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A bem da Nação

O MARTELO DOS HEREGES

Nascido em Lisboa no ano de 1195, morreu em Vercelli no dia 13 de Junho de 1231; baptizado Fernão, ficou na História para nós, portugueses, como Santo António de Lisboa e de Pádua para os italianos.

Ficheiro:Santo Antonio 01b.jpg Santo António pregando aos peixes - mural de azulejos, Guimarães

Historiadores do séc. XV admitiram a possibilidade de o seu pai, Martim de Bulhões, ser descendente de Godofredo de Bulhão, comandante da Primeira Cruzada e a sua mãe, Teresa Taveira, descendente de Fruela I, quarto rei das Astúrias e Leão que governou entre 757 e 768. Contudo, a genealogia completa ainda é incerta; tudo o que se sabe é que os seus pais eram nobres, ricos e tementes a Deus. Fernão nasceu rico numa casa próxima da Sé de Lisboa, com pais relativamente jovens.

Educado na escola da Sé, ingressou em 1210, aos 15 anos, no convento de Lisboa da Ordem de Santo Agostinho, o de S. Vicente. Dois anos depois e para evitar as frequentes visitas de amigos e familiares, pediu e obteve dos seus superiores a transferência para o Convento de Santa Cruz em Coimbra onde permaneceu oito anos. Muito estudioso e dotado de grande inteligência e excelente memória, cedo obteve um grande conhecimento das Sagradas Escrituras.

Em 1220, assistindo na Igreja de Santa Cruz aos actos fúnebres dos primeiros mártires Franciscanos mortos em Marrocos em 16 de Janeiro desse mesmo ano, optou pela via do sacrifício e eventual martírio e decidiu tornar-se Frade Menor de modo a pregar a Fé aos sarracenos. Tendo confidenciado as suas intenções a alguns membros do Convento dos Olivais, então arrabaldes de Coimbra, recebeu deles o hábito franciscano. Assim foi como Fernão deixou a Ordem dos Cónegos Regulares de Santo Agostinho para ingressar na Ordem dos Frades Menores, Franciscanos, onde tomou o nome de António. Este, o nome que o Convento dos Olivais viria em sua memória a adoptar também.

Pouco depois do seu ingresso na Ordem Franciscana, António seguiu para Marrocos mas adoeceu gravemente durante todo o Inverno e foi obrigado a regressar a Portugal na Primavera de 1221. Contudo, o barco em que navegava foi apanhado por forte tempestade e acostou involuntariamente à Sicília onde António permaneceu o tempo suficiente para se recompor dos problemas de saúde. Tendo entretanto ouvido dizer que um Capítulo Geral se reuniria em Assis a 30 de Maio, para lá se dirigiu a tempo de participar nos trabalhos. Concluída a reunião, António permaneceu no silêncio sem que mais se tenha ouvido falar dele.

“Não disse uma palavra sobre os seus estudos”, escreveu um dos seus primeiros biógrafos, “nem sobre os serviços que já prestara; o seu único desejo consistindo em seguir Jesus Cristo até um eventual martírio”. Assim, pediu para ser colocado num lugar em que pudesse viver em isolamento e penitência com vista a entrar mais profundamente no espírito e disciplina da vida franciscana. Foi então colocado no Eremitério de Montepaolo (próximo de Forli) onde passou a celebrar Missa para os irmãos leigos ali residentes.

Certo dia reuniram-se em Forli inúmeros frades franciscanos e dominicanos para receberem a ordenação sendo que António estava presente apenas como acompanhante do seu Provincial. A certo momento, concluiu-se que ninguém fora indigitado para fazer a Homilia e o Provincial Franciscano convidou o Superior Dominicano ali presente para indigitar algum dos seus para fazer a prática. Contudo, todos declinaram dizendo que não estavam devidamente preparados. Na emergência, coube a indigitação a António a quem todos julgavam apenas capaz de ler o Missal e o Breviário. Foi-lhe assim ordenado que dissesse o que o Espírito de Deus pusesse na sua boca.

