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A bem da Nação

INVESTIGAÇÃO AGRONÓMICA EM PORTUGAL – 4

 

ALGUNS TRABALHOS

 

Sob a Direcção do Prof. António Câmara, que deixara a sua cátedra no Instituto Superior de Agronomia (onde regia as cadeiras de Agricultura Geral e de Genética) para, a convite do Ministro da Agricultura Rafael Duque, fundar e dirigir a Estação Agronómica Nacional, a nova instituição, instalada provisoriamente nos Jerónimos, foi em 1941 transferida para terrenos e um edifício próprio em Sacavém. Na década de 1950, porque a SACOR necessitou de expandir as suas instalações, em Sacavém, para os terrenos da Estação, foi adquirida a parte Norte da Quinta do Marquês, em Oeiras, e aí construídos novos edifícios, o que consistiu numa grande melhoria das condições de trabalho.

 

Em 1947, quando me encontrava no Departamento de Genética da EAN, ainda em Sacavém, a fazer a tese então necessária para se ser engenheiro agrónomo, assisti a um excelente trabalho de investigação realizado por colegas do Departamento: a descoberta, em plantas, de cromossomas sem centrómero localizado, algo apenas conhecido em algumas espécies animais. O primeiro artigo sobre essa descoberta foi publicado por Nydia Malheiros e Duarte de Castro na "Nature" (Malheiros & Castro 1947), seguido de um mais completo na “Agronomia Lusitana” (Malheiros, Castro e Câmara 1947).

 

Foi o primeiro trabalho da EAN com grande projecção internacional e originou noutros países, nomeadamente na Suécia e nos Estados Unidos, além de Portugal, uma série de novos trabalhos.

 

*

 

No campo da subericultura Portugal teve um investigador de elevado nível, o Engenheiro Agrónomo e Silvicultor Joaquim Vieira Natividade que em 1950 publicou uma notável "Subericultura", onde se inclui muita da sua investigação original (Natividade 1950). Esse livro, traduzido em várias línguas, é a melhor obra mundial sobre a matéria.

 

*

 

Durante algumas décadas, a Fundação Gulbenkian manteve um Centro de Estudos de Economia Agrária, em Oeiras, que foi integrado no Instituto Gulbenkian de Ciência, quando este foi criado. A investigação realizada encontra-se expressa em muitas e valiosas publicações. Infelizmente, foi extinto em 1986.

 

*

 

Pedindo licença para referir os meus próprio trabalhos, naturalmente aqueles que conheço melhor, gostaria de relatar alguns dos mais relevantes.

 

Um estudo sobre alterações cromossómicas, que iniciei na Suécia e depois continuei em Elvas, originou um trabalho (Mota 1952) em que, com base em anomalias encontradas no movimento dos cromossomas, fui levado a questionar as teorias mais aceites para explicar a anafase, a fase da mitose em que se separam os dois cromatídeos dum cromossoma e se deslocam, cada um para o seu pólo da célula, de forma a que, quando esta se divide em duas, cada uma tenha um código genético igual. Esse trabalho, recebeu o "Prémio A. J. da Silva Pereira" para investigação ligada ao problema do cancro, do Instituto Português de Oncologia, prémio também concedido, dois anos depois, a outro investigador do Departamento de Genética da EAN (Costa-Rodrigues 1954).

 

Continuando nessa linha, cheguei a uma nova teoria para explicar o movimento anafásico, apresentada em 1956 no Japão, num Simpósio Internacional de Genética (Mota 1957). Apesar de largamente citada, em artigos e livros texto de âmbito internacional, só mais tarde essa teoria começou a ser mais aceite. Em 2009, no Porto, no Instituto de Biologia Molecular e Celular, realizou-se um Simpósio Internacional "Chromosome segregation - A tribute to Miguel Mota", que reuniu os mais importantes especialistas da anafase.

 

Um outro trabalho permitiu-me resolver um problema que era objecto de disputa entre duas teorias diferentes: como se dá a clivagem, a forma de divisão das células animais, depois da divisão dos núcleos e que é diferente da divisão das células vegetais. Foi possível demonstrar, com evidência morfológica, que tinham razão os autores que postulavam - sem o terem visto - a existência dum anel contráctil, que causava a clivagem (Mota, 1959).

