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A bem da Nação

CRÓNICA 24 - 30 MAIO – 1 de Junho 2006

Porque é que há guerras tribais em Timor – I

Chrys Chrystello

 

 

Para entendermos melhor o que se passou no século XX em Timor, debrucemo-nos no livro da Colecção Fórum “Ocupação e Colonização Branca de Timor” da autoria de Teófilo Duarte, ex-Governador de Cabo-verde e de Timor, Vogal do Conselho do Império Colonial, da Editora Educação Nacional, Lda., Estudos Coloniais nº 2, datado de 1944.

 

 

 

«Em 1929, ano em que deixámos o governo da colónia, além dos trezentos e quarenta funcionários públicos brancos, dos seiscentos e noventa mestiços e dos quatrocentos e sessenta mil indígenas havia:

v      Uma forte sociedade agrícola e comercial pertencente aos herdeiros do ex-governador Celestino da Silva, dispondo de milhares de hectares ocupados por plantações de café, de borracha, de cacau, de produtos pobres e incultos. Neles se colhiam cerca de duzentas toneladas de café, quinze de cacau e cinquenta de borracha que eram exportadas para as Índias Holandesas… era dirigida por um português, nove empregados brancos e os restantes indígenas.

v      Uma Sociedade Agrícola, a Companhia de Timor, dispondo de enormes extensões de terrenos quási todos incultos e com dois europeus apenas,

v      Doze plantadores brancos portugueses, cultivando o café de que colhiam uma quantidade insignificante, que para o mais importante dentre elas andava por quatro toneladas.

v      Dois comerciantes que mal podiam concorrer os restantes chinas e árabes.

v      85 Deportados da Legião Vermelha, idos da Guiné, para onde tinham sido enviados primitivamente da metrópole.

Julgamos que tal situação não se deve ter modificado quási nada, até à data dos lamentáveis acontecimentos que se deram na colónia em 1941, a não ser no referente à existência de deportados, pois aquele número foi posteriormente aumentado com mais umas dezenas, medida essa adoptada não por motivos sociais, mas sim políticos.

Timor é a colónia portuguesa que se encontra mais afastada da metrópole… Ainda hoje uma viagem normal para aquela nossa colónia da Insulíndia demora quarenta e cinco dias, enquanto que para a Guiné se faz em oito, e para Angola em vinte… uma ida a Timor, ainda antes da Guerra (II Guerra Mundial), representava qualquer coisa de complicado, com a utilização sucessiva de carreiras francesas, inglesas e holandesas e com demoras de cinco e seis dias em Génova, Singapura, Batávia (actual Djakarta), Surabaia, etc.

Depois, a tradição ligada ao nome de Timor, sinónimo de terra de clima horrível, que matava ou inutilizava fatalmente, o que provinha do desconhecimento quási absoluto do interior que era magnifico; o estado de permanente insubmissão das populações nativas, com as consequentes e periódicas chacinas dos raros europeus a quem o dever do ofício impunha a permanência num ou noutro porto afastado da capital; a falta, enfim, de toda a espécie de comodidades próprias duma colónia quási toda por ocupar; tudo isso criava uma lenda em volta de Timor, que fazia com que a colocação ali de qualquer funcionário fosse considerada como o pior castigo que se lhe podia aplicar….

A Holanda, apesar de ter valorizado intensamente a ilha de Java, habitada por quarenta milhões de malaios, conservava em estado de desenvolvimento económico bastante primitivo a colossal Sumatra, quási toda por aproveitar, Bornéu e Nova Guiné que passam por terem ainda tribos antropófagas e dezenas de ilhas naqueles mares, entre as quais a sua metade de Timor, incomparavelmente muito mais atrasada que a nossa.

 

A característica da obra de Celestino foi a ocupação militar e administrativa. Alguns anos depois, aparece em Timor um homem que fará igualmente um governo brilhante, embora sob outro aspecto: o de fomento.

 

Queremo-nos referir a Filomeno da Câmara. Este foi desde a exoneração de Celestino da Silva até hoje (1944, data da publicação deste livro), o único governador de Timor que marcou uma posição de grande relevo, não só devido às circunstâncias que o caracterizavam, como à circunstância bem fortuita de ter permanecido seis anos à frente da colónia. Logo no início do seu governo teve de dominar a mais temerosa revolta indígena de que ali havia memória. Os chefes timorenses libertos da golilha que a saída de Celestino quebrara, aproveitaram-se do pretexto da elevação do imposto de capitação para tentarem sacudir o jugo a que mal se podiam acomodar.

