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A bem da Nação

CITANDO . . . (3)

DUAS CARTAS DE ANGOLA

 

 

«Queria pedir ao meu Capitão um grande favor para o meu maior amigo nesta comissão em Angola.

O meu querido cavalo “Ali-Babá”, maluco e tudo, mas um grande amigo meu; a poucas horas de me despedir dele e na impossibilidade de ir a Silva Porto deixá-lo em boas mãos, peço ao meu Capitão se me podia fazer o favor de o distribuir a alguém que, embora maçarico, goste de cavalos a ponto de o estimar como eu ou melhor, alguém que não lhe bata depois de ter levado alguma boleia (1), das dele, mas sim que fale com ele, pois ele percebe quando faz algo de mal e se gostar de uma pessoa não o faz tão cedo.

 

"Ali-Babá" era um cavalo de guerra, "maluco e tudo"

Enfim, o meu Capitão sabe melhor do que eu as qualidades que tem de ter o homem que ficar com o meu “Ali-Babá”, que o deixe pastar todos os dias, que dê pão, etc.

Custa muito na verdade separar-mo-nos de um cavalo que foi nosso companheiro e amigo de todos os dias, durante 14 meses, só de pensar no que ele passou nas operações, frio, chuva, fome, dores, cansaço e eu em cima dele. Mas … enfim, é a vida e não se podem comprar cavalos à tropa …»

 

in “Revista da Cavalaria” – ano de 1971, pág. 212

 

 

(1)    – Em equitação, “boleia”, “borla” ou “cavadela” significa que o cavalo entrou em auto-gestão e transportou o cavaleiro para onde muito bem entendeu, à velocidade que lhe interessou, sem corresponder minimamente às ordens

 

 

 

*    *    *

 

Carta encontrada na posse de um prisioneiro de guerra:

 

 

«CHIFUMAGE, Sector 2

1-9-71

 

Hoje escrevemos esta carta ao Comandante Iko.

Em primeiro lugar, saudações e cumprimentos.

Sim, todos nós estamos aqui a dormir, afinal nós viemos de Cassamba para aqui para nos juntarmos aos camaradas e você sozinho? Verdade? Um dia tu vais morrer à toa.

Mas não fomos nós que falámos com o Agostinho para irmos junto contigo lutar com os brancos, não. Mas agora vemos que todas as pessoas já foram liquidadas. Já perdeu a guerra, deixa lá.

Nós estamos a lutar com os brancos mas hoje veio a guerra com os cavalos, mataram muitas pessoas aqui no Chifumage e no Luena, ficámos nós cinco aqui esperando aqui para eu mandar primeiro ao subsector Kakenya, aquele Kakenya quando vier, vem-nos dizer para fugir. Quando nos assustarmos, iremos para lá.

Primeiro dizemos-te, aquele assunto de que falaste, ninguém mais aqui quer teimar com os cavalos, nenhum camarada tem corrida para correr com o cavalo e fazer-lhe fogo. Aqui os cavalos estão a lutar com os camaradas, ninguém consegue matar um.

Aqui nas chamas, mesmo que mandes camaradas para lutar com os cavaleiros, não vão conseguir. As pessoas quando estão nas subidas e fazem fogo contra eles é difícil e há muitos que morrem.

Não sabemos quando vêm aqui ao sector com o presidente, se calhar quando vierem vão-nos fazer fugir, não sabemos, mas lembramo-nos que estamos com vida vamo-nos embora. Depressa manda aqui os camaradas para levarem o material, nós estamos para sair daqui; agora estamos cansados de mortes, estamos muito liquidados.

Se tu demorares mais de um mês, vamos deixar aqui todo o material e vamo-nos embora, porque vocês já perderam a guerra.

Nós estamos muito admirados. Por exemplo naquela fábula que vimos num livro do MPLA e que dizia, o coelho foi enganar o elefante, desafiando-o para puxar a corda, depois foi ter com o hipopótamo desafiando-o também para puxar a corda; depois começaram a puxar um pelo outro e o coelho no meio a aplaudir. É assim que fazes, foste aos portugueses e disseste-lhes para lutarem para te darem a terra, depois vieste ter connosco para que pegássemos em armas, para que os portugueses nos dessem as terras.

Agora nós estamos aqui a morrer, fugiste para Lusaka, para aplaudir como o coelho fez. A tua esperteza parece-nos a do coelho.

Aqueles primeiros camaradas que aqui vieram afinal traziam política para nos enganar, nós pensámos que os nossos mais velhos é que os mandavam, então era mentira.

  "... então era mentira."

Agora como é? As pessoas aqui estão a ser liquidadas. Estás a ouvir o que te dizemos?

Nós sabíamos que ias libertar a nossa terra como foram libertados os outros países, afinal, afinal não vais libertar-nos.

As palavras que disseste eram mentiras, disseste que as pessoas iam ter armas, que as armas já chegaram, mas em que dia vais libertar a nossa terra?

Estás a ver, tu fugiste, não queres vir para aqui, fugiste de morte, agora só queres ficar na terra dos outros porque já é independente.

Afinal é melhor fazer fogo no chão.

Acabamos, ficamos por aqui.»

 

in “Revista da Cavalaria” – ano de 1971, págs. 180 e seg.

 

 

 

Lisboa, Junho de 2006

 

Henrique Salles da Fonseca

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