Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

AS INCRÍVEIS PERIPÉCIAS DO PROFESSOR BRANQUINHO

 

Professor António Branquinho de Oliveira e sua mulher, Doutora Lurdes Branquinho

 

O Professor Branquinho de Oliveira nasceu em 1904 e faleceu em 1983. Foi um aluno distinto em Agronomia, fez o seu doutoramento em Cambridge e realizou importantes trabalhos de investigação sobre a ferrugem alaranjada do cafeeiro. Entre 1942 e 1947 foi professor no Instituto Superior de Agronomia, funções que deixou de exercer por razões políticas. Passou então a trabalhar na Estação Agronómica Nacional onde foi Chefe do Departamento de Fitopatologia até 1972.

 

Por ter feito o meu estágio de Agronomia no Departamento de Fitopatologia da Estação Agronómica Nacional, entre 1966 e 1969, tive a sorte e o grande prazer de conviver assiduamente com ele durante cerca de 3 anos. Foi um cientista que me marcou profundamente pelo entusiasmo que tinha pela Investigação e pelas suas qualidades humanas que se revelavam nas interessantes conversas que tinha com todos os funcionários. Acompanhava diariamente os trabalhos em curso e dava-nos muitas vezes conselhos e indicações sobre a melhor forma de realizarmos o trabalho e conseguirmos os objectivos desejados.

 

Por informação dos colegas que com ele trabalhavam há mais tempo, fiquei a saber que era frequentes vezes protagonista de episódios cómicos e insólitos.

 

Seleccionei alguns que me foram contados e outros a que eu próprio assisti.

 

VISITA À BIBLIOTECA

 

A primeira vez que tive contacto com o Prof. Branquinho foi no dia de Carnaval de 1966.

 

Frequentava então o 5º ano de Agronomia, na especialidade de Fitopatologia e, para a cadeira de Patologia Vegetal, tinha de fazer um trabalho de pesquisa bibliográfica sobre uma doença do milho. O nosso colega Ascenso Ferreira, que também tinha um trabalho do mesmo tipo para fazer, achou que deveríamos ir à biblioteca do Departamento de Fitopatologia da Estação Agronómica Nacional, Instituição altamente credenciada e onde certamente teríamos oportunidade de encontrar publicações de sobra para realizarmos o nosso trabalho.

 

Analisámos o calendário e chegámos à conclusão de que o dia que mais nos convinha era o dia de Carnaval, por não termos aulas e ser um dia de semana. Eu ainda aventei a hipótese de a biblioteca estar fechada mas o Ascenso foi peremptório em afirmar que as bibliotecas importantes estavam abertas todos os dias!

 

De manhã cedo apanhámos o comboio em Alcântara e seguimos para Oeiras. Fomos a pé da estação de comboio até à Estação Agronómica e, com alguma dificuldade, conseguimos encontrar alguém (talvez um guarda) que nos informou onde era o Departamento de Fitopatologia. Tivemos ainda de andar uns bons 20 minutos e, depois de atravessarmos uma pequena ponte, chegámos a umas estufas contornadas por calhas de cimento, cheias com água e destinadas a impedir a entrada de insectos.

 

Junto a uma dessas estufas, encontrámos um senhor com uns grandes bigodes que limpava a respectiva calha. Respondeu ao nosso cumprimento mas, como nada mais disse, continuámos a marcha. Ao fim de alguns minutos, verificámos que não havia mais ninguém nas imediações e não encontrámos nenhum edifício que nos parecesse ser uma biblioteca. Então o nosso colega Ascenso disse-me: - Temos de perguntar àquele homenzinho de bigodes, que deve ser o jardineiro, onde é a biblioteca.

 

Voltámos atrás e o Ascenso disse para o tal senhor dos bigodes:

- Nós somos alunos finalistas de Agronomia e gostávamos de consultar algumas revistas científicas na biblioteca de Departamento de Fitopatologia. Sabe se está cá algum técnico, de preferência engenheiro agrónomo, que nos possa mostrar a biblioteca e indicar onde podemos encontrar as revistas que queremos consultar?

 

A resposta do senhor de bigodes deixou o colega Ascenso “de queixo caído”: - Eu sou o Chefe do Departamento! Acha que sirvo????

 

Passámos o resto da manhã a ver a biblioteca que se encontrava numas instalações modestas junto das estufas. Sob indicação do Prof. Branquinho ficámos a saber quais as revistas e livros de maior interesse para realizarmos os nossos trabalhos. Uma afirmação que me impressionou e que recordo frequentemente, foi a seguinte: - Nesta prateleira estão as separatas de Departamento e naquelas três estão as minhas separatas...

 

 

CHÁ COM LEITE OU SEM LEITE?

 

Este foi provavelmente o primeiro episódio cómico protagonizado pelo Prof. Branquinho.

