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A bem da Nação

CAMÕES, GRANDE CAMÕES – 2

 

 

«Auto de El-Rei Seleuco» em curta síntese»

 

O «Auto de El-Rei Seleuco» é precedido de um ante acto em prosa, para gáudio dos espectadores, e no qual sobressai a figura do Moço, o “servus” latino, gracioso de resposta sempre pronta em linguagem vulgar e tosca e atitude irrespeitosa, com parentesco também no herói pícaro da novela espanhola.

 

O assunto da lenda grega supõe-se que o colheu Camões em Petrarca. Trata-se da paixão de Antíoco, filho do Rei Seleuco, por Estratónica, sua madrasta. Levado pelo seu amor de pai, Seleuco cede a mulher ao filho.

 

A análise do sentimento amoroso em Antíoco, que a ninguém quer revelar a causa do seu sofrer, está feita com bastante perspicácia e eloquência. Da mesma forma nos parece a reacção da rainha ao saber do amor do enteado. Confessa à criada ( e confidente) Frolalta que o amava como a um filho – não podemos esquecer que é uma mulher digna, como logo na primeira cena, em, conversa com o marido revelara. Em todo o caso, não suporta a ideia de que Antíoco morra e deseja morrer com ele. Esse seu desejo acaba por trai-la, denunciando a sua paixão pelo enteado:

 

Sejamos juntos na morte

Pois o não somos na vida.

 

E lamenta ter-se casado com Seleuco por interesse:

 

Que não há mor desvario

Que o forçado casamento

Por alcançar alto assento;

Que enfim todo o senhorio

Está no contentamento.

 

Há alguma inverosimilhança na atitude do rei Seleuco, em face da alternativa malabarística apresentada pelo médico de ver o filho morrer ou dar-lhe a própria mulher em casamento. É pobre de emoção, de debate interior, a sua reacção bonacheirona de ceder a mulher ao filho, desejando festas e alegria, quando pouco antes elogiara a mulher como causa do seu remoçamento, pelo muito amor que esta lhe inspirava.

 

Não podemos, como paralelo, deixar de referir que, com idêntico tema, compôs Racine uma tragédia, onde a tirania e a vileza das paixões, fizeram de “Phèdre” uma obra-prima do teatro de todos os tempos.

 

Mas não se trata esta peça de tragédia e o próprio Mordomo, ou “dono da casa” a apresenta como “Isopete”, isto é, uma farsa com moralidade, à maneira de Esopo, segundo o Autor humorista:

 

Eis, Senhores, o Autor, por me honrar nesta festival noite, me quis representar uma farsa; e diz que, por não se encontrar com outras já feitas, buscou uns novos fundamentos para a quem tiver um juízo assi arrazoado satisfazer. E diz que quem se dela não contentar, querendo outros novos acontecimentos, que se vá aos soalheiros dos escudeiros da Castanheira, ou de Alhos Vedros e Barreiro, ou converse na Rua Nova em casa do boticário, e não lhe faltará que conte. Porém, diz o Autor que usou nesta obra da maneira de Isopete. Ora, quanto à obra, se não parecer bem a todos, o Autor diz que entende dela menos que todos os que lha puderem emendar. Todavia, isto é para praguentos, aos quais diz que responde com um dito de um filósofo que diz: “Vós outros estudastes para praguejar, e eu para desprezar praguentos”. E contudo quero saber da farsa, em que ponto vai. Moço! Lançarote!

 

Auto de Filodemo

 

Também o “Auto de Filodemo” é entremeado de prosa e verso. Filia-se nas tragicomédias vicentinas de tipo novelesco, a “Comédia de Rubena”, “D. Duardos”.

 

Antes de se entrar propriamente em acção, expõe-se, em prosa, o argumento do Auto: duas crianças nascidas de um fidalgo português e de uma princesa dinamarquesa, fugida de casa com o amado, numa galé que naufraga e donde só ela escapa, acabando por morrer depois de as dar à luz, foram recolhidas, por um pastor que lhes chamou Filodemo e Florimena. Aquele acaba por ir para a cidade servir a um D. Lusidardo que se prova mais tarde ser seu tio, apaixonando-se por sua prima Dionisa. Florimena fica com o pastor, guardando-lhe o gado. Um filho de D. Lusidardo, Venadoro, andando à caça, encontra a jovem e dela se enamora, pela sua beleza e o seu espírito pouco em harmonia com o ambiente em que vive. Não regressa a casa, e quando o pai o encontra, vê-o transformado em humilde cabreiro. O reconhecimento da sua alta estirpe é feito pelo pastor que salvara os dois irmãos, afinal primos dos filhos de D. Lusidardo, pelo que os respectivos casamentos se tornam possíveis.

 

A acção desdobra-se, assim, em dois andamentos: o primeiro em torno do par Filodemo-Dionisa, o segundo em torno do par Florimena – Venadoro, com cenas intermédias entre personagens secundárias, ou mesmo em prosa, entre principal (Filodemo) e secundária (Duriano, seu amigo), sobre a dialéctica de oposição entre o amor pela passiva (platónico, que se satisfaz na contemplação) e o amor pela activa (o de Duriano em que “ela há-de ser a paciente e eu agente”). É, de resto, sobre a análise do sentimento do amor e os seus efeitos que versam as falas das personagens principais, e mesmo de secundárias, como Solina, intermediária nos amores da ama Dionisa, espécie de Celestina ou alcoviteira, e ela própria também interessada por Duriano.

