prestar grande cooperação em matéria de atracção do investimento estrangeiro. É matéria que escapa [e até contraria] a sua lógica existencial. No meu entender, a cousa resultou porque 1. Correspondeu a virtualidades – até aí não concretizadas – da economia portuguesa, na fase de desenvolvimento em que sem encontrava; 2. A estratégia foi definida a um nível suficientemente alto para reduzir resistências burocráticas e políticas; 3. Houve acompanhamento por um número suficientemente numeroso e influente de participantes e 4. A intervenção da diplomacia limitou-se aos aspectos subliminares, estabelecimento de contactos potencialmente interessantes, selecção dos participantes, motivação dos mesmos, acompanhamento no âmbito oficial – deixando à iniciativa privada o desenvolvimento do processo. CASO ESTUDO N.º 2 UMA INICIATIVA NÃO TÃO BEM SUCEDIDA Logo que cheguei a Seúl [1988-1991], como embaixador, procurei estabelecer relações com Kang Jin Gu, presidente da Samsung Electronics. Levava uma apresentação do seu amigo Lun Yoo, embaixador coreano em Lisboa. A Samsung é o grupo económico coreano com maior volume de vendas. O Sr. Kang tinha tido uma boa experiência com a instalação em Alcoitão de uma montadora de televisores, um investimento pequeno, na ordem do milhão de dólares, feito no início dos anos 80. Era então considerado, em termos de retorno de capital, o melhor investimento feito pela Samsung no estrangeiro. O Grupo projectava no final da década de 80 estabelecer na Europa uma fábrica de electromecânica, investimento de grande porte que acarretaria transferência de alta tecnologia. Candidatavam-se a anfitriões da nova fábrica vários países e regiões, sendo os principais concorrentes a Irlanda e a Catalunha. Graças ao golfe consegui multiplicar os encontros com o Sr. Kang e ouvir as suas opiniões sobre as potencialidades dos vários destinos alternativos do investimento da Samsung. Na passagem por Seúl, em 1988, o então Ministro do Comércio, Eng.º Ferreira do Amaral, manifestou grande interesse em captar para Portugal este investimento. Proporcionei o encontro entre os dois, após o que, Portugal passou a figurar na lista dos destinos possíveis, contando à partida com a simpatia do Sr. Kang. Porém, Kang encontrou uma forte corrente interna contrária à escolha de Portugal. Fundamentavam-se os opositores na escassez local de técnicos recrutáveis e no maior afastamento em relação aos centros de consumo situados no centro-norte europeu. Além disso, Dublin e Barcelona ofereciam incentivos financeiros e fiscais que Portugal não poderia igualar. Outro aspecto, e talvez o mais importante, era o instinto gregário dos coreanos. Para qualquer empresa coreana, o destino mais favorável para o seu investimento externo é aquele que reúne condições para atrair maior número de outras empresas coreanas, mesmo que concorrentes entre si. A montadora de televisores em Portugal fora uma história de sucesso, sem dúvida, mas uma árvore – sobretudo quando pequena – não faz a floresta. Dava-se a circunstância de Kang ser o único Presidente de uma empresa do grupo Samsung – e logo uma das maiores – que não era membro da família do fundador, Lee Byung Chull. Daqui derivava o seu grande prestígio, mas também a sua vulnerabilidade. Procurei multiplicar os motivos para manter o interesse do Chairman Kang, propondo-lhe alguns exercícios. Kang promoveu a constituição do comité luso-coreano na Federação das Indústrias da Coreia e assumiu a sua presidência. O comité promoveu um seminário sobre investimentos em Portugal, no qual Kang expôs aos seus confrades presidentes de empresas as virtudes e potencialidades do nosso país como ponto fulcral do investimento coreano na Europa. Procurava-se dilatar a visibilidade portuguesa aos olhos dos responsáveis pelo investimento coreano na Europa. O exercício resultou na medida em que o Ministro do Comércio coreano decidiu incluir Portugal na lista dos países onde o investimento coreano poderia beneficiar de créditos bonificados da banca coreana. Entretanto Kang visitou a Europa: em Portugal, foi condecorado pelo Primeiro Ministro. O Prof. Cavaco Silva lembrou a propósito que a Samsung tinha sido a primeira grande empresa que decidira investir em Portugal, quando ninguém acreditava na nossa capacidade económica. As negociações para o estabelecimento da fábrica entraram então numa fase mais concreta. Os incentivos fiscais e financeiros portugueses foram sucessivamente dilatados, até se aproximarem do nível da concorrência. Finalmente, Kang conseguiu ultrapassar as resistências dentro do seu grupo e Portugal foi a escolha. A Samsung Electro-Mecânica Portuguesa foi instalada em Ranholas, [Sintra], onde passou a produzir de raiz componentes electrónicos. Este investimento arrastou posteriormente novo investimento da Samsung, em joint-venture com a Texas Instruments, numa fábrica de microchips, instalada na Maia. Nos anos seguintes, a nossa exportação beneficiou largamente destes dois empreendimentos. Os quadros portugueses também: a gestão intermédia da fábrica de Ranholas foi assumida por portugueses treinados na Coreia. Nenhum destes empreendimentos estava porém fadado para longa vida. O mercado mundial de microchips caiu nos finais da década de 90, o que levou ao encerramento da fábrica da Maia. Pior porém, actos de má gestão financeira – relacionados talvez com a crise cambial asiática dos anos de 97/98 – provocaram a falência da Samsung Electro-Mecânica Portuguesa, que foi encerrada. O abastecimento do mercado europeu deste tipo de produtos passou a ser feito pela Samsung-Hungria. Entretanto, Kang terminou a sua carreira ao serviço da Samsung e foi reformado. O efeito demonstrativo foi negativo. No meu entender o caso apresenta alguns aspectos significantes 1. A estratégia inicial, embora definida ao mais alto nível, foi abandonada quando se deu a mudança de Governo, em 1995. Os novos detentores do poder entendiam que Portugal não reúne condições para atrair IDE e não se interessaram por programas deste tipo. O projecto deixou de ser acarinhado. 2. Falta em Portugal um Código de Investimento que dê um mínimo de garantias, tanto ao investidor nacional como ao estrangeiro. Pior ainda, a lentidão das decisões judiciárias agrava consideravelmente o grau de incerteza e risco próprio do ambiente económico. Em tais condições, o IDE só pode sobreviver quando as autoridades se dispõem a apoiá-lo de forma continuada e empenhada. Tal não aconteceu. Em vez disso, as condições logísticas, laborais e burocráticas portuguesas mantiveram-se rígidas e desfavoráveis ao projecto. 3. A iniciativa não ganhou número suficiente de adeptos. Nasceu e cresceu baseada na vontade de poucos indivíduos. Afastados estes dos seus cargos, a iniciativa não resistiu às vicissitudes do mercado e ao ataque dos que a ela se opunham. 4. Tratava-se talvez de um investimento tecnologicamente muito avançado para a economia portuguesa. No momento em que o gestor estrangeiro saiu, não havia localmente quem fosse capaz de aproveitar as instalações e a tecnologia parcialmente transferida. O avanço tecnológico, tal como a evolução na Natureza, não se faz aos saltos. ESTORIL, JANEIRO DE 2006 Luís Soares de Oliveira

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