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A bem da Nação

INVESTIGAÇÃO AGRONÓMICA EM PORTUGAL – 2

 

Alguns trabalhos

 

Os tempos mais antigos

 

 

Podemos considerar os primórdios da investigação agronómica em Portugal, em Alcobaça, no trabalho dos monges de Cister, no século XII. Estudados magistralmente por esse grande engenheiro agrónomo que foi Joaquim Vieira Natividade (1899-1968), que lhes chamou "os monges agrónomos do Mosteiro de Alcobaça", mostrou a sua acção a fazer experiências (não se fazem experiências senão para descobrir algo que não é conhecido, ou seja, investigar) e a divulgar as boas práticas entre os agricultores da região, verdadeiras acções daquilo que hoje tem, no mundo, o nome de "extensão rural".

 

Natividade terminou uma conferência que fez em Lisboa em 1942 com uma frase que ficou célebre: "Esses primeiros monges eram agrónomos. E eu, que tão bem conheço as agruras da profissão, ainda hoje não sei, se eles eram santos, por serem agrónomos, ou se eram agrónomos, por serem santos..." (Natividade 1942)

 

No início do século XX

 

O "Diário do Governo" de 22 de Novembro de 1901 publica uma Portaria assinada por Manuel Francisco de Vargas (penso que o Ministro das Obras Públicas, de que dependia a Direcção Geral de Agricultura), em que é ordenado que “nas Escolas Práticas de Agricultura, nas Estações Chimico-Agrícolas e nas de Fomento Agrícola, que pela Direcção Geral de Agricultura forem designadas, se proceda, com as mais adequadas castas de trigo, nacionais e estrangeiras, quer de Inverno quer de Primavera, a operações de mestiçamento artificial ou pollinização e de selecção, com o fim de se obter boas e productivas variedades d’este cereal, adaptadas, quanto possível, às condições dos solos e dos climas do país e às exigências dos consumidores e das indústrias de moagem e da panificação” e “Que nos referidos trabalhos e operações sejam rigorosamente observadas pelos directores dos mesmos estabelecimentos e pelos respectivos inspectores as instruções que, fazendo parte integrante desta portaria baixam assinadas pelo Conselheiro Director Geral de Agricultura”. Seguem-se, no “Diário do Governo”, as “Instruções para os trabalhos de pollinização e selecção dos trigos, a que se refere a portaria desta data”, assinadas pelo Director Geral, Alfredo Carlos Le Cocq.

 

Pode considerar-se notável este início dos trabalhos de melhoramento de trigo, tanto sob o ponto de vista da portaria como das “instruções”. Assim, na primeira logo se determina com precisão o método de “mestiçamento” e selecção, bem como os objectivos da produtividade quantitativa e também qualitativa, esta visando directamente a qualidade para panificação.

 

As “instruções” são um modelo de protocolo de trabalho de investigação – que bem pode ser aproveitado como exemplo ainda hoje! – pois, além de completíssimas, cobrindo toda a marcha do trabalho, descem aos mais pequenos pormenores de importância para o objectivo a atingir. Nelas se citam Hackel, Rimpau, Vilmorin, etc. (embora não se dê a referência dos trabalhos citados) mostrando que quem as escreveu (ignoro se seria o próprio Alfredo Le Cocq) estava razoavelmente familiarizado com a bibliografia. Repare-se que se estava em 1901, isto é, um ano, apenas, após a redescoberta das Leis de Mendel e quando a Genética ainda não se generalizara como ciência básica do Melhoramento e que, tanto quanto sei, apenas seria divulgada em Portugal em 1904 (Sousa 1904). Isso não impediu, porém, que nessas instruções se indicasse, com bastante aproximação, algo parecido com o que hoje consideramos uma selecção genealógica.

 

A ordem dada na portaria de Novembro de 1901 começou a ter execução pelo menos em dois locais diferentes: na Estação Agronómica de Lisboa, em Belém, e na Escola Nacional de Agricultura de Coimbra.

 

Os trabalhos efectuados na Escola Nacional de Agricultura de Coimbra parece não terem passado dum começo, sem qualquer continuidade. O problema foi entregue ao quintanista de Agronomia João da Silva Fialho, que o realizou sob a orientação do Professor José António Ochôa, chefe da secção de culturas arvenses e hortícolas da referida Escola. O trabalho, iniciado nos primeiros meses de 1902, serviu de tirocínio prático e constituiu uma parte da dissertação inaugural apresentada em Dezembro desse ano. Foram seguidas as “instruções” anexas à portaria de 1901 e foram usadas 18 variedades de trigo remetidas pela Direcção Geral de Agricultura à Escola. Doze dos trigos eram de proveniência estrangeira; seis eram nacionais.

 

Fialho semeou 52 canteiros e efectuou 13 cruzamentos, usando nuns casos o método de Shireff e noutros o de Vilmorin. As percentagens de vingamento, por espiga, foram bastante variáveis, indo de 0% a 100%. Na dissertação, de que existe, pelo menos, um exemplar na Biblioteca do Instituto Superior de Agronomia, encontram-se pormenores das variedades cruzadas e dos resultados.

 

Na dissertação inaugural do curso de Engenheiro Agrónomo de Armando Cortesão (Cortesão 1913) refere-se o trabalho de Fialho dizendo que foram feitos cruzamentos e obtidos grãos híbridos, afirmando-se: “mas daí por diante nada mais diz o relatório de Silva Fialho (1)”. E, em nota de fim de página, acrescenta-se: “(1) Por informações colhidas na Escola, soubemos que, devido a uma mudança de secção, no ano seguinte tudo foi abandonado e se perdeu... Sem comentários”.

