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A bem da Nação

DANÚBIO AZUL – 4

 

 

Buda é alta e antiga mas Peste é plana e relativamente nova. Quase toda a História se passou em Buda mas foi em Peste que em 1956 os carros de combate soviéticos esmagaram a revolta húngara. Estão lá os prédios de belíssimas fachadas que «viram» esse drama que nós, portugueses, tentámos minorar acolhendo crianças cujos pais preferiram mandá-las para local seguro em vez de as verem sofrer o domínio soviético. Já o tínhamos feito no final da II Guerra Mundial com crianças austríacas e de todos esses momentos trágicos, somos muitos os portugueses que nos recordamos, beneficiamos das amizades assim criadas e gostamos de ter acolhido os muitos então refugiados que optaram por cá ficar. Foi com essa opção por eles tomada que Portugal ficou a ganhar.

 

Mas a Hungria é hoje um país livre e a nossa guia dava constantes provas dessa liberdade ao dizer dos comunistas o que Maomé não disse do chouriço. Se no nosso grupo ia algum comunista francês, enfiou certamente o barrete e roeu alguma mordaça.

 

Mas os dramas já vinham de antes com os nazis a deportarem a importante comunidade judia para campos de extermínio depois de terem cercado o bairro judeu em Peste em cujo centro se encontra ainda a majestosa Sinagoga, monumento de visita obrigatória mesmo por gentios como eu e a minha mulher. E foi de rastos que de lá saí – não da Sinagoga propriamente dita mas sim do anexo Museu do Holocausto e cemitério colectivo. Mas como felizmente este não foi um drama por que a minha Nação passasse, escuso-me de incomodar os leitores e digo apenas que é lá que se encontra o Memorial de Raoul Wallenberg. Tudo muito sóbrio mas com enorme significado. De boa fé, qualquer gentio se impressiona.

 

 

E da libertação dos nazis passaram os húngaros para a parte de baixo da sola dos comunistas de que só se libertariam em finais de 1989 (János Kádár fora apeado do cargo de Secretário Geral do Partido Comunista Húngaro em 1988) com a decisão do então Ministro do Interior (cujo nome esqueci e ainda não fui capaz de voltar a localizar) de mandar cortar o arame farpado na fronteira com a Áustria. Foi a esse «buraco» na Cortina de Ferro que afluíram multidões de húngaros e alemães de leste e todos nos lembramos como o mundo soviético ruiu qual castelo de cartas.

 

Eis por que «coragem» é a palavra que aplico a Budapeste e a toda a Hungria: coragem de falarem uma língua que ninguém à sua volta entende e de se manterem firmes nesse pilar da soberania nacional; coragem para engendrarem esquemas de sobrevivência às constantes agressões de que vêm sendo vítimas ao longo de já mais de mil anos de História; coragem para debaterem o futuro com um desassombro notável no que mais nenhum país europeu dá mostras.

 

Não faltará quem diga que eles dão uma no cravo e outra na ferradura mas eu digo que é preciso ter muita coragem para repetidamente erguer das cinzas um pais inteiro e a sua belíssima capital, Budapeste.

 

O barco apita a chamar os retardatários ao que se seguiu o réveillon a meio da navegação para Bratislava.

 

Janeiro de 2014

 

 Henrique Salles da Fonseca

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