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A bem da Nação

CLAUSURA – 8

Este regime de clausura tem vantagens para quem tem centros serenos de interesse como o estudo. No meu caso, de temas que não pertenceram à minha formação básica - a cultura clássica, a filosofia e outras «coisas» do género de que só tinha tido umas lambuzadelas no Liceu. Mas tenho que mudar de tipo de letra de vez em quando e é por isso que alterno entre Nietzsche, Raymond Aron e uma biografia de S. Paulo escrita por um bispo anglicano[i]. Mas, mesmo assim, tenho que descansar mais do que gostaria. Vai daí, cumpro as orientações oficiais de não fazer absolutamente nada para salvar a Humanidade. E foi assim que hoje me lembrei…

… da minha avó, Clotilde Madeira Branquinho, da Fonseca de casada.

Ela e a irmã, Felismina, um pouco mais velha, eram meninas prendadas, potencialmente conservadoras, integradas numa sociedade quase hierocrática em Mortágua, nascidas em finais do séc. XIX mas ambas escolheram casar com homens progressistas. A tia Felismina casou com José Lopes de Oliveira e a minha avó casou com José Tomás da Fonseca, ambos literatos e possuidores de vastíssima cultura, nomeadamente clássica. À maneira da época, as irmãs não fizeram estudos formais mas também não aprenderam piano nem francês.  Aliás, a minha avó sempre se queixou de nunca ter aprendido línguas.

E, já no Outono da vida, a ouvi muitas vezes lastimar-se de só poder ver as fotografias do National Geographic Magazine cujas legendas a minha mãe, nora dela, lhe ia traduzindo. Em compensação, tratava por «tu» a literatura portuguesa. Não fazia alarde dos seus conhecimentos mas, de vez em quando, citava uma ou outra passagem camiliana, queiroziana ou mesmo mais antigas.

Certa vez, já encartado, levei os meus avós (que, como era habitual, estavam a passar o Verão em nossa casa em Cascais) à Malveira, para jantarmos em casa dos meus tios (o escritor Branquinho da Fonseca). E assim foi que nos vimos sentados à mesa com Jorge Amado e Zélia Gatai.

A minha tia tinha acabado de traduzir o Le rouge et le noir, de Stenhal, pelo que também se enquadrava na classe literata. Como era de esperar, a minha avó e eu deliciámo-nos a ouvir toda a erudição que por ali fluía e só abríamos a boca para comer ou para responder a quem se nos dirigisse. Jantar bem interessante, sem dúvida, mas nesta coisa de pôr literatos a falar, não se consegue fazer um resumo para contar aqui do que se tratou. Mas lembro-me de que ninguém falou das suas próprias obras, todos mostraram conhecer as obras dos outros. A minha avó e eu também não falámos das nossas obras porque, pura e simplesmente, não as tínhamos.

Até que o jantar acabou. Mas ficámos todos sentados à mesa com a conversa a seguir…

Chegados à hora regulamentar, despedidas feitas, foram as ilustres visitas conduzidas a Lisboa e nós voltámos para Cascais. Eu ao volante, o meu avô ao meu lado e a minha avó no banco de trás. E foi então que ela começou a falar. Não comentando o que tinha sido dito mas apenas imitando o sotaque brasileiro numas quantas frases de que mais gostara. E foi um fartote de riso da Malveira até Cascais.

Fim de citação.

Amanhã há mais.

(continua)

Abril de 2020

Henrique Salles da Fonseca

 

 

[i] - Nicholas Thomas Wright

CLAUSURA – 7

Quando, há anos, ouvi o então Ministro do Trabalho (curiosamente, o mesmo que actualmente ocupa o dito cargo) dizer que tínhamos que voltar à produção de bens transaccionáveis, não acreditei que aquela declaração produzisse a mais pequena alteração nos procedimentos até ali em curso. Lastimo ter que dizer o mesmo das declarações que ontem ou anteontem o Primeiro Ministro proferiu de que «temos que voltar a produzir o que nos habituámos a mandar vir da China». Eu bem queria que assim fosse mas não vejo como os políticos conseguirão dar conteúdo às suas virtuosas declarações. Claro está que Vieira da Silva já então se quedou pelas pias declarações e agora vai acontecer o mesmo em relação ao que disse o Dr. Costa.

