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A bem da Nação

A PEDRA NO SAPATO

 

De Sócrates. No sapato de Sócrates. Mas não acreditei que existisse pedra, a menos que ele tenha apanhado algum doloroso grão de areia nas corridas que costumava efectuar nos seus tempos de Primeiro Ministro, tanto no nosso país, como nos países aonde se deslocava. Todavia, acho que correria com os ténis de então, não iria usar os sapatos por confortáveis que fossem, nesses eventos desportivos que tanto me recordavam o costume do santo Papa João Paulo II de beijar, à chegada, por penoso que parecesse, o solo dos países que visitava.

 

José Sócrates não beijava os solos, corria neles, como forma de manter o seu garbo democrático, embora Clara Ferreira Alves omita esses pormenores vivenciais do seu entrevistado, inteligente e culta como é, mais votada aos pormenores da actuação política do seu protegido, na entrevista que lhe fez saída em 19 de Outubro na Revista do Expresso e onde ela se apaga como entrevistadora, aparentando modéstia mas também técnica narrativa, para projectar a luz inebriante e clarificadora sobre a argumentação do publicamente sempre injustiçado Sócrates, que, contrariamente ao seu predecessor que bebeu a cicuta, lança vitoriosamente sobre a nação os seus disparos biográficos, ora dramáticos, de autovitimização e garantia de inocência ora de devolução de acusação, ora de esbanjamento de perfil cultural, com referências intelectuais a filósofos e a filosofias que o orientaram na escolha do assunto para o seu livro “A Confiança no Mundo”, sobre a questão da tortura neste nosso democrático mundo em que qualquer um se pode tornar torturador, em situações-limite e não só, na banalidade dos caracteres normais, de que falou Hannah Arendt – dizem, eu não li - na sua tese sobre o torturador nazi Eichman.

 

De tudo isso e muito mais o fez falar Clara Ferreira Alves, para o fazer justificar-se, como ser humano com direito à justificação nos diversos casos de que fora acusado sempre injustamente, pois até na questão dos dinheiritos ganhos, se ficou a saber que quem lhos facultou foi sempre a mãe dele, e mais tarde o Banco que lhe emprestou o dinheiro para ele estudar e que gastou religiosamente, não sei se com inclusão das borgas.

 

De resto, uma pessoa que sofreu na vida, que estudou bem, que usa palavras insultuosas ou chãs, para classificar quem lhe fez mal, como todos nós usamos, quer tenhamos sido ou não bons alunos nas várias escolas da nossa frequência, entre as quais a da vida, o que é balela dizer-se, mas nem todos se podem gabar de aprender nesta e Sócrates sim.

 

E saiu um perfil que Clara Ferreira Alves tornou humano - o que não estranhámos, pois nele se mostrou o Sócrates que há muito conhecíamos - mas, intencionalmente valorizador, após ter retratado, como corolário antecipado da sua entrevista, o rival Passos Coelho da sua aversão, na Pluma Caprichosa da mesma revista, com o título “A história universal da infâmia” com a costumada iracúndia da sua sabedoria facunda mas escamoteadora de dados, como seriam os convergentes sobre a política ruinosa do governo socrático.

Prefiro o retrato – dele e do país – feito imparcialmente pelo sociólogo Alberto Gonçalves, no Fórum do Diário de Notícias de 13 de Outubro “Dias Contados – RTP símbolo da Nação” – onde não poupa o Governo nem Passos Coelho, e onde, no excerto de Domingo, 6 de Outubro, de título irónico, “A ineficácia da ASAE”, expõe os seguintes dizeres da minha plena anuência, como tudo o que dele tenho lido:

 

Não me escandaliza que alguém classifique as desculpas de Rui Machete a Angola. Faz-me certa impressão que esse alguém seja José Sócrates, também conhecido por “o Engenheiro”. Desde logo porque nenhum outro governante em democracia abusou tanto da representatividade para subjugar o país a regimes pouco recomendáveis, desde a tenda de Kadhafi às sucessivas vénias a Hugo Chavez. Mas sobretudo porque se trata do “eng.” Sócrates, cujo currículo geral devia isentá-lo de classificar o que quer que fosse. Vergonhosa de facto é a presença semanal da criatura na RTP, que passou há muito o estatuto de anedota e começa a incorrer no de ofensa.

 

A menos que se ache natural colocar o incendiário do Caramulo a comentar incêndios em horário nobre, ou contratar Otelo a fim de dissertar sobre geo-estratégia, o programinha “do eng.” Sócrates é dos principais sintomas do enlouquecimento acelerado da nossa vida pública. Não falo da radical ironia que consiste em obrigar o contribuinte a patrocinar (incluindo, parece, os custos em protecção policial) o homem que acima de todos, ajudou a desgraçá-los. Ainda que o “eng.” Sócrates pagasse do seu bolso o tempo de antena de que dispõe, o absurdo permaneceria.

 

E absurdo não é palavra excessiva, mesmo num lugar tão exótico que tolera a desmesurada percentagem do comentário político a cargo de personagens da política, mesmo que se invoque os direitos de liberdade e de cidadania. Depois das proezas que cometeu numa gloriosa carreira, já é um acto de generosidade permitir-se que o “eng.” Sócrates ande à solta: oferecer-lhe uma tribuna vedada a 99,99 por cento dos cidadãos é gozar com estes e demonstrar o atraso português em matéria de higiene. Infelizmente, nos casos graves a ASAE não toca.

 

Talvez a ASAE seja também um retrato do País, tal como a RTP. Esta esbanjadora, torturadora, na banalidade obediente e servil de programas feitos para um país pobrezinho, glutão e bailador. Aquela, assestando de preferência a questão higiénica sobre os sítios que têm mais dificuldade em recorrer das suas sentenças de encerramento. A RTP não tem tal dificuldade de recurso, tem-se visto, por isso nos impinge semanalmente uma reconhecida presença de torturador, com as pedras que atira do seu sapato de torturado. Presença que vai a todas, como também ao programa de Herman, que chama Lula para lhe apresentar o seu livro, falando do que costuma falar – as relações entre o Portugal e o Brasil da cordialidade.

 

E Spínola, e Soares, Sampaio, Sócrates, Seguro… Com outros SS menos imponentes pelo meio… Os SSS da nossa progressiva servidão de quarenta anos. Os SSS da nossa cruz. E todos jogando as pedras dos seus sapatos - afinal todos as tiveram e mantêm  - sobre quem vai tentando erguer, com tombos, claro, um país de muitos tontos:

  

um jovem arrogante, mas corajosamente decente, Pedro Passos Coelho

 

   

 

 Berta Brás

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