 Filomeno da Câmara de Melo Cabral (1873-1934)

Um oficial e vários sargentos que permaneciam no interior foram trucidados; a primeira coluna comandada pelo Governador teve um desastre sério em Aituto, vendo-se obrigada a abandonar uma peça de artilharia, vário material e a retirar precipitadamente para Aileu. O pavor em Díli, perto do local do combate, foi enorme pois os factos avolumaram-se de tal modo que davam o Governador como chacinado e os rebeldes avançando sobre a capital.

A população branca embarcou no vapor “Díli” num salve-se quem puder e só a comunicação telefónica do próprio Filomeno conseguiu fazer desaparecer a atmosfera que uma notícia intempestiva e falsa criara.

A chegada porém de algumas companhias de soldados africanos e da Índia, fez entrar as coisas num caminho favorável para as nossas armas e assim é que, após seis meses de luta intensa, Manufai, o eterno fulcro de rebeliões, o histórico ninho de rebeldias, foi batido e obrigado a submeter-se, sendo a mortandade tão grande e a lição de tal maneira dura que ela lhe serviu até agora. Apenas Okussi se manteve rebelde e foi dominado no ano seguinte após uma campanha rápida e sem grandes lances.

Foi nesta guerra que Filomeno se viu obrigado a desenvolver uma energia formidável para neutralizar incompetências, pusilanimidades e más vontades, que criou a fama de bárbaro e de homem de pelos no coração. É que ele não só consentira às tribos que combatiam a favor do governo a sua usança tradicional de decapitarem os vencidos, mas inclusivamente iniciara a cerimónia adstrita ao canto de guerra Timor, dando o histórico pontapé num dos crânios que se encontravam numa lúgubre pira, no campo de batalha. O indígena nas suas guerras não prescindia de exercer o direito que lhe vinha de costumes seculares, de cortar as cabeças dos desgraçados que no ardor da luta lhe vinham às mãos, de com elas formar um trágico amontoado perante o qual entoava o “lorçá”, hino guerreiro que ao branco causa calafrios; e de as correr em seguida a pontapé. O valor e a fama de cada guerreiro avaliavam-se entre eles pelo número de crânios que tinham suspenso à porta da sua palhota; e os milhares de vozes que num soturno e lúgubre concerto infernal entoavam a célebre canção de guerra, série infinda de insultos para os vencidos, certamente exerciam na sensibilidade efectiva do Timor, a mesma impressão que os nossos cânticos patrióticos têm sobre nós. Filomeno no início da campanha tentou coibir tal usança, mas ao ver-se na perspectiva de ser abandonado pelos seus arraiais, irritados com a proibição de raziarem, roubarem e massacrarem, não teve remédio senão condescender com tais costumes. Por isso, ele foi alvo, na metrópole, convulsionada pelas ideias de falsos humanitarismos que nela imperavam após 1910, de verrinosas campanhas dos seus inimigos políticos e pessoais.

 

Mas aquela tormenta passou e Filomeno pode-se lançar rasgadamente na execução dum longo plano de fomento que pena foi não ser seguido pelos Governadores que lhe sucederam. As ideias de Celestino sobre a necessidade de expansão da cultura do café foram postas em prática duma maneira ampla e colossal. Adoptando o princípio de cultura forçada, executada em Java por Van den Bosch, e que em vinte anos faria passar a produção de duzentos e cinquenta mil picos, no valor de cinco milhões e quinhentos e cinquenta mil florins, para um milhão e oitenta e dois mil picos, valendo trinta milhões de florins, Filomeno afastou-se porém dos pormenores que aos olhos do mundo civilizado tinham merecido ao Governo holandês os ápodos de sistema espoliador e ressuscitador dos velhos tempos da escravidão.

Enviveiram-se milhões de pés de café durante os últimos quatro anos do seu governo; fizeram-se transplantações colossais dos mesmos, para matas que hoje são a riqueza de inúmeros povos; experimentou-se a sua adaptação a terrenos no resto da colónia em que ele era desconhecido, umas vezes com êxito e outras sem ele, como no “Mundo Perdido” de Viqueque. Houve a fúria do café e todo o comandante militar ou de posto fazia consistir o seu melhor título de funcionário cumpridor executando viveiros e plantações o mais gigantescos possíveis.