 

Quando foi para Cambridge fazer o seu trabalho de doutoramento, foi-lhe dito que era costume todos irem tomar chá à tarde.

 

No primeiro dia em que foi tomar o chá, uma das Senhoras presentes, fez questão de o servir. Depois de lhe colocar o chá na chávena, preparava-se para lhe acrescentar um pouco de leite, à boa maneira inglesa, mas o Prof. Branquinho recusou dizendo: - Not with milk.

Então travou-se o seguinte diálogo:

- You don´t like milk?

- I like milk but not with tea.

- And which milk do you like the best?

 

Aí a coisa complicou-se porque o leite que o Prof. Branquinho mais gostava era o leite de ovelha e naquele momento não se lembrava como se dizia ovelha em inglês.

 

Depois de pensar um pouco, recordou-se da palavra: EWE.

 

Então com ar triunfante e apontando para a sua interlocutora exclamou: - Milk of ewe!

 

É claro que a sua exclamação não soou como «milk of ewe» mas sim como «MILK OF YOU»!

 

A senhora parou a conversa, retirou-se discretamente e muito provavelmente evitou posteriores conversas com o “atrevido” doutorando português...

 

 

AGARRA QUE É LADRÃO

 

Para dar as suas aulas no ISA, o Prof. Branquinho deslocava-se muitas vezes de eléctrico.

 

Numa dessas deslocações, com o eléctrico apinhado, um gatuno conseguiu tirar um cordão de ouro a uma das passageiras que, no entanto, deu pela falta logo de seguida e gritou: - Roubaram-me o meu cordão! Roubaram-me o meu cordão!

 

Estava um polícia no eléctrico e imediatamente gritou: - Ninguém sai do eléctrico sem o cordão desta senhora aparecer!

 

O polícia começou então a pedir às pessoas para mostrarem o que tinham nos bolsos e o gatuno, para não ser apanhado, colocou o cordão num dos bolsos do casaco do Prof. Branquinho.

 

Quando o polícia pediu para mostrar o que tinha nos bolsos, o Prof. Branquinho perguntou-lhe: - Acha que tenho cara de gatuno?

O polícia só disse: - Faça o favor de me mostrar o que tem nos bolsos!

Então o Prof. Branquinho tirou vários papéis, chaves, canetas, etc. e, no fim, aparece o cordão de ouro! Ouviu-se logo uma voz feminina gritar: - É este! É este o meu cordão!

 

O episódio acabou na esquadra de polícia onde pela documentação exibida ficou provado que o preso não era um gatuno mas sim um Professor do Instituto Superior de Agronomia!!!

 

O SÓCIO...

 

Era costume o Prof. Branquinho deslocar-se ao Terreiro do Paço para falar directamente com as individualidades que superintendiam nos assuntos da agricultura porque os problemas colocados por escrito só tardiamente ou nunca eram resolvidos.

 

Numa dessas deslocações foi informado que a pessoa com quem queria falar só o poderia receber dali a uma hora. Então, o Prof. Branquinho foi até ao cais das colunas e ficou a olhar o rio Tejo, talvez a pensar como iria apresentar os problemas que queria ver solucionados.

 

Eis senão quando, reparou que um homem esbracejava furiosamente no rio e se aproximava muito lentamente do ponto onde ele estava. Achou que seria alguém que tinha caído ao rio e não sabia nadar. Como encontrou nas proximidades um pedaço de corda, imediatamente tentou socorrer o indivíduo, lançando-lhe a corda e dizendo para se agarrar bem de forma a que o pudesse puxar.

 

Quando o salvamento estava a ser consumado, ouviram-se alguns apitos. Apareceram vários polícias que agarraram os dois intervenientes e levaram-nos para a esquadra. Um dos polícias, apontando para o Prof. Branquinho, exclamou: - Este deve ser o sócio!

 

O homem que o Prof. Branquinho supunha ter caído ao rio não era mais do que um gatuno que a polícia tinha perseguido até ao Cais do Sodré e que se atirara à água para fugir, indo a nadar até ao cais das colunas.

 

UMA AVENTURA NA ARRÁBIDA

 

Pouco tempo depois de iniciar o meu trabalho de estágio no Departamento de Fitopatologia da Estação Agronómica Nacional, verifiquei que estava pendurado na biblioteca um rabo de lagarto.

 

Perguntei porque tinham aquele estranho objecto ali pendurado e a Dr.ª Teresa Lucas, micologista do Departamento, disse-me que era uma recordação de uma curiosa peripécia protagonizada, como não podia deixar de ser, pelo Professor Branquinho.

 

Num belo dia, o Prof. Branquinho resolveu ir até à serra da Arrábida para colher material. Convidou algumas das Senhoras que trabalhavam no Departamento para irem também, com vista a perfazer-se a lotação do carro da Estação Agronómica. Quem conduzia a viatura era o Sr. Cabaço, motorista da Estação Agronómica que habitualmente era destacado para estas viagens.

