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A bem da Nação

BANHOS-MARIA

 

 

Faço parte da geração de médicos formados na década de 70. Como profissional já aposentada, porém ainda activa, vi e vivi a evolução da medicina brasileira nesse período de 40 anos.

 

Quando estudava no Colégio Pedro II do Rio de Janeiro (Centro) me decidi pela medicina, amparada por um teste vocacional, à época oferecido pela instituição. Jovem e cheia de esperanças, acreditava na ideia romântica que assim poderia ganhar a vida ajudando o meu semelhante. Sem eira e nem beira, filha de imigrantes açorianos, encontrei nas instituições públicas a chance de realizar meu sonho. Com muito esforço dos meus pais, bons professores e estudo sério da minha parte, consegui o meu diploma. Formada, percebi que apenas um “canudo” e um título de especialização não me abririam as portas do mercado profissional. Era uma médica pobre não tinha cacife financeiro para equipar e abrir um consultório em clínica privada. Mais uma vez encontrei no concurso público a oportunidade para trabalhar na área em que me especializei.

 

Trabalhando para o Governo Federal, além da população, vi nesses tempos ditatoriais dos anos 70, políticos e governantes, utilizarem os hospitais públicos para se tratarem. Vi também desperdício, principalmente nas áreas administrativas. Quando mudava um director, mudava também toda a mobília do seu escritório (o que ocorre até hoje).

 

Com os anos, extraordinárias conquistas científico-tecnológicas chegaram à área da Saúde para facilitar diagnósticos e tratamentos médicos. Para o serviço público, a passos de tartaruga, para a rede privada, que crescia a olhos vistos, mais rapidamente.

 

Os tempos mudaram, a população cresceu. A globalização chegou trazendo novidades, aumentando expectativas e exigências dos utentes. Trocamos de regime político, os governos se sucederam, mas o Serviço de Saúde Pública continuou com os mesmos hospitais, alguns até fecharam, os postos ambulatoriais tornaram-se insuficientes. Os salários dos profissionais achatados e congelados, atrasavam meses. Apesar de alguns avanços sociais pontuais, foi com desilusão que assisti ano após ano sucatearem a Educação e a Saúde brasileiras.

 

Hoje a situação chegou a um ponto insuportável. A Medicina barata que proporciona recursos excedentes para manobras de políticos corruptos e inconsequentes, a insegurança nos postos de atendimento, a falta de infra-estrutura sanitária nos bairros mais carentes, a deficiência material e humana em muitos Centros de Saúde das periferias, as inconstâncias e falhas nas informações ético-legais administrativas, o despreparo de muitos que chegam ao Serviço Público por apadrinhamento, acabaram com idealismo, desmotivaram e afastaram os profissionais.

 

O actual governo que nos assiste há mais de uma década, com atitudes autodidactas, sem se importar com o parecer das entidades médicas responsáveis pela medicina do país, resolveu transformar a área de saúde num laboratório de ensaios. Foca simploriamente os problemas da Saúde Pública na falta de médicos, como se atrás de tudo isso não houvesse uma história. A verdade é que é mais fácil ter um bode expiatório para descarregar as culpas que assumir a sua duvidosa gestão. É mais rápido e barato contratar profissionais temporários, manipuláveis, terceirizar serviços, que assumir responsabilidades, promover concursos, estruturar Serviços Especializados, construir e aparelhar Centros de Pesquisas, Ambulatórios e Hospitais.

 

No Brasil, atender na Rede de Saúde Pública é um acto de coragem. Depois de tantos anos de estudo e sacrifício trabalhar sem segurança, com limitações de toda a ordem, é como andar na corda bamba. O médico perdeu autonomia, hoje é refém do que manda o Sistema. Trabalha dentro das normas estipuladas pela Secretaria de Saúde que dita as regras, os procedimentos rotineiros. Agenda quantos pacientes devem ser atendidos por dia, o que o profissional pode ou não internar nas patologias electivas (depende das vagas oferecidas ou do poder político daquele que as libera). As emergências vão para as macas dos corredores do Pronto-Socorro até surgir alguma vaga hospitalar. O médico é orientado a prescrever remédios da rede (mesmo sabendo que às vezes há outro melhor). Recusar a atender em lugares violentos, como favelas e bibocas dominadas por traficantes e drogados, sem cobertura policial, nem pensar, médico que é médico trabalha em qualquer lugar. Quando chega a Imprensa mobilizada por algum paciente insatisfeito, o coordenador do Posto de Saúde sempre arranja uma vaga, um remédio, uma ambulância para o paciente que antes não conseguia com o médico. A conclusão é que havia por parte do profissional má-vontade. Ignoram que para o profissional foi repassado que não havia nada disso.

 

Para o paciente e para a mídia o irresponsável é o pára-raios do Serviço Público: o doutor. E para quê reclamar dos baixos salários se o governo é que determina o que vai pagar. Esse é um retrato de uma sociedade que tem a ética e o respeito cada vez mais banalizados.

