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A bem da Nação

INVESTIGAÇÃO AGRONÓMICA EM PORTUGAL – 5

 

ALGUNS TRABALHOS

 

Dum trabalho de colaboração entre os Departamentos de Fitopatologia e de Genética da EAN, decorreu, ao longo de vários anos, um trabalho de criação de variedades de meloeiro resistentes ao oídio, um fungo parasita que bastante prejudica a produção de melão (Sequeira & Mota 1972). Desse trabalho começou por resultar uma variedade, 'Tendral RO-1' (Sequeira e Mota 1977) e mais três variedades do tipo meloa ou cantaloupe, 'Lage', 'Marquesinha' e 'Oeiras' (Sequeira e Mota 1990, 1992a, 1992b).

 

Do 'Tendral RO-1' foi possível fazer, em 1974, no Ribatejo, uma cultura de 0,5 ha para multiplicação de semente e confirmação da ausência de oídio. No ano seguinte e já com pouco controle dos autores do trabalho, ainda foi possível fazer, no Alentejo, um campo de multiplicação com 5 ha, de que se obtiveram 40 kg de semente seleccionada.

 

Estávamos em pleno PREC e a semente obtida foi levada para as UCPs e nada sabemos dos resultados nem se ainda existe semente desses melões. Quanto às três outras variedades, foi cortado o pequeno projecto de multiplicação da semente e de continuar a obtenção de mais e melhores variedades, pois havia abundante material em estudo.

 

Os tempos mais recentes

 

Com a criação de novas universidades foi alargado o campo da investigação agronómica. Foram talvez as universidades de Évora e de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) que mais ciência agronómica produziram, embora outras, como a do Algarve e a dos Açores também tenham dado boa contribuição nesse campo. No esquema do seu ensino cometeram o que pessoalmente considero alguns erros, entre eles o de, em vez do curso de engenheiro agrónomo, terem os cursos de engenheiro agrícola e engenheiro zootécnico, especializações que, tal como no caso da medicina, só devem fazer-se depois duma base agronómica mais ampla.

 

Em 1975 e porque houve uma pequena ajuda financeira do International Board for Plant Genetic Resources (IBPGR), o Departamento de Genética da Estação Agronómica iniciou um programa de Conservação dos Recursos Genéticos, com as novas metodologias de conservação de sementes pelo frio, matéria em que em breve Portugal estava a alinhar com os mais avançados no mundo.

 

O que se pode considerar a única vantagem do atraso da nossa agricultura é o facto de ainda serem cultivadas - estávamos em 1975, hoje bastante menos - variedades antigas de muitas espécies, que iam sendo substituídas por outras mais produtivas, mas que eram portadoras de genes com grande uso potencial para o melhoramento de plantas ou para diversos estudos de Genética, que urgia salvar dessa erosão genética. Os trabalhos de campo, recolha de amostras de sementes, iniciaram-se em 1976, com o centeio e o milho. A razão da prioridade dada a estas espécies foi por se saber da existência duma grande riqueza de genes e estarem a sofrer intensa erosão genética, nos milhos por substituição pelos híbridos americanos mais produtivos e nos centeios por estar a haver redução da área de cultura.

 

A recolha de sementes prosseguiu nos anos seguintes, noutras regiões, incluindo Açores e Madeira e com outras espécies, cultivadas e espontâneas, principalmente dos géneros Lupinus, Brassica, Aegilops (parentes das espécies que originaram os trigos actualmente cultivados), Phaseolus, etc, no total de uns milhares de amostras armazenadas no Banco de Genes. Alguma inovação introduzimos, como o uso de arcas frigoríficas em vez duma grande câmara arrefecida a -18º C, metodologia depois também adoptada, por exemplo, pelo Banco de Genes Nórdico, quando mudou as suas instalações de Lund para Alnarp, na Suécia. Também criámos um novo e muito mais completo modelo de Relatório de Missões de Colheita (Mota et al. 1983), modelo depois adoptado pelo IBPGR para as missões que financiava em diferentes países.

