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A bem da Nação

CUBA LIBRE ?

HASTA LUEGO !

 

 

Manuel Pairó era um jovem advogado galego. Seria mais um destinado a perder-se na concorrência do mesquinho provincianismo ou trespassado por alguma bala na iminente guerra civil espanhola. Tentou a sorte em Portugal mas as coisas não lhe saíram famosas pois ser advogado espanhol não era recomendável na nossa ordem quer esta se escrevesse ou não com maiúscula. Casou com uma portuguesa cuja família era proprietária de uma famosa livraria de Lisboa e assim se manteve por cá como consultor editorial de matérias jurídicas e de temas espanhóis. Mas esta não era função que lhe agradasse e eis que lhe aparece um convite para leccionar na Universidade de Havana.

 

Zarpou do Tejo e saltitou de porto em porto até chegar ao destino. Instalou-se, começou a dar aulas e chamou a mulher. Tiveram dois filhos e a vida correu com tanta normalidade que se perderam histórias que nunca entraram na História . . . até que alguém por aquelas paragens decidiu fazer História e o “Tio Manolo” se ia vendo metido em sarilhos.

 

Fidel Castro tinha sido seu aluno e quando a revolução triunfou, o “Tio Manolo” não foi obrigado a fazer juras, não foi saneado da Faculdade de Direito onde manteve a cátedra de Direito Civil e foi-lhe permitido continuar a viver na casa que em tempos comprara mas que acabava de lhe ser expropriada. Conseguiu autorização para que a filha viesse definitivamente viver para Portugal e que a mulher cá viesse de vez em quando passar umas temporadas mas ele e o filho ficavam lá como reféns.

 

E que perspectivas podia haver para um jovem talentoso para o mundo empresarial num país que banira a actividade privada e expurgara o lucro dos objectivos? Tinham que tirar o filho daquela frustração: simularam-lhe uma doença e passado o prazo conveniente encenaram-lhe um enterro; o destino do féretro foi um cemitério ermo algures próximo de uma praia e na primeira noite o “morto” ressuscitou e como que por acaso ou mera coincidência pairava por ali uma traineira que o transportou para o Inferno do capitalismo abandonando o Paraíso socialista. Até hoje.

 

Os meus tios morreram mesmo de morte natural e sem simulações e quando fui a Cuba pensei neles mas não lhes procurei as campas não arranjasse algum sarilho com que um turista não sabe lidar.

 

Vim a saber mais tarde que o comandante do avião português que nos levou de Lisboa a Varadero era – e ainda hoje é – um comunista convicto que juntava a pensão de reforma da nossa companhia de Bandeira ao ordenado da “charter” em que entretanto pilotava e à solidariedade com o regime da sua predilecção para lá transportando “gado pagador”.

 

A chegada a Cuba foi semelhante à partida de qualquer outro aeroporto num país democrático: “o que trazem?” em vez de “o que levam?”. As máquinas de filmar pouco interesse despertaram à Alfândega; os filmes, esses, foram todos visionados não fosse alguém tentar introduzir no país qualquer veneno poluidor das puras mentes revolucionárias. À minha volta não houve problemas pois os filmes estavam todos como era previsível: virgens e em branco (o que é parecido com “virgens e de branco”, como a flor da laranjeira).

 

Apanhámos um transporte com uma “guia turística” que nos levou a Havana. Com as dimensões de uma guarda prisional, a fulana falava português com fluência e teve muita oportunidade de o evidenciar pois não se calou um momento durante as duas horas de viagem. A certo momento convenci-me de que o objectivo consistia precisamente em monopolizar a nossa atenção de modo a que não reparássemos em qualquer coisa que o Governo considerasse menos apropriado para ser visto por um estrangeiro, capitalista nojento para cúmulo. Liguei à terra e passei a olhar para tudo quanto era exterior.

 

Não vi nada que me chocasse e confesso que esperava ter um espectáculo semelhante ao que tive em 1961 quando percorri o corredor entre Braunschweig e Berlim com os campos a serem trabalhados à mão por gente demonstrando pouca ou nenhuma motivação. Não, em Cuba não vi nada disso. No que se refere à agricultura, não vi mesmo absolutamente nada. Depois lembrei-me de que a monocultura da cana-de-açúcar devia estar numa época intercalar entre a ceifa e a lavra e por isso o vazio completo a perder de vista até ao horizonte. Portanto, vi campos vazios com edifícios paralelipipédicos com dois ou três pisos e janelas corridas de uma ponta à outra no meio do nada que – vim a saber por outro “guia turístico” – eram escolas. Pode ser que um dia eu venha a perceber a razão pela qual se instala uma escola a quilómetros de distância do povoado mais próximo. Por agora, mantenho a incógnita.

