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A bem da Nação

ILHA DE MOÇAMBIQUE

 

FUNDAÇÃO DA PRIMEIRA FEITORIA

 

Vicente Sodré ao chegar a Moçambique, vendo-se recebido em boa paz, iniciou logo o trabalho de construir uma caravela, para o que já trazia dos estaleiros de Lisboa toda a madeira convenientemente apa­relhada. Quando Vasco da Gama chegou à ilha, estava essa tarefa quase concluída.

 

Informam os cronistas que o xeque mouro, príncipe e regedor da ilha, já não era o mesmo. Este recebeu com afabilidade a gente por­tuguesa, entregou ao comandante uma carta de João da Nova e per­mitiu ao Almirante a fundação de uma feitoria, «para as naus que ali fossem acharem mantimentos».

 

Assim se fundou a primeira feitoria na Costa Oriental de África - a da ilha de Moçambique.

 

Ilha de Moçambique – 1616 par Bertino

 

Alguns autores afirmam haver sido descoberta nesta altura a baía da Lagoa, por se ter desgarrado da armada a nau de António do Campo e ali ter ido parar. Escritores sérios têm nos nossos dias aceitado o facto sem discussão nas suas obras. Os textos não permitem, parece, uma tão formal afirmação, como bem ficou provado pelo erudito director do nosso Arquivo Histórico de Moçambique, Sr. Tenente Caetano Montez, no seu valioso volume sobre Lourenço Marques. Lendo-se atentamente a sua argumentação, assente numa cuidada revisão das fontes, fica-se na incerteza de quem foi o primeiro navegante português que para Portugal levou notícias dessas paragens, pois tanto poderia ter sido António Campo como qualquer outro dos que se fresmalharam das respectivas armadas, antes do fim de 1502. Diz-se antes desta data, por ser ela a do mapa levado por Alberto Cantino ao Duque de Fer­rara, no qual aparece já marcada a baía da Lagoa com os seus três rios.

 

Fundada a feitoria da ilha de Moçambique, como se disse, apres­tou-se Vasco da Gama para a partida, tendo o cuidado de deixar nas mãos do xeque uma carta assinada por si, dando ordem a todo e qual­quer navio que ali chegasse, para não fazer dano algum aos da ilha, pois tinha feito contrato de paz e amizade com eles. Mandava, também, que se não demorasse e partisse em direcção a Quíloa, o mais breve possível (l).

 

A 12 de Julho chegou Vasco da Gama a Quíloa, em cujo porto entrou em atitude bélica, disposto a cumprir o regimento que el-rei D. Manuel lhe dera: obrigar o sultão de Quíloa a fazer-se tributário do rei de Portugal.

 

 

Deve ter sido assim que Vasco da Gama entrou em Quíloa

 

Não lhe foi difícil conseguir esse intento, pois o estrondo dos seus canhões lançou o terror em toda a povoação, da qual vieram emissários do chefe mouro pedir as condições de paz. Dois mil meticais de ouro, computados por Edgar Presfage em 890 libras, lhes impuseram como tributo anual, o qual imediatamente pagaram. Tal foi o primeiro ouro da África que chegou a Lisboa e lá se encontra ainda, na formosa jóia manuelina da custódia oferecida pelo rei ao mosteiro dos Jerónimos, o monumento síntese do génio português da época dos Descobrimentos.

 

E esta a altura de se pôr de novo um pequeno problema histórico que supomos não estar resolvido: o da época e local da junção dos navios de Estêvão da Gama com a armada do Almirante D. Vasco. Com efeito, nem os autores clássicos nem os modernos estão de acordo: Casfanheda, Damião de Gois e D. Jerónimo Osório afirmam que as duas armadas se juntaram em Quíloa, ao passo que João de Barros nos diz ter sido feita a junção em pleno mar, depois de Melinde. Entre os modernos: Presfage fica na incerteza, Manuel Múrias diz que se juntaram na ilha de Moçambique, o General Teixeira Botelho (3) e o Comandante José Torres seguem a opinião de que se encon­traram em Quíloa.

