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A bem da Nação

A FACE HUMANA DAS CRISES

 

 

Há dias, dizia-me um advogado meu amigo: "Por mor da crise, o número de litígios aumentou consideravelmente mas, como os litigantes não têm dinheiro, os meus honorários caíram verticalmente".

 

Dizem que os que vivem da terra não sentem a crise.

 

Em 1933, o Sr. Heine (pai de minha mulher), tinha, na Dinamarca, um negócio de galinhas que produziam abundantemente ovos. Mas como ninguém tinha dinheiro para comprar ovos, o negócio faliu. Comeu (e deu) as galinhas e foi ensinar História no liceu público. A minha mulher, nascida um pouco mais tarde, acha que deve ser por isso que se tornou alérgica a penas. O Sr. Heine nunca voltou aos negócios. Durante a invasão alemã, escapuliu-se por mar para a Suécia donde regressou com uma bateria de canhões para combater os invasores mas não teve ocasião de o fazer pois os invasores entretanto tinham fugido. Depois da II Guerra Mundial, o Sr. Heine fundou e organizou o Museu Rural dinamarquês, sito em Lingby, nos arredores de Copenhague, de que foi nomeado director. Uma maravilha de museu cuja visita fortemente recomendo.

 

 MAP1

Foto de 1940, Panorama nº 35. Foto de Castelo Branco

 

Aqui, dois parêntesis: (1) O Sr. Heine considerava o Museu da Arte Popular português o melhor no seu género na Europa. Visitava-o demoradamente sempre que vinha a Portugal ver a filha; (2) nos anos 50, o Sr. Heine viu, nas imediações do Hospital Santa Maria, em Lisboa, um agricultor a trabalhar a terra com uma charrua de que ele tinha notícia histórica mas não conseguira encontrar qualquer exemplar na Dinamarca. Ficou extasiado não só por ver o objecto como por ver como era utilizado. Tentou comprá-lo mas o "saloio" disse que era o seu ganha-pão e não vendeu. O Sr Heine teve que se contentar com as fotografias que levou consigo.

 

Conheço outro caso semelhante mas com resultado diferente. O meu amigo Eduardo Morais Dantas, senhor de uma Construtora do mesmo nome de São Paulo era (infelizmente, já morreu) um louco por cavalos. (Chegou a ser campeão sul americano de hipismo como o seu cavalo Negreiro que um dia me deixou montar. Nunca esquecerei.) Eduardinho, como era conhecido em atenção à sua estatura, casou serodiamente. A meu conselho, veio passar a lua-de-mel em Sintra. Adorou. O que mais lhe interessou contudo foi o coche de praça com a parelha de lusitanos. Adoptou-os como meio de transporte, enquanto aqui esteve. No final, perguntou ao cocheiro se lhe vendia o coche o e os cavalos e quanto queria por eles. A mesma reacção "Então e eu? – Que vou fazer sem o coche e os cavalos" perguntou perplexo o hábil cocheiro. Eduardinho não se perturbou. "Vem também, caso queira, claro." E assim foi: cocheiro, mulher, cavalos e coche passaram a fazer parte do folclore da fazenda que Eduardinho tinha no Interior do Estado de São Paulo.

 

Depois veio a crise. No Brasil optaram pela inflação. Esta tornou-se galopante. Num ano atingiu os 300%. Eduardinho ficou entalado no cálculo do custo de uma empreitada. Uma fábrica. Levou a obra a peito e entregou mas, para salvar o nome, vendeu tudo o que tinha. O cocheiro teve que voltar para a praça. Isto foi em 1975. Nesse Natal, telefonei-lhe do Rio de Janeiro, onde me encontrava, para São Paulo. Eduardinho instalara-se com a mulher num quarto alugado. Chorou e disse: - Tu foste a única pessoa que se lembrou de mim.

 

 Luís Soares de Oliveira

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