 

Embora o Departamento de Genética, como os restantes de ciências básicas, tenha mais responsabilidades na solução de problemas do que na criação de algo para aumentar a produção agrícola, numa Estação Agronómica deve considerar-se, quando tal seja possível e fique no âmbito do seu tema, a execução de trabalhos capazes de darem mais directamente resultados aplicáveis. (Diga-se de passagem que exactamente o mesmo se passa com a investigação médica, que tem com a investigação agronómica muitas semelhanças de princípios). Porque assim considerei, tanto no Laboratório de Citogenética da Estação de Melhoramento de Plantas, em Elvas, como depois, no Departamento de Genética da Estação Agronómica, sempre se realizaram trabalhos desse tipo.

 

Do Plano de Trabalhos gizado em 1949 só não foi possível iniciar, por carência de meios, a indução artificial de mutações, um campo que continua no mundo a produzir bons frutos e para o qual até existe um laboratório internacional. Logo de início se assentou na produção de poliplóides e anfidiplóides como um sector dos que mais facilmente poderia dar resultados de interesse económico.

 

Das espécies em que foram obtidos autotetraplóides, Secale cereale, Hordeum vulgare e Trigonella foenum-graecum, foram os centeios, de que foram obtidos uns 30 originais, os que se mostraram mais promissores. Parte do trabalho foi feito em Elvas e depois continuado, na EAN, em Sacavém e Oeiras. Ao fim de anos de autofecundações (Fig. 1) e intensa selecção, para conseguir o que é costume designar por diploidização dos autotetraplóides, conseguiram-se linhas de boa produção com que, embora com dificuldades várias, foi possível fazer ensaios e multiplicações nas zonas de Castelo Branco, Guarda e Mirandela. Na zona de Castelo Branco a produção do tetraplóide era 50% mais alta do que a das variedades regionais. Na zona de Vinhais, em Trás-os-Montes, ao perguntar a um agricultor, perante um campo de cerca de seis hectares de centeio tetraplóide, o que é que lhe parecia aquele centeio, a resposta imediata foi "eu não quero outro". Não sei se ainda são cultivados.

 

 

 

Fig. 1 - Autofecundações de centeios tetraplóides. EAN, Oeiras

 

Os triticales, híbridos entre trigo e centeio (Triticum x Secale) visam combinar numa planta as qualidades de alta produtividade do trigo e a resistência do centeio.

 

O trabalho para a sua produção iniciou-se em Elvas, na Estação de Melhoramento de Plantas (EMP), no início da década de 1950. O Prof. Edmundo Villax, que tinha fugido da Hungria, com a família, quando os ditadores russos queriam que ele ensinasse a pseudo Genética de Lysenko, depois de um ano em França (Montpelier), tinha sido contratado pela EMP. Um dia entra no meu gabinete - eu chefiava o Laboratório de Citogenética - e diz-me que tinha trazido de Montpelier dois grãos dum cruzamento de trigo e centeio e tinha essas duas plantas no campo, na gaiola de rede contra os pássaros. E acrescentou que pensava que seria necessário fazer algo àquelas plantas. Eu respondi que seria necessário duplicar o número de cromossomas (para obter o anfidiplóide) para poder colher alguma semente. E logo ali combinámos o que haveria a fazer. Uma das duas plantas morreu e na outra tivemos um resultado anómalo que motivou uma atrevida hipótese, a eliminação do genómio do centeio e duplicação dos do trigo, que relatámos na Nature (Villax and Mota 1953). Essa hipótese - o primeiro caso duma eliminação preferencial dum genómio num híbrido - começou a ter confirmação em hibridações somáticas de células de duas espécies animais diferentes (em que há eliminação preferencial dos cromossomas duma das duas espécies) e veio a ter melhor confirmação mais tarde com os híbridos entre Hordeum vulgre x H. bulbosum, em que o genómio do bulbosum é eliminado.

