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A bem da Nação

curtinhas x....

será o bósforo um "mare nostrum"?

for whom it concerns...

v      Uma vez mais na História, os deste lado do Bósforo, se quiserem saber o que o futuro lhes reserva, terão de olhar para a outra margem. E esteja, ou não, esgotado o “seu” projecto europeu, a uma questão não podem eles furtar-se: como se relacionarem com a Turquia nos muitos domínios de interesse comum?

v      Quanto a estes domínios de interesse comum, convém não esquecer o papel que a Guerra Fria desempenhou: (i) criou um quadro estável para o relacionamento militar com a Turquia; (ii) sustentou, prolongou e reforçou a importância dos militares turcos, desde sempre o grande esteio das correntes laicas naquele país; (iii) transformou a Turquia num aliado estratégico, governado por gente com padrões éticos semelhantes “aos deste lado”.

v      Quando se esfumou a ameaça politico-militar que do norte, do Grande Vizinho e Tradicional Inimigo vinha, esfumaram-se também as razões que haviam justificado a presença dos militares na condução dos destinos da sociedade turca.

v      Mas os ventos que correm agora vêm do leste e do sul, e trazem com eles religião, não o som de espadas a arrastarem pela chão. As espadas, essas, virão mais tarde, quando a religião passar do foro individual a assunto de Estado - e os militares se tornarem, ou missionários, ou vingadores.

v      Afinal, o que querem “os deste lado” para o flanco sudeste da Europa: Um Estado de Direito, estável e medianamente próspero, bem integrado no concerto das sociedades modernas? Ou um Estado Confessional, instável e minado pela miséria?

v      Um dos pontos mais quentes do futuro relacionamento entre a Mitteleuropa e a Turquia repousa, tépido até ver, na pequena ilha de Chipre, dividida entre um Estado que é membro da EU (a República de Chipre) e uma entidade política que só a Turquia reconhece (a República Turca do Norte de Chipre).

v      Aconteceu, porém, que, nas vésperas da adesão à EU, os cipriotas de origem grega, reunidos na República de Chipre: (i) votaram contra a reunião da ilha dividida; (ii) vedaram o acesso dos cipriotas turcos às benesses comunitárias; e (iii) apanharam completamente desprevenidos os burocratas de Bruxelas que, negligentes e inúteis, não tinham sequer pensado num plano B.

v      É claro que a República de Chipre - com a Grécia a manter, polidamente, um silêncio cúmplice – se prepara para criar toda a espécie de dificuldades a um entendimento europeu com a Turquia, até que os cipriotas turcos (e os turcos do continente, que a Turquia, entretanto, para lá tem feito deslocar) embarquem de volta para a Mãe Pátria deles, com a casa às costas.

v      O que se antevê é, pois, um impasse prolongado: (i) que irá embaciando, pouco a pouco, a imagem dos militares turcos junto dos seus concidadãos; (ii) que irá esvaziando as correntes laicas da sociedade turca; e (iii) que irá transformando, progressivamente, a Turquia num Estado Confessional. Mas não necessariamente num Estado instável e pobre - se valer o exemplo, talvez único, da Malásia.

v      Pessoalmente, creio que o melhor será não correr riscos. E, para isso, há que dar à sociedade turca provas de que “os deste lado” querem, convictamente, pontes a unir, e não fronteiras a separar. Como fazê-lo, é a pergunta de sabor oulianoviano.

v      Olhando para a divisão da ilha de Chipre, não como um obstáculo, mas como uma oportunidade – respondo eu.

v      E a oportunidade surge na celebração de um acordo de livre comércio – ou, talvez, de um pouco mais – com a parte turca da ilha. Um acordo que lhe abrisse o acesso aos mecanismos de cooperação económica que tanto têm vindo a beneficiar os seus vizinhos do sul. Afinal, exactamente o que estaria a acontecer neste preciso momento, se os cipriotas gregos tivessem feito a vontade aos bem-pensantes da Europa.

v      Dificilmente a República de Chipre encontrará argumentos sólidos para se opor a tal, uma vez que: (i) antes de ela ter aderido à EU, esse era já um objectivo comunitário publicamente assumido e que levianamente foi posto em risco, na fase final das negociações; (ii) não se vê outra maneira de esvaziar o clima de tensão que hoje divide a ilha e que, de algum modo, não deixa de afectar também o potencial de desenvolvimento a sul; (iii) o processo negocial com a Turquia recomenda um modelo de integração económica “à chinesa”, a partir de pequenas zonas-piloto (e os cipriotas turcos formam uma zona-piloto natural) - dado que se está a lidar com uma população de 80 milhões.

v      A Turquia, por seu lado, veria nisso: (i) uma prova do empenhamento “dos deste lado” na criação de regras expeditas para lidar com os assuntos de interesse comum; (ii) um meio de gerir o choque que a concorrência internacional infligirá sobre as suas populações rurais e uma boa parte das suas empresas; (iii) uma saída elegante para os problemas que a República Turca do Norte de Chipre lhe tem vindo a criar; (iv) um argumento mais para que o Estado Turco permaneça laico.

v      “Os deste lado”: (i) poderiam definir um calendário que não fosse eminentemente político, mas que atendesse ao modo como a realidade evoluía nessas zonas-piloto; (ii) dariam ao mundo islâmico uma prova de convivência bem mais cristalina do que aquelas que o dia-a-dia nas cidades europeias poderá, alguma vez, mostrar; (iii) estariam a criar pólos de emigração em território turco, como alternativa mais fácil (e menos traumatizante) à emigração em massa para a Mitteleuropa; (iv) libertar-se-iam, de vez, da chantagem cipriota grega, recuperando assim toda a autonomia para lidarem sensatamente com a questão turca.

v       Epílogo: Os eurocratas, conseguissem eles, por uma vez, despojar-se da sua carga ideológica e pensar com clareza, e já veriam, hoje, o erro em que caem quando tentam impor à outrance a União Política. Tudo seria bem mais simples - tanto nas relações com a Turquia, como no quadro intra-europeu - se a EU se preocupasse, apenas, com a regulação, supervisão e controlo de uma união económica que, a seu tempo, poderia evoluir para uma união monetária. Sempre a partir de zonas-piloto que se desenvolvem, aprofundam e ampliam: “à chinesa”, pois então.

 

Lisboa, Junho de 2006

 

A.PALHINHA MACHADO

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