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A bem da Nação

OS CRIMES DO MARQUÊS DE POMBAL - 1

 

 

Ouvia às vezes noutros tempos, da parte de manifestos anti-salazaristas, que o governante de que precisávamos era um Marquês de Pombal. Quem dizia isto revelava uma total ignorância histórica, ou uma total insensibilidade moral.

 

Quando se fez aquele inquérito sobre a personagem histórica portuguesa mais popular, e na TV foram revelados os resultados, a deputada de Portugal na Europa, de nome Ana Gomes, ficou surpreendida que o primeiro em popularidade fora Salazar, cuja memória ela insultara, chamando-lhe "Ditador abjecto". Esta "abjecta" mulher, atrevida, ignorante e estúpida, levada a deputa não sabemos como nem por quem, mostrou ser da categoria desses outros mencionados acima.

 

O Marquês de Pombal chegou a ser considerado um exemplo de democrata, um defensor de Portugal e seu povo, e a ele levantaram no centro de Lisboa uma estátua enorme, inaugurada em 1934.

 

Em 1882 comemorou-se o centenário desse "grande estadista", cuja memória era preciso eternizar, e assim se fez. Camilo Castelo Branco que presenciava dorido a insensatez da comemoração e a ignorância crassa dos portugueses responsáveis, escreveu um livro que tenho nas minhas estantes: "Perfil do Marquez de Pombal", Companhia Portuguesa Editora, L.da, 3ª edição, Porto 1932. Este livro tem uma dedicatória de CCB que diz: " A António Rodrigues Sampaio, soldado intrépido e amigo incorruptível da Liberdade que o fez grande, publicista cinquenta anos, Ministro algumas vezes e sempre pobre, oferece o mais obscuro e agradecido dos seus amigos Camilo Castelo Branco"

 

 

Para abreviar, passo imediatamente a transcrever o fim do primeiro capítulo, uma descrição horrível dos preparativos para o assassínio cruento dos fidalgos acusados de terem atentado contra a vida do rei D. José. A acusação nunca até hoje foi confirmada de ter sido justa.

 

"A aurora do dia 13 de Janeiro de 1759 alvorejava uma luz azulada do eclipse daquele dia, por entre castelos pardacentos de nuvens esfumaradas que, a espaços, saraivavam bátegas de aguaceiros glaciais. O cadafalso, construído durante a noite, estava húmido. As rodas e as aspas dos tormentos (a aspa era um instrumento de tortura em forma de X) gotejavam sobre o pavimento de pinho. Às vezes, rajadas de vento do mar zuniam por entre as cruzes das aspas e sacudiam ligeiramente os postes. Uns homens, que bebiam aguardente e tiritavam, cobriam com encerados uma falúa carregada de lenha e barricas de alcatrão, atracada aos cais defronte do tablado. Às 6 horas e 42 minutos ainda mal se entrevia a faixa escura com umas cintilações de espadas nuas, que se avizinhava do cadafalso. Era um esquadrão de dragões. O patear cadente dos cavalos fazia um ruído cavo na terra empapada pela chuva. Atrás do esquadrão seguiam os ministros criminais, a cavalo, uns com as togas, outros de capa e volta, e o corregedor da côrte com grande majestade pavorosa. Depois -- uma caixa negra que se movia vagarosamente entre dois padres. Era a cadeirinha da marqueza de Távora, D. Leonor. Alas de tropa ladeavam o préstito. À volta do tablado, postaram-se os juízes do crime, aconchegando as capas das faces varejadas pelas cordas da chuva. Do lado da barra reboava o mugido das vagas que rolavam e vinham chofrar espumas no parapeito do cais. Havia uma escada que subia para o patíbulo. A marqueza apeou da cadeirinha, dispensando o amparo dos padres. Ajoelhou no primeiro degrau da escada, e confessou-se por espaço de 50 minutos. Entretanto martelava-se no cadafalso. Aperfeiçoavam-se as aspas, cravavam-se pregos necessários à segurança dos postes, aparafusavam-se as roscas das rodas. Recebida a absolvição, a padecente subiu, entre os dois padres, a escada, na sua natural atitude altiva, direita com os olhos fitos no espectáculo dos tormentos. Trajava de setim escuro, fitas nas madeixas grisalhas, diamantes nas orelhas e num laço dos cabelos, envolta em uma capa alvadia roçagante. Assim tinha sido presa, um mês antes. Nunca lhe tinham consentido que mudasse camisa nem o lenço do pescoço. Receberam-na três algozes no topo da escada, e mandaram-na fazer um giro do cadafalso para ser bem vista e reconhecida. Depois, mostraram-lhe um a um os instrumentos das execuções, e explicaram-lhe por miúdo com haviam de morrer seu marido, seus filhos e o marido da sua filha. Mostraram-lhe o maço de ferro que devia matar-lhe o marido a pancadas na arca do peito, as tesouras ou aspas em que lhe haviam de quebrar os ossos das pernas e dos braços ao marido e aos filhos, e explicaram-lhe como era que as rodas operavam no garrote, cuja corda lhe mostravam, e o modo como ela repuxava e estrangulava ao desandar do arrocho. A marqueza então sucumbiu, chorou ansiada, e pediu que a matassem depressa. O algoz tirou-lhe a capa, e mandou-a sentar num banco de pinho, no centro do cadafalso, sobre a capa que dobrou devagar, horrendamente devagar. Ela sentou-se. Tinha as mãos amarradas, e não podia compor o vestido que caíra mal. Ergueu-se, e com um movimento de pé consertou a orla da saia. O algoz vendou-a; e ao pôr-lhe a mão no lenço que lhe cobria o pescoço, - não me descomponhas - disse ela, e inclinou a cabeças que lhe foi decepada pela nuca, de um só golpe."

 

* * *

 

Este começo de carniceria, naquela manhã de nevoeiro, debaixo de um céu de chumbo, impassível como a lâmina que degolou Leonor de Távora, há de sempre lembrar com horror e piedade. Porém que nome execrado, que verdugo responsável escreveremos na página da História? Sebastião José, esse não tinha nada que ver com os adultérios de seu real amo e senhor. Mas agora que aí temos à porta o centenário do marquês de Pombal, vem de molde recordar alguns episódios daquele tempo.

 

 

 

(Estampa do horroroso cadafalso, tal como era vendida em Lisboa depois da execução dos condenados)

 

 


Joaquim Reis

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