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A bem da Nação

COMEMORAÇÕES DO 1º DE DEZEMBRO DE 1640

 

 

Na noite de Domingo, 26 de Novembro de 1640, os fidalgos conjurados, reunindo-se na casa de D. Antão Vaz de Almada, assentaram em que a acção, já anteriormente debatida e combinada, devia lançar-se no Sábado, primeiro de Dezembro.

 

Tinha-se procurado a colaboração e o apoio das classes populares, por intermédio do juiz do povo, do escrivão e alguns elementos da Casa dos Vinte e Quatro.

 

Nesta revolução, como na do Mestre de Aviz, o povo iria desempenhar um papel de relevo. É curioso que os nobres, nesses tempos, a despeito da distância que os separava da gente dos ofícios, tinham com eles um trato mais familiar e um respeito mais sincero pelos direitos dos humildes do que a burguesia endinheirada do século XX.

 

E o povo, falando com a dignidade e o desassombro que então lhe apreciavam e que hoje só merece censuras, recordou, por intermédio dos seus representantes, o abandono em que ficaram os populares que se revoltaram no Alentejo e no Algarve. Ainda desta vez não negariam o seu esforço e sacrifício para conquistar a liberdade da Nação, mas exigiam um compromisso formal de toda a nobreza. E esta deu-lho.

 

Seguros deste apoio, sem o qual a revolução cairia no vácuo, procuraram os conjurados a colaboração de algumas individualidades de destaque, a primeira das quais foi o Arcebispo de Lisboa, D. Rodrigo da Cunha, que lhes aprovou os intuitos, assegurando-lhes que não constituía pecado, como alguns receavam, lutar pela desopressão da sua pátria.

 

Um dos elementos aliciados, apenas três dias antes da revolução, o fidalgo D. João da Costa, já com fama de muito culto e eloquente, manifestou alvoroçadamente o seu apoio à causa, não deixando, porém, de pôr em relevo, talvez num tom excessivamente sombrio, os obstáculos quase insuperáveis que seria preciso vencer. Duvidou de que D. João, Duque de Bragança, tivesse os talentos que a situação requeria. Fácil se lhe afigurava colocar-lhe a coroa na cabeça, mas poderia ele depois sustentá-la? Lembrou as forças de que os castelhanos dispunham. Só no castelo, aquartelava-se uma guarnição de quinhentos homens bem armados e equipados. E quantos eram os revolucionários? Uns quarenta fidalgos, que, juntando todos os seus criados, mal somavam duzentas pessoas. Era muito pouco, se os castelhanos descessem do seu reduto para vir impor a ordem na cidade. Não negava o seu esforço (e mais tarde mostrar-se-ia dos mais decididos), Mas parecia-lhe que só por milagre se triunfaria.

 

- E milagres, Senhores, – acrescentou, empolgado pela sua própria eloquência – é justo que se creiam, é bom que se mereçam, mas não é razão que se esperem!

 

Contudo, entendia que se não se devia adiar a acção, porque a demora, traindo o segredo, ainda seria o maior inimigo.

 

Os raciocínios de D. João da Costa arrefeceram o entusiasmo de alguns conjurados. Chegou-se a mandar recado ao Duque de Bragança, pedindo-lhe que ordenasse a suspensão das suas ordens. Mas, reconhecendo-se que já não era tempo de retroceder pois, detendo-se, acabariam por perder-se todos logo que seus intuitos fossem conhecidos dos castelhanos, reanimaram-se e expediram contra-aviso ao Duque, repondo as coisas no primitivo andamento.

 

Só em véspera da data marcada se advertiram muitos dos fidalgos, que entrariam com o ímpeto da sua mocidade em tão arriscada empresa. Duas mulheres se mostraram nesta emergência de mais corajoso e decidido valor do que muitos homens. Foram D. Filipa de Vilhena, Condessa de Atouguia, que ajudou a armar os seus próprios filhos, D. Jerónimo de Ataíde e D. Francisco Coutinho, exortando-os a que se portassem com brio de autênticos cavaleiros e D.Marianade Lencastre, que procedeu de igual modo com os seus filhos Fernando Teles e António Teles da Silva. O amor à liberdade colectiva superou no coração destas mães o instintivo amor maternal.

