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A bem da Nação

CONVERSAS DE ESPLANADA EM LISBOA

 

 

DE FÉRIAS...

 

Eu Bom dia, como está?

ElaOlá, bom dia! Tudo bem. E consigo?

EuTudo bem, felizmente. Então hoje que traz para ler?

ElaNada de especial, um livro cor-de-rosa para fazer de conta...

EuRomance?

ElaSim, de cordel.

EuPortuguês?

ElaEm português mas por tradução do espanhol.

EuCorin Tellado?

ElaO quê, lembra-se dessa?

EuNunca li mas em casa dos meus pais era o que se dava às criadas para lerem.

ElaNão, não é essa Autora mas deve ter-lhe copiado o estilo. Mas em casa dos seus pais punham as criadas a ler?

Eu Sim, claro! As que lá chegavam analfabetas eram convencidas a irem à Junta de Freguesia, a seguir ao jantar, às aulas de alfabetização de adultos. Foram todas!

ElaE aprendiam alguma coisa?

EuSim, sim! Por pouco que aprendessem, pelo menos passavam a distinguir um «A» de um «B». Mas todas aprenderam a ler e a escrever. E ainda foram umas 3 ou 4. Houve uma que até arranjou por lá um namorico e saiu lá de casa para casar.

Outras também acabaram por singrar na vida, umas assim e outras assado, já não me lembro.

Ela E estavam em casa dos seus pais muito tempo?

Eu Normalmente, o suficiente para rumarem por aí fora... casavam, emigravam, eu sei lá! Houve uma época em que o Luxemburgo atraía muita gente. Mas lembro-me duma Maria da Luz que casou com um maquinista da CP de apelido Machado e que, já casados, foram para Moçambique. Curiosamente, foram viver para Vila Machado, ali a meio caminho entre a Beira e Vila Pery, às portas do Parque da Gorongosa. Numa grande viagem através de Moçambique, fiz questão de ir ver Vila Machado só para ter uma ideia do sítio em que eles tinham vivido anos e anos.

ElaE que tal era essa Vila Machado?

EuRazoável. Bastante melhor do que as Minas de São Domingos de que ela era natural. Ele, Machado, não sei de todo donde era. Mas Vila Machado era aprazível e com bastante actividade. E localizada a meio caminho da Beira para a Rodésia, com tantos passantes e com tanta actividade ferroviária, dava para não morrer de tédio. Hoje chama-se Nhamatanda e, pelo que pude ver no YouTube, já viu melhores dias como esse de 1972 em que por lá passei.

Ela E essa sua antiga criada também era analfabeta quando foi para casa dos seus país?

Eu Não, não. Essa sabia escrever muito bem e correspondeu-se sempre com a minha mãe. Quando regressou a Portugal porque o marido se aposentara, foi visitar-nos e depois regressou ao seu Alentejo. Citei-a a propósito das que saíam para casar ou para emigrar. A casa dos meus pais (e já a dos meus avós assim era) servia de trampolim para elas subirem na vida porque as analfabetas aprendiam a ler e as que vinham «da Província» aprendiam a viver numa cidade.

ElaQuer dizer que a casa dos seus pais era uma escola para essa gente.

Eu Se quiser chamar-lhe assim, é simpático da sua parte e não anda muito longe da verdade.

Ela E elas liam Corin Tellado?

Eu Acha que lhes íamos dar os Lusíadas ou Immanuel Kant? As leituras têm que ser apropriadas aos leitores para que a evolução se faça sem quebras de interesse. Se lhes déssemos coisas maçudas, elas deixavam de ler e isso seria o contrário do que nós queríamos. Estou a referir uma época em que nem sequer havia televisão em Portugal e em que à hora do almoço uma parte do país parava para ouvir o teatro radiofónico patrocinado pelo TIDE, que tinha uma cochinha que era a boazinha e punha as criadas todas de lágrima ao canto do olho. Os livros da Corin Tellado eram o prolongamento desse estilo. E elas gostavam, liam, comentavam e lá iam despertando uns neurónios que antes estavam adormecidos...

ElaAcha que os meus neurónios estavam adormecidos por estar a ler este género?

Eu Que ideia! Desculpe a gaffe mas até já me tinha esquecido do seu livro. Mas aproveito para lhe contar uma história: o meu avô, que era um erudito, preferia que as pessoas lessem e vissem os bonecos dos livros do Tio Patinhas do que não lessem nada. Ele dizia – e eu dou-lhe toda a razão – que mais vale ler uma lista telefónica do que adormecer sem passar os olhos por alguma coisa que mexa com as ideias. Adormecer em imobilismo mental degrada o cérebro.

ElaAcha?

EuEstou a ler um livro do Professor António Damásio, «O livro da consciência» e espero aprender alguma coisa que me permita confirmar ou infirmar essa ideia do meu avô. Depois lhe conto... Entretanto, levo sempre comigo um livro para a cama e invariavelmente dou por mim com ele na cara. Só depois dessa cena de verdadeiro «Facebook» é que apago a luz e me viro para dormir. Mas entretanto, o cérebro mexeu, acomodou-se e dormiu.

ElaGostei dessa, a do «Facebook»...

EuE porquê uma leitura dessas?

ElaPara esvaziar a cabeça. Exactamente o contrário das criadas dos seus pais. É que acabei ontem a tradução de um catálogo técnico alemão e estou precisada de leituras opostas àquilo.

EuSim, sim! Um catálogo técnico alemão deve assemelhar-se a um conto ao estilo do Edgar Allan Poe, catacúmbico. E o seu marido também é engenheiro?