 

Foram realizados mais cruzamentos seguidos de duplicação cromossómica e obtidos dois novos triticales octoplóides (Villax, Mota e Dentinho 1954). Quando o autor destas linhas regressou à EAN, em 1955, realizaram-se mais alguns cruzamentos e duplicações, que permitiram obter novos triticales octoplóides, a cuja selecção se procedeu. Ainda antes de ser possível fazer ensaios de produção e multiplicação de semente, mas já com uma população de plantas cujas espigas se mostravam altamente promissoras, em tamanho e fertilidade, foi cortada, em 1975, a possibilidade de construir a habitual cobertura de rede de protecção contra os pássaros, apesar dos meus insistentes avisos do que iria suceder. O resultado foi essa população ter sido quase completamente dizimada pelos pássaros. Uma tentativa de reconstituição a partir do que ficou foi cortada ao fim de mais uns três anos.

 

Em colaboração com o Eng.º Silas Pego, ao tempo a trabalhar no Núcleo de Melhoramento de Milho, em Braga, iniciou-se em 1974 um trabalho com um novo método de cruzamentos múltiplos em milho. O objectivo era cultivar, no campo, uma série de linhas autofecundadas de milho de forma a permitir o máximo de cruzamentos entre elas, durante alguns anos, fazendo todos os anos uma intensa selecção. Essa selecção começava no campo, antes da maturação do pólen, suprimindo todas as plantas deficientes, de forma a que o seu pólen não contribuísse com genes indesejáveis.

 

O grupo inicial foi formado a partir de 72 linhas autofecundadas, da colecção existente em Braga. Posteriormente foram trabalhados mais dois grupos, com diversos linhas colhidas na Ilha da Madeira, para o Banco de Genes, um grupo de milhos amarelos e outro de milhos brancos, linhas estas não de autofecundação, mas para sofrer o mesmo tratamento.

 

Depois da selecção referida, com a supressão das plantas deficientes antes de produzirem pólen, era feita uma selecção no campo, colhendo-se um certo número de espigas das melhores plantas, considerando-se a dimensão da planta e das espigas, tamanho das espigas e número de carreiras de grão, resistência a doenças e mais qualquer característica que parecesse de interesse. Essas espigas eram ainda seleccionadas no laboratório, sendo eleitas apenas as melhores.

 

Como de cada espiga eleita era semeada no campo uma linha de 10 metros e a área total utilizada nunca ultrapassou 1 ha, restava sempre muita semente que era entregue aos serviços de campo da EAN, para fazerem um campo de multiplicação que servia ao mesmo tempo para dar informação sobre o nível dessa população. Deve dizer-se que esse nível, como seria de esperar, foi crescendo e atingiu um valor alto.

 

Neste trabalho tivemos uma preciosa ajuda dos serviços de Agricultura da Ilha da Madeira. O clima ameno permite fazer ali uma cultura no inverno. A produção era fraca mas isso era irrelevante porque o que interessava era introduzir mais uma geração e, assim, era possível fazer num ano duas gerações. Colhendo os milhos em Oeiras no final de Setembro e semeando na Madeira em princípios de Outubro, em Dezembro era feita a supressão das plantas deficientes antes de produzirem pólen. A colheita era feita em Abril, a tempo de se fazer a nova sementeira em Oeiras.

 

Quando a "pool" de genes bons já estava com nível alto, com plantas e maçarocas excelentes, chegaram a iniciar-se as autofecundações pois o objectivo último era obter linhas autofecundadas melhores do que aquelas de que se partira e, dos milhos da Madeira, boas linhas autofecundadas com as quais fabricaríamos híbridos, presumivelmente melhores do que os que Portugal importa. O trabalho foi cortado e até, quando as câmaras de frio, onde se guardavam as sementes, se avariaram, foi negada verba para as reparar. Alguns anos mais tarde, todo esse material extremamente valioso já tinha perdido a capacidade germinativa. Não faço comentários.

 

(A EAN recebeu a visita do Dr. Paliwal, Sub-Director do Programa de milho, do CIMMYT, quando já tinha sido feita a colheita e viu o grande estendal de maçarocas, na altura da selecção. Teve este comentário para mim: "you are sitting on dynamite!". Dois ou três anos mais tarde tive informação, numa conferência dum funcionário do CIMMYT, que estariam a usar um método semelhante).

 

Com material, já em fase avançada, que levou para Braga, o Dr. Silas Pego elegeu, ao fim de alguns anos, uma linha de polinização livre de alta produção chamada 'Fandango' (Mendes-Moreira et al. 2009).

 

(continua)

 

 

Miguel Mota

Estação Agronómica Nacional, Oeiras e Universidade de Évora

 

 

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