Compelido pelo voto de obediência a que estava obrigado, António começou por falar lenta e timidamente mas depressa se entusiasmou e passou a explicar os mais recônditos significados das Santas Escrituras com tal erudição, profundidade e de tão sublime doutrina que todos os presentes se encheram de espanto. Aquele, o momento em que começou a carreira pública de António.

Informado da ocorrência, o futuro São Francisco de Assis dirigiu-lhe a seguinte carta:

Ao Irmão António, meu Bispo (i.e. Professor de Ciências Sagradas)o Irmão Francisco envia as suas saudações. Será do meu agrado que vós ensinais Teologia à nossa irmandade considerando, contudo, que o espírito de oração e devoção não se extinga. Adeus. (1224)

Seguiu-se o ensino em Bolonha, Montpellier e Toulouse.

No entanto, foi sobretudo como orador – mais do que como Professor – que António fez a sua grande colheita. Num grau perfeitamente eminente, possuía todas as qualidades de um pregador eloquente: voz forte e clara, porte de ganhador, memória prodigiosa e os mais profundos e amplos conhecimentos da Doutrina. A estas características há a crescentar o espírito profético e um extraordinário dom miraculoso. Com o zelo de um apóstolo, iniciou uma reforma da moralidade então vigente combatendo especialmente os vícios da luxúria, avareza e tirania. Distinguiu-se igualmente no combate aos hereges mais importantes naquela época, os Cátaros e os Patarinos que «infestavam» o centro e norte de Itália e os Albigenses no sul de França.

Dentre os muitos milagres que lhe são atribuídos, os mais referidos pelos seus biógrafos são:

O de um cavalo em Rimini que não comia havia já três dias recusando qualquer comida que lhe pusessem à frente, até que se ajoelhou em adoração perante as Sagradas Escrituras que Santo António lhe colocou à frente comendo então umas avelãs que lhe apresentaram;

• O da comida envenenada que uns herétics italianos lhe apresentaram e que ele, com o sinal da cruz, transformou em inofensiva;

• O do famoso sermão aos peixes que ele proferiu nas margens do rio Brenta, próximo de Pádua.

Eis por que tanto o zelo no combate às heresias como as inúmeras conversões que fez lhe renderam o glorioso título de Malleus hereticorum, o Martelo dos Heréticos.

 

C-HSF-Mékong.jpg

Henrique Salles da Fonsec

INVEJAS E FALÁCIAS

Rejubilam as parangonas com o agendamento pelo G7 do «imposto comum» mas, até mais ver, tudo é fumaça. E já se diz que será uma taxa de 15%.

Muito bem, pergunto então sobre que valores se aplicará a dita taxa e para que servirá o produto arrecadado.

Obviamente, ninguém que esteja munido de alguma seriedade saberá responder. São, portanto, parangonas balofas.

Dá-se na aritmética aos meninos de escola que aplicar uma taxa a produtos diferentes produz resultados díspares e que o efeito distributivo da receita pública é matéria muito volátil.

Começando pelo fim, o «imposto comum» será cobrado pelos Fiscos nacionais e não reverterá para um bolo comum, será receita de cada Estado. Ou seja, total ausência de solidariedade internacional e apenas aumento da carga fiscal em cada país.

E quanto aos tais 15%, aplicados a bases tributadas calculadas sabe-se lá como, vão por certo gerar uma distorção da concorrência fiscal entre os Estados.

O júbilo das parangonas, tendo subjacente o espírito de «partir os dentes ao capitalismo», não tem o cuidado de ver o logro em que um pouco de estudo poderia evitar o ridículo em que está a cair.