 

Como Coordenador do Programa Nacional de Conservação dos Recursos Genéticos tomei parte nas reuniões em que se começou a pensar em construir um grande Banco de Genes mundial em região de permafrost, onde se armazenassem amostras de sementes de todo o mundo, qual grande Arca de Noé - o primeiro Banco de Genes do mundo, obedecendo à mesma filosofia de hoje - sem o pesado encargo do arrefecimento. Foi com grande prazer que vi a notícia da recente inauguração desse banco em Svalbard, numa das ilhas da Noruega, a uns 1.000 km do Pólo Norte

 

Um outro caso de investigação agronómica de muito grande projecção internacional foi a descoberta, pelo Professor Manuel Mota, da Universidade de Évora, um especialista em nematologia, da entrada em Portugal duma praga muito perigosa para as florestas e que não existia na Europa. Essa praga é o nemátodo da madeira do pinheiro, Bursaphelenchus xylophilus, encontrado, pela primeira vez, na península de Setúbal (Mota et al. 1999) e que actualmente (2013), apesar de algumas medidas para travar o seu avanço, já existe em vários locais do país e também em Espanha. A investigação realizada e que continua com grande intensidade (ver revisão recente em Vicente et al. 2012), rapidamente colocou Portugal na primeira linha desse sector, como se prova pela elevado número de "papers" publicados nas melhores revistas da especialidade, no número de citações, pela participação de Portugal em congressos e pela realização dum "International workshop on the pinewood nematode, Bursaphelenchus xylophilus", na Universidade de Évora, em 20-22 de Agosto de 2001 (Mota and Vieira, 2004) e um Simpósio Internacional "Pine wilt disease: a worldwide threat to forest ecosystem", na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, de 10-14 de Julho de 2006 (Mota and Vieira 2008).

 

Para encerrar esta lista de alguns trabalhos de "Investigação Agronómica em Portugal" quero referir um sector da ciência em que a investigação agronómica foi pioneira e deu uma grande contribuição para o impulsionar no nosso país: a investigação que exige a utilização da microscopia electrónica para a obtenção de imagens com ampliações úteis e resolução muito para além das possibilidades do microscópio óptico e alguma informação adicional.

 

Que seja do meu conhecimento, os primeiros trabalhos portugueses de investigação em que foi utilizada a microscopia electrónica são do Eng.º Agrónomo Luís Bramão, Investigador da Estação Agronómica, trabalho realizado nos Estados Unidos (Bramão 1950, 1952), (Bramão et al. 1950, 1952),

 

Embora o primeiro microscópio electrónico para a investigação agronómica só tivesse sido adquirido pela Estação Agronómica nos finais de 1968 e ficado operacional em Março de 1969, ele vinha sendo requisitado desde Janeiro de 1954. Foi o 8º desses aparelhos adquiridos por Portugal, um Philips 300, e apenas três outros estavam então operacionais. Por essa altura já um investigador da EAN tinha realizado trabalhos com utilização do microscópio electrónico, durante duas estadias nos Estados Unidos (1958 e 1962-1963) e, de 1966 até ao início de 1969, no Porto, onde pôde utilizar, com frequência, graciosamente, o equipamento do Laboratório de Microscopia Electrónica da Universidade.

 

Por iniciativa da Estação Agronómica foi criada em 1966 a Sociedade Portuguesa de Microscopia Electrónica (SPME), que ali teve por três vezes a sua sede (1969, 1982 e 1987) quando a presidência foi exercida por um dos seus investigadores.

 

A Sociedade, que desde 2006 se chama Sociedade Portuguesa de Microscopia, continua a realizar, pelo menos, uma "Reunião Anual" de elevado nível, como é possível ver através dos seus "Programas e Resumos". A partir de 1970 estes passaram a incluir o Resumo em português e inglês e, a partir de 1983, a incluir, também, figuras, ao estilo dos congressos internacionais. A Direcção de 2005, que organizou a XL Reunião Anual, digitalizou os "Programas e Resumos" até essa data. Foi muito importante o papel da SPME no desenvolvimento da microscopia electrónica em Portugal (Mota, 2012).

 

A partir de 1966, a presença da investigação agronómica portuguesa nos congressos Europeus e Internacionais de Microscopia Electrónica, além, naturalmente, da literatura científica portuguesa e estrangeira, passou a ser uma constante, como é possível ver na Bibliografia Portuguesa de Microscopia Electrónica (Mota e Silva 1969, 1973)

 

Esta lista de alguns trabalhos de Investigação Agronómica em Portugal é uma pequena amostra dum trabalho que se estende por mais dum século e que tanto já deu ao país. Mas se não fosse a má gestão de ciência e as monstruosas destruições sofridas ao longo dos últimos anos, a produção científica teria sido muito maior e a situação da agricultura e, portanto, da economia do nosso país, seriam totalmente diferentes. Não posso esquecer as palavras de D. Luís de Castro, de há mais de cem anos, atrás citadas.

