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A bem da Nação

OS PIGMALEÕES DA NOSSA INDÚSTRIA

 

 

Não são nem o escultor da Galateia, nem Henry Higgins, o “escultor” de Eliza Doolittle, rapariga vendedeira de flores e de linguagem arrevesada, que o professor foneticista Higgins ajudaria a corrigir, transformando-a numa bela senhora, tanto no conceito de George Bernard Shaw, autor da comédia “Pigmalião”, como no conceito de George Cukor, no seu filme musical “My Fair Lady”, naquele inspirado.

 

Uma deslumbrante visão, a de Audrey Hepburn do filme de 1968, maravilhoso filme que transforma a rude vendedeira mal vestida e mal falante numa autêntica princesa de modos corteses, distinção nos fatos e, sobretudo, como tinha sido prometido pelo professor Higgins, elegância de linguagem, mirífica transformação que os cenários e as canções tornam admissível, como varinha mágica de contos de fadas prodigalizando desfechos de feeria. Não assim a vida real, embora a comédia de Bernard Shaw admita essa possibilidade de modificação em seis meses, dos jeitos e falas toscos para ademanes e discursos principescos da figura feminina. Mas neste caso, como no anterior, tal possibilidade resulta do facto de as figuras serem elegantes na origem, a linguagem e os jeitos grosseiros são a deformação que os actores caricaturam, em estudo prévio.

 

Aparentemente, pois, um professor expert em sons humanos vai modelar uma voz e um ser falante, ensinando-lhe, em seis meses, como falar, como pronunciar, como se apresentar, como se distinguir. É o trabalho, afinal, na nossa sociedade, tal como nas anteriores, dos pais, dos professores, dos meios livrescos ou outros, na formação dos indivíduos, em percursos de maior ou menor dimensão, conforme as aptidões dos educandos, em inteligência e dedicação, que a música, o recitativo, podem contribuir para acelerar, como no filme de Cukor. Mas nunca em seis meses.

 

Todavia, não direi o mesmo dos recentes pigmaliões linguísticos da nossa praça portuguesa, os forjadores do novo Acordo Ortográfico e as personagens governantes que o avalizaram, sem, contudo, revogação do anterior, prova de insegurança nessa sua arte inefável.

 

Escultores aberrantes de uma língua que não respeitam, com os seus objectos de pedra lascada substitutos dos convencionais cinzéis e buris próprios dos autênticos, foram retocando aqui, podando ali, no final do trabalho produzindo, não, certamente, uma Galateia, não uma Eliza Doolittle, mas simplesmente um aborto.

 

 Berta Brás

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