Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A bem da Nação

NVESTIGAÇÃO AGRONÓMICA EM PORTUGAL – 3

 

ALGUNS TRABALHOS

 

Nasceu uma nova era

 

Em 1936 deu-se em Portugal um acontecimento de grande importância para a agricultura, para a ciência e para a economia do nosso país. Pelo Decreto-lei Nº 27.207, de 16 de Novembro, foi criada a Estação Agronómica Nacional. Foi importante para a investigação agronómica mas, porque foi o primeiro instituto de investigação científica de boa amplitude e em moldes modernos, fora das universidades, serviu de modelo a todos os que foram criados depois.

 

Outras instituições de investigação se lhe seguiram, nela inspiradas e segundo o mesmo modelo e com legislação semelhante. O primeiro foi o Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), criado dez anos mais tarde e que, felizmente, pôde não sofrer de algumas limitações impostas à Estação Agronómica, a principal das quais foi ter nascido com o nível de Direcção Geral, enquanto a Estação esteve sempre subordinada a uma Direcção Geral. Contou-me um dia o Eng.º Guimarães Lobato que várias vezes foi com o Eng.º Manuel Rocha, a Sacavém, falar com o Prof. António Câmara, para fazerem o Laboratório Nacional de Engenharia Civil. Ele seguiu depois para outra actividade e o Eng.º Manuel Rocha ficou Director do novo Laboratório. Eu sabia que algo do género tinha acontecido porque o Prof. Câmara me tinha dito que tinha uma carta do então Ministro das Obras Públicas, Eng.º José Frederico Ulrich, em que ele lhe dizia que se não existisse antes a Estação Agronómica talvez não tivesse sido possível o Laboratório Nacional de Engenharia Civil.

 

Em 1934 é mandado para a Suécia o Eng.º Agrónomo D. R. Vitória Pires, para estagiar na “Sveriges Utsadesförening”, em Svalöf, ao tempo a mais famosa estação de melhoramento de plantas do mundo, dirigida pelo Prof. Herman Nilsson-Ehle. No Posto Agrário de Elvas começam em 1935 alguns trabalhos de melhoramento, com aplicação da metodologia aprendida em Svalöf. Em 1942 o Posto Agrário de Elvas desaparece e é criada em seu lugar a Estação de Melhoramento de Plantas (EMP), de que Vitória Pires é nomeado Director. Além de Laboratórios de algumas ciências fundamentais necessários ao bom trabalho do conjunto, como Citogenética, Estatística Experimental, Fitopatologia, Sistemática e Fitossociologia, Química, outros Departamentos visavam a directa produção de novas variedades de plantas, especialmente cereais e forragens, destinadas à agricultura.

 

Considerando os três primeiros desses institutos (EAN, EMP e LNEC), de que tenho mais informação, o que deram ao país, não só em produção científica e prestígio internacional, mas também em resultados económicos, foi muitas vezes o que o estado neles investiu. A destruição que sofreram, ao longo dos últimos anos (em obediência à "lei", não escrita mas religiosamente seguida, que manda destruir toda a investigação científica pública que não seja das universidades) e que faz deles hoje uma sombra do que foram, causou ao país uma perda incalculável que, em termos económicos, se expressa no nosso miserável PIB e, consequentemente, nas receitas do estado. Se, em vez da destruição desses grandes repositórios de "know how" (e fontes da agora tão apregoada inovação), eles tivessem continuado ao seu ritmo anterior (ou, mais desejável, até com algum aumento), Portugal não estaria nos actuais e tão graves apuros financeiros e económicos.

 

 

Sobre o ICAM, outros, melhor do que eu, falarão. Mas nesse local pontificou, antes de ali se instalar a Universidade de Évora, um agrónomo muito ilustre e um grande investigador: o Eng.º Agrónomo António José Sardinha de Oliveira, ao tempo professor da Escola de Regentes Agrícolas de Évora e detentor de duas herdades em Monforte.