 

Ao contrário do que alguns têm tentado minimizar, a agricultura portuguesa ainda exporta anualmente 3 mil milhões de euros, mas tem condições para exportar muito mais. Como Portugal importa, anualmente, 6 mil milhões de euros de produtos agrícolas - muitos dos quais aqui deviam ser produzidos - tem, nesta balança comercial um défice de 3 mil milhões de euros. Estamos à espera dum governo que desenterre o tesouro enterrado da agricultura e transforme o actual défice num superavit de 3 mil milhões de euros. E a alavanca número um para o fazer é a Investigação Agronómica. A falta de compreensão pela importância da investigação agronómica, em que se destacam, como excepções, as citadas legislações de 1901 e 1936, mais a incrivelmente má gestão a vários níveis, particularmente os mais altos, é já antiga. Além da referida frase de D. Luís de Castro em 1907, temos um testemunho de Joaquim Natividade, cuja grande obra científica foi conseguida sempre com relativamente escassos meios. Termino estas linhas com a citação de dois depoimentos seus, um em carta que me dirigiu e outra em carta ao seu amigo Aurélio Quintanilha. Aliás, nem os 21 meses que ali refere pôde gozar, pois a morte levou-o a cerca de um ano da idade da reforma. Transcrevo dum escrito meu (Mota 1995):

 

"No entanto, os meios de que pôde dispor ficaram muito aquém do que seria minimamente desejável, por incrível miopia dos Ministros (e Secretários e Subsecretários de Estado) da Agricultura desses tempos, que não perceberam o enorme investimento que era o dinheiro gasto com os trabalhos de Natividade. Fica-se a pensar no que poderia ter feito se os meios de trabalho tivessem sido outros, meios de trabalho que, por ironia do destino, lhe foram dados pouco tempo antes da sua morte. Numa das suas cartas, datada de 20 de Fevereiro de 1965, dizia-me:

O Plano Intercalar, porque passei a entender-me directamente com o Ministro, trouxe leve brisa favorável... Por quanto tempo? Não me surpreenderá que, de um momento para o outro, surja a calmaria, que é como quem diz, a paz podre... Não desanime, e prossiga o seu belo trabalho. Só isto conta. Há que remar contra a maré!”

O Ministro era o Eng.º Ferreira Dias, o único governante, depois de Rafael Duque, que mostrou ter alguma noção do que a Agricultura precisava. Mas o que realizou foi pouco e ficou muitíssimo aquém do que seria necessário e era possível fazer.

Só no final da vida Natividade pôde dispor, como declarou, de bons meios de trabalho, que lhe deviam ter sido proporcionados vinte ou trinta anos antes. São elucidativas as palavras que em 16 de Dezembro de 1967 escreveu ao seu amigo Aurélio Quintanilha:

Disponho dum gabinete que até parece o “boudoir” de Cleópatra! Belas salas de trabalho, um grupo de câmaras frigoríficas, uma das quais com atmosfera artificial, para os estudos de conservação de frutos; enfim, qualquer coisa faraónica em comparação com a miséria em que temos vivido! Por ironia do destino, tudo isto chega quando faltam apenas 21 meses para atingir o limite de idade! Até dá vontade de chorar! Durante os melhores anos da minha vida, lutei com dificuldades e incompreensões de toda a ordem; conheci a extrema indigência laboratorial; tive que improvisar todas as ferramentas de trabalho; tudo o que se fez foi à custa de sangue, suor e algumas lágrimas! E nem se pode dizer agora que Deus dá nozes a quem não tem dentes. Deram-me as nozes, é certo; disponho ainda de dentes capazes de roerem um chispe de elefante... simplesmente a lei obriga-me a fazer as malas quando mal começo a descascar as nozes!”

 

 

 

Miguel Mota

Estação Agronómica Nacional, Oeiras e Universidade de Évora

 

 

FIM

 

Publicado “on line” em: "Notícias do ICAAM" - Boletim Informativo do ICAAM, Instituto de Ciências Agrárias e Ambientais Mediterrânicas da Universidade de Évora, Nº 1, Novembro de 2013

 

BIBLIOGRAFIA: a disponibilizar se solicitada

 

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