 

E, afinal, a informação dada pela única testemunha do facto, que escreveu um relato circunstanciado da viagem completa de Estêvão da Gama, é tão clara que não deixa ocasião para a mínima dúvida. Vamos, pois, analisar esse documento.

 

D. ESTÊVÃO DA GAMA EM ÁFRICA

 

Não foi até hoje, supomos, posta em dúvida a autenticidade ou a veracidade do pormenorizado relato de um dos componentes da armada de D. Estêvão, de nome Tomé Lopes. Não deixa, porém, dúvidas que os autores quinhentistas não o conheceram, pois as suas divergências de opinião não se teriam dado em face de tão claro depoimento.

 

Esteve esse relato inédito até 1812, ano em que foi incorporado na valiosa Colecção de Notícias para a História e Geografia das Nações Ultramarinas que vivem nos Domínios Portugueses, publicada pela Academia Real das Ciências de Lisboa.

 

Não se vai reproduzir tão extenso documento, mas apenas analisar a cronologia da viagem na parte referente a África, até ao encontro com a armada de D. Vasco da Gama.

 

Tendo os navios de D. Estêvão deixado Lisboa em l de Abril,. a 15 de Julho achavam-se na embocadura do rio de Sofala, onde foram verificar se ali estariam ainda os navios do Almirante. Dois dias ficaram surtos em onze braças, não podendo continuar viagem imediatamente como era sua vontade, por falta de vento favorável. Vasco da Gama já nessa altura se encontrava em Quíloa.

 

Os homens da armada de D. Estêvão não desembarcaram em Sofala, por medida de prudência, pois ignoravam o que teria acontecido ali à outra parte da armada. Apesar de convidados a entrar pela gente da terra, continuaram a rota até Moçambique, onde ancoraram a 22 de Julho, uma sexta-feira.

 

Vieram logo ter com eles «alguns mouros de reputação», trazendo a carta, a que já se fez referência, com as recomendações assinadas-pelo próprio Almirante.

 

Souberam ali que Vasco da Gama pouco ouro resgatara em Sofala, por existir «uma grande guerra no lugar donde o ouro vinha».

 

Feita aguada na maior pressa, partiram de Moçambique a 25 de Julho, não tendo entrado em Quíloa «por não estar lá o Almirante». Este passo de Tomé Lopes destrói todas as opiniões apon­tadas atrás.

 

Passaram por Melinde, onde foram muito bem recebidos, e ali sou­beram que o rei de Quíloa se fizera tributário de Portugal, estando o rei de Mombaça com muito medo dos Cristãos. A 5 de Agosto partiram de Melinde.

 

Onde se encontraram, pois, as duas armadas ? Vai dizê-lo o pró­prio Tomé Lopes:

 

Em o Domingo vinte e um de Agosto, pela manhã, ainda cedo, chegámos à dita Ilha (Anchediva), de modo que antes de hora da Noa fomos vistos e salvados com alguns tiros de bombarda; e como o Almirante, que estava ouvindo Missa os ouviu, deixou tudo e com grande pressa fez aparelhar três naus e duas caravelas, e veio para nós julgando que eram naus de Meca, e pôs-se de permeio com a terra para não nos poder­mos refugiar a ela. Apenas o avistámos tivemos um grande prazer, e içámos muitas bandeiras, toldos e estandartes; com o que conheceu que éramos Portugueses.

 

Quem tal escreveu viu os acontecimentos, merece inteiro crédito. Assim, juntaram-se na ilha de Anchediva os dois troços da armada, que juntos à India iriam em parada de glória.

 

A ÁFRICA E AS ARMADAS DE 1503 A 1505

 

Propondo-se este trabalho apenas focar as ligações de Moçambique com a História da Expansão Portuguesa, destacando os factos que a ele se relacionam, vamos assistir à passagem das armadas seguintes, tentando encontrar os sinais por elas deixados nas terras da África Oriental.