 

O seu Relatório Final do Curso (o modesto nome que tinha a dissertação então necessária para se ser Engenheiro Agrónomo e que, como foi mais tarde confirmado, era geralmente do nível de Tese de Doutoramento) foi a criação duma nova Tabela de Classificação dos Solos Quanto à Textura, que substituiu tudo o que até então existia.

 

Embora não estivesse integrado em qualquer sistema de investigação - a Escola de Regentes Agrícolas de Évora era de nível secundário e médio - o seu espírito não o deixava afastar-se desse tipo de trabalho. Grande observador e com excelente raciocínio, relacionou os dados meteorológicos, nomeadamente chuva e temperatura, com a produção de trigo, de forma a ter, no mês de Fevereiro, uma razoavelmente boa previsão do que iria ser a produção de trigo no Alentejo (Oliveira 1955, 1961). E concluiu que, ao contrário do que muita gente pensa, perante a habitual secura do Alentejo, que as produções mais baixas eram nos anos de Inverno muito chuvoso. A explicação é simples. Nos Invernos muito chuvosos, muitas das terras alentejanas, relativamente delgadas e frequentemente mal drenadas, encharcam nesse período e as raízes do trigo não têm a possibilidade de crescer em profundidade. O problema é mais grave no Alentejo porque nesta província a Primavera é geralmente muito curta, passando-se rapidamente dum Inverno frio e chuvoso para um verão quente e muito seco. Se as raízes, pelo encharcamento, não puderam desenvolver-se em profundidade e ficam muito superficiais, não conseguem compensar a evapotranspiração e a produção é muito baixa. Se nesse período a chuva não é em excesso e as plantas podem desenvolver as raízes até maior profundidade, conseguem viver em boas condições e dar produções razoáveis ou até boas, nos anos em que a Primavera tem alguma chuva.

 

É baseado nesses resultados que, ao longo dos anos, eu tenho chamado a atenção para a enorme importância da drenagem, principalmente para a cultura do trigo, pois é frequente ver searas alagadas. Um outro aspecto importante é o do estudo de melhores rotações, pois algumas experiências indicam o enorme potencial que daí se pode obter.

 

A lavoura alentejana usava então o charrueco americano, puxado por um macho ou mula para armar em espigoado a terra semeada com o trigo. Depois de muitas experiências, usando componentes de máquinas agrícolas já existentes, o Eng.º Sardinha de Oliveira conseguiu inventar uma máquina, que designou de margiador, para a armação do espigoado. Procurou, para a sua construção, a maior simplicidade e a utilização de componentes existentes no mercado. A base da máquina era um "chassis" metálico, em V, ao qual estavam ligadas por tubos transversais as peças activas. Estas eram molas de grade providas de relhas de cultivador "Planet". Na parte traseira havia um eixo com duas rodas e na parte dianteira, na ponta do V, um "patim maluco". A profundidade a que os ferros trabalhavam era regulável e o conjunto podia trabalhar com 4 ou 6 ferros, dependendo da textura do terreno e da força motriz, que era uma parelha de muares.

Além de ter patenteado a máquina, o Eng.º Sardinha de Oliveira era o próprio construtor e vendia-a pelo preço de 2.400$00. (Estávamos nos primeiros anos da década de 1950).

Como a velocidade de marcha era a mesma do que com o charrueco, isto significava uma enorme economia de geiras e do tempo de sementeira, o que era também muito valioso. Na situação mais desfavorável (quatro ferros apenas) a máquina fazia, portanto, quatro sulcos enquanto os muares dessa parelha, a puxar um charrueco cada um, só faziam dois. O custo da operação, em geiras, era, assim, reduzido a metade (se se usavam quatro ferros) ou um terço (se se usavam seis ferros, com igual redução do tempo da sementeira. Como o custo duma geira andava, nessa época, por 70$00, a economia feita pagava a máquina em pouco tempo de trabalho. Não sei qual era, na altura, o preço de um charrueco, mas lembra-se que a máquina dispensava quatro ou seis desses aparelhos. Tenho ideia de que, na altura, se tinha calculado que a máquina estaria paga com dez dias de trabalho. E deveria contar-se, também, a rapidez do trabalho que, como atrás disse, era particularmente importante para aproveitar a curta sazão.

