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A bem da Nação

A I Travessia Aérea do Atlântico Sul

 Ficheiro:Gago Coutinho e Sacadura Cabral.jpg

 

Em 1922, quando a aviação estava ainda na sua infância, dois oficiais da Marinha Portuguesa, o Capitão Tenente Artur de Sacadura Cabral (piloto aviador) e o Capitão de Mar e Guerra Carlos Viegas Gago Coutinho (navegador) levaram a cabo a I Travessia Aérea do Atlântico Sul. Considero essa Travessia o feito maior dos portugueses no século XX. Mas, por uma incrível incapacidade dos governantes - e um tanto. também, da quase totalidade dos portugueses - o mundo desconhece esse feito enorme, ao mesmo tempo heróico e científico.

 

O caso é tanto mais chocante porque todo o mundo conhece o feito de Lindberg, importante, sem dúvida, mas cem vezes inferior ao de Sacadura Cabral e Gago Coutinho.

 

 

 

O voo dos nossos aviadores foi cinco anos antes do de Lindberg e costumo comparar a evolução dos aviões, nesse tempo, com a que se verifica actualmente com os computadores. Lindberg não fez propriamente navegação. Utilizou apenas uma bússola e, saindo da América, nesta direcção, se o motor não parar, chega-se, certamente, ao "lado de cá".

 

Os nossos aviadores, dois excelentes geógrafos, inventaram métodos que permitiram, pela primeira vez, navegar pelo ar com a mesma segurança com que se navegava no mar. Métodos depois utilizados pela aviação de todo o mundo, até que o rádio veio dar melhores possibilidades. O caso mais espantoso foi o da etapa de Cabo Verde aos Penedos de S. Pedro, minúsculas ilhotas, a maior das quais com uns escassos 200 metros de comprimento, atingidos com toda a precisão depois de mais de 11 horas de voo sobre o mar.

 

Na época, a importância do feito foi bem reconhecida, não só em Portugal e no Brasil, mas também nalguns países estrangeiros.

 

Sacadura Cabral e Gago Coutinho foram convidados a fazer uma conferência na Sorbonne, a prestigiada universidade parisiense.

 

Muito justamente, os dois aviadores foram promovidos por distinção ao posto imediato, Sacadura Cabral a Capitão de Fragata e Gago Coutinho a Contra Almirante.

 

Em 1969, por não haver, em Lisboa, qualquer monumento que mostrasse às pessoas esse enorme feito, publiquei um artigo de jornal ("Um monumento necessário", Jornal do Comércio de 8 de Junho de 1969) em que sugeria que se fizesse um monumento, constituído por um plinto sobre o qual repousasse uma réplica, em tamanho natural, do hidroavião Santa Cruz, que terminou a Travessia. Em painel ao lado se mostraria o mapa da viagem, com as respectivas datas. Mais de vinte anos depois, tive o prazer e a honra de fazer parte da comissão que conseguiu erigir, em Belém, a poucos centos de metros do ponto de partida para a Travessia, aquele belo monumento, que mostra, às muitas pessoas que o admiram e fotografam, como dois aviadores portugueses foram, há 85 anos, pelo ar, até ao Brasil.

 

 File:Monumento a Sacadura Cabral e Gago Coutinho, Belém - Mar 2010.jpg

 

Dois factos recentes são particularmente vergonhosos para os dirigentes deste País:

 

- Quando, em 1997, passavam 75 anos sobre o que, como disse, considero o feito maior dos portugueses no século XX, o governo (apesar de ter recebido uma proposta nesse sentido) ignorou completamente o que deveria ter originado uma enorme celebração nacional;

 

- A Expo 98, até porque tinha como tema os "Oceanos", ignorou totalmente esse acontecimento e desperdiçou uma das melhores oportunidades para ensinar ao mundo que, em 1922, dois portugueses cometeram um dos maiores feitos da aviação mundial.

 

Alem da presença do Santa Cruz, o hidroavião que terminou a Travessia e que se encontra no Museu de Marinha, ou uma réplica, em tamanho natural, como a que se encontra no Museu do Ar, a Expo 98 deveria ter tido uma série de grandes painéis sobre a Travessia, complementados com livros e filmes, muitos deles da época, para mostrar ao mundo esse enorme feito dos portugueses, ligando pelo ar os dois lados dum oceano. Em matéria de publicações, deveriam ser feitas reedições, com traduções, pelo menos, em inglês, francês e espanhol, de vários bons relatos desse feito. Lembro, por exemplo, esse magnífico nº 254, de Dezembro de 1959, da “Revista do Ar” (do Aero Club de Portugal), que muitos desconhecem. Devia haver abundante documentação das provas da repercussão enorme desse feito na altura, como as manifestações populares, em Portugal e no Brasil (de que há filmes de cinema), a conferência que os dois aviadores foram convidados a fazer na Sorbonne, etc. etc. etc.

 

Essa espantosa omissão, fruto da incompetência dos responsáveis, talvez não possa ser corrigida pois não está à vista, para futuro próximo ou longínquo, uma oportunidade tão boa para mostrar ao mundo esse feito enorme dos portugueses. É muito triste!

 

Miguel Mota 

(antigo piloto de aviões e de planadores)

 

Publicado no “Jornal de Sintra” de 4 de Janeiro de 2008 e no "Jornal de Oeiras" de 22 de Janeiro de 2008

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