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A bem da Nação

CONVERSAS DE ESPLANADA EM LISBOA

 

 

SOL DE INVERNO

 

 

Ele – O Senhor dá-me licença que passe por aqui para ir para a mesa do canto?

Eu – Com certeza, deixe-me só afastar um pouco a minha mesa para que passe à sua vontade.

Ele – Muito obrigado, Cavalheiro. É tão bom estar aqui a tomar um café... Pronto, já cá estou no meu canto do costume. Obrigado pelo “direito de passagem” que me concedeu.

Eu – Por quem é... Sim, é exactamente para isso que também aqui estou: tomar um café e apanhar este Sol de Inverno...

Ele – Isso do «Sol de Inverno» era uma música dos tempos da outra Senhora...

Eu –... cantada pela Simone de Beauvoir.

Ele – De Oliveira, quer o Cavalheiro dizer.

Eu – Mas olhe que era de muito beau voir.

Ele – Sim, tem toda a razão! De muito beau voir.

Eu – Mas também lhe digo que preferia vê-la a ouvi-la. Tinha assim como que uns «arranques sonoros» que me apanhavam desprevenido e me feriam as orelhas.

Ele – As orelhas? Muito bem, sejam as orelhas. Eu seria capaz de referir o interior das ditas.

Eu – Ressoavam-me por todo o pavilhão acústico até aos recônditos dos tímpanos e dos martelos. E para marteladas, prefiro os tímbalos da orquestra do S. Carlos.

Ele – Assentemos, pois, na Simone de beau voir, mieux que d’écouter.

Eu – Sim, fica melhor assim com todos os apelidos. É mais heráldico, como o porte dela, soberbo.

Ele – E que me diz do rio?

Eu – Hoje está que parece uma aguarela do Tomás de Mello.

Ele – Lindíssimo! «Nem uma agulha bulia...».

Eu – Pela citação de Augusto Gil a propósito das aguarelas do Tomás de Mello vejo que não perde tempo com jornais de escândalos nem de facas e alguidares.

Ele – Nem por osmose sei o que esses dizem... Entretenho-me aqui a apanhar este Sol morno a ler um ou outro livro.

Eu – Também trago sempre um livro.

Ele – E que está a ler?

Eu – Olhe! Um livro do Professor Fernando Olavo publicado em 1941 sobre o João das Regras. Escrito para leigos, de leitura fácil, do mais interessante que tenho lido sobre a História de Portugal. Explica muito bem como se fez a transição da Justiça medieval para a da Renascença e, sobretudo, as Cortes de 1385 em Coimbra onde D. João I foi eleito rei.

Ele – A crise de 1383-85 foi um período muito complicado. É por causa dessas e doutras que sou levado a crer que desta de agora nos havemos de safar mais facilmente do que dessas vezes.

Eu – Ah! Sim, de certeza!

Ele – E tem aí alguma matéria que o Cavalheiro não conhecesse?

Eu – Ui! Tantas...

Ele – Posso saber uma?

Eu – Sim! Eu nunca tinha ouvido falar de Diogo Afonso Mangaancha e muito menos da lição que ele deu ao célebre Nicolau de Cusa em Bolonha perante o Papa Eugénio IV em que a assembleia ali reunida no rescaldo do encerramento abrupto do Concílio de Basileia aprovou a tese do nosso compatriota segundo a qual o poder pontifical se sobrepõe às decisões conciliares.

Ele – E o Professor Olavo explica as teses?

Eu – Pois não. É uma pena. Mas o livro ficaria por certo muito pesado se ele transcrevesse a acta dessa sessão que deve estar algures nos Arquivos do Vaticano.

Ele – Também eu nunca tinha ouvido falar desse Manga Larga. Parece a raça brasileira de cavalos.

Eu – Se for à Internet vai encontrar Mangancha em vez do original com dois «aa».

Ele – E mais quê de novidades?

Eu – Toda a argumentação de João das Regras nas Cortes de Coimbra. Sublime. E a actuação do Governo saído da revolução de 1383 com D. Lourenço Vicente da Lourinhã, Arcebispo de Braga, a coordenar a defesa de Lisboa aquando do cerco castelhano e as medidas tomadas para a reposição de níveis de conforto no Erário Público.

Ele – Caramba! Isso deve ser importantíssimo para os dias que correm hoje.

Eu – Importantíssimo não será porque os tempos são mesmo outros mas muito interessante, sim.

Ele – Está-se mesmo a ver que já então foram os ricos a pagar a crise.

