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A bem da Nação

PÁGINAS DE REVIVALISMO HISTÓRICO

 

Lisboa - Rotunda, 5 de Outubro de 1910

«O “5 de Outubro”» – eis como Vasco Pulido Valente apelida o seu artigo do Público” de 5 Out. 13, com a costumada mestria do seu saber histórico aliado ao seu saber crítico, embora não desapaixonado, mas irresistivelmente lúcido. As lutas entre os partidos monárquicos – o “Partido Regenerador” e o “Partido Progressista” - resultando em divisionismos destruidores da coesão pátria, em que o Ultimato Inglês, aliado ao desequilíbrio financeiro, seriam os factores-charneira para a progressiva sublevação e desmantelamento da nação e do regime: de Monarquia Constitucional a uma Primeira República de sucessivos Governos, uma Segunda estável mas execrada pela minoria da inteligência “livre”, a Terceira República, dos direitos e das liberdades incondicionais.

 

Nesta vivemos, em aparente liberdade, de uma fraternidade extinta, os dos partidos do Governo odiados pelos dos partidos que o não são e que fazem por desmantelar cuidadosamente todas as iniciativas de governança. São esses os da inteligência benemérita, os das alternativas angariadoras de votos e educadoras dos povos, que depressa aprendem a defender direitos em loquacidade, e a desprezar deveres, de maneira tácita e astuta. (Aconteceu em África, nas ex-colónias, em que o povo, bem industriado contra o explorador branco, nas contínuas sessões de esclarecimento sobre os seus direitos de espoliado de longa data, depressa aprendeu a reivindicar da sua justiça - e de tal maneira se lhe facilitou o caminho, que, além das guerras que posteriormente às descolonizações, estropiaram e aniquilaram tantos, nas suas lutas partidárias, além das suas fomes e das prepotências dos novos governantes seus irmãos de raça, que fizeram encaminhar tantos deles para o continente setentrional, mais à mão e o maior responsável das hecatombes, em hordas sucessivas de fugas assustadas, as consequências, na nova actualidade, são os naufrágios de Lampedusa que inspirarão os Géricaults da nossa sensibilidade, pois que sentimento e arte andam sempre associados nas marchas das civilizações).

 

Mas Vasco Pulido Valente não lembra estas analogias entre as demagogias partidárias e o aprendizado dos povos de aquém e de além-mar, é mesmo só uma página de história a lembrar andanças e semelhanças dum outrora com um agora, de uma nação onde o amor pátrio parece inexistente, substituído pela pluralidade dos egoísmos e dos sentimentalismos balofos, numa ditadura real de destempero social impune, reflectido numa corrupção ilimitada e numa real ditadura de um patronato licencioso, que as mais das vezes se aproveita da crise geral, para impor regras de trabalho desumanas, sob a ameaça de despedimento, onde se concede que o maior responsável do caos há quarenta anos criado, se permita julgar e condenar – não sei se com direito a pena de morte, como fizeram os patrocinadores do regicídio de 1908 – os que agora tentam gerir, o melhor que podem, o caos de agora, e a cujo rastilho de desbocada e canhestra proposta os jornais dão o relevo da insensatez e da abjecção que definitivamente nos enodoa, para mais com direito a fotografia em primeira página: ”MÁRIO SOARES Ex-Presidente da República: “Acho que estes senhores têm de ser julgados depois de saírem do poder” (DN, 13/10).

 

Leiamos, antes, a “Página Histórica” de Pulido Valente – “O 5 de Outubro”:

 

Este é o primeiro ou segundo ano em que não se comemora o “5 de Outubro”. Mas nunca a “estranha” queda da Monarquia foi tão importante para compreender a política portuguesa. A origem dessa queda começou na degradação dos partidos do regime (o Partido Regenerador e o Partido Progressista), que pouco a pouco se dividiram em quadrilhas (cada uma com o seu chefe ou “marechal”) e se combateram ferozmente com a prestante ajuda dos revolucionários republicanos. A história começou com o vexame diplomático do “Ultimato Inglês”, continuou com sucessivas crises financeiras de 1890 a 1902, para acabar no assassinato de D. Carlos em 1908 e no caos que ele necessariamente provocou. Durante vinte anos, nem os regeneradores, nem os progressistas se conseguiram entender para fortalecer a Monarquia de que, afinal de contas, a sua própria sobrevivência dependia.

 

Desde o princípio (1890-1891) explodiram querelas no Partido Regenerador entre os três candidatos, que persistentemente se acusavam e caluniavam para chegar à chefia absoluta, que, supunham eles, lhes garantia um poder quase ilimitado sobre o país: João Franco, Hintze Ribeiro e Júlio de Vilhena. Mas depois da morte do rei, apareceram outros. João Franco chegou mesmo a uma cisão definitiva, criando o Partido Regenerador-Liberal, a que a “inteligência” portuguesa aderiu entusiasticamente. Um pouco mais tarde, José Maria Alpoim também se resolveu separar do Partido Progressista e fundou a “Dissidência Progressista”, famosa pela sua Radical falta de escrúpulos.

 

D. Carlos, que percebia os perigos da situação, ainda tentou reorganizar o sistema partidário, com a ajuda de Franco e dos regeneradores-liberais. Infelizmente era tarde para um exercício tão profundo e duro. Ele foi mesmo morto no Terreiro do Paço e Franco exilado. O desprezo que os portugueses tinham pela política, e muito particularmente pelos partidos, fez com que não mexessem um dedo para pôr alguma ordem e seriedade na política e, no “5 de Outubro”, para defender o regime da insurreição republicana. Basta dizer que no exílio (e tirando meia dúzia de obstinados), nem o rei D. Manuel queria voltar a Portugal. Embora odiassem a República, a classe média e grande parte da população não a tencionavam trocar por um regresso à vida velha; e até se divertiam a observar a humildade dos seus depenados senhores.

 

E assim, depenar e penar são parte integrante dos nossos genes, com o folguedo do povo que assim se ilustra, pelo ouvir dizer burlesco e mal-intencionado, de preferência à maçadoria do estudo.

 

 Berta Brás

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