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A bem da Nação

Uma “Jeanne d’Arc” que o mundo protegeu

 

Em Coimbra havia uma República de Estudantes – suponho que permanece – chamada PRA-KYS-TÃO, que não funcionava de modo diferente das outras Repúblicas – uma rapaziada alegre e brincalhona que ia cumprindo os seus programas de vida conforme as pretensões de cada um. Era malta comunitária, entregue a si própria, centrada na vida académica de praxes, deveres de estudo, lutas políticas alguns deles… Mas o nome PRA-KYS-TÃO, que no seu trocadilho inflecte para um posicionamento de ironia resignada muito à portuguesa, não sei se de facto corresponde antes, na sua designação, a uma atitude política de dissimulada malícia dos rapazes dos anos cinquenta e sessenta que conduziu à conquista de ideais libertadores dos anos setenta. Não tem a ver com histórias paquistanesas - nos meus tempos de Coimbra era Hailé Selassié o motivo dos trocadilhos políticos orientais, em carros festivos da Queima das Fitas - mas foi uma história paquistanesa que me trouxe à memória a República coimbrã – a história de Malala Yousafzai

 

 

Vem na Revista Expresso de 26 de Outubro – “Na Casa de MALALA” - contada por Paulo Anunciação, casado com Christina Lamb, a escritora do livro “I Am Malala”, a pedido desta menina célebre, baleada pelos Talibãs, aos quinze anos, por defender princípios inadequados aos ideais fundamentalistas daquela trupe revolucionária que se impõe no seu país.

 

É a voz duma menina corajosa, agora com dezasseis anos, simples, aberta, amante dos seus, saudosa da sua terra e dos amigos que deixou na sua cidade, cuja vida sofreu uma reviravolta, cujo assassínio um destino protector permitiu que não fosse concretizado, a vinda para Birmingham possibilitando a sua “ressurreição”, para uma vida de energia e apelo, defendendo os ideais que desde menina precoce a tornaram suspeita ao ódio talibã.

          

E assim ela vai contando a sua vida familiar anterior, numa casa carenciada de comodidades, mas cheia de gente e de espaços para brincar, no terraço e nas ruas preenchidas, com uma mãe iletrada mas viva e corajosa, amiga de ir às compras para si ou para as vizinhas, uma vida ruidosa de que tem saudades, ao contrário da que vive agora, na casa bem mobilada, na Inglaterra de prédios muito iguais e uma muralha de silêncio e comedimento em seu redor, descontada a movimentação actual em torno de si, alcandorada ao estrelato da fama, o repisar constante nas saudades desse viver pobre mas preenchido e o contraste com o seu viver actual, de pequena heroína que mereceu a atenção universal pela sua assombrosa história, pela vivacidade que imprime às suas exigências de vida.

Transcrevemos ao acaso, da reportagem excelente de Paulo Anunciação:

 

 

OS DIREITOS DA MULHER: Em cidades do Paquistão como Lahore, Karachi ou Islamabad, as mulheres trabalham e assemelham-se às mulheres no Reino Unido ou na América. Mas no resto do Paquistão é muito diferente, com as mulheres a dependerem inteiramente dos homens nas suas famílias. Elas não têm acesso à educação, e mesmo as que conseguem ir à escola têm o futuro traçado. O papel principal da vida delas é casar, ter filhos e tomar conta da casa.. Não há alternativa ou hipótese de escolha. Quando fui a Karachi vi pela primeira vez o mar e fiquei muito feliz. Um mar sem fim, ninguém sabe onde acaba. Uma vez levámos a minha tia - irmã do meu pai – a ver o mar. Ela disse-nos que nunca o tinha visto. Vivia em Karachi há trinta anos, mas o marido nunca a deixara ver o mar. No meu país as mulheres dependem dos maridos, e isso é algo que eu quero mudar. Quero dizer ao mundo que as mulheres também são seres humanos. Não está escrito em lado algum que as mulheres devem depender dos homens. Queremos ser independentes, ter o direito de trabalhar, de tomar decisões, de ser livres.

 

IR À ESCOLA SEM MEDO: As escolas inglesas são muito boas, muito bem equipadas. Os professores usam computadores, enquanto no Paquistão usavam giz e um quadro negro. As ferramentas eram diferentes, mas o ensino no Paquistão era igualmente bom. Nas escolas de rapazes alguns professores usavam varas parta castigar os alunos mais atrevidos. Aqui não há castigos físicos. E as oportunidades para as mulheres são impressionantes. Podemos estudar o que quisermos e podemos ambicionar ser tudo o que quisermos sem medo de nada. Ir à escola sem medo passou a fazer parte da minha rotina diária. O medo, porém, é impossível de esquecer…. Aqui sou olhada como “Malala, a activista dos direitos das crianças, enquanto no Paquistão – apesar do meu envolvimento nessas áreas – era simplesmente Malala. Tenho a impressão de que aqui sou olhada unicamente pelo que represento, a Malala da face pública. Mas acho que isso vai mudar com o tempo.

 

EDUCAÇÃO: O meu pai costuma falar frequentemente sobre o direito à educação e serviu-me de inspiração. Quando os talibãs me proibiram de ir à escola, eu dei conta da importância da educação e comecei a pensar e a falar por mim e por todas as crianças. Ir à escola, ler, estudar, fazer os trabalhos não é um mero passatempo – é algo muito importante, é o nosso futuro. Quando vejo meninas que não podem ir à escola ou não têm comida, tenho vontade de chorar.

 

FUTURO: O meu objectivo é simples: a paz. O meu sonho era ver paz em todo o mundo. E a única forma de haver paz em todo o mundo é através da educação. O meu sonho não era ficar famosa ou receber tantos presentes e galardões. Gosto de Física, uma das minhas disciplinas preferidas, porque tem leis e verdade. Também pensei em ser médica. Mas agora quero ser política. A vida política está cheia de mentiras e mais mentiras. Quero dedicar a minha vida às pessoas e não interessa se alguém quiser matar-me. Os pobres não têm nada nas suas casas, não têm ruas, escolas ou hospitais, e eu vou explicar-lhes os direitos deles.

 

Uma rapariguinha sensível, que parece honesta, que vive o seu momento de celebridade. A juventude é generosa, e esta merece a fama pelo que sofreu, que lhe dá a possibilidade de defender os seus princípios de justiça.

 

Penso nos nossos, por cá, jovens e adultos, também impetuosos, a defender os seus direitos, para quem os do Governo são os talibãs que é preciso escorraçar, e nós as Malalas sofredoras. Os talibãs que querem impor regras, não fundamentalistas, é certo, mas de um certo bom senso para tentar compor o que tantos ajudaram a danificar. E prá-kys-tamos numa inércia de bons sentimentos, caldeados exclusivamente nos nossos direitos, nas nossas revoltas democráticas, num país de onde a indisciplina nas escolas, casada com a demagogia pretensiosa nas ruas ou nos media, não vai, certamente, ajudar na conquista de um melhor horizonte. Porque, como diz Malala, «a única forma de haver paz em todo o mundo é através da educação.»

 Berta Brás

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