 

Chegámos a Havana e a sensação que tive foi a de que chegáramos logo depois de um grande bombardeamento aéreo, de tão degradado o parque imobiliário. Pudera, as casas tinham sido entregues à ocupação popular a título quase gracioso e deixaram de gerar os rendimentos necessários à imprescindível conservação. Estas concepções políticas poderão ter grandes fundamentos filosóficos de justiça social mas a verdade é que conduzem a uma flagrante degradação da qualidade de vida e com isso se esvaem as lógicas engendradas em gabinetes de professores de filosofia política que nunca pensaram ganhar a vida em função do seu real contributo para o Produto Nacional Bruto. É claro que bastaria pouco tempo para reabilitar Havana mas duvido que isso fosse compatível com a manutenção do actual regime de propriedade. Aliás, nós em Portugal, temos um regime de arrendamento urbano tão especial que não podemos obviamente cantar de coxixo.

 

Mas há edifícios em bom estado de conservação, nomeadamente os que têm vocação turística pois aí estamos nós, os turistas, a pagar para que isso seja possível.

 

Ficámos no “Hotel Nacional”, os nossos quartos tinham acabado de ser renovados, tudo cheirava a novo e a qualidade era o timbre predominante. O que não cheirava a novo era o “botones” que nos ajudou a levar as malas para os quartos pois em qualquer outro país já estaria reformado há uns anos. É claro que não o deixei pegar nas malas mais pesadas e deixei-o com a carga leve para ter a certeza de que o velhote não caía para o lado com um enfarte do miocárdio. Mas quando chegámos ao quarto a minha mulher constatou que não tinha moedas e que a nota mais pequena era de dez dólares americanos. Foi aí que o velhote ia tendo um ataque de coração pois com essa gorjeta recebeu o equivalente a dois vencimentos mensais. É claro que nunca mais nos largou durante a nossa estadia no hotel e deve ter sido ele – e não o Comité Central do Partido Comunista Cubano – que espalhou a notícia de que éramos os maiores do mundo pois todo o pessoal se desfazia em sorrisos e mesuras.

 Hotel Nacional - Havana 

                    "Hotel Nacional" - Havana

O jardim do hotel dá para cima do Malecón, a marginal mais badalada de Havana que passa por ser a montra das “relações públicas” da cidade. Este, o eufemismo para prostituição, expressão a que não deixo de reconhecer uma certa lógica semântica. Nesse mesmo jardim estão os canhões que em 1898 defenderam a cidade da invasão durante a Guerra hispano-americana e para ele dão as galerias envidraçadas que em tempos foram assiduamente frequentadas por Ernest Hemingway, Pablo Casals e várias estrelas do music-hall que ali têm fotografias dedicadas ao hotel. Nada lá consta quanto à presença ou ausência de Guilhermina Suggia assim como também nada se diz quanto à marca do chá preferido pelo célebre autor de “O velho e o mar”.

 

Sublime, o aspecto da alimentação mas alguns produtos totalmente sensaborões a dizerem-nos que tinham mais congelamento do que o previsto inicialmente. A pianista que acompanhava o jantar era da mesma geração do “botones” das malas, tocava muito bem, interpretava uma música a condizer com a nacionalidade dos turistas presentes mas, disseram as Senhoras que são disso observadoras, tinha as meias rotas. Não fora o grupo etário da artista e quem repararia nas meias seríamos nós, os homens.

 

Um dia, Havana voltará a ser uma cidade linda . . .

 

Voltámos para Varadero e instalámo-nos num hotel espanhol com tudo incluído e de fita verde no pulso a significar que éramos gado daquele curral e não de outro.

 

Varadero é uma península na costa norte de Cuba, está completamente lotada com hotéis e nela se passeia com total à-vontade. Só que no istmo há uma fronteira e só entra quem tem autorização para tal. Não é qualquer um que lá entra: ou se é turista encartado ou, sendo cubano, tendo um contrato específico de trabalho. Chocante, esta separação. É nestas situações que me lembro de que os comunistas quando cantam hinos à liberdade o fazem como um louvor à liberdade de nos mandarem prender, aos outros que não somos comunistas.

