Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

CONVERSAS DE ESPLANADA EM LISBOA

 

 

O MAU DA FITA

 

 

Empregado de mesa – Bom dia! Fazem favor.

Eu – Bom dia! Para mim é um café e um croquete.

Ele – E para mim... tem Moscatel ou Favaios?

Empregado de mesa – Temos ambos.

Ele – Então... traga-me um Moscatel, por favor; o Favaios fica para amanhã.

Empregado de mesa – E o café do Senhor é normal, cheio, italiana?

Eu – Normal. E o croquete também.

Ele – Croquete normal?

Eu – Sim, de carne de vaca. É que aqui também fazem de leitão, de peru, sei lá mais do quê... qualquer dia até fazem de baleia, canguru, tubarão ou dinossauro.

Ele – É a crise.

Eu – Qual crise?

Ele – Esta, por que estamos a passar.

Eu – Não estamos a passar por crise nenhuma. Acho mesmo que a crise foi a que nos atirou para o buraco. Agora já não estamos em crise; estamos a tentar sair do buraco para que o despesismo nos atirou.

Ele – Devemos viver em mundos diferentes.

Eu – Não, não, vivemos exactamente no mesmo mundo. Só temos diferenças de semântica.

Ele – Porquê?

Eu – Porque Você chama crise ao «desmanchar da feira de vaidades» em que estávamos e para mim isso é a correcção dos vícios em que muitos tinham caído. Os «vaidosos» e os «viciosos» é que estão a ver a vida a andar para trás e acham-se em crise. Quem conteve o consumo dentro da razoabilidade dos rendimentos próprios, quem se relaciona com o Estado apenas na qualidade de Contribuinte, quem produz bens ou serviços transaccionáveis, não tem motivos de grande preocupação. Mas quem esticou a corda que a banca lhe lançou acumulando créditos à habitação, ao consumo duradoiro e por aí fora; quem perdeu o emprego nalgum dos Sectores de bens não transaccionáveis ou do comércio importador; quem depende do Estado-patrão; quem tirou cursos que não se enquadrem no novo modelo de desenvolvimento... ah! esses têm todas as razões para se preocuparem. Direi mesmo mais: para se preocuparem muito!

Ele – E isso não é crise?

Eu – É uma crise a nível individual, micro económico, não macro. A nível macro estamos a corrigir os erros em que tínhamos caído. O que eu aceito é que se diga que há muita gente com problemas mas esses são uma parte. A outra parte é constituída por todos os que trabalham nos sectores exportadores, por exemplo. Mas há mais...

Ele – E apesar disso tudo, a dívida continua a subir e só se ouve falar em austeridade, austeridade e que a culpa é da Merkel.

Eu – A dívida... qual delas?

Ele – Mas há mais do que uma?

Eu – A pública e a privada. A dívida externa total é a soma de todas as dívidas ao estrangeiro sejam elas do Estado, dos bancos, das empresas e dos particulares. Habitualmente medida pelo PIB, tínhamos no final de Dezembro de 2010 uma dívida externa bruta total de cerca de 230% (396 mil milhões de euros). Mas considerando o valor líquido e não o bruto, ficávamo-nos pelos 104%.

Ele – E hoje?

Eu – No fim de Junho passado tínhamos uma dívida bruta total de cerca de 236% do PIB com a pública a representar cerca de 86% e a banca 62%. Mas em 2006 a pública era de pouco mais de 50% e a dos Bancos rondava os 100%.

Ele – A pública a subir e a da banca a descer. Porquê?

Eu – Porque enquanto o Estado tiver um Cêntimo de défice vai ter que ir aos mercados pedir esse Cêntimo emprestado para cobrir o défice e porque a banca estrangeira fechou a torneira à portuguesa e esta só poderia continuar a funcionar se começasse a amortizar as montanhas de dívidas que tinha lá fora.

Ele – E por que é que o défice público cresceu tanto no primeiro ano deste Governo?

