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A bem da Nação

“DEUS GUARDE O HOMEM DE MULA QUE FAZ «HIM» E DE MULHER QUE SABE LATIM” - 4

              

Luís António Verney, o “frade Barbadinho” do mesmo século XVIII iluminista, tem, no entanto, opinião diversa a respeito das capacidades da Mulher, distanciando-se, até, de Rousseau que, progressista no campo da educação masculina, no seu “Émile”, para a companheira deste, Sophie, não emite mais do que opiniões convencionais sobre a educação de uma jovem cuja função na vida será a de servir bem o seu companheiro Emílio, com todas as artes e graças propícias a um casamento feliz. No seu “O Verdadeiro Método de Estudar”, Carta XVI, Verney defende a capacidade intelectual da Mulher e a necessidade da sua Educação:

 

Parecerá paradoxo a estes Catões Portugueses ouvir dizer que as Mulheres devem estudar; contudo, se examinarem o caso, conhecerão que não é nenhuma parvoíce ou coisa nova, mas bem usual e racionável. Pelo que toca à capacidade, é loucura persuadir-se que as Mulheres tenham menos que os Homens. Elas não são de outra espécie no que toca a alma; e a diferença do sexo não tem parentesco com a diferença do entendimento. A experiência podia e devia desenganar estes homens. Nós ouvimos todos os dias mulheres que discorrem tão bem como os homens; e achamos nas histórias mulheres que souberam as ciências muito melhor que alguns grandes Leitores que nós ambos (um reverendo P., Dr. Da Universidade de Coimbra, a quem finge dirigir-se) conhecemos. Se o acharem-se muitos que discorrem mal fosse argumento bastante para dizer que não são capazes, com mais razão o podíamos dizer de muitos homens… Se das mulheres se aplicassem aos estudos tantas quantas entre os homens, então veríamos quem reinava…

 

Prossegue Verney a sua tese sobre a necessidade da Mulher estudar, em função, é certo, não do seu próprio interesse espiritual de ser humano com personalidade própria, mas das vantagens familiares e sociais que daí adviriam, conceito que, embora unilateral, não deixa de ser correcto. Ainda hoje, apesar das pressões económicas que exigem o trabalho exterior da Mulher, muitas mães de família, sobretudo nas sociedades culturais mais desenvolvidas e também , é certo, economicamente mais estáveis, trocam inicialmente a carreira profissional pelo acompanhamento escolar dos filhos, o que, a generalizar-se, só traria vantagens para a formação moral e cívica dos cidadãos de qualquer país.

 

Os anos passaram, o século XIX surge com os expoentes tão significativos da cultura literária portuguesa, mas nem, Garrett, nem Camilo, nem Eça de Queirós se eximem a ironizar sobre a “doutorice” pedante da Mulher, Garrett com o seu comentário sobre as “boquinhas gravezinhas e espremidinhas pela doutorice que são a mais aborrecidinha coisa e a mais pequinha que Deus permite às suas criaturas fêmeas”. (“Viagens na minha Terra”, cap. XII), Eça reforçando em diminutivos irónicos o retrato de uma personagem feminina no episódio das corridas (“Os Maias”, cap. X), ou no conceito alegremente demolidor da personagem Ega da mesma obra, “A mulher só devia ter duas prendas: cozinhar bem e amar bem” (Cap. XII). Mas é Camilo que, em longa diatribe verrinosa, encarna o perfeito espécime da tacanhez de princípios de uma sociedade burguesa e machista, que transforma a Mulher em puro objecto do conforto masculino. Nem sabemos se a exaltação discursiva do escritor subentende um retrato da em tempos muito amada Ana Plácido, pessoa de leitura e talentos de escrita que a levariam mais vezes ao sofá do que às peúgas rotas do marido:

 

 

«As Literatas»

 

Pais de família, híbridos, caturras,

Escrevo para vós! Se tendes filhas

Com sestro maçador de fazer versos,

Dai-lhes p’ra baixo, como eu dou nas minhas!

