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A bem da Nação

Curtinhas VII....

 

a estratégia do desgraçadinho

(ou a importância de uma bochecha por escanhoar...)

v      Há muitos, muitos anos, era eu então um jovem e garboso miliciano, caiu em sorte a um coronel lá do sítio redigir um ofício sobre já não recordo que assunto. Coisa urgente, que teria de estar pronta, sem falta, ao raiar da uma da tarde, logo no dia seguinte (pois era a essa hora que, com pontualidade britânica, a guerra recomeçava todos os dias úteis por aquelas bandas).

v      Não havia dúvidas que a situação era de crise. O pobre coronel, com ar angustiado, levantava-se, passeava, mirava pela janela, voltava a sentar-se, mandava por cada vez mais pastas – e rabiscava sem parar apontamentos em folhas de papel que, amarrotadas, não tardavam a ir para o lixo. Suspirava e bufava que dava dó, presa fácil da “síndrome do papel alvo”.

v      No meio de tanta agitação, lá me chegou a vez de ser mobilizado para o acolitar no ofício. Com calma, entre os dois, saiu obra escorreita que foi dactilografada, revista, emendada, passada a limpo e assinada ainda a tempo de qualquer um de nós ir beber, sossegadamente, o seu copo antes do jantar.

v      No dia seguinte, a la una de la tarde (que me perdoe Frederico) ei-lo, coronel, a entrar com passo firme pelo gabinete do brigadeiro director do Serviço. Não fosse a roupa amarrotada, o cabelo algo desalinhado, a camisa ostensivamente da véspera e uma barba por fazer, e dir-se-ia, pelo ar decidido, a estampa de um militar.

v       “Perdoe-me, meu brigadeiro, mas não preguei olho toda a noite para conseguir apresentar-me, agora, com a missão cumprida”. “Deixe lá isso” respondeu o brigadeiro, entre o bonacheirão e o ansioso “Então, o ofíciozinho?”. “Aqui está”. “Uf! Que alívio. Bravo, homem!”

v      Dias depois, o coronel foi muito cumprimentado pelo temerário feito de ter escrito um ofício tão intrincado, para aí de página e meia, em menos de uma semana, ao preço insuportável de uma noite de vigília. A bochecha barbuda estivera bem presente, a atestar urbi et orbi o sacrifício – e, ela sim, tinha cumprido a preceito a sua missão.

v      Este episódio do coronel mal barbeado, mas matreiro, veio-me à lembrança quando li as declarações de um actual ministro a queixar-se das incontáveis canseiras que o lugar lhe trazia. De barba bem feita, sem olheiras que lhe chegassem aos pés, as fotografias a rescenderem sabonete e lavanda, o ar viçoso de quem acabava de sair de um banho reparador, o tal ministro não parava de insistir na tecla do cansaço – e lançava a confusão por cá.

v      “Cansado, uma treta. Ele quer é dar às de vila diogo”, opinaram uns. “Qual quê? O homem é mas é um arrogante de marca, e acha que o país não o merece”, sentenciaram outros. Injustos, digo eu.

v      Cá para mim a explicação é outra: tal como o coronel da história, a preocupação suprema do nosso ministro foi, apenas, a de mostrar trabalho e zelo superlativo aos olhos do seu chefe. Exibir-se em sacrifício para suscitar a benevolência de quem manda. Na esperança de receber, em troca, um pouco de mais de atenção, algum carinho que lhe levantasse o ego e, quem sabe? sinais seguros de que continuava ainda nas boas graças do boss.

v      Esta estratégia do desgraçadinho tem provas dadas entre nós: por cá, o desempenho mede-se mais em gotas de suor e ar sofrido do que em resultados palpáveis.

v      Precisamente por isso, ao ministro, apanhado desprevenido de camisa lavada e cara bem escanhoada, não restava outro recurso senão esforçar-se por colar uma legenda dolorida à sua imagem sonsa. Se ele tivesse sabido, ou se os seus consultores de imagem tivessem sido mais avisados, e lá contaria a História de Portugal com mais um glorioso episódio onde o herói aparece de barba por fazer.

 

A. Palhinha Machado

Maio de 2006

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