 

Assisti, com outros funcionários do Ministério da Agricultura, a uma excelente demonstração do trabalho do margiador numa das herdades de Sardinha de Oliveira e publiquei na "Gazeta das Aldeias" (Mota 1953) um artigo de divulgação, ilustrado com as fotos que tirei nessa altura. O ministério nada fez, pois as acções de extensão rural já nessa altura eram bastante escassas. Como então declarei, o ministério devia ter feito um folheto, um filme e uma série de demonstrações para os agricultores para compreenderem o que para a sua economia representava a utilização dessa máquina.

 

A máquina deixou de ter interesse e passou a obsoleta quando a tracção animal foi substituída pelos tractores e as suas novas máquinas

Gostaria de referir ainda um outro trabalho do Eng.º Sardinha. Dum escrito meu sobre esse trabalho, transcrevo:

"Mas a verdadeira paixão do Engº Sardinha de Oliveira eram as máquinas agrícolas, que estudou profundamente e de que nos deixou numerosos escritos.

Em 1959 entrou em vigor o Código da OCDE de ensaio de tractores. Posteriormente, essa entidade publicou os resultados dos ensaios de 50 tractores, efectuados nas condições do código, até 2 de Abril de 1964. Sardinha de Oliveira resolveu relacionar vários desses valores, criando coeficientes, de forma a tornar mais evidentes as principais características.

Perdoe-se-me que conte a história com o que sucedeu com a minha pessoa, mas o caso tem um certo sabor.

Um dia telefona-me o Eng.º Sardinha de Oliveira, dizendo que tinha uma coisa que gostava de me mostrar e convidando-me para jantar em sua casa, no Lumiar. Mostrou-me os resultados das relações que fizera entre diferentes parâmetros e como chegara à criação de alguns coeficientes que ajudavam muito na apreciação das diferentes máquinas. Especialmente um coeficiente que designou Kb mostrava-se particularmente eficiente para o efeito. Esse coeficiente relacionava a cilindrada, o peso do tractor e a potência à barra, segundo a fórmula

(Cl+t) Kb = Pb

em que:

Cl = cilindrada em litros

t = peso em toneladas

Pb = potência máxima à barra

Kb = coeficiente

Pediu a minha opinião e eu tive que lhe dizer:

- Mas, Sardinha, você sabe que eu não sou especialista de máquinas!

- Pois não, mas você é um homem das investigações... - foi a resposta que me deu, com a sua voz e a intonação características.

Cuidadosamente, ainda perguntei:

- Mas isso não está já feito?

- Não - foi a resposta - Eu tenho acompanhado a literatura neste campo

- Então se não está feito parece-me algo de estupendo, magnífico!

- Pois é, também me parece - foram as suas palavras, com grande simplicidade, sem falsas modéstias.

Perguntei-lhe onde ia publicar o trabalho e respondeu-me que o faria na "Lavoura Portuguesa", a revista da vetusta e prestigiada Associação Central da Agricultura Portuguesa, de que Sardinha era o grande responsável.

Torci o nariz. Disse-lhe que era pena e que deveria publicar o trabalho, em inglês, numa revista internacional da especialidade. Disse-me que o iria publicar em português, inglês e francês, como sucedeu (Oliveira 1967).

 

Por essa ocasião e nas suas funções de membro da Comissão de Normalização, Sardinha de Oliveira participou nos Estados Unidos - país onde nunca tinha ido - numa reunião sobre normalização de máquinas agrícolas. Aproveitou a oportunidade para discutir o seu trabalho com algumas das sumidades presentes. Houve um professor, creio que na Universidade de Nebraska, uma das melhores no campo das máquinas agrícolas, que tentou minimizar a importância desse trabalho. Seria, provavelmente, como resultado duma certa inveja, que frequentemente se evidencia quando alguém dum pequeno e obscuro país faz algo de valioso. Mas essa importância foi atestada e exaltada por muitos outros dos ilustres participantes.

