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A bem da Nação

De D. António a D. Januário

 

 

Uma das bandeiras da “oposição” (uma mistura heterogénea, que ia de monárquicos a comunistas) tinha sido o então bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes. Espírito superior, mentalidade aberta e pessoa consciente dos males da governação, falara e escrevera o que sentia, criticando o que estava mal.

 

Achavam os governantes de então que a igreja não tinha que se meter onde não era chamada e D. António foi exilado para fora do país.

 

Clamavam os da oposição que a Igreja tinha todo o direito de denunciar o que estava mal e que a liberdade era para todos e um bem universal.

 

Diga-se de passagem que, quando D. António Ferreira Gomes regressou a Portugal, depois do 25 de Abril, não ficou nada satisfeito com o que viu e assim o declarou. Estavase naquele período em que a ditadura relativamente moderada do antigamente tinha sido substituída por outra pior, mais dura e intransigente, do Partido Comunista, com o seu testa de ferro Vasco Gonçalves. Polícia política, prisões arbitrárias, rigorosa censura a dominar a comunicação social, completo domínio da máquina do estado e, o que mais interessava ao “sol da terra”, a que obedeciam os (es)cravos vermelhos, a entrega do Ultramar Português aos grupos (alguns minúsculos) manipulados por Moscovo, com atropelo de todas as promessas e de todas as regras democráticas.

 

Mesmo depois desse período negro, sem atingir a democracia, o país ficou-se por uma partidocracia fanática, com um sistema - que designo por “partidismo” – em que um número reduzido de senhores decide, ditatorialmente, quem é que os cidadãos podem “escolher” para os representar. E podem fazê-lo sob a forma de “listas”, por distritos, listas cuja ordem não pode ser alterada, o que dá, especialmente aos candidatos das listas dos distritos grandes e com muitos mandatos, a confortável certeza de que não podem deixar de ser eleitos! Depois de todas essas limitações, já não há problemas em dar “liberdade” para os cidadãos votarem, ou seja, meterem na urna o papelinho com a lista que – do mal o menos – consideraram “menos pior”.

 

Para muitos sujeitos, enquanto estão na oposição, democracia e liberdade são bens universais que não podem sofrer restrições. E por isso tanto apoiaram D. António.

 

Mas quando esses sujeitos chegam ao poder, tudo muda de figura. Democracia e liberdade passam a ser algo incómodo.

 

Um outro bispo, D. Januário Torgal Ferreira, neste ano de 2001, levantou a voz para fazer críticas e denunciar a incompetência do Governo. E logo se ouviram vozes dos tais pseudo-democratas a protestarem e a declararem que a igreja não tinha nada que se meter nesses assuntos. O que era óptimo em D. António passou a ser péssimo em D. Januário!

 

Para os que têm espírito de ditadores e que só clamam contra as ditaduras porque querem é a deles, a democracia passa a ser uma maçada logo que atingem o poder. Os portugueses deviam meditar sobre estes factos e tirar as devidas conclusões.

 

Miguel Mota

Investigador Coordenador e Professor Catedrático, jubilado

 

Publicado no “Correio da Manhã” de 1 de Julho de 2001

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