 

Filodemo faz considerações sobre o seu próprio caso, sobre a ambição que nele implica o ter-se enamorado de uma jovem doutra posição. Acaba por saber, através de Solina, que lhe não é indiferente, e em linguagem rebuscada, tão invulgar em criado, responde a Solina, admirada de que ele seja “amante tão fino”.

 

As manifestações do sentimento do amor em Dionisa parece-nos das mais completas do teatro camoniano, lembrando as comédias psicológicas de Marivaux, no séc. XVIII. “Le Jeu de l’Amour et du Hasard”, por exemplo, versa um tema parecido: dois jovens de posições distintas que supõem o outro de baixa condição, porque ambos se vestem de criados, para poderem avaliar melhor o pretendente (da escolha paterna) e que insensivelmente se enamoram, embora contrariados, devido ao equívoco, em virtude do espírito que ambos revelam nos seus diálogos.

 

Dionisa procura lugares onde possa praticar com a criada sobre o jovem Filodemo que ama, embora com despeito, por aquele ser seu criado. Exalta-se contra Solina porque revelou a Filodemo que a ama escutava os seus cantares, assim denunciando o seu interesse por ele, tal que descera a ouvir a conversa dos criados. Afirma que receia a indiscrição de Filodemo. Solina, porém, tranquiliza-a dizendo-lhe:

 

Que qualquer segredo nele

É como pedra num poço.

 

Dionisa tem um rebate de orgulho:

 

E eu que segredo quero

De um criado de meu pai?

 

Pretende mostrar-se desdenhosa e altiva, mas deixa transparecer ironia ciumenta ao ver como a criada o escuta com prazer, ou talvez como pretexto para dele falar:

 

Então vós, gentil donzela,

Folgais muito de o ouvir?

 

Solina não a desmente. Mas adianta que o prazer que sente resulta de que as suas conversas só versam sobre a ama. De resto, a própria Dionisa lhe pedira que fosse falar com ele. Dionisa não quer dar o braço a torcer e finge-se trocista e agreste:

 

Disse-vo-lo assi zombando.

Vós logo o tomais em grosso

Tudo quanto me escutais.

Parvo! Que vê-lo não posso!

 

Defende-se com o pai e o irmão que, se viessem a descobrir esses amores

Não há ele de folgar.

 

E, finalmente, manda a criada buscar almofadas para lavrar:

 

Que em cousas tão mal olhadas

Não se há o tempo de gastar.

 

 

A esperta Solina conhece lindamente a ama e traça-nos o quadro das suas transformações de comportamento e das suas contradições:

 

Quem a vira o outro dia

Um poucochinho agastada,

Dar no chão com a fantasia,

Toda noutra transformada!

Outro dia lhe ouvirão

Lançar suspiros a molhos,

E com a imaginação

Cair-lhe a agulha da mão,

E as lágrimas dos olhos!

Ouvir-lhe-eis, à derradeira,

A ventura maldizer,

Porque a foi fazer mulher.

Então diz que quer ser freira,

E não se sabe entender.

Então gaba-o de discreto

De músico e bem disposto

De bom corpo e de bom rosto.

Quant’a então eu vos prometo

Que não tem dele desgosto.

Despois, se vem a atentar,

Diz que é muito mal feito

Amar homem deste jeito;

E que não pode alcançar

Pôr seu desejo em efeito.

Logo se faz tão senhora,

Logo lhe ameaça a vida,

Logo se mostra nessa hora

Muito segura de fora,

E de dentro está sentida.

 

Quando regressa com a almofada pedida, a ama revela as suas inquietações e enfadamentos de mulher prisioneira, a quem não é permitido expandir, como aos homens, os seus sofrimentos - a condição feminina, não ainda de marginalização mas de limitação, já perceptível, como, de resto, também o fora na farsa de “Inês Pereira” de Gil Vicente:

 

Bofé, que estava em cuidado,

Que é muito para haver dó

Da mulher que vive amando.

Que um homem pode passar

A vida mais ocupado:

Com passear, com caçar,

Com correr, com cavalgar,

Forra parte do cuidado.

Mas a coitada

Da mulher sempre encerrada,

Que não tem contentamento,

Não tem desenfadamento

Mais que agulha e almofada?

 

Ao ler a carta de Filodemo, que lhe apresenta Solina, finge inicialmente desconhecer o seu autor, mas finalmente:

 

Certo que é de quem temo,

Que os ditos que nele achei

São todos de Filodemo.

“Este homem, que atrevimento

É este que foi tomar?

Qual será seu fundamento

Que mil vezes me faz dar

Mil voltas ao pensamento?

Não entendo dele nada.

Mas inda que isto é assi,

Me sinto tão alterada

Que me arreceio de mi.

 

Solina sossega-lhe o espírito, comentando que o querer bem é natural e que, segundo ouvira já, Filodemo era de alta geração. Dionisa está finalmente rendida, embora preocupada com a opinião pública:

 

Tudo isso cuido e vi

Mil vezes miudamente;

Mas estas mostras assi

São desculpas para mi,

E não para toda a gente.

 

Também a paixão lhe faz perder o apetite e o desejo de ver gente:

 

Oh! Quem pudera escusar

De comer, nem de ver gente!

Irei, mas não por jantar

Que quem vive descontente

Mantém-se de imaginar.

 

(continua)

 

 Berta Brás

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