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A bem da Nação

Norte-Sul?

Nos anos 60 do século passado, o já então famoso economista liberal americano Milton Friedman foi fazer uma série de conferências em várias Universidades indianas e explicou como seria mais interessante para a Índia deixar de fabricar aço e passar a importá-lo dos Estados Unidos. A História não registou se havia avião no próprio dia da conferência em que desenvolveu tal raciocínio ou se só no dia seguinte mas ficou perfeitamente registada a total animosidade com que os nacionalistas indianos acolheram a tese aventada e a pressa com que o palestrante teve que sair do país. Proferir tais afirmações num país que pouco antes tivera que recorrer à violação das leis económicas e comerciais que lhe eram impostas pela potência administrante, a Inglaterra, não resultou de insanidade mas sim de grande coragem. É evidente que Friedman tinha razão técnica mas também é claro que lhe faltou por completo o sentido político. E, àquele nível, um economista não é apenas um técnico, é forçosamente um político. Falhou, portanto. Por se tratar de uma experiência não experimentada, nunca saberemos como teria sido a evolução económica da Índia se tivesse seguido uma política liberal como a preconizada por Friedman mas o que sabemos hoje é que aquele país conseguiu várias façanhas notáveis, nomeadamente a autonomia alimentar, a construção de uma fileira de tecnologia informática com elevada expressão mundial sobretudo no software, pôr satélites científicos no espaço e consolidar a maior rede de caminhos-de-ferro mundial. Para quem poucas décadas antes estava proibido de fiar o algodão que produzia, é notável. De notar que, neste percurso, pouco ou nada se ouviu falar do FMI. Pela mesma época, a Argentina também aplicava políticas não liberais seguindo a via peronista, nomeadamente com a instalação de indústrias para substituição sistemática de importações e a Primeira-dama gerindo o Orçamento Social Nacional como se se tratasse do orçamento doméstico da Casa Rosada. Quando Perón saiu pela primeira vez da Presidência a Argentina estava falida e mesmo assim ainda voltou a ser eleito para morrer no Poder; ainda hoje a Argentina sofre as consequências de tantas medidas nefastas e o FMI tem que lhe estar sempre a acudir. Do continente africano, o que consta é o acumular das dívidas e um interminável coro de pedidos de perdão tanto de juros como de capital. É conhecida a falta de transparência de tantos regimes políticos africanos com os Presidentes a confundirem inocente ou deliberadamente as funções de Estado com as de proprietários e lidando com os dinheiros públicos como se se tratasse de liquidez pessoal. Em todos os casos de insucesso, o que se ouve é blasfemar contra o FMI, essa instituição tão representativa dos chamados “interesses do Norte”, em vez de se analisarem as causas que conduziram a tais insucessos, por exemplo do cariz das acima referidas. O regime é corrupto? Não tem crédito! Ponto final, não há discussão. O regime é sério mas houve erros de política? Muito bem, vamos discutir as novas políticas e tratar dos novos créditos. Não haverá, contudo, uma fórmula única para todos os casos de insucesso e sendo desejável que não ocorram novas histórias ao estilo da de Friedman na Índia, também não tem qualquer moralidade estar a perdoar juros e capital a regimes políticos que não fazem sentido na perspectiva da nossa civilização, a tal tão má mas que é a que dá os tais créditos tão ambicionados; se querem o nosso escasso dinheiro têm que se comportar de acordo com as nossas regras. Mas se este sancionamento pelo FMI é imprescindível como garante da legitimidade política dos regimes, da sanidade das Administrações e das políticas económicas aplicadas, não é menos importante que, em complemento, os Estados do Norte correspondam às legítimas necessidades de desenvolvimento dos do Sul emitindo crédito para que estes se possam aprovisionar dos equipamentos que não produzem. Faz todo o sentido que exista uma política de financiamento do cliente estrangeiro devidamente credenciado, seja ele público ou privado, do Norte, do Leste ou do Sul pois cada vez mais esse é um factor de competitividade que não depende da vontade das empresas exportadoras e apenas da vontade política dos Governos. Do nosso, por exemplo. Lisboa, Setembro de 2003 Henrique Salles da Fonseca

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