Rapidamente, a taxa é o último ponto a tomar em consideração num processo destes. Tudo tem de começar pela aprovação internacional de um POCI – Plano Oficial de Contas Internacional como, ao fim de décadas de trabalhos, a Europa já conseguiu fazer. Só assim se poderá ter uma «linguagem contabilística comum» e saber que aquela despesa é tratada do mesmo modo em toda a parte, que aquela provisão se destina exactamente ao que ficou internacionalmente estabelecido, etc. E só quando este trabalho estiver concluído é que poderá passar a haver alguma transparência na concorrência fiscal entre Estados com duas vertentes essenciais: o método de cálculo das matérias tributáveis (quais as despesas dedutíveis) e quais as taxas a aplicar assim determinando as matérias colectáveis. Ganhará a competição o Estado que mais despesas permitir deduzir e taxas mais baixas aplicar.

Daqui resulta que a discussão começou pelo fim, a «casa» começou a ser construída pelo telhado e em breve ninguém mais saberá do que está a tratar.

Havia que mexer nalguma coisa para que tudo ficasse na mesma.

«Joe Biden, 15 – G7, zero».

POR CEUTA E MAIS ALÉM... (2)

GOA, BASE DO IMPÉRIO PORTUGUÊS NO ORIENTE

Como informei no preâmbulo do texto anterior sob a mesma epígrafe, este texto também se enquadra no pedido que me foi feito em nome d’«O Heraldo», jornal de Pangim, Goa, onde aguarda publicação…

* * *

Em relação a Macau basta recordar que foi numa ilha na foz do Rio das Pérolas que faleceu São Francisco Xavier que dali foi trasladado para Malaca e, mais tarde, para Goa.

Em Macau fala-se português mas… Os polícias, com fardas absolutamente iguais às dos seus colegas em Lisboa, ouviram a minha pergunta (uma qualquer que improvisei e já esqueci) com ar enigmático e de perda total. Repeti em inglês e o ar de perdição manteve-se. Fiz um gesto de agradecimento e fui para outro lado lamber as feridas quanto ao fiasco relativo à minha língua e a rir-me secretamente quanto ao inglês.

* * *

Em 1513, quatro navios portugueses chegaram a Kalapa (ilha de Java), o porto principal do reino hindu de Sunda. Vinham de Malaca, portuguesa havia dois anos, à procura de especiarias, principalmente de pimenta. As relações de comércio desenvolveram-se com normalidade e no dia 21 de Agosto de 1522 foi firmado um Tratado de Amizade entre Sunda e Portugal.

Contudo, em 1527 Kalapa foi assaltada e destruída por Fatahilaha Kahn, muçulmano, que era inimigo tanto dos portugueses como do Rei de Sunda.

Reconstruída pelos conquistadores, a cidade recebeu o nome do terceiro Sultão de Banten, Pangeran Sungrasa Jayawikarta III, longo nome este que, abreviado, deu em Jakarta. E se os religiosos e militares portugueses saíram, os nossos comerciantes voltaram a frequentar o novo burgo e suas cercanias com grande utilidade para vendedores e compradores das especiarias que por ali abundavam.

O prestígio de Portugal (leia-se “utilidade comercial e militar”) e a influência religiosa eram tantos naquela região que em 1573 o Sultão de Ternate (Molucas) doou toda a ilha de Amboíno ao seu padrinho de baptismo, Jordão de Freitas, indo morrer a Malaca não sem antes ter deixado em testamento todo o reino de Ternate ao Rei de Portugal. Contudo, D. António de Noronha, Vice-Rei da Índia, terá entendido que seria mais útil um fantoche no trono de Ternate que seguisse docilmente as orientações portuguesas do que assumir directamente os constantes conflitos na região pelo que não aceitou a doação e instalou Hairum, irmão do Sultão defunto, no trono que estava de facto vago.

E parece que a decisão foi acertada pois o novo Sultão seguiu o exemplo do seu irmão e antecessor consolidando a amizade com os portugueses a quem convidou em 1578 para construírem uma fortaleza. E o comércio continuou...