 

Nunca vimos tantos canadianos. Aliás, um pouco por toda a parte em que se via alguma cooperação externa, já tínhamos reparado numa profusão enorme de bandeiras canadianas. Foi aqui que começámos a admitir que estes deviam ser . . .  “canadianos do sul” ou, por outras palavras, gente natural de algures a sul do Canadá. «A bon entendeur . . . ». E houve uma banhista dessas que achou conveniente falar comigo em francês para me convencer de que era canadiana. Só que os canadianos francófonos têm um sotaque inconfundível e então é que eu fiquei mesmo com a certeza de que todos aqueles canadianos eram mesmo desses, dos do sul.

 

Já em Havana tinha olhado para os cavalos dos trens dos circuitos turísticos e reparado nos pescoços formidáveis que todos tinham. O resto poderia ser um monte de ossos e peles mas os pescoços eram notáveis. E quem sabe alguma coisa de cavalos, sabe que o pescoço é uma parte fundamental da anatomia equestre não só na perspectiva estética mas principalmente na funcional. Em Varadero confirmei que as pilecas de aluguer tinham pescoços muito bons mas abstive-me de os alugar ou sequer de lhes tocar pois vi que tinham umas peladas muito pouco convidativas ao tacto. Bastava olhar para os cães completamente carecas com que nos cruzávamos na rua para sabermos que se tratava de tinha. Já não fui a tempo de impedir no hotel uma criancinha de afagar um cachorro adorável cheio dessas peladas e não consigo imaginar quantos turistas alugaram cavalos e ficaram com o rabo tinhoso. Pelos exemplos que ostenta, o regime cubano pode não propagandear muito bem o comunismo mas propaga por certo a tinha com grande eficácia.

 

Foi de Varadero que partimos para duas itinerâncias bem interessantes.

 

De autocarro fomos à Baía dos Porcos. Lembram-se da tentativa de invasão americana nos idos de 60 do século passado? Tomámos banho nessa baía, desistimos de perder o pé e ficámo-nos com água pelo meio do peito à conversa com os vendedores ambulantes que estão proibidos de fazer o seu comércio em terra mas que aproveitam uma lacuna da Lei que não os impede de o fazer dentro de água. E eu que julgava que nós, os portugueses, é que éramos os grandes mestres na descoberta das lacunas legais . . .  Água excessivamente quente para conseguir ser agradável. Foi no regresso que passámos por uma “finca” modelo sem nada de assinalável a não ser um sumo não alcoólico da cana-de-açúcar exprimido à nossa frente e a possibilidade que se me ofereceu de escarranchar um boi zebu ali posto para a fotografia. Não posei mas, em compensação, pedi ao fulano que me deixasse dar uma volta à guia. O movimento é muito diferente do do cavalo. No cavalo nós montamos em cima dum arco côncavo; no boi não cheguei a perceber como era o movimento e nem sequer tive prazer.

 

De avião fomos a Caio Largo – ao largo (passe o pleonasmo) da costa sul de Cuba quase a meio caminho da República Dominicana – num trireactor «Yak 40» de fabrico russo com capacidade para uma trintena de passageiros. O catering servido a bordo consistia num copo de água e num rebuçado; como tive dois rebuçados e acabei por pedir segundo copo de água, tive catering duplo. O avião é bem giro mas vim a saber mais tarde que aqueles aviões foram pensados para voar sobre as nórdicas estepes russas e que as adaptações aos trópicos não foram muito bem sucedidas pelo que de vez em quando há um que vem cá parar a baixo mais depressa do que o previsto. Não foi o que aconteceu nesta viagem e até tivemos oportunidade de bordejar dois cúmulos, coisa que nunca tinha feito com tanta emoção. No destino navegámos num catamaran de grande luxo nada tendo a ver com qualquer regime socialista, almoçámos num restaurante sobre uma praia de coral que nos espantou porque achámos que a “areia” era fria e comemos lagostas acabadas de pescar que não vale a pena repetir.

 

Finalmente – até porque o relato já vai longo e não gosto de extensões narrativas – notei uma clara diferença entre os cubanos que trabalham na hotelaria e os outros pois vê-se que os primeiros almoçam e jantam todos os dias e os outros . . .  comem as senhas de racionamento.

 

Ah “Tio Manolo”! Bem fez em salvar os seus filhos de tanta miséria. Infelizes aqueles que não tiveram um pai que visse à distância nem se deixasse embarcar em aventuras revolucionárias.

 

Nada disto aconteceu por sua causa mas apesar de si.

 

“Hasta luego, tovarichtch Comandante . . .“ enquanto isso for dessa maneira, não conte comigo.

 

Henrique Salles da Fonseca

 

Nota: tudo isto e muito mais se passou em Abril de 2000

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