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A bem da Nação

VIAGEM NO TEMPO

 

 

O texto de Camilo Castelo Branco, apresentado por Joaquim Reis – “História Ignota”, tem um interesse de actualidade, nestes tempos de catástrofes nas zonas do Pacífico, que incriminam os homens com as suas descobertas causadoras das modificações no planeta, mostrando que tais desastres são provavelmente resultantes das transformações que a Terra vai sofrendo no seu percurso de tantas eras e de tantas convulsões.

 

Foram onze os terramotos havidos em Portugal até o desastre 1755 e grande a indiferença dos que os poderiam ter referenciado.

 

A referência de Camilo a Garcia de Resende e à sua “Miscelânea”, para além do visualismo e dramatismo da descrição da tragédia que eu desconhecia, limitada que fui, profissionalmente, às poesias palacianas que ele compilou no seu “Cancioneiro Geral”, suas e de contemporâneos, com as “Trovas à morte de Inês de Castro”, primeiro texto sensível ao drama sucedido um século e meio antes, tão valorizada posteriormente, me levaram a procurar na Internet tal documento e adaptá-lo, segundo a ortografia anterior ao Acordo Ortográfico de 1990.

 

Encontrei a análise seguinte:

 

 

Miscelânea de Garcia de Resende, e variedade de histórias, costume, casos, e cousas que em seu tempo aconteceram


Integrada na segunda edição do Livro das Obras de Garcia de Resende, e escrita provavelmente nos mesmos anos em que redigiu a Crónica de D. João II, entre 1530 e 1533, a Miscelânea, dedicada a D. João III, relembra, em verso, os grandes acontecimentos e protagonistas da história europeia e portuguesa ocorridos entre meados do século XV e primeiros decénios do século XVI.

 

Reflectindo o processo histórico-cultural que acompanhou o nascimento da idade moderna, o autor da Miscelânea assume-se como espectador das inúmeras transformações políticas, económicas, sociais, morais, de modas, de costumes verificadas nos últimos oitenta anos: as viagens de descoberta, a constituição de impérios, a emergência do capitalismo, o desmoronar do sistema feudal, o desenvolvimento da cultura palaciana, a ascensão de novas classes dominantes e novos valores, o aparecimento da imprensa, etc. Aí, a lógica da mudança obedece à sucessão de novidades contrárias:

 

Vimos rir, vimos folgar,

Vimos coisas de prazer,

Vimos zombar, apodar,

Motejar, vimos trovar

[...]

E depois vimos cuidados,

Paixões, descontentamentos,

Muitos malenconizados,

Muitos sem causa agravados

(...)

Vimos muito espalhar

Portugueses no viver,

Brasil, ilhas povoar,

E as Índias ir morar,

Natureza lhe esquecer:

Vemos no reno meter

Tantos cativos crescer,

E irem-se os naturais,

[...]

 

A enumeração das histórias, "costumes, casos, e coisas" acaba, deste modo, por redundar na constatação de uma desordem, evidenciada, por exemplo, pela arbitrariedade da recompensa de serviços, pois

Mui mal se pode sofrer

Com siso, nem paciência,

Ver a uns muitos valer

Sem esforço, sem saber,

Virtudes, nem eloquência,

E ver outros que isto têm,

E sempre serviram bem,

Viver sempre “mesterosos”,

Sem favor, e desgostosos

Da grande sem razão que vêem.

 

Confluindo na temática do desconcerto do mundo, resolvida na crença de que só a fé em Deus dá sentido à mudança, a Miscelânea nasce, por outro lado, do desejo humanista, já enunciado no prólogo ao Cancioneiro, de registar em vulgar todos os feitos que, mau grado a sua "mundana glória", não devem ser esquecidos.

 

Tal, pois, como no “Prólogo do Cancioneiro Geral” onde, em prosa, Garcia de Resende se propõe divulgar tantos escritos num país que, vivendo a sua epopeia, se esquece de coligir tantos brincos que constituem as poesias palacianas em redondilha, sucedâneas da poesia trovadoresca, também neste “Prólogo da Miscelânea” sobressai o propósito difusor dos casos ocorridos no tempo, a que não falta a intenção crítica não só pela incúria e indiferença dos portugueses em os apontarem, como pelos desconcertos de um mundo regido pela injustiça. Outrora como agora.

 

Prólogo da Miscelânea de Garcia de Resende

 

SENHOR

 

As perdas, nojos , doenças

E fortunas têm remédio;

Mas quem deixa perder tempo

Nunca o mais pode cobrar:

Eu, neste em que me vi

Descontente e ocioso

E fora de ocupações,

Não de paixões e cuidados,

Me ocupei em cuidar

E recolher à memória

As muitas e grandes coisas,

Que em nossos dias passaram

E as novas novidades,

Grandes acontecimentos,

E desvairadas mudanças

De vidas e de costumes,

Tantos começos, e cabos,

Tanto andar e desandar

Tanto subir e descer

Tantas voltas más e boas,

Tanto fazer, desfazer

Tanto dar, tanto tomar

Tantas mortes, tantas guerras

Tão poucas vidas e pazes,

Tanto ter, tanto não ter,

Tantos descontentamentos,

Tantas e vãs esperanças,

Tanto mal, tão pouco bem,

Tanto favor, desfavor,

Tanto valer, desvaler,

Tanto prazer, tantos nojos,

Tão pouco dar por virtudes,

Tantos falsos e mentiras,

Tão pouca fé e verdade,

Tantos soberbos e baixos

Tanto saber sem dar fruto,

Tantos simples e errados,

Tão poucos os que acertam,

Tantos serviços em vão,

Tanto medrar sem servir,

Tanto soltar e prender,

Tantos enganos e modos,

Tantos bons sem galardão,

E tantos maus sem castigo

Conselhos sem caridade,

Ingratidões sem razão,

Cobiças e pouco amor,

E amizades fingidas,

Tão perseguida a igreja,

De cristãos mais que de mouros

Tanto trabalhar por vida,

Tão pouco por bem morrer,

Tantos avaros tiranos

Tantos cuidados do mundo

Tantos descuidos de deus

Por coisas que hão-de acabar.

E quem verdadeiramente

Estas coisas bem sentir,

Verá que em muitos tempos

Nunca tais aconteceram.

Quando, Senhor, me lembrou

Tão magno número delas

E tão grande esquecimento

Que poucas vemos escritas,

Me pareceu que erraria

Não as pôr em lembrança,

E também outras pequenas

Que são dignas de notar:

E tanto foi o desejo

Que tive de o fazer,

Que me esqueceu de quão pouca

Suficiência tinha.

E porque tamanhos casos

Me fizeram ter em pouco,

Quanto o mundo agora pode

E quanto pode poder

Determinei de sofrer,

De ouvir antes glosadores

Que deixar escurecido

O que devia ser claro.

E pois muitos gostam de ver

Livros, fábulas antigas,

A que por autoridade

Dos escritores dão fé,

Muito mais devem folgar

De ler estas, que tão certo

Todos sabem, e alguns viram

Que esquecidas estavam:

Mas a natureza é tal,

Que poucos querem ouvir,

Nem aprender nem saber

Coisas certas nem verdades;

E mais, vendo esta obra

Escrita por quem carece

De linguagem, de doçura

De saber, graça, eloquência,

E em estilo tão baixo

Que vossa Alteza só

Com seu favor lhe não vale

Bem é vão o meu trabalho.

 

 

 Berta Brás

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