Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

Crónicas de África

 

A OPA lusófona

 

            Muito se tem escrito e opinado sobre as OPAs que animam o mercado português. Contudo, nada é verdade. Há alguns meses atrás, durante uma jornada de reflexão sobre o papel dos mercados lusófonos para a economia portuguesa, foi decidido que a Portugal Telecom (PT) lançasse uma OPA sobre a totalidade de Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé. As contas eram simples. Estes três países apresentam, por atacado, um PIB anual que ronda os 1,5 mil mihões de dólares. Ora, só em proveitos, a PT alcançou no ano passado os 6,3 mil milhões de Euros. Embora politicamente incorrecto, a tentação falou mais alto. Mas como as paredes têm ouvidos, alguém avisou os governos daqueles países. Estes, sabendo da forte ligação que a Microsoft tem, através da Fundação Gates, com Moçambique, pediram ao governo deste país que intercedesse junto de Bill Gates E está explicada a razão da vinda do milionário a Portugal. Qual Plano Tecnológico, qual quê! A conversa foi simples: ou estão quietinhos ou eu lanço uma OPA a Portugal (de recordar que o PIB português são cento e tal mil milhões de dólares e que as receitas da Microsoft são cerca de 40 mil milhões de dólares...). O governo meteu a viola no saco e foi repensar a estratégia. Bingo! Angola! Angola é que é o futuro, tudo começará por ali. Há que tomar o mercado. Como? Antes do mais, afastando qualquer indício da participação directa do governo. Como fazer? Convence-se Belmiro de Azevedo a lançar uma OPA à PT (está agora percebido porque aquele não quer o Brasil mas afirma que África é para apostar). Depois, a SONAE/PT lança uma OPA à Unitel, onde detém uma importante participação, e depois às outras operadores do mercado. Entretanto, para apoiar o enorme esforço financeiro de conquista do mercado angolano, aconselhou-se o BCP a lançar uma OPA sobre o BPI e um mês depois sobre o BES. Entretanto, a CGD abriria também em Angola, o que já está em andamento, para dar uma ajudinha, por fora, claro, pois é público. Este novo banco, Tugangola, lançará diversas OPAs nas áreas onde detêm já interesses consolidados, nomeadamente sobre a Endiama, nos diamantes. Mas como a pérola é o petróleo, foi pedido a Américo Amorim que abrisse um banco em Angola, se aliasse a uma das filhas do presidente, e que depois contaria com o apoio do novo grupo bancário português para lançar uma OPA sobre a SONANGOL. Acontece que, entretanto, aquele empresário adquiriu uma participação na GALP, juntamente com a filha do presidente e ainda a SONANGOL. E de imediato prepara-se para anunciar uma OPA sobre a GALP. Julgavam que os angolanos andavam a dormir? E para tornar mais atraente a oferta junto dos investidores, vai ser proposto que Mantorras seja o futuro CEO da empresa e que, para além da contrapartida monetária por acção, cada 100 acções permitirão gozar uma semana de férias no Mussulo durante os próximos dez anos. Perante tal traição, o empresário português encontra-se exilado nas ilhas Tuvalu. Não menos interessante são as OPAs da UNICER sobre a totalidade das cervejeiras do país, o sector industrial mais dinâmico e garantido, do Grupo Pestana sobre o condomínio do Futungo de Belas agora que o presidente angolano se mudou para a Cidade Alta, e da Soares da Costa e Mota/Engil sobre as construtores. Neste último caso é improvável o sucesso já que o governo angolano pediu ajuda à China. Esta prepara-se para OPAR as construtoras portuguesas.

Finalmente, e aqui reside a questão central da deslocação de José Sócrates a Angola, a Pastelaria Pastéis de Belém, totalmente apoiada pelo novo vizinho Cavaco Silva e suportada num parecer jurídico do ministro dos Negócios Estrangeiros, Freitas do Amaral, lançou uma OPA, ainda por cima hostil, à cadeia de Pastelarias luandense Maravilha. O melindre político é evidente e por aqui passará o futuro das relações luso-angolanas.

 

PS: de acordo com o insupeito canal financeiro Bloomberg, as empresas Bacalhau Pascoal, Conservas de Atum Ramirez e Conservas de Sardinha Bom Petisco, como forma de internacionalizarem a sua presença nas mesas dos falantes de português, preparam-se para lançar uma OPA à CPLP...  

 

Manuel Ennes Ferreira

Professor do Departamento de Economia do ISEG

Publicado em 21 de Março de 2006 no "Diário Económico"

 

1 comentário

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D