 

Ao chegarem à Arrábida, o Prof. Branquinho imediatamente se aventurou pelas escarpas da serra, com o entusiasmo que lhe era peculiar, enquanto as Senhoras que o acompanhavam se mantiveram junto à estrada a observar as plantas das bermas. O Sr. Cabaço permaneceu sentado na viatura, a dormitar.

 

Ao fim de algum tempo, ouviu-se uma voz a gritar: - Sr. Cabaço! Sr. Cabaço!

 

Imediatamente todos reconheceram a voz do Prof. Branquinho e correram para o local de onde os gritos vinham. Viram então o Prof. Branquinho com as duas mãos a segurarem qualquer coisa junto de uma das virilhas.

 

A Dr.ª Teresa Lucas que também estava presente confidenciou-me: - Quando vimos o Prof. Branquinho naquela situação, ficámos “para morrer” pois não fazíamos a mínima ideia do que se estava a passar. E ainda ficámos mais espantadas quando o Prof. Branquinho gritou:

- Minha Senhoras! Saiam já daqui porque vou tirar as calças!

 

Quando todas as senhoras se retiraram, o Prof. Branquinho, ajudado pelo Sr. Cabaço, tirou as calças e dentro delas estava um enorme lagarto que lhe tinha subido por uma das pernas e que o Prof. Branquinho segurava com firmeza.

 

O lagarto foi morto e o rabo guardado como recordação desta emocionante aventura...

 

OUTRA AVENTURA NA ARRÁBIDA

 

A serra da Arrábida era o local de eleição do Prof. Branquinho e foi o local que escolheu para levar duas fitopatologistas brasileiras que visitaram a Estação Agronómica Nacional.

 

Ao chegarem à Arrábida o Prof. Branquinho logo se aventurou a subir pela serra, esquecendo-se que as suas acompanhantes eram muito mais jovens e tinham mais energia para subirem as escarpas da serra.

Aconteceu, por isso que, ao fim de uma longa caminhada, as duas jovens fitopatologistas não denotavam à chegada quaisquer sinais de cansaço, enquanto que o Prof. Branquinho transpirava em bica.

 

Quando todos se juntaram para regressarem, o Prof. Branquinho, ignorando completamente as diferenças de significado de algumas palavras em Portugal e no Brasil, exclamou: - Safa! Estas duas raparigas são danadas para trepar!

 

As duas fitopatologistas brasileiras ficaram estupefactas com o que ouviram e, uma delas, disse para o Prof. Branquinho: - Fique sabendo que nós não somos raparigas e também não trepamos!

 

 

O CUCO

 

Este episódio, segundo creio, passou-se em Abril de 1968, e tive o prazer de assistir a ele presencialmente, uma vez que já estava a trabalhar no Departamento de Fitopatologia da Estação Agronómica Nacional, como estagiário.

 

Uma manhã, o Prof. Branquinho veio chamar os técnicos e estagiários que trabalhavam no Departamento para verem um novo hospedeiro que ele tinha descoberto para a ferrugem do cafeeiro, doença que estava a estudar e que constituía um grave problema da cultura do café em vários países tropicais. Juntou um grupo de umas dez pessoas que o acompanharam até à estufa onde tinha as plantas inoculadas.

 

Durante o percurso começou a cantar um cuco com o seu habitual cu-cu, cu-cu, cu-cu... Imediatamente o Prof. Branquinho nos mandou calar e parou para escutar o cuco. No fim disse: - Cinco!

 

Então explicou-nos que na terra dele, sempre que um cuco começava a cantar, as raparigas solteiras paravam para contarem o número de vezes que o cuco cantava e esse número corresponderia ao número de anos que faltavam para se casarem.

 

Depois da explicação, uma colega que ia no grupo perguntou:

- Professor Branquinho, não percebo bem como é que as raparigas fazem a contagem. O que é que corresponde a um ano? É um cu-cu ou é um cu?

 

O Prof. Branquinho tentou conter o riso, mas não conseguiu e houve uma gargalhada geral...

 

***

Outros episódios terão sido protagonizados pelo Prof. Branquinho.

Relatei aqui os principais de que tive conhecimento, deixando o convite aos colegas que conheçam episódios interessantes não só sobre o Prof. Branquinho mas também sobre outros Professores, ou de colegas nossos, os descrevam e coloquem no blog.

 

Não esqueçam que recordar é viver.

 

19 de Outubro de 2011

 

 José Constantino Sequeira

 

In http://agronomia1961.blogspot.pt/2011_10_01_archive.html

2 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2013
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2012
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2011
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2010
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2009
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2008
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2007
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2006
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2005
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2004
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D