ElaSim, mas ele já está reformado. Olhe! Ali vai ele a fazer o seu jogging. Daqui a bocado vem aqui tomar uma água e depois vamos almoçar a casa. À tarde vamos dar um giro com os netos e assim se passa mais um dia de férias de Inverno.

Eu Estamos quase todos de férias...

Ela Eu não estou! Trabalho em casa, aqui na esplanada, onde me apetece, mas trabalho. O meu marido é que já está de férias. Olhe, cá vem ele.

Ele Olá, bom dia! Então a minha mulher já lhe explicou o catálogo todo que esteve a traduzir?

EuBom dia! Não, pelo contrário, temos estado a falar sobre criadas e Corin Tellado.

EleSobre quê?

Ela Não é quê, é quem. Corin Tellado. Era uma escritora espanhola de romances de cordel, parecidos com este que comecei a ler e que os pais deste nosso amigo davam às criadas para se habituarem a ler.

EuSim, para desenferrujarem alguns neurónios. Aprendiam a ler nas aulas nocturnas da Junta de Freguesia e em casa dávamos-lhes coisas por que se interessassem para ganharem hábitos de leitura.

EleE «fizeram» alguma Doutora?

EuCreio que não mas de certeza que os filhos delas não ficaram analfabetos. Sempre pensámos que é muito mais útil combater o analfabetismo adulto feminino do que o masculino. Convencendo a mulher a aprender a ler e escrever, não tarda muito para que o homem a siga para não se sentir ferido no seu orgulho; a mulher instruída educa os filhos de um modo diferente da mulher não instruída. Em «economês», o investimento na educação feminina tem um efeito multiplicador muito maior do que o investimento homólogo no masculino.

Ela É capaz de ter razão.

Ele Sim, acho que sim. E agora a que se dedica? Está ao activo ou reformado?

Eu Estou reformado há quase 10 anos e dedico-me a estudar e a escrever umas linhas... Mas sinto necessidade de mais alguma coisa.

Ela O quê, por exemplo?

Eu Não sei. Apenas me acho um inútil.

EleMas se estuda e escreve, não é inútil de certeza.

EuE se o que escrevo não presta?

EleBem, esse é um risco que todos os escritores correm.

Eu O que sinto que está mal é haver tanto reformado que nada faz. É vê-los nos jardins públicos a jogar à batota de manhã à noite. E eu não vou jogar à batota mas venho aqui para a esplanada ler um ou outro livro, o que em termos de PIB é zero. E é isto que me dana: não ter utilidade, não ter uma missão. Nós, os que nos consideramos a elite nacional, devíamos outorgar-nos uma missão que ajudasse de modo mais ou menos decisivo a tirar-nos do subdesenvolvimento relativo em que ainda nos encontramos.

Ela Um voluntariado?

Eu Sim, por exemplo. Mas em quê? Sabe, teria que ser uma coisa que eu considerasse mesmo útil. Uma coisa que ajude a resolver problema estrutural da nossa sociedade, do país. Essa da educação de adultos seria muito importante mas não tenho as habilitações necessárias. As Universidades para a Terceira Idade também pouco me dizem... Estou assim como que no vazio.

Ele E continuar a exercer a sua profissão?

Eu Isso faço todos os dias na Internet mas não passa de «béu-béu» e «blá-blá». Aliás, no Facebook todos sabem imenso de economia e toda gente atira sentenças para a praça pública. Às vezes irrito-me e zurzo neles. Zangam-se muito comigo, chamam nomes à minha mãe e sinto-me a remar contra a maré dos malfeitores que por aí pululam nos meios de comunicação.

Ela E aceita sugestões?

Eu Sim, claro! Estou ávido delas.

Ele Então a minha mulher e eu vamos pensar no assunto e um dia destes trazemos-lhe uma lista de coisas que o possam motivar.

EuQue bom! Que seja já amanhã que me trazem essa lista.

ElaBem, dê-nos um tempinho para podermos pensar nalguma coisa.

EuFico ansiosamente à espera das sugestões. E quando mas derem, vou publicá-las para que outros se inspirem. Há que pôr os reformados a fazer alguma coisa útil em vez de ficarem a consumir oxigénio até que a morte os leve.

EleBem, parece que está na hora de irmos... Vou tomar um duche depois da corridinha que dei, vamos almoçar e depois vamos entreter os netos enquanto os pais deles estão a trabalhar.

EuMuito bem! Então até à próxima e, de preferência, com a lista de trabalhos para eu sair do nada. E obrigado pela ajuda!

Eles Até amanhã!

 

 

Foi de propósito que não lhes contei que tenho o dia todo ocupado e que só aqui venho à esplanada escassa hora por dia. Puxei-lhes pouco pela língua mas será que ele percebeu que fazer jogging é o mesmo que ir para o jardim público jogar à batota?

 

Por vezes ponho-me a pensar nestas coisas... Platão dissertou sobre a «ética do prazer»; os filósofos cristãos – desde os Santos Padres, passando pelos Doutores e até hoje – pugnam pela «ética do bem»; terá certamente sido a educação prussiana que imperava na sua envolvência que levou Immanuel Kant à «ética do dever». E o que terá sido que nos levou a nós, portugueses, à «ética da madracice»? Porque será que, logo que podemos, nos encostamos a não fazer nada? Porque nada sabemos fazer ou porque somos mesmo madraços? Eis a questão!

 

Lisboa, Novembro de 2013

 

 Henrique Salles da Fonseca

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