 

Todos os nobres conjurados – confederados, como então se lhes chamava – deviam achar-se, em suas carruagens, nas proximidades do Terreiro do Paço no dia primeiro de Dezembro. Ao badalar das nove horas, juntar-se-iam imediatamente e iniciariam a acção já planeada nas vésperas em suas linhas gerais e em seus pormenores. Parece que alguns, não podendo ter mão na sua impaciência, chegaram com antecipação demasiada e, saltando das sua carroças – nome que então davam às carruagens – deram em passear nervosamente pelo vasto terreiro que ainda não tinha a configuração que se lhe daria depois do terramoto.

 

Nesse mesmo momento, encontravam-se junto de Miguel de Vasconcelos, a despacho, o capitão Diogo Garcez Palha e Manuel Manso da Fonseca. E, entrando em alvoroço, Gregório de Seixas advertiu o secretário de Estado:

 

- Senhor, vejo na sala dos tudescos e na varanda muitos fidalgos e, no Terreiro do Paço, coches com as cortinas corridas. Se quiserem falar a Vossa Mercê, conviria dar-lhes logo audiência.

 

Ao que Vasconcelos replicou, por claro, na linguagem desbragada que lhe era peculiar:

 

- Quero que vão todos à m... e que me beijem aqui o c...


Desta atitude insolente e grosseira se depreende que a gente de Castela não sonhava sequer o que se estava a preparar.

 

Entretanto, todos os conjurados foram ocupando pelo Terreiro do Paço os postos anteriormente designados. Mal soou a primeira badalada das nove e mesmo antes que soasse a última, lançaram-se os restantes fidalgos para fora das carruagens. Eram quase todos muito jovens e atrevidos, lembrando os Portugueses assomadiços que desbarataram os Turcos no Oriente. Jorge de Melo, Estêvão da Cunha e António de Melo e Castro, com alguma gente sua que os seguia, prenderam de surpresa os soldados castelhanos da guarda, enquanto D. Miguel de Almeida, subindo à sala dos tudescos, disparava uma das imensas pistolas daquele tempo, dando assim o sinal para que cada um acudisse aos pontos estratégicos do edifício previamente combinados.

 

Luís de Melo, porteiro-mor e João Saldanha de Sousa correram pressurosos para a sala onde se guardavam as alabardas dos soldados. Mas já se lhes tinham antecipado D. Afonso Meneses, Gaspar e Brito Freire e Marco António Azevedo, que lançara todas as alabardas por terra e impediram que os soldados se armassem. Alguns deles ainda tentaram defender a porta de acesso ao corredor que conduzia ao forte onde residia Miguel de Vasconcelos. Dois homens resolutos, Pedro de Mendonça e Tomé de Sousa, frustraram-lhes os intentos, investiram furiosamente contra a porta e forçaram os soldados a desocupá-la. E quando correram para outra que dava acesso aos aposentos da duquesa de Mântua, encontraram-na ocupada por Luís Godinho Benavente, criado do duque de Bragança e outros companheiros que tinham já matado um tudesco, ferido outro e posto em fuga os restantes.

Percebe-se que toda a acção fora meticulosamente estudada e se estava executando com uma regularidade e uma precisão quase mecânicas.

 

Entretanto, D. Miguel de Azevedo, já idoso, mas ainda cheio de garbo, andava de espada em punho pelos vastos corredores, a bradar, num vozeirão terrível, - Liberdade, portugueses! Viva D. João, o Quarto!

 

E, sempre gritando deste jeito, assomou a uma varanda do Paço. Os seus clamores atraíram rapidamente ao local muitos curiosos do povo, por entre os quais decerto haveria quem estivesse no segredo da conjura, a esperar impacientemente aquele apelo. A maioria, porém, ignorava o verdadeiro significado daqueles sucessos.