Eu – Os nobres tinham fugido para Alenquer com a rainha deposta, Leonor Teles, levando mesmo o pouco que restava do tesouro régio. Os nobres que ficaram pouco ou nada tinham mas a política seguida foi de cunhagem de moeda por fundição do ouro e da prata que o clero foi buscar às igrejas, irmandades e confrarias. Há particularidades interessantíssimas. Quer que lhe leia um pouco?

Ele – Sim, sim, por favor!

Eu – Começa aqui a meio da página 93: «O primeiro foi o problema do dinheiro. Importava descobrir novas fontes de receita. (...) a leal colaboração do Município de Lisboa facilitou a acção do Governo. O Município cedeu-lhe logo as cem mil libras que pagavam de moradia os judeus e os mouros, que lhe emprestaram, além disso, setenta marcos de prata. Em nome do Mestre de Aviz foi dirigido um apelo a todas as pessoas da cidade para contribuírem, por empréstimo, para a defesa nacional, ao mesmo tempo que se dava ordem para ser apreendido todo o dinheiro que procurasse sair clandestinamente de Lisboa, atribuindo-se ao apreensor um quinto da soma tomada. (...) cunhagem de moeda nova de reais de prata de nove dinheiros (segundo a lei) e outra de cinco dinheiros (abaixo da lei) tirando o Governo desta diferença um lucro que cobria as despesas de cunhagem.»

Ele – Portanto, sempre foram os ricos que pagaram a crise.

Eu – Os verdadeiramente ricos tinham fugido não para a Suiça mas para Alenquer, antes de saltarem para Castela. Os que ficaram em Lisboa com os revolucionários ou eram remediados ou pobres. Mas é claro que a emissão monetária foi globalmente séria apesar daquela diferença entre os nove e os cinco dinheiros. E o mais interessante é que o povo atribuiu um sentido místico à nova unidade monetária a ponto de muitos a trazerem pendurada ao pescoço como talismã contra doenças e maus-olhados. E se as pessoas acreditam na moeda, tudo funciona.

Ele – Giro! Dá para tirar alguma conclusão relativamente ao que se passa hoje?

Eu – Como disse, os tempos são muito diferentes mas sempre se pode concluir que se não se obtém a colaboração voluntariosa de quem dispõe dos cabedais, tudo se complica e corre o risco de ruir. Não será por certo contra os mercados que havemos de nos safar e a austeridade tem uma alternativa: chama-se racionamento.

Ele – Convém também reformarmos o Estado deplorável a que chegámos, não?

Eu – Nesse aspecto, posso ler-lhe o que diz aqui na página 256 e seguinte sobre a reforma do Estado que foi feita no reinado de D. João I, sempre com João das Regas na função de Chanceler Mor, ou seja, Primeiro Ministro: «impedia-se a exigência, que vinha da tradição, feita às terras por onde passavam de dar pousada aos fidalgos nas suas digressões e caçadas; punha-se um travão à violência sistemática exercida pelos Senhores sobre o povo rural [a quem impunemente faziam toda a espécie de exigências]; instituía-se o Exército permanente assoldadado pelo Rei e separava-se o poder militar da jurisdição civil que ficava pertencendo exclusivamente à Coroa; criava-se o imposto da sisa para ocorrer às despesas públicas; aumentava-se o imposto predial; estabelecia-se o imposto de transmissão sobre as heranças dos mouros; restringia-se e condicionava-se o sistema das doações dos bens da Coroa; aboliam-se as servidões pessoais para os filhos dos lavradores; reformava-se a “Lei das Sesmarias” de forma a atingir o domínio sem afectar a liberdade pessoal; acabava-se de vez com a parcelação da soberania dos senhorios e honras com inerência de poderes arbitrários e de contingentes de vassalos. O Rei era o único poder soberano e a vassalagem um apanágio exclusivo da realeza.» É claro que tudo era muito mais autocrático do que hoje em que os temas devem ser democraticamente debatidos mas se as Oposições não querem sequer ouvir falar no assunto...

Ele – Nem nesse nem na revisão da Constituição.

Eu – Pois foi isso tudo que fez João das Regras. Mas a “Lei Mental” acabou por só ser publicada no reinado de D. Duarte já com estes actores todos fora de cena, mortos de velhice. Mas agora, se não se importa, tenho que ir andando pois já tenho a família à espera. Vem cá amanhã?

Ele – Se for para continuarmos esta conversa, venho de certeza. E se não chover, claro!

Eu – Muito bem! Então, até amanhã se não chover.

Ele – Até amanhã e muito obrigado por este bocadinho.

 

Nota final: no dia seguinte choveu.

 

Novembro de 2013

 

 Henrique Salles da Fonseca

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