Mas o Sol não foi doirado por muito mais tempo para nós pois, entre espanhóis e holandeses, o «destino» quis que saíssemos em 1605 dessas paragens. Saímos oficialmente mas ficámos escondidos dos calvinistas.

Foi em 1610 que o general holandês Petrus Bothe fundou Batávia para apagar a antiga Jakarta sendo necessário esperar pela total independência da Indonésia em 1949 para que o nome holandês desaparecesse e Jakarta retomasse o seu lugar nos mapas.

Contudo, os holandeses não conseguiram apagar-nos por completo pois permanecem vestígios significativos um pouco por todo o lado. Por exemplo, na ilha das Flores a norte de Timor, ainda hoje a fórmula de proclamação dos rajás de Sikka reza que:

«Viva Altíssimo Senjor Don [o actual é Dom Joze Thomaz Ximenes da Silva], sei boa saudi, El Quam Deos Nossa Senjor dê longa vida permanosa El-Rei reinjho de Sikka. De baixo de Lisboa».

Esta última expressão “De baixo de Lisboa” significa que, mesmo decorridos tantos séculos, os rajás de Sikka se consideram súbditos do Rei ou Presidente de Portugal. Eles ainda hoje nos tratam assim e nós, esquecidos, que fazemos por eles?

* * *

Corria o ano de 1543 quando os portugueses puseram pé em solo japonês, na ilha de Tanegaxima. Quem? Pois nem mais nem menos do que o famoso Fernão Mendes Pinto na companhia de Diogo Zeimoto e de Cristóvão Borralho. Todos os seus companheiros entraram no rol dos esquecidos.

E que foram lá fazer? Comerciar, claro está; mas também evangelizar.

O comércio era fundamental para a viabilização de todos os empreendimentos ao estilo imperial e mesmo quando não se pretendia assentar arraiais pela posse, esse comércio era necessário para benesse dos cabedais de quem se aventurava mares adentro.

Foi então o espírito empreendedor dos portugueses que promoveu o estabelecimento de relações com o Japão de modo que o chamado «navio negro» (porque revestido de breu como isolante contra as moléstias que dão às madeiras) usava as monções para levar sedas e porcelanas chinesas até ao Japão para, na volta, trazer prata para a China. E foi por causa deste trato que ao «navio negro» se passou a chamar «a nau do trato». Então, o negócio sendo de tal modo rendoso, a Coroa – a nossa, claro está – chamou-lhe seu (ao dito negócio) e passou a adjudicá-lo a quem melhor a remunerasse. A licitação era feita em Macau que arrecadava uma parcela da renda, mas fazia as adjudicações por ordem do nosso Vice-Rei da Índia que amealhava outra parcela. Quanto chegava a Lisboa? Não tenho esses registos à mão de semear mas tempos houve em que essa Lisboa se chamava Madrid.

Depois de feras quezílias entre os muitos Senhores feudais japoneses disputando a parceria com os portugueses e depois de muitos incómodos religiosos durante o consulado de Toyotomi Hideyoshi que governava de facto o Japão em nome do meramente simbólico Imperador, Nagasaki foi o porto que a «nau do trato» passou a usar e foi a cidade em que a Companhia de Jesus estabeleceu a sua missão mais oriental. Nagasaki foi entreposto português durante anos de grande lucro para todas as partes

Sabe-se que Toyotomi Hideyochi perguntou certa vez ao padre jesuíta português João Rodrigues (“o intérprete”) se o seu Rei gostaria que os japoneses fossem para lá combater a religião católica fazendo o proselitismo do xintuismo; então, o seu Imperador também não queria que os portugueses andassem pelo Japão a minar a religião nacional e, portanto, ele, Toyotomi, que governava em nome do Imperador, não permitiria que os portugueses continuassem a pregar a sua religião – comércio, sim; religião, não.

Seguiram-se as chacinas de mais de duzentos católicos portugueses e japoneses que a Santa Sé vem beatificando e canonizando.