 

Depois das vitórias de Vasco da Gama na empresa da Índia saiu de Lisboa, em 1503, a armada dos Albuquerques com nove naus dividida em tres capitanias; a de Afonso de Albuquerque, com três naus, e a de Francisco de Albuquerque, com duas naus, para regressarem com carregamento de especiarias; sendo a terceira capitania a de Antó­nio Saldanha com os restantes navios, «para andarem na boca do estreito do Mar Roxo, esperando as naus dos mouros de Meca». Aper­tava-se, assim, cada vez mais o bloqueio ao comércio árabe na Índia.

 

Os primeiros partiram em Abril, Afonso de Albuquerque no dia 6 e Francisco de Albuquerque a 14, seguindo um pouco mais tarde as naus de António Saldanha.

 

Nesta armada seguiu para a Índia o primeiro grupo de Dominicanos.

 

Os Albuquerques não deixaram traços em terras de África, ao contrário de Saldanha que nela deixou ligado o seu nome, pois foi o primeiro explorador da baía onde hoje se encontra debruçada a Cidade do Cabo, conhecida desde então na cartografia por aguada ou baía de Saldanha. Ele e alguns dos seus foram, também, os primeiros europeus que escalaram os montes fronteiros, onde subiram em busca de orien­tação, tendo então verificado que ainda não haviam transposto o Cabo. Muito possivelmente foi Saldanha o autor do nome daquela montanha, já empregado por Barros - «Mesa do Cabo da Boa Esperança».

 

Carta de Fernão Vaz Dourado - 1576

 

Dali partido foi a Moçambique, Quíloa e Mombaça, onde encontrou Rui Lourenço Ravasco com a sua nau, em guerra de presas com o rei da terra, inimigo do rei de Melinde, aliado dos portugueses. A acção con­junta dos dois capitães levou o sultão de Mombaça a confessar~se vas­salo do rei de Portugal com um tributo anual de 500 meticais de ouro.

 

A esta quinta armada e à antecedente se deve o início da consoli­dação do domínio português na costa ao norte da ilha de Moçambique.

 

A sexta armada das índias saiu de Lisboa sob o comando de Lopo Soares, a 22 de Abril de 1504, dela dizendo Barros: que «levava mil e duzentos homens, muita parte deles fidalgos e criados del-Rei, toda gente mui limpa e tal que com razão se pode dizer que esta foi a primeira armada que saiu deste reino de tanta e tam luzida gente e de tam grandes naus, posto que foram menos em número que as duas passadas». Nada, porém, vieram acrescentar ao conhecimento já existente acerca da África Oriental, limitando-se a passar por lá na ida e na volta.

 

À sétima armada, que no total deveria contar 22 navios, estava reservado mais brilhante papel na expansão portuguesa em África. Par­tindo de Lisboa a sua primeira parte, a 25 de Março de 1505, levando por comandante D. Francisco de Almeida, não perde tempo pelo caminho na pressa de chegar a Quíloa.

 

Quebradas as pazes à chegada, cujas peripécias longo seria narrar, o ataque à cidade é fulminante: a ilha de Quíloa rendeu-se aos Portu­gueses, fugindo os vencidos para o continente.

 

A África Oriental viu então levantar-se ali a primeira fortaleza onde ficou flutuando a bandeira de Portugal.

 

Foi nomeado para seu capitão Pêro Ferreira Fogaça; para alcaide-mor Francisco Coutinho e para feitor Fernão Cotrim.

 

Escolhido por D. Francisco de Almeida o novo sultão da ilha, que ficou protegido pela força de setenta homens deixada na fortaleza, seguiu a armada para Mombaça, que veio a ter a mesma sorte ou pior ainda, pois foi saqueada e incendiada. Dura e cruel vingança assim se tirou das falsidades passadas.

 

Copacabana? Lisboa? Não! Ilha de Moçambique

 

(1) Tomé Lopes, Navegação às índias Orientais (1502), publicada no vol. II da Colecção de Noticias para a História e Geografia das Nações Ultramarinas que vivem nos Domínios Por­tugueses (A. R. das C., 1812).

 

Rio de Janeiro, 24/02/2012

 

 Francisco Gomes de Amorim

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