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A bem da Nação

JUS SANGUINIS, JUS SOLIS – GOLPE DE MESTRE DE UM MINEIRO

 

Desprovido de terra na sua “Terra “, o açoriano foi em solo brasileiro colonizador por excelência. Na emigração consentida, desejada ou necessitada, encontrou a independência ou a morte.

 

Naqueles meados do século XVIII a situação demográfica açoriana era preocupante. Havia uma média de 48 habitantes/km2 enquanto em Portugal Continental a média era até de 20 hab/Km2. O excesso populacional levava a altos índices de ladroagem e prostituição provocados pelo desequilíbrio entre o número de bocas para comer e a quantidade de terras para produzir alimentos. A solução lembrada pelas autoridades foi sempre a mesma, a emigração temporária. Foi assim que uma faialense, Maria Nunes, partiu para o Brasil.

 

Em 1723, viúva de Manuel Gonçalves Correia, o Burgão, aceitou o convite do conterrâneo e aparentado Diogo Garcia, para vir para São João Del Rei onde ele vivia. Minas Gerais era terra do ouro e das oportunidades a quem tivesse força, sorte e coragem para lutar por uma nova vida. Chegou ao porto do Rio de Janeiro com três filhas – Júlia Maria da Caridade, Helena Maria de Jesus, e Antónia da Graça que ficaram conhecidas na obra do historiador José Guimarães como “As três Ilhoas” (naturais das Angustias/Faial/Açores) das quais descendem as mais importantes famílias do sul e centro de Minas Gerais e parte de São Paulo - um genro (Manuel Gonçalves da Fonseca) e duas netas (Maria Teresa de Jesus e Helena Maria do Espírito Santo). Partiram para São João Del Rey em lombo de burro.

 

Em 29/6/1724 Júlia Maria da Caridade casa com o conterrâneo Diogo Garcia. O casal obtêm sesmarias, constrói propriedades que exploradas com engenho torna-os fazendeiros ricos e poderosos, proprietários de grandes extensões de terras, escravaria e gado.

 

Antónia da Graça (ou Aguiar) veio já casada do Faial com Manuel Gonçalves da Fonseca e as duas filhas, Maria Teresa de Jesus (casou em primeiras núpcias com Inácio Franco e em segundas com Bento Rebelo de Carvalho) e Helena Maria do Espírito Santo (que casou com João Francisco Junqueira). Em São João Del Rey deram origem a essas famílias mineiras.

 

Helena Maria de Jesus nasceu nas Angustias (Ilha do Faial), casou em Prados/MG em 1726 com o ilhéu de Santa Maria, João de Resende Costa. Desse tronco originaram-se nobres brasileiros, intelectuais e até dois inconfidentes, José de Resende Costa e seu filho homónimo, José de Resende Costa Filho. Será sobre ele, José de Resende Costa pai , que falaremos um pouco do que se descobriu.

 

 José de Resende Costa nasceu no Arraial de Prados /MG a 13 /07/1730. Casou com a açoriana Ana Alves Preto, com quem teve dois filhos Francisca Cândida de Resende e José de Resende Costa Filho. Faleceu na Guiné (África) em 1801, no degredo. Era Capitão do Regimento de Cavalaria Auxiliar da Vila de São José. Tomou parte da Conjuração Mineira (1788/ 1789), movimento de um grupo de fazendeiros ricos devedores do fisco, alguns militares e literatos que, endividados e revoltados contra a derrama anunciada pela Coroa e estimulados pelos ideais libertários franceses e americanos, procuraram se insurgir contra o governo de D. Maria I de Portugal.

 

Delatado o grupo por alguns traidores, inclusive um militar e fazendeiro açoriano, Ignácio Correia Pamplona, foi detido, julgado e condenado à forca. Mas só Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, também filho de português, foi condenado. Os outros tiveram as penas computadas para degredo.

 

Mas o interessante do caso é que José de Resende Costa, segundo o historiador André Figueiredo Rodrigues, conseguiu ludibriar a Coroa Portuguesa, mesmo condenado, preservando seu património, conquistado em Minas Gerais, para a família.

 

Ao ver a possibilidade de ser preso e de ter seus bens confiscados, apesar de se ter declarado fisicamente incapaz de lutar no movimento de independência por estar “velho e doente”, casou sua filha (Francisca Cândida) com um amigo da família (Gervásio Pereira de Alvim) e deu-lhe um dote substancial (fazenda, propriedades, escravos, gado e dinheiro) pagando só uma parte no acto do casamento.

 

Na rede de endividamento comum entre amigos e parentes, seu cunhado, o português Severino Ribeiro, casado com Josefa Maria de Resende, seu irmão António Nunes, sócio em negócio de mineração e o próprio Gervásio, eram os seus maiores credores/devedores. Utilizando-se da lei, moveram cobranças judiciais no Fisco sobre o património sequestrado de José de Resende Costa, solicitando ressarcimento de pagamentos feitos, depois de este ser preso, dias depois do casamento da filha, na sua fazenda Boa Vista dos Campos Gerais da Laje hoje Município de Resende Costa. José de Resende, culpabilizado, teve seus bens devassados e sequestrados pelo governo. Porém, eleito como administrador da parte sequestrada, Gervásio, o genro de José de Resende, apresentou a Relação de Prestação de Contas do Património do sogro, depois de pagas as dívidas, em detrimento às ordens da Fazenda Real. Assim é que José de Resende Costa, apesar do degredo e morte no estrangeiro conseguiu manter o património na família. Golpe de mestre deste mineiro de sangue açoriano.

 

 Maria Eduarda Fagundes

 

Uberaba, 06/10/13

 

Dados:

  • Emigração Açoriana (Séculos XVIII e XIX), Luis Mendonça e José Ávila.
  • Genealogia das Quatro Ilhas, de Jorge Forjaz e António Ornelas Mendes
  • Artigo do historiador e Professor de História da USP, André Figueiredo Rodrigues.
  • (A família Resende Costa e seu envolvimento com a Inconfidência Mineira)

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