 

Enquanto isto, a acção no interior do edifício prosseguia. D. António Telo, D. João de Sá Meneses, camareiro-mor de el-rei, António Teles, já ferido por uma bala disparada na sala dos tudescos, o conde de Atouguia e seu irmão D. Francisco Coutinho, D. António Álvares da Cunha, D. Álvaro de Abranches, Aires da Saldanha, João de Saldanha de Sousa, D. Gastão Coutinho, Sancho Dias de Saldanha, João de Saldanha da Gama e seus irmãos António e Bartolomeu de Saldanha, Tristão da Cunha de Ataíde, seus filhos Luís e Nuno da Cunha e seu genro D. Manuel Childe Rolim, cruzando de roldão os corredores sombrios, buscavam entrar em casa de Miguel de Vasconcelos.

 

Ao fim de um corredor, encontraram Francisco Soares de Albergaria, corregedor do Cível da cidade, que acabava de sair da secretaria do Estado. Num entusiasmo irreprimível, gritaram-lhe:

- Viva el-rei D. João!

O corregedor, colhido de surpresa, recuou um passo, arrancou quixotescamente da espada e replicou num brado:

- Viva el-rei D. Filipe!

 

Quiseram sossegá-lo, pois não era intento dos fogosos moços causar-lhe dano, mas o homem, muito exaltado, não se aquietava. Tiveram que disparar-lhe uma pistola na garganta, ferimento de que veio a morrer algumas horas depois.

 

Toparam na Secretaria a António Correia, oficial maior, a quem D. António Telo vibrou algumas cutiladas, ao que parece por mera questão pessoal e dirigiram-se tumultuosamente para a porta do escritório de Miguel de Vasconcelos. Apesar de fechada e aferrolhada por dentro, derrubaram-na num ápice. O Secretário, que, ainda minutos antes soltara fanfarronadas obscenas contra os fidalgos, não se via no aposento. Pensaram que se teria escapado para a Casa de Índia, com a qual havia comunicação interior. Mas uma escrava que ali se encontrava, talvez em retribuição das ofensas e maus-tratos recebidos daquele homem intolerável, com um sinal discreto, indicou-lhes um armário de papéis. Abrindo-o, acharam lá dentro Miguel de Vasconcelos, todo encolhido. Estava armado de espada e pistola, que de nada lhe serviram. D. António Telo disparou sobre ele a sua arma. Ferido, ainda saltou do armário. Mas logo o derrubaram a cutiladas. Sobre aquele homem, momentos antes ainda tão poderoso que dele dependia a vida de qualquer português, concentrava-se o ódio de toda a Nação, mais do que sobre os castelhanos, considerados inimigos naturais. Este era, porém, um português, traidor ao seu povo, mais feroz na perseguição aos seus patrícios do que o estrangeiro opressor.

 

Arrastaram-no como um fardo, através do aposento e arremessaram-no ainda vivo, como coisa imunda, pela janela. Em baixo, a populaça recebeu-o com apupos e despedaçou-o, numa feroz sanha de vingança.

 

O capitão Diogo Garcez Palha, que estivera com ele a despacho, foi encontrado numa sala, com uma carabina e pistolas, que ainda disparou sobre os conjurados, errando o alvo. Correram sobre ele e, depois de o ferirem à espadeirada, obrigaram-no a saltar pela janela. Mais feliz que do que o Secretário de Estado, ainda pôde salvar-se com uma perna desconjuntada.

 

(Texto de Mário Domingues, em " O Drama e a Glória do P. António Vieira")

 

Entretanto, outro grupo de conspiradores subiu ao quarto da duquesa de Mântua[1].

