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A bem da Nação

OS ESGARES DO OURO OLÍMPICO

 

 Levei à minha amiga um artigo chegado por e-mail, apelidado de “China behind the Gold Medals” com texto basto de informações sobre a ambição chinesa pelo ouro olímpico e com imagens de crianças treinadas desde infantes, algumas de carinhas desfeitas pelo choro, na violência dos exercícios da trave ou outros aparelhos que vão possibilitar os contorcionismos da agilidade futura dos atletas chineses.

 

Falei em monstruosidade ao serviço do ouro, mas a minha amiga, que admira a perfeição, não, certamente motivada pelo conto do Eça, que termina com o brado poderoso de Ulisses, fugindo das perfeições inalteráveis da ilha Ogígia e da imortal embora também sensível ninfa Calipso, de regresso aos rudes trabalhos e ao envelhecimento da sua humana condição: “Oh Deusa, o irreparável e supremo mal está na tua perfeição”

 

 A minha amiga, que admira a perfeição, expôs com o donaire de sempre:

 

- Tudo na China está programado. E aquelas tropas! Não há um movimento que não seja a condizer.

 

Foi motivo para se voltar a comparar a apresentação rigorosa, impecável, dos Jogos Olímpicos em Pequim, há anos e as de Londres, basta em potencialidades de artifícios, humor e riqueza, mas sem a rigidez da impecabilidade e graciosidade chinesas, porque de antípodas civilizacionais e políticos, de uma abertura democrática inexistente na poderosa China.

 

Mas eu fiquei horrorizada com o e-mail recebido, de que transcrevo alguns passos:

As crianças são treinadas para ganhar medalhas desde a mais tenra idade. Elas vêem os pais apenas uma vez por ano, desde os três anos de idade, quando o Estado coloca as crianças num programa de treinamento.

 

Na busca do ouro, muitos atletas chineses deixaram de lado a sua educação, controle financeiro pessoal, e até mesmo a sua saúde. Crianças são recrutadas a partir de uma idade muito jovem, a nível nacional, de acordo com o tipo de corpo.

 

Centenas de milhares de jovens são colocados em sistemas de nível provincial de formação e são sucessivamente filtradas de acordo com o desempenho. Os melhores atletas movem-se através do sistema de competir a nível nacional, onde são colocados sob pressão intensa para executar.

 

Treinadores são enviados por toda a China para procurar crianças promissoras, em creches e escolas. Eles olham para as crianças com o físico certo, que parecem particularmente ágeis em correr e saltar. Os melhores são removidos de suas famílias e enviadas para internatos, onde tudo gira em torno da sua formação. (…)

 

As crianças ou adolescentes apresentados têm praticamente a mesma altura, são crianças bem alimentadas, certamente que rodeadas dos cuidados materiais e médicos indispensáveis para constituírem os corpos belos que formarão aquelas equipas deslumbrantes, medidas ao milímetro, que vimos nos jogos olímpicos de Pequim. Apesar das carinhas desfeitas pelo choro de alguns daqueles meninos e meninas sem infância, violentados nos seus corpinhos por instrutores algidamente competentes.

 

Falámos dos dançarinos ocidentais, assim formados porque escolheram essa via, tais como os pianistas e outros músicos que as formações culturais dos países preparam, com a exigência necessária, desde que lhes reconheçam a vocação.

 

Comparámos essa forma de preparação dos chineses, já preconizada no tratamento dos pés das mulheres chinesas bem apertadinhos, numa imagem de fragilidade feminina e de poderio masculino, que a Pearl Buck das minhas lembranças da adolescência ledora criticara no seu romance “Vento do Oriente, Vento do Ocidente”, à exigência europeia de calibragem da fruta para que esta seja exportável, concluindo, melancolicamente, pela asserção vulgarizada sobre as nossas deficiências de portugueses sem calibre que preste, nem de fruta nem de atletas.

 

Mas resignámo-nos, que não precisamos de aprender nada com os outros. Preferimos atribuir as nossas falhas ao nosso fado triste e esperar na nossa fé, que pode ser no “Dom Sebastião, quer venha ou não.”.

 

20 de Agosto de 2012

 

 Berta Brás

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