E, dentre estes, faço notar que os mais celebrizados são aqueles a quem a Santa Sé chama os «26 Mártires do Japão» que, curiosamente, são 28. Mistério que não é dogma de fé mas apenas erro de aritmética. O 9º mártir é S. Gonçalo Garcia, natural de Baçaim onde é alvo de veneração.

Tudo isto e muito mais tinha a sua génese em Goa, o comando oriental do Império Português nas bandas do Sol nascente, a «Goa Doirada». E porque foi base de império, foi doirada. Hoje é colónia.

Abril de 2021

Henrique Salles da Fonseca

POR CEUTA E MAIS ALÉM... (1)

Este texto foi solicitado pelo jornal «O Heraldo», de Pangim, Goa, onde aguarda publicação.

* * *

 Leão e Castela nunca viram com bons olhos a independência de Portugal e desde o bafordo do vale do Vez, de tudo têm feito para acabar com essa «rebeldia». Já do mesmo se tinham queixado os romanos relativamente aos lusitanos e tal qual se diga dos soviéticos em relação às colónias portuguesas.

À falta de dimensão local, ibérica, impunha-se o alargamento da área de influência e o inerente ganho de recursos que permitissem suportar a sempre latente necessidade de enfrentamento da agressão castelo-leonesa.

E foi assim e por essa causa que nasceu a «aventura» ultramarina portuguesa iniciada por D. João I em Ceuta no já distante dia 21 de Agosto de 1415 e com epílogo no Largo do Carmo, em Lisboa, no dia 25 de Abril de 1974.

De início, a mistificação foi pelo encapotamento da aquisição de dimensão política pelo alargamento da fé no âmbito da Cruzada do Ocidente; no final, a mistificação foi pelo encobrimento da entrega das remanescentes colónias portuguesas ao Império Soviético pela conquista das falaciosas «mais amplas liberdades».

Mas, entretanto, ocorreram «coisas» interessantes, umas, importantes, outras…

O início da «aventira» fez-se a partir de Tavira (e não de Sagres) onde em 1430 já existia o «Hospital do Espírito Santo» (ainda hoje formalmente existente) cuja principal missão consistiu na assistência a quem andava em campanha no norte de África. Mas a partir do momento em que as navegações se começaram a estender para além do Cabo Bojador, deixou de ser útil transportar os doentes para Tavira e assim foi que começou a instalação de hospitais de proximidade em relação às ocorrências que geravam necessidades de assistência clínica ou mesmo cirúrgica. E foi desse modo que foram instalados 17 hospitais entre Tavira e Baçaim cuja missão principal foi a de prestar assistência aos tripulantes e passageiros na «rota da Índia» mas também dispensando cuidados aos nativos de cada uma das ditas 17 localidades.

Assente pé em Goa e desenvolvido o comércio até então exclusivo de muçulmanos, foi fácil dar a volta até Coromandel onde se deparou a riqueza fantástica do Estreito das Pérolas e sua base logística no extremo norte do Ceilão, a Península de Jafna, ou seja, o Jafanapatão na linguagem típica dos portugueses de então. E o comércio das pérolas mudou de intermediários, no que foi um rude golpe em inúmeros interesses até então por ali estabelecidos. A missão evangelizadora foi entregue a franciscanos e jesuítas no que se revelou um processo de conversões em massa como não se esperava nem se julgava possível. Era um povo dócil que a nada opunha resistência e que os portugueses tomaram por indolência congénita. As querelas – e houve-as várias a ponto de termos sido «obrigados» a depor um Rei e a colocar outro no trono – eram instigadas por povos vindos do centro da ilha mas, a pouco e pouco, fomos nós, os portugueses a adoptar a indolência e quando os holandeses chegaram para nos tirarem o negócio das mãos, fomos evacuados de padiola e muitos morreram na viagem até Goa. Passado o tempo que a História narra, foram os holandeses que não opuseram resistência aos ingleses e estes levaram o gin que tomavam com quinino e não foram apanhados pela indolência. O preço das perolas media-se em doses letais de paludismo. Entretanto, chegáramos ao extremo sul do Ceilão em busca de mais comércio e não tardou muito para nos vermos envolvidos na política local com reinos agredidos a pedirem-nos protecção contra reinos agressores. Eis como o Rei de Candi, D. Filipe Jamasinha Bandara, nos pede protecção, nós lha dispensamos, ele assegura o trono mas morre logo de seguida de causas tidas por naturais. O filho e sucessor natural, D. João de Áustria Cândia, sendo criança, não foi confirmado no trono pelo Conselho do Reino e foi substituído pelo tio, irmão do Rei acabado de morrer. E, para aplanar problemas sucessórios no reino, foi D. Lourenço de Almeida, «o gigante loiro», filho do Vice-Rei D. Francisco de Almeida e que viria a morrer em Diu, que foi encarregado pelo Conselho de Estado de levar o não-Rei para longe. Para Goa onde a vida continuou. Mas essa é outra história…