 

Eram mais de três dezenas de fidalgos que cruzavam apressadamente os corredores e salas, cheios de penumbra e de eco confuso de suas vozes exaltadas, do tinir dos ferros e das esporas que batiam sacudidamente no lajedo, ao passo precipitado das pernas nervosas. Moviam rapidamente aquelas botas altas da época que subiam até à coxa. Nos chapéus de aba muito larga, tremulavam longas plumas, requintada moda masculina de então. As camisas, em bofes brancos, de tule ou de renda, apareciam por alturas do peito ou do pescoço, a sair de dentro dos casacos largos, apenas apertados na cinta por um grosso cinturão de couro, do qual pendiam longas espadas de grandes punhos em forma de taça. Alguns traziam pelos ombros largas capas que caíam em pregas soltas até aos joelhos, outros tinham-nas deixado nos coches, para se moverem com mais desembaraço. O ideal da gente moça de então era lutar, com a mesma galhardia, por uma grande causa ou por um nada, cortejar a mulher com requintes de delicadeza, beber um almude de um trago com brio ou bater-se em duelo por um sorriso de donzela.

 

 

 

As inúmeras detonações já tinham soado dentro do edifício, os brados coléricos dos atacantes, os lamentos dos feridos e, por fim, a confusa vozearia dos conjurados ao aproximarem-se dos seus aposentos, constituíam advertências terríficas e mais do que eloquentes para Margarida, duquesa de Mântua. O estrondo das portas que iam ruindo sucessivamente no caminho da sua alcova, levaram-na, em pânico, para a varanda que deitava para a capela real, a bradar ao povo que lhe acudisse, àquele mesmo povo que ela tanto desdenhara. Acompanhavam-na, cheios de terror, criados castelhanos e portugueses e algumas pessoas gradas da sua corte que, vendo surgir os revolucionários, logo se renderam, humildes e receosos de perderem a vida.

 

Obrigaram-na, com respeitosas palavras, a abandonar a janela e a interromper a gritaria. Ela então declarou querer sair do palácio. Que a deixassem descer ao Terreiro do Paço. Detiveram-na. Entre altiva e amedrontada, ensaiou ludibriar os revolucionários, exclamando:

 

- Basta, senhores! Já o ministro culpado pagou os delitos cometidos. Não passe adiante o furor, que não merece entrar em peitos tão nobres. Eu me obrigo a que el-rei católico não só perdoe, mas agradeça livrar-se este reino dos excessos do Secretário.

 

Ninguém melhor do que ela sabia que el-rei católico, ou antes o seu ministro Conde-Duque de Olivares, longe de perdoar ou agradecer, aproveitaria o magnífico ensejo para finalmente aniquilar o que ainda havia de mais são e robusto na nobreza de Portugal.

 

No momento em que a Duquesa, ansiosa por se salvar do perigo, fazia aquela promessa que seria a primeira a trair, entrou no aposento o Arcebispo de Braga, um partidário de Castela que bastante auxiliara o opressor a manter o seu domínio sobre os portugueses. Acudiu logo o untuoso prelado, em reforço daquelas promessas vãs, com outras da sua lavra, cuja falsidade era mais do que aparente.

 

Mas a Duquesa, por ser mulher, fora escutada com tolerante cortesia por cavalheiros que não a acreditavam; ao Bispo, como homem, entenderam já não dever o mesmo respeito. Apenas o salvava a sua qualidade de sacerdote.

 


Joaquim Reis



 

[1] Fernão Teles de Meneses, D. João da Costa, D. Miguel de Almeida, D. Antão de Almada e seu filho D. Luís, Pedro de Mendonça, Tomé de Sousa, D. António Luís de Meneses e seu irmão D. Rodrigo de Meneses, António de Saldanha, D. Carlos de Noronha, D. António de Alcáçova, D. António da Costa, João Rodrigues de Sá, Martim Afonso de Melo, Francisco de Melo, Luís de Melo, que fora porteiro-mor de el-rei, e seu filho Manuel de Melo, D. Francisco de Sousa, Rodrigo de Figueiredo, D. Fernando Teles de Faro, Luís de Mendonça, Tristão de Mendonça, D. Tomás de Noronha, D. António de Mascarenhas, Luís Gomes, Francisco de Sampaio, Freire de Andrade e Gilvás Lobo.

 

 

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