Eu – Porque o Governo anterior praticava uma política de desorçamentação de modo a esconder a realidade e este Governo andou quase um ano só à procura desses buracos para os voltar a meter no Orçamento. E depois veja bem o que para aí vai de discussão política por causa da redução do défice...

Ele – É que essa redução está a ser feita à custa dos pobres enquanto os ricos só fazem é aumentar as fortunas.

Eu – Quais pobres?

Ele – Os que recebem pensões de miséria, os funcionários públicos...

Eu – E quais ricos?

Ele – Os banqueiros.

Eu – Muito bem! Não discuto que o poder de compra de uns e outros é muito diferente. Mas veja lá a «coisa» de outro modo. Cerca de 70% da despesa pública corrente é com vencimentos de funcionários e com pensões. Tudo o resto não passa de 30% e comparadas com as correntes, as despesas de investimento são uma brincalhotice de crianças. Agora imagine que a Nação lhe pedia a si para resolver o problema do défice. Você ia preocupar-se com os 30 ou com os 70%?

Ele – Com os 70%, claro!

Eu – E que fazia? Aumentava ou reduzia o bolo?

Ele – Sim, tinha que reduzir mas cortava nos de cima e não nos de baixo.

Eu – Então isso significa que Você faria exactamente o mesmo que o Governo está a fazer. Os de cima reduzem muito mais que os de baixo e os mais baixos de todos ficam na mesma e nada reduzem. Mas é claro que os jornalistas não gostam de dizer isto.

Ele – E os juízes e outros do género? Já viu as reformas douradas que eles têm? E os políticos?

Eu – E os impostos que essa gente passou a pagar? Disso também os jornalistas não falam... Porquê?

Ele – Porque são da Oposição?

Eu – Sim, também. Mas o mais grave é a falta de seriedade, o mau jornalismo, a desinformação, pugnarem pela criação dum ambiente de crispação. Alguns desses jornalistas estão-se mesmo nas tintas para a Oposição. O que eles querem é vender mais jornais e revistas e isso faz-se com sangue, não com notícias azuis. Sabe o que acho deles? Que são um bando de malfeitores, uns delinquentes. E olhe que fico muito satisfeito ao saber que Você, afinal, faria o mesmo que o Governo está a fazer.

Ele – Não há perigo de eu ir para o Governo.

Eu – Mas ainda não acabámos. Que tal a questão dos ricos?

Ele – Ah!, sim, os banqueiros. Mas com o entusiasmo da conversa vou mandar vir mais um copo. Olhe! Faz favor?

Empregado de mesa – O Senhor chamou? Mais um Moscatel?

Ele – Não, não. Agora vai ser um Favaios, por favor.

Empregado de mesa – Muito bem, trago já.

Eu – Estes tipos não aprenderam nada porque de certeza que não tiveram ninguém que os ensinasse. Um barman ou um empregado de mesa nunca refere «mais um» em voz alta. Ninguém à volta tem nada que saber se Você vai tomar «mais um» ou «mais cinquenta». É «um» que traz e ponto final. A conta que apresenta no final é que há-de referir quantos Você tomou. As Escolas de Hotelaria ainda têm muito que fazer...

Ele – Realmente, tem razão também nisso.

Eu – Mas voltando aos ricos, tenho a dizer-lhe que prefiro não ser banqueiro. Já viu o sarilho em que eles andam metidos desde que o Bill Clinton entornou as finanças todas?

Ele – O Bill Clinton?

Eu – Sim, ele e não a Merkel.

Ele – Vai ter que me explicar isso como se eu fosse uma criança pequena.

Eu – Sim, com certeza. Mas se não se importa, vou deixá-lo tranquilamente a tomar o seu «abafado» e continuamos amanhã. Pode ser?

Ele – Muito bem! Então, amanhã começamos com o Bill Clinton em vez da Merkel.

Eu – OK! Até amanhã. E desculpe esta saída rápida mas tenho a família já à espera.

Ele – Até amanhã.

 

Novembro de 2013

 

 Henrique Salles da Fonseca

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D