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A bem da Nação

D. LANÇAROTE VICENTE DA LOURINHÃ

 

Dom Lourenço Vicente, Filho e Senhor da Lourinhã Arcebispo de Braga e Primaz das Espanhas 

 

D. Lourenço, o Lançarote Vicente da Lourinhã, é seguramente uma das figuras mais curiosas da nossa História e, contudo, atraindo sobre si um amplíssimo esquecimento se não mesmo puro desconhecimento.

 

Clérigo, guerreiro e jurisconsulto, dirigiu a acção do clero durante toda a revolução de 1383, teve actuação relevante nas Cortes de Coimbra em 1385 e saiu da batalha em Aljubarrota com a cara traçada por um gilvaz.

 

Cónego em Lisboa, nomeado pelo rei D. Fernando, era homem de rara cultura: depois de ter cursado nas Universidades de Montpellier, de Toulouse e de Paris, fora a Bolonha receber as lições dos Mestres de Direito, nomeadamente dos discípulos de Bardo e dos homens da glosa.

 

Seguiu-se a nomeação de Bispo do Porto e a seguir a de Arcebispo de Braga. As desavenças que teve com o Bispo de Silves, D. Martinho, cismático a favor do Papa de Avinhão e apoiante do Conde de Andeiro, ficaram memoráveis nos anais da Igreja e por virtude das quais a regente, Leonor Teles, o depôs da sua cadeira arquiepiscopal. Mas D. Lourenço não se conformou, foi a Roma e obteve do Papa Urbano VI a revogação da sentença de destituição. Reintegrado na liderança da sua Arquidiocese, retomou a luta contra os cismáticos e orientou o Clero português durante a crise nacional de 1383-1385. Nas Cortes de Coimbra coube-lhe pronunciar o discurso inaugural de aclamação do Mestre de Avis como Rei de Portugal.

 

Poucos dias depois da batalha em Aljubarrota, escrevia ele a D. João de Ornelas, Abade do mosteiro de Alcobaça:

 

Dom Abade, Senhor e Amigo

Desde a outra semana que Deus andou connosco contra os cismáticos, não tenho sabido mais de vós; aprouve a Deus e a Santa Maria, Sua mãe, que as ribeiradas do meu gilvaz estejam já vedadas e os mestres vão de bem a melhor; eu o sinto bem, que se vierem cá outra vez, darei e levarei outra pela mesma requesta e, crede vós, bom Amigo, que quem esta pespegou não se ficou a rir nem irá contar em Castela aos soalheiros o cruzamento da minha cara.

Ontem tive letra e mensagem do Condestável que me fazia saber que el-rei de Castela estivera em Santarém e andava como desvairado, maldizendo a sua vida e jurando pelas barbas. Na verdade, bom Amigo, melhor é que o faça ele do que fazermo-la nós, porque homem que as suas barbas arrepela, mór sabor fará das alheias.

Também ouvi outro dia que ele se ia embarcar na frota que jazia sobre Lisboa, por não levar caminho de terra; se ora os ventos lhe fizessem por água o que cá lhe fizeram por terra, de bom fadário nos livrariam. Mas de uma maneira ou doutra, vai ele de forma que não tornará tão depressa a ouvir as sinetas do vosso mosteiro.

João Vaz de Almada e Antão Vasques, seu irmão, estiveram aqui Domingo juntamente com Mem Rodrigues e foram para Lisboa a ver a melhor maneira de estorvar os castelhanos que estão na frota mas eu disse-lhes que se estes não fossem de cá enxotados de jeito, que iriam pela força.

Quando eu vinha para cá, por míngua do sangue que não queria parar, vos disse eu que tivera outra vegada por estas partes e já cobrara o ouvir que por uma porrada tinha perdido. Agora seja Vossa Mercê de mandardes dessas vossas coutadas, por onde melhor se puder haver e no que vos for prestadio, sempre serei a vosso mandar.

Feita a vinte e seis de Agosto.

 

No casamento de D. João com D. Filipa de Lencastre acompanhou a noiva e abençoou o tálamo real.

 

Pacificada a Nação, regressou a Braga tendo-se dedicado à sua Arquidiocese até à data da sua morte, em 1398.

 

Na Lourinhã, sua terra natal, mandou edificar a Igreja de Santa Maria onde, supostamente, estarão sepultados os corpos de sua mãe e de sua avó. Terá sido também sob a sua influência que surgiu na Lourinhã a leprosaria de Santo André.

 

E quem mais souber, venha cá contar.

 

Novembro de 2013

 

 Henrique Salles da Fonseca

 

 

 

BIBLIOGRAFIA:

Wikipédia – «Lourenço Vicente»

Carlos Olavo – «JOÃO DAS REGRAS – JURISCONSULTO E HOMEM DE ESTADO», Livraria Editora Guimarães & Cª, Lisboa, ed. 1941, pág. 85 e seg.

 

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