 

Depois de ter liberado nestes últimos 10 anos a abertura de 70 Escolas Médicas, nem sempre com o devido respaldo hospitalar para a prática de seus alunos (somos os vice-campeões no mundo em número de Escolas Médicas), o Governo recentemente se saiu com uma “novidade” não aprovada. Quis prolongar para oito anos a formação médica brasileira, para aperfeiçoar as novas safras de alunos que saem da faculdade tão despreparadas... Entretanto voltou atrás. Serão os seis anos convencionais mais dois anos obrigatórios em Residência na Atenção Básica ao Paciente, apesar de os alunos da Universidade Pública já fazerem seus estágios e aprendizado na rede pública hospitalar desde os primeiros anos de curso.... Mais recentemente, instituiu um polémico programa de assistência, o de "Mais Médicos". Não vamos discutir os interesses políticos, ideológicos e partidários do actual governo e os acordos assinados com países estrangeiros há bastante tempo atrás, entre outras medidas políticas, viabilizando no Programa o retorno de profissionais brasileiros que estudaram fora, sem a Revalida...  O que revolta é a insinuação que a classe médica brasileira trabalha contra a melhoria da assistência à saúde nos lugares mais remotos e/ou carentes, quando se opõe à entrada de médicos estrangeiros sem a devida Revalida (prova de capacitação profissional para atendimento nacional). A conversa “para boi dormir” do Ministro da Saúde é que importar médicos irá melhorar a qualidade e abrangência de atendimento no país, pois até os Estados Unidos e países europeus mais evoluídos recebem médicos estrangeiros para atender a população. Só não diz que nos USA e países mais desenvolvidos esses profissionais passam por um processo rigoroso de avaliação e capacitação. Só os melhores dos aprovados são seleccionados para ficar. Argumenta ainda o Ministro que temos um défice de profissionais (2 médicos /mil habitantes) enquanto Suécia, França, Espanha, Argentina têm mais de 3 profissionais por mil habitantes. Mas não diz que nesses países o governo participa com até 84% na assistência enquanto o Brasil não passa de 44%.

 

Somos 400 mil profissionais, seremos meio milhão em 2015, mesmo assim os programas do governo não atraem as novas gerações para o serviço público. Por que será? O governo ataca a categoria insinuando corporativismo pela fraca adesão ao outro programa, o PROVAB. Como recusar uma “bolsa” (especialidade do governo) de 8 mil reais mensais para trabalhar 40 horas semanais! Não interessa ao governo, dono da verdade e administrador do dinheiro dos nossos impostos (mais de um trilião de reais em 2012) se o piso salarial da categoria é 10 mil / mês por 20 horas semanais de trabalho (Federação Médica). Por quê exigir carteira assinada e direitos trabalhistas? Afinal o médico está-se aperfeiçoando... .

 

Se o país precisa de médicos na área pública, porque não se fazer como nos países desenvolvidos, onde os políticos utilizam e confiam na qualidade dos Serviços que eles viabilizam; invistam. No Brasil, nossos governantes e políticos não se arriscam, ao primeiro sintoma de doença procuram os hospitais da rede particular mais renomados, onde poucos têm cacife para se internar quando precisam. Por que será que nossos governantes não dão atenção aos gargalos que atravancam os atendimentos? Ampliem a rede hospitalar pública para receberem seus doentes, ao invés de distribuir verbas pelas redes privadas que guardam alguns leitos para o SUS... Por que não aprimoram a infra estrutura escola-hospitalar com profissionais concursados, especializados, com dedicação exclusiva e adequadamente pagos (não vou dizer o salário de um professor universitário, iria fazer muita gente rir para não chorar). Ofereçam mais leitos, mais UTIs. Construam mais Centros Médicos Básicos e outros Especializados, aparelhem os postos de Pronto Atendimento, garantam a segurança de seus elementos. Levem bases médicas equipadas com material e gente preparada às áreas do país mais longínquas e/ou mais carentes, fixem os profissionais promovendo o desenvolvimento do lugar. Médicos têm família, filhos que precisam de escolas, hospitais. Acções passageiras são paliativas, não resolvem os nossos problemas. O país precisa mais que analgésicos, precisa de sério tratamento.

 

Respeitem os direitos do cidadão, do assistente ao assistido, e se ainda assim não houver profissionais suficientes ou interessados, contratem sim profissionais estrangeiros que estejam dispostos a ajudar, que sejam capacitados e actuem dentro das leis do país, a que todos nós estamos submetidos, para que possam dar assistência aos que precisam. O Brasil já tem experiência positiva na área jurídica, levando juízes e promotores com planos de cargos e salários a todo o país. Por que não fazer o mesmo com o Setor da Saúde?

 

Como cidadã que trabalha e utiliza o serviço público quando precisa, me sentiria realizada se encontrasse na área de saúde brasileira o respaldo assistencial de qualidade que todos nós merecemos. Estamos cansados de meias-medidas, estamos cansados de banhos-maria.

 

 Maria Eduarda Fagundes

 

Uberaba, 19/09/13

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