Outro tanto se deu com a cultura do coqueiro e a tudo presidia Filomeno, sem um agrónomo, sem um prático sequer, estudando, escrevendo artigos doutrinários, discutindo e rebatendo pontos de vista às vezes meramente técnicos. Sem exagero se pode ainda dizer que o Governador palmilhou a colónia e onde quer que houvesse uma mata a aproveitar e a encher de café, aonde quer que lhe dissessem ser apropriado o terreno para um palmar, era certa a sua presença. Por isso, passados dez anos, as estatísticas aduaneiras registaram o fruto de tal labor, traduzido num aumento de exportação de cinquenta por cento em relação às quantidades anteriores e assim é que, se a riqueza da colónia aumentou em tão larguíssimas proporções, a Filomeno o ficou devendo.

A produção não correspondeu ao que se disse ter-se plantado? Os coqueiros produzem ali não aos sete anos, como se escreveu, mas sim aos catorze? Muitas plantações morreram por terem sido feitas em terrenos calcários e por conseguinte impróprios? Foi infeliz a ideia das plantações comunais, partilhadas entre o Estado e indígenas, por inculcarem no espírito destes a ideia de que elas eram do Governo, só as tratando obrigados e abandonando-as logo que lho permitiam? É certo que em todas estas observações há uma grande parte de verdade e que tais circunstâncias fizeram com que logo após a sua exoneração se perdessem as plantações mais recentes por falta de cuidados; que o tratamento das antigas fosse muito descurado e que o produto das novas passasse a ser umas vezes o quinhão mais ou menos integral dos povos e outras o exclusivo dos chefes, conforme a maior ou menos consciência destes e a fiscalização mais ou menos intensa dos comandos. Por isso, o resultado da sua obra que teria sido colossal, se Filomeno tem permanecido mais meia dúzia de anos à frente de Timor, ou se os seus sucessores a tivessem tratado com carinho, foi de frutos relativamente modestos para o esforço desenvolvido e teria sido de efeitos quási nulos, se ele, à semelhança do que sucede com quási todos os Governadores, ali tivesse permanecido apenas os dois anos que eram então da praxe. Entretanto Filomeno foi o único administrador a valer que a colónia teve nos últimos trinta anos e as deficiências apontadas não conseguem empanar o brilho duma obra que há-de ficar sempre considerada extraordinária.

Nunca em Timor se trabalhou com tanto entusiasmo e tenacidade e nunca tanta charrua arou os campos até então virgens; e estes trabalhos conjugados com outros pertencentes a diversos ramos de actividade económica e social, tais como a criação da Caixa Económica, a reforma do ensino, etc., constituem um honroso programa de realizações para qualquer Governador.

Filomeno teve sempre uma predilecção especial pela actuação económica do indígena, nunca tendo dado importância de maior às possibilidades de povoamento europeu. Ou porque as dificuldades com que deparava para a vinda de colonos se lhe antolhassem irremovíveis, a avaliar pelo insucesso das negociações entabuladas para a fixação de açorianos residentes em Hawai que chegaram a mandar a Timor um seu delegado a estudar o caso, ou por quaisquer outras razões, o certo é que ele nunca esboçou qualquer iniciativa no sentido de intensificar a política iniciada por Celestino e durante o seu governo nenhum outro colono aportou a Timor. Entretanto, a protecção dispensada às actividades brancas colonizadoras instaladas por Celestino através da companhia a que já nos referimos, fizeram com que as más vontades que ameaçavam a existência do incipiente núcleo branco existente não fossem por diante. Assim, tal companhia foi singrando através dos anos, constituindo um elemento de progresso na colónia, devido às suas iniciativas em montar oficinas de descasque de café, de melhorar a sua preparação, de tratar culturas desconhecidas como o cacau e a borracha e de concorrer com o china e o árabe nas transacções comerciais. Aquela companhia é o único elemento económico branco nacional de valor na colónia e mesmo os outros que se ali foram instalando, saíram dos seus empregados, os quais se foram fazendo, um pouco mercê das facilidades por ela dadas. As próprias numerosas concessões de terrenos feitas no seu tempo a funcionários redundaram quási todas em insucessos em virtude destes as não poderem dirigir pessoalmente por causa dos seus afazeres profissionais.

Filomeno, como não podia deixar de ser, teve a sorte de todos os Governadores que marcam situações de excepcional relevo e por isso, à semelhança do que sucedera com Celestino, deixou o governo da colónia, mercê do trabalho de sapa que os seus inimigos realizaram junto de qualquer mediocridade governamental, que os acasos da política tinham feito passar pelo Ministério das Colónias. E assim, Timor viu perdidas as largas possibilidades de valorização que lhe poderia ter valido a manutenção daquele homem de governo em tal posto.

 

FIM DA 1ª PARTE

 

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