 

(Se os males alheios e antigos pudessem servir de alguma consolação eu encontraria neles, a mais de cem anos de distancia, um verdadeiro bálsamo. Infelizmente, não considero esses males alheios e antigos senão como indicativos da triste sina desta pobre terra).

 

Os trabalhos realizados na Estação Agronómica de Lisboa (anterior à Estação Agronómica Nacional), iniciados também em princípios de 1902, tiveram maior amplitude e continuidade. Encontram-se relatados no “Boletim da Direcção Geral de Agricultura”, 9º ano, nº 3, (1903-1909).

 

Durante cinco anos (de 1902 a 1906), a partir de trigos nacionais e estrangeiros, tanto rijos como moles, foram efectuados numerosos cruzamentos, na descendência dos quais se efectuou selecção. Vários híbridos foram considerados de certo interesse, mas apenas um, resultado dum cruzamento de Anafil x Galego barbado e denominado Híbrido de Belém, obteve alguma expansão.

 

É curioso que, sendo o Anafil um trigo duro e o Galego barbado um trigo mole, o Híbrido de Belém terá de ter sido proveniente dum pentaplóide. Pelo desenho das espigas deste híbrido que se encontra no referido “Boletim da Direcção Geral de Agricultura”, verifica-se que tem todo o aspecto de trigo mole e deveria ter, portanto, 42 cromossomas. Não me foi possível encontrar dados satisfatórios quanto ás zonas onde ele se tenha expandido nem quanto à área da cultura.

 

Muito pouco tempo após a redescoberta das Leis de Mendel, o agrónomo J. V. Gonçalves de Sousa publicou na “Revista Agronómica” (Sousa 1904) um artigo intitulado “As leis da hibridação segundo Mendel e De Vries”. Nele se referem os trabalhos de De Vries, Correns e Tschermak (este escrito Tschermark) que "exhumaram das Memórias da Academia de Brun, na Morávia, onde estava enterrado e despercebido havia 35 anos, um estudo sobre híbridos feito pelo abade Mendel” e se descrevem com bastante pormenor as experiências de Mendel. Foi esse artigo, embora sem conter qualquer trabalho experimental, o primeiro duma grande série que o sector agronómico viria a produzir no campo da Genética em Portugal. É também este o primeiro trabalho português que conheço referindo e descrevendo as experiências de Mendel.

 

Em 1907 foi publicada a primeira edição do livro “Cultura do Trigo”, de João da Silva Fialho, que teve a sua segunda edição em 1917 (Fialho 1917) e que se manteve como a nossa melhor obra sobre o assunto durante algumas décadas. Nada refere, no texto, quanto a Melhoramento, o que se compreende, dada a índole do livro. As experiências pessoais de João Fialho, no seu Tirocínio, em Coimbra, não tiveram, como vimos, qualquer continuação e os trabalhos de Belém estavam ainda em curso. Mas o livro contém um magnífico Prefácio, assinado por D. Luís de Castro que, para o caso presente, merece referência mais pormenorizada.

 

Começa logo D. Luís de Castro por se queixar do facto de as “imposições do meio”, o “obstáculo que se levanta constantemente em Portugal, ante a marcha dum progresso”, “essa resistência, tosca ou refinada, singela ou complicada, franca ou insidiosa, activa ou passiva – e esta é de todas a pior, vinda do Estado ou de particular, inutiliza ou pelo menos imobiliza todo o movimento para a frente dos novos, em anos ou em animo”. E por isso considera que aquele livrinho é apenas um “excelente resumo dum tratado sobre a cultura do trigo” que o seu “ilustre colega João da Silva Fialho” “podia, sabia e devia dar-nos”. E não nos dá esse verdadeiro tratado porquê? “O nosso público não pede e não quer mais do que esta lição sucinta, ainda que perfeita no seu género. O Estado não subsidia, não auxilia, não publica nem isto quanto mais aquilo”.

 

E mais adiante:

 

“Com este livro presta um serviço. É indubitável. Mas com o outro, de que o Estado o deveria ter encarregado há muito, logo que se evidenciou a tendência notável do autor para essa especialização agronómica, essa que levaria anos a apontar, a metodizar, a arrancar da terra e dos laboratórios, a tornar profunda e eficazmente português, esse poderia transformar a cultura cerealífera em Portugal pela ciência. É extraordinário, é fantástico o susto, o pavor ou a piedade que inspira entre nós esta palavra aplicada à agricultura!”

 

Estávamos em 1907. Como se vê, o problema não é de hoje...

 

D. Luís de Castro faz depois uma descrição da Estação de Melhoramento de Svalöff, na Suécia, com pormenorizada história da sua criação e desenvolvimento, justificando-a do seguinte modo:

 

“Provavelmente a maioria das pessoas que honraram este prefácio com a sua leitura ignora a instituição de Svalöff. Pois vou descrever-lha pois não há exemplo e ensinamento mais proveitoso do que pode a Ciência agronómica no progresso do ofício agrícola”.

 

Depois da descrição do trabalho de Svalöff acrescenta:

 

“Bem sei que na Estação Agronómica, de Belém, se trabalha há alguns anos, por ordem oficial, na classificação e hibridação de trigo, mas esse estudo é tão restrito em face da grandeza do problema, tão isolado de outros estudos superiormente pesados e metodizados, tão misteriosamente feitos por imposições do Estado, que não dá nem licença nem meios pecuniários para se publicar e espalhar a boa palavra porventura colhida, que este facto em nada molesta as minhas afirmações muito mais lamentosas do que indignadas”.

 

(continua)

 

Miguel Mota

Estação Agronómica Nacional, Oeiras e Universidade de Évora

 

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