Eu vejo serigaitas, mal lavadas

Do almíscar infantil de seus cueiros,

Fazerem relações “co’s raios pálidos,

Da estrela matinal, do lago límpido,

Das auras ciciantes, e da aragem”

E doutras semelhantes trampolinas,

Que vós não entendeis, nem eu, nem elas.

 

Espevitam-se todas estas gaitas

“Da música melancólica das noutes”

Mal sabem onde têm a mão direita,

Não viram, do nariz, um palmo adiante,

E falam de “paixões íntimas d ‘alma,

De crenças desbotadas, e de flores

Fanadas ao soprar da leda infância.”

 

Acaso compreendeis, pais de família,

Da nova geração destas piegas

A triste chiadeira que nos fazem?

Dai-lhes p’ra baixo, como eu dou nas minhas!

 

Não tendes uns fundilhos nas ceroulas?

Não tendes roto o calcanhar da peúga?

Não tendes uma estriga e fuso e roca?

Mandai-as trabalhar; dai-lhes a ciência

Precisa para o rol da roupa suja.

Se lhes virdes romance, ou essas cousas

Chamadas folhetins, sobre a toilette

(A toilette, meu Deus, por causa delas

Perverteu-se a dicção do nosso Barros)

Dai-lhes p’ra baixo como eu dou nas minhas!

 

Quem é o parvo que esposar-se queira

Com literata alambicada e chocha?

Sentada num sofá, Safo saloia,

Em lânguida postura requebrada,

Se eu visse a minha Antónia! Ai que panázio

Que revés de catreca eu lhe pregava!

 

Pais de família! Não achais bem triste

Entrar um cidadão em sua casa,

Cansado de lavrar o pão da vida,

E ver sua mulher repoltreada

Na otomana gentil lendo romances?

Pobre marido! Quer falar duns frangos

Que baratos comprou e a literata

Pergunta-lhe se leu “Kossuth e os húngaros”.

O parvo franze a testa aborrecido,

Procura entre os lençóis um refrigério:

Mas no excesso da dor rasga as ceroulas,

E no mundo não tem mulher ou anjo

Que lhas saiba coser! Ai do mesquinho!

 

Onze  horas já são! O bom do homem

Três vezes já pediu café com leite.

Apertam-no negócios; mas embalde

Pediu com desespero o tardo almoço.

 

A tarda esposa inda ressona

Pois vira despontar a estrela d’alva

Nos rubros arrebóis dos horizontes,

E inspirada fizera quatro quadras,

Ardentes de ideal romantecismo.

 

“Café com leite!” brada em vão três vezes,

O bode expiatório dos romances…

“Café com leite!” os ecos lhe respondem,

Que a Stael d’água doce inda ressona!

 

Maridos imbecis! Eu vos lamento!

A culpa não foi vossa! Aos pais a imputo,

Madame Podestá dizem que ensina

Gramática, retórica, hidráulica,

Mecânica ginástica estética,

E química e botânica e plástica,

O árabe, o sânscrito, a geografia,

A prosódia, a sintaxe, indústria e cânones,

E muitas cousas mais, como t’rapêutica.

 

Será tudo muito bom: mas eu aposto

Que o remate de tantas luzes juntas

É capaz de fazer perfeitas tolas

As muitas que lá vão com seu juízo!

 

Pais de família, tendes filhas destas?

Dai-lhes p’ra baixo como eu dou nas minhas!

……………………………………

 

Acabava aqui o texto, omisso nas referências ao século XX, reivindicativo e crítico, que outros rumos tomou, vários, relativamente à personagem Mulher. Esta conquistaria a sua emancipação sob muitas facetas, ajudada pelo pronto-a-vestir, que fez suprimir a agulha e o dedal para as peúgas dos maridos. Mas os conflitos familiares actuais, com bastos uxoricídios no nosso país, provam a natureza de fundo do nosso machismo - a mesma do das origens - prepotência, discriminação na cultura, atraso, convenção.

 

FIM

 Berta Brás

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