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A bem da Nação

AS ESTAÇÕES DE MINHA INFÂNCIA

 Ficheiro:Estrada tipica dos Açores, caminhos de hortensias, Interior da ilha Terceira, Açores, Portugal.jpg

 

Mesmo depois de passados tantos anos, ainda guardo na memória imagens de minha infância de uma forma indefinida, mais sentida que visualizada. O mar dos Açores de um azul-cobalto, profundo, nos dias claros de sol; de cor pesada e escura como chumbo, com picos de espuma, nos dias de vento e chuva. O omnipresente Pico, ilha montanha, com seu chapéu de nuvens brancas, em frente ao Faial. O delicioso cheiro de baunilha que vinha da antiga sorveteria do rés-do-chão do Hotel da esquina do Largo do Infante, na cidade da Horta. A bela marina cheia de barcos aventureiros, chegados do mundo inteiro, que ali aportavam e ainda aportam para descansar. O famoso Café do Peter, que guarda nas suas paredes recados e mensagens daqueles que passaram por lá. Os trabalhos de gravação em ossos de baleia (cachalote). O Castelo de Santa Cruz, o Monte da Guia, a praça do Relógio... Mas o que mais me toca e que ainda percebo como se por lá estivesse são os sentidos gravados na minha mente. O barulho "crocante" que ecoava dos meus pés de criança ao pisar as alamedas de macadame da Praça da República. O som da engalanada filarmónica tocando no Coreto da praça nos dias de festa. A doçura dos figos bico-de-mel, das negras uvas, das peras, o perfume das ameixas, das amarelas laranjas expostas no Mercado da Cidade. Nos campos, bardos de exuberantes hortênsias fazendo cercas e arrematando caminhos. Nos pastos, sempre verdes e frescos, vaquinhas de pelagem malhada e úberes cheios pastando dolentes, satisfeitas.

 

As casas branquinhas, caiadas todos os anos, portas pintadas de verde, janelas resguardadas com cortinas de renda. Nos jardins multicoloridos e bem cuidados, uma profusão de ervilhas-de-cheiro, dálias, cravos, gerânios, amores-perfeitos encantavam a vista e davam paz à alma. Nos prédios de maior vulto e importância, pedras negras, basálticas, engenhosamente trabalhadas eram estrategicamente colocadas delimitando pórticos e entradas de Quintas, palacetes e Igrejas. Os Impérios do Espírito Santo, ricamente decorados, espalhados pelas freguesias eram o testemunho da vocação religiosa dos povos da Ilha. No cimo da Caldeira, a boca adormecida do vulcão servia como ponto turístico e lazer para a juventude mais aventureira.

 

Era um tempo de infância, de vida inconsequente e singelas alegrias. Na Quinta de minha avó Alice, canadinhas pedregosas ladeadas por pés de amoras silvestres e floridos morangueiros ofereciam suculentos frutos à sempre faminta criançada. Seguíamos enfileirados, liderados pelo paciente e bem-humorado vovô Camilo. Piqueniques debaixo das árvores, banquetes de melancia, espigas de milho verde assadas, castanhas cozidas. De volta pra casa, banho morno em tinas de tábuas de madeira, para depois jantar um nutritivo prato de papas e deitar cansados, mas felizes.

 

O Verão era tempo de muitas actividades e trabalhos. “Ajudar” meus pais a fazer geleias de maças com tomate, de nêsperas, e de amoras silvestres, para os tempos de carestia frutífera, raspando com os dedos as sobras do tacho. Banhos de mar, brincadeiras na terra enquanto papai, depois que chegava do trabalho, plantava no terreno que ficava atrás da casa. Pescarias, passeios na Ponta da Doca, na Rua Beira-Mar, tomar "gelados" no Largo do Infante. Visitas aos parentes da Praia do Almoxarife, quando as irmãs do tio padre Avelar ofereciam deliciosos biscoitinhos de nata, enquanto os pequenos se entretinham na janela da sala procurando pela luneta os navios e barcos aventureiros que seguiam a rota que ia do Continente Português à América. Assistir o hóquei em patins no Sporting Clube da Horta encarrapitados no muro da casa dos avós da minha amiguinha, Líbia Maria, as festas...

 

Em Setembro, nos dias de mar calmo e ar sereno, atravessávamos o Canal e no Pico íamos com meus tios às vindimas. Chupava-se uvas até arrebentar ou dar dores de barriga... Quando à noite a lua surgia brilhante e clara voltávamos, a pé, para casa aos acordes do bandolim, ou em cantoria.

 

No Faial, após a colheita e a secagem do milho, no final do Outono, havia os tão esperados serões na Casa do Leão, onde morávamos no início da década de 50. À noite, a família se reunia para desfolhar e debulhar o milho. Enquanto minha bisavó, uma picarota baixinha, roliça, de saia e camisola longas, sempre vestida de preto, como rezava o costume da época para as viúvas, lia sucessos literários como

As pupilas do Senhor Reitor, A Toutinegra do Moinho, A Dama das Camélias, Os Três Mosqueteiros,... Facto que me intrigava pois embora ela lesse com fluência não sabia escrever! Talvez porque o papel e lápis fossem materiais raros e difíceis de obter nas ilhas açorianas naqueles finais do século XIX. Enquanto os adultos trabalhavam ouvindo os romances que estimulavam a imaginação e consolavam os corações com palavras de amor, suspense e drama, as desassossegadas crianças subiam e desciam as montanhas de maçarocas de milho num jogo lúdico sem fim. Vez por outra, alguém gritava; achei o milho rei (aquele de grãos vermelhos)! Então recebia um beijinho como prémio. Ao final da lida o milho era ensacado, distribuído, vendido, ou guardado para dar aos animais nos tempos de carestia.

 

Quando o Inverno chegava, os porcos engordados durante o ano eram sacrificados. Naquelas ocasiões, eu me escondia e assustada tampava os ouvidos penalizada com os gritos dos animais que, sangrados até a morte, iriam nos dar a banha, a carne e os enchidos que nos sustentaria durante o frio. Nas vésperas das festas natalinas, pinheiros comprados na estrada da Caldeira eram enfeitados com quinquilharias e nozes ocas, recobertas por papel prateado dos chocolates degustados durante o ano inteiro. Nas salas, presépios ornados com fitas, camélias, laranjas, tapetes verdes de germe de trigo, honravam o Deus Menino, Nossa Senhora e São José.

 

Meu passado açoriano é isso ; um imenso e saudoso canteiro de sabores, odores e cores de tempos felizes que guardei pra sempre na minha memória e que hoje em terra distante relembro e conto para meus netos brasileiros, como uma jóia rara.

 

 Maria Eduarda Fagundes

 

Uberaba, 13/11/13

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