No Sri Lanka actual, fala-se uma certa forma de português na costa leste, em Trincomalee e em Batticaloa.

Chegara, entretanto, a hora de «passar além  da Taprobana», a hora de o comércio florescer entre todas as partes banhadas pelo Mar de Andaman, de o português ter passado a ser a língua franca de toda aquela vastíssima zona e de Filipe de Brito e Nicote, natural de Lisboa, ter sido eleito Rei da zona central da Birmânia, ter governado durante 12 anos com grande proveito para os seus súbditos e ter sido morto à frente das suas tropas em defesa da sua capital contra o tradicional inimigo a norte de cujo temor popular resultara a sua eleição.

Estava Portugal a braços com a Guerra da sua própria Restauração contra os Habsburdos de Espanha quando os holandeses tomaram Malaca e escravizaram os portugueses lá residentes e os deportaram para Batávia (Jakarta) com o intuito de os fazer de capatazes dos sub-escravos locais nas plantações de seringueiras, as árvores da borracha. Mas os escravos portugueses solidarizaram-se com os  escravos indonésios e os holandeses não encontraram outra solução que não a de negociarem a alforria dos portugueses. Assim foi que estes reconquistaram a liberdade, ganharam um território próprio que passaram a habitar e a administrar, onde se fala português e que ainda hoje, plenamente integrado na bela malha urbana de Jakarte, continua a ser o «bairro dos portugueses», Tugu. Curiosamente, tanto em Malaca como em Jacarta ainda hoje se falam formas específicas de português enquanto que de holandês pesa a memória.

Entretanto, os comerciantes portugueses haviam navegado pelo Golfo do Sião, subido o rio Praia e feito comércio em Ayutaiah e em Bangkok. Os proveitos bilaterais desse comércio e relações de amizade levaram o Rei do Sião a oferecer ao seu «irmão», o Rei de Portugal, ali representado por Afonso de Albuquerque, um local fronteiro a Bangkok para instalação duma feitoria. As relações entre os dois países têm sido de tal modo exemplares que nesse local ainda hoje se localiza a Embaixada de Portugal junto do Rei da Tailândia.

(continua)

Henrique Salles da Fonseca

 

PELO TOQUE DA ALVORADA - 13

Hoje, na parada, enquanto esperava pelo toque da alvorada, os primeiros vislumbres de luz e o chilrear da passarada fizeram conjunto de tal beleza que me lembrei de que tudo aquilo – menos a obra que está a meio no prédio ao lado – só pode ser resultado de decisão sublime, divina. Vai daí, lembrei-me dos argumentos ontológicos de Stº Anselmo, de Pascal e de Einstein, lembrei-me duma jovem que secretariava um Ministro e que do Ministério seguia para a Universidade Católica onde cursava Teologia e lembrei-me também daquele cavalheiro cujo nome esqueci que se formara em Roma na Universidade Gregoriana em Filosofia Dogmática. E foi assim que dei por mim a pensar em Karl Popper quando diz que a Teologia é necessária para quem não tem fé pois que, quem a tem, não precisa dessa ciência para nada. E quanto à Filosofia Dogmática, acho que são exercícios de explicação do inexplicável. Não sei, vou estudar e depois conto.

