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A bem da Nação

CAMILO E TEÓFILO

 

Camilo Castelo Branco era um escritor prodigioso – prodigioso não só pela quantidade como pela qualidade do que escreveu durante a sua vida relativamente curta de 65 anos.

 

O século XIX em Portugal, embora politicamente tivesse sido um período de desgraça, foi culturalmente brilhante.

 

Tivemos grandes escritores, como o próprio Camilo, como Eça de Queiroz, Alexandre Herculano, Almeida Garrett, Júlio Diniz, Antero de Quental, Oliveira Martins, Ramalho Ortigão, Fialho de Almeida, Rebelo da Silva, Pinheiro Chagas e muitos outros praticamente esquecidos, como Silva Gaio, já entrado no século XX ("Mário"), Campos Júnior ("A Ala dos Namorados"), Arnaldo Gama, Eduardo de Noronha, etc.

 

No seu livro, que tenho andado a ler, "Noites de Insónia", Camilo faz referências pejorativas a Teófilo Braga, que foi o provisório primeiro Presidente da República, depois do 5 de Outubro de 1910, e depois o terceiro, já eleito. Fiquei surpreendido, mas a verdade é que Teófilo Braga era para mim um desconhecido. Parece que muito escreveu e teve grande prestígio intelectual, de que Camilo nega a autenticidade com as ditas referências. Sinceramente, nunca vi obra de Teófilo Braga publicada, sendo hoje este português uma aparente nulidade. Assim me parece. O seu nome é ainda conhecido pelo facto de ter sido presidente da República.

 

Consultei o Google e li, inter alia, o seguinte:

 

"Até Antero de Quental que se dava bem com Teófilo, se referiu a ele como um hierofante do charlatanismo literário. O historiador brasileiro Sílvio Romero chamou-lhe Papá dos Charlatães. José Relvas, outro seu contemporâneo, depreciou as sua contribuições, notando que o seu prestígio não era justificado, e que só aqueles que não tinham lido as sua obras o admiravam."

 

Quanto ao testemunho de Camilo, limito-me a transcrever um pequeno período, em ele diz:

 

"Eu, por mim, desejo que, lá ao diante, se saiba que morri na desconfiança de que o snr. Teófilo Braga era um malabar de feira saloia enfatuado com os aplausos do gentio lorpa."

 

Era terrível o Camilo!

 

Em todo o caso, o Sr. Teófilo Braga, cujo retrato vai em anexo, parece, a julgar por este, ter sido um sujeito simpático. Quem quiser saber mais, pode consultar o Google.

 

E agora um pequenino fragmento da saborosa prosa de Camilo:

 

(...) Entrei na feira da Ladra.

 

Na entrada do campo, a um dos ângulos, em face do convento de Sant'Ana, levanta-se a praça dos Touros. Edificações mais ou menos elegantes, mais ou menos sumptuosas, enfileiram-se, em linha recta, por uma das faces.

Ao fundo está gizado um microscópico jardim que, na louca ambição da sua tristíssima Flora, cingindo-se no cinto fanado de um empoeiradíssimo buxo, caberia à vontade na mais limitada sala de qualquer nababo das possessões indo-britânicas.

 

Pelo meio do campo, em deplorável estendal, havia panos, pranchas de pinho e tabuleiros ignóbeis, onde jaziam, na mais íntima convivência, os resíduos, o lixo e os detritos da geração presente e das que passaram.

Acudiu-me aqui a musa do poeta florentino:

 

Lasciate ogni speranza, voi ch'entrate.

 

(...)

 


Joaquim Reis

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