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A bem da Nação

OS LOBOS E OS FAUNOS – 5

 

A sagração da concorrência

 

 

Fauno, rei do Lácio, filho de Pico e neto de Saturno a quem estabeleceu culto público, elevou a mulher – Fauna – e o pai à honra dos altares privados acabando ele também por ver os romanos reconhecerem-lhe atributos divinos e prestarem-lhe culto oficial. Ficou na mitologia romana como divindade campestre assobiando em conjunto com centenas de melros a melodia que nos campos ouvimos das flautas mágicas em protecção da fecundidade dos rebanhos.

 

O Senhor Carlos é o único sapateiro remendão do meu bairro. Não dá trabalho a mais ninguém, pratica os preços que quer e fecha à hora do almoço durante duas horas. Monopolista, é um sovina que não distribui os lucros com empregados. Como se constroem os preços que ele pratica? Para quê uma pausa de duas horas ao almoço?

 

Isto não podia continuar assim, pensaram os autarcas cá da freguesia; havia que trazer alguém de outro lado para que a concorrência se fizesse sentir e o mercado passasse a ser transparente com preços correctamente formados. E se bem o entenderam, melhor o fizeram tratando de criar condições à vinda de uma grande cadeia internacional de oficinas de reparação de calçado com sede em Frankfurt usando modernos materiais sintéticos em substituição do couro e utilizando resinas de tecnologia de ponta em substituição do velho grude. Deu gosto ver a chegada da maquinaria e os autarcas, de orgulhosos, até puseram gravata nesse dia.

 

Que bom! Parecia que todos tínhamos estado a guardar os sapatos velhos à espera da abertura desta multinacional e no primeiro dia foi um rodopio fantástico. O trabalho durou uma semana e ao fim do primeiro mês o Gerente começou a pensar que seria necessário mandar os aprendizes embora pois não tinham contrato de trabalho e como não havia trabalho para eles, mais valia que não estivessem ali a empatar os mestres e contramestres. De facto, era gente a mais na oficina mas os aprendizes sempre eram pagos pelo Instituto do Emprego e Formação Profissional enquanto os contramestres estavam a recibo verde e, esses sim, davam prejuízo. Ao terceiro mês só ficaram os mestres e os aprendizes e se não se tivesse feito uma substancial redução na tabela de preços, nem para os vencimentos haveria dinheiro quanto mais para a Segurança Social . . . Ao quarto mês, um dos dois mestres meteu baixa com uma dor ciática e isso foi perfeitamente providencial pois não havia trabalho para tanta gente. Felizmente, o sapateiro remendão decidira ir de férias durante dois ou três meses e a multinacional ficava com o mercado do bairro só para si. Mas como apareceu um mestre sapateiro romeno a oferecer-se para trabalhar por metade do salário do português, o Gerente pediu à casa-mãe um apoio financeiro para despedir e indemnizar o português ficando de amortizar o empréstimo com a poupança que iria obter na substituição pelo romeno. Mas o romeno não sabia falar português, as reclamações dos fregueses começaram a chover e os aprendizes chegaram ao fim do estágio remunerado pelo IEFP. Foi na altura em que a oficina comemorava seis meses de actividade cá no bairro que o Gerente convenceu a sede da multinacional a desistir deste mercado. Os prejuízos apurados foram consolidados nas contas globais em Frankfurt e o IRC a pagar ao Estado alemão foi por isso menor.

 

Agora andamos todos à procura do Senhor Carlos para tentarmos convencê-lo a reabrir a sua antiga chafarica. Mas ele já estava reformado das Oficinas Gerais de Fardamento e Calçado, fazia este trabalho para ganhar mais uns cobres, continuar a descontar para a Segurança Social pelo ordenado mínimo nacional e poder ir actualizando a pensão não ficando parado sentindo-se um parasita da sociedade. Ah! Aquelas duas horas de intervalo ao almoço, já me esquecia. Por incrível que possa parecer, o Senhor Carlos ainda tinha Pai e Mãe, ambos com mais de 90 anos de idade e era ele que lhes ia dar o almoço . . . É que nem todos os filhos mandam os pais para os asilos que agora se chamam lares para a terceira idade e são pagos a peso de ouro. Aos fins-de-semana o Senhor Carlos e a mulher iam para o parque de campismo da Caparica com os netos. Será que agora se deixam ficar por lá?

 

Os autarcas confiam ansiosamente na curteza da nossa memória, dizem que fomos nós, os fregueses, que boicotámos a modernização e transparência do mercado e já estão a pensar nas recandidaturas . . .

 

É um escândalo que em Malta só haja uma concessionária de auto-estradas e que no Vaticano só se possa ser católico.

 

Lisboa, Maio de 2006

 

Henrique Salles da Fonseca

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