ONDE ESTÁ A MENTIRA?

PRIMEIRA NOTÍCIA - O Dr. (…), médico no Hospital (…) de Tel Aviv, aplicou um determinado remédio à base de (…) e de (…) a doentes terminais com Covid e, passados cinco ou seis dias, os doentes levantaram-se sem mais problemas respiratórios.

SEGUNDA NOTÍCIA - A Professora Doutora M. J. (…) da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, conhece esses componentes do remédio israelita

TERCEIRA NOTÍCIA – Nas últimas 24 horas registou-se mais um óbito por Covid.

* * *

Claramente, não acredito no tal Rt (índice de transmissibilidade cuja fórmula de cálculo deve ser secreta) e nas estatísticas de novos casos detectados diariamente (sempre a acertar com falhas de contagens anteriores) mas acredito nos números revelados sobre doentes em enfermaria, em cuidados intensivos e no número diário de óbitos.

E é aqui que se me levantam as dúvidas: se os israelitas terminais saem das camas sem os problemas de asfixia que os estavam a matar; se a nossa Professora conhece os componentes desse remédio, como se explica que continuemos a registar óbitos?

Alguém anda a mentir no meio disto tudo e a certeza que tenho é a de que os mortos não mentem.

BOM DIA

Hoje, desci à parada

para ouvir

o acordar da passarada

e do meio de tanta algazarra

saltou uma ordem de não sei quê

a que se seguiu um instante de silêncio.

«Rapaziada» bem mandada,

pensei eu.

Mas logo de seguida

volta a gritaria da alegria de viver.

São eles melros, pardais e outros que tais…

E o Sol nasceu, a passarada, acordada, voou

até que o último «piu»

se confundiu com o «mio»

do gato local que por ali passou.

Deste, não lhe ouvi as pégadas a bater na calçada

nem sequer o restolhar nos canteiros das flores

mas vi-o e senti-o quando

me veio cumprimentar

a roçar-se nas minhas pernas

e a agradecer a cama nova

que lhe pus na casota ali ao canto do jardim.

E foi assim,

nesta paz serena de limites definidos,

que me lembrei de que nem sempre

os pássaros cantam livres,

os gatos se roçam nas nossas pernas

e o homem cofia os bigodes tranquilamente

sem pensar que possa estar

na mira da espingarda de alguém.

E o gato lá foi às sopas da vizinha…

E eu, bigodes cofiados,

dei meia volta,

subi a escadaria

e fiz-me ao dia.

BOM DIA!

NO TOM DE DÓ MAIOR - 1

SE EU MANDASSE…

… laçava um «Plano Nacional de Instrução de Adultos» com vista ao alcance de metas específicas de cumprimento do Ensino Obrigatório.

Todos os cidadãos na faixa etária dos 18 aos 50 anos teriam que cumprir a obrigatoriedade desse nível mínimo de instrução sob pena de não poderem ter carta de condução de qualquer tipo de veículo motorizado nem poderem votar ou serem candidatos em eleições presidenciais, legislativas nem autárquicas.

Diz quem me lê que se trata de ideia muito radical ao que respondo que se se trata de obrigatoriedade para não levar a sério, então que se lhe mude o nome. Chamemos-lhe «nível voluntário de instrução» ou, de mo, «nível diletante de instrução».

Assim, regressando à seriedade, constatemos que, não definindo mecanismos de pressão que induzam ao cumprimento da obrigatoriedade, para além de não resolvermos o problema do deficientíssimo nível médio de instrução, ficamos perante uma mentira institucional que só desprestigia quem com ela pactua, a Democracia.

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