 

Sardinha contava-me do entusiasmo do Chefe da Divisão de Tractores da FIAT que não cessava de dizer que isto é "tutto nuovo! tutto nuovo!" E desse senhor me deu um dia cópia duma carta onde não se regateavam elogios.

 

Para terminar quero referir que, anos mais tarde, um especialista, creio que da própria OCDE, fez sobre o assunto um colóquio na Estação Agronómica Nacional, em Oeiras, sem referir o trabalho de Sardinha de Oliveira. Durante a discussão falei-lhe desse trabalho, ao que respondeu, com desculpas, que se tinha esquecido de o mencionar, pois o conhecia muito bem."

 

Quando foi criada, a Estação de Melhoramento de Plantas recebeu sementes de cruzamentos de trigos feitos ainda em Belém pelo Prof. João de Carvalho e Vasconcelos, alguns, creio que em 2ª geração, em Genética designada por F2. Em Elvas, além de novos cruzamentos, foram também estudadas as gerações seguintes desses trigos que, logo que eram seleccionadas algumas linhas que mostravam suficiente uniformidade e, aparentemente, mais valiosa produção, entravam em ensaios, no Departamento que se designava de Adaptação e Multiplicações.

 

Aí foi algumas vezes buscar material, para ensaios que fazia nas suas propriedades, em Monforte, o Eng.º Sardinha de Oliveira, que especificou o seu interesse por novas linhas de trigo que tivessem como progenitores o Mentana e o Mocho de Espiga Branca, dois trigos que tinham mostrado características interessantes na região. Das linhas que ensaiou houve uma que se mostrou particularmente mais produtiva e foi por aquele ilustre agrónomo multiplicada e cedida a alguns outros agricultores. De tal forma se revelou uma excelente cultivar (apesar do seu aspecto não ser famoso) que a sua área de cultura era já significativa, não deixando quaisquer dúvidas sobre o seu valor. E estava a ser conhecido como o trigo do Pirana, da alcunha do senhor José Pires Reigota, o feitor e homem de confiança do Eng.º Sardinha de Oliveira, que com tanto carinho e interesse tomava conta dos ensaios. Quando essa nova cultivar foi incluída na lista oficial dos trigos aprovados para semente, foi decidido dar ao trigo o nome por que muitos já o conheciam: Pirana.

 

O 'Pirana' foi o primeiro trigo lançado na lavoura, na década de 1950, pela Estação de Melhoramento de Plantas. A sua produtividade, superior à das variedades que substituiu, fizeram com que rapidamente se expandisse, principalmente no Alentejo. Não disponho de números da área cultivada com essa variedade nem de quanto, em média, valia mais a sua produção, mas é certamente um número muito alto.

 

Outros trigos se lhe seguiram (Lusitano, Restauração e depois, muitos outros ). Das variedades de forragens, recordo o Grão da Gramicha, o Lathyrus cicera, que também teve grande expansão. Não sei se ainda é cultivado.

 

Tenho pena que não tenha sido posta em prática a proposta que fiz, em 1952, da criação, na Estação de Melhoramento de Plantas, dum pequeno gabinete de estudos económicos cuja função seria avaliar, ano a ano, o ganho para o país como consequência das variedades lançadas na lavoura pela Estação.

 

(continua)

 

Miguel Mota

Estação Agronómica Nacional, Oeiras e Universidade de Évora

 

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2023
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2022
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2021
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2020
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2019
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2018
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2017
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2016
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2015
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2014
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2013
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2012
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2011
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2010
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2009
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2008
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2007
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2006
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D
  235. 2005
  236. J
  237. F
  238. M
  239. A
  240. M
  241. J
  242. J
  243. A
  244. S
  245. O
  246. N
  247. D
  248. 2004
  249. J
  250. F
  251. M
  252. A
  253. M
  254. J
  255. J
  256. A
  257. S
  258. O
  259. N
  260. D