E porquê? Porque vivemos numa economia dita liberal em que é suposto o Governo não dar ordens do género «Agora Você vai deixar de mandar vir isso lá de fora e vai passar a fabricar cá»; como também não é suposto o Banco de Portugal dizer ao banco A, B ou C que não pode fazer esta ou aquela operação sobre o estrangeiro inviabilizando importações. Pois se nem sequer se pode definir plafonds de crédito à banca… Num Estado democrático com políticas de inspiração liberal, as Autoridades apenas podem emitir políticas genéricas, supervisionar e, no máximo, actuar a posteriori: quem de direito legisla que se circula pela direita, o Governo produz os regulamentos inerentes, a Polícia vigia e, nas prevaricações, pune-se o infractor. É assim em praticamente todas as circunstâncias da actual governação no primeiro mundo.

Mas quando uma política não existe, nada se legisla sobre ela. É o caso da transparência dos mercados e da garantia da racionalidade dos preços, temas sobre os quais raros serão os políticos portugueses que alguma vez ouviram falar. E se ouviram, não perceberam ou fingiram não ter sequer ouvido.

E o que resulta desta ausência de políticas e da surdez dos nossos políticos?

Pois bem, resulta que a maior parte dos produtos de consumo corrente têm preços definidos por dois ou três Chefes de Compras das empresas proprietárias de grandes superfícies (não sei se combinados ou não entre si) esmifrando ao máximo a produção interna e deixando-a «pendurada» se ela não acompanha os preços da Bolsa de Chicago ou das ordens de Xi Jin Ping no que respeita à quinquilharia e demais produtos chineses. E ai dos bancos que não lhes abram os créditos inerentes! Arrasam a agricultura, as indústrias alimentares e os bancos mas esse é o lado para que dormem melhor. O negócio deles é fazerem boas compras (leia-se, aos preços que entendem mais lhes convir) e não zelar pelos interesses de quem os serve como fornecedores de bens ou de divisas. Quanto ao interesse nacional, que se lixe!

Solução?

Uma, principalmente: criação em Portugal de uma Bolsa de Mercadorias para a carne e para os cereais (necessariamente com operações sobre futuros) e se o legislador não souber por onde começar e não souber estudar por livros estrangeiros, peça ajuda à Bolsa de São Paulo que ensina tudo em português.

Mas é claro que o lobby do comércio não vai querer nada disto e vai ser necessária muita perseverança para conseguir defender os interesses da produção nacional.

A alternativa é mais uma Grande Falência Nacional – ao que já vamos estando habituados, aliás.

Recado ao Dr. Costa: - Ministros e quejandos mandam menos na economia portuguesa do que os Chefes de Compras das grandes superfícies.

E assim vou passando a clausura…

(continua)

Abril de 2020

Henrique Salles da Fonseca

CLAUSURA – 6

Hoje, nestas viagens na minha casa, dei por mim no Reino da Semântica a pensar nas endorfinas.

Descobertas em 1974, as endorfinas são hormonas produzidas no cérebro e que condicionam os impulsos eléctricos entre as sinapses. São 20, as conhecidas e produzem um efeito positivo no comportamento da pessoa. Positivo?

- Oh vizinha! Cuidado com o vírus. É muito perigoso, está a matar centenas de italianos.

- Sim, prima! Morrem às centenas todos os dias e já está em Espanha.

- Colega, venha para casa que isto é mesmo um surto pandémico descontrolado.

- Parece que vamos ter que beber o remédio p’rós piolhos…

- Vão morrer todos! – os outros, ela não.

E as pressurosas rodeiam a vítima já quase estrebuchante com artes de aviso protector mas, na realidade, querendo apenas o protagonismo de super informadas e muito amigas. Deliciam-se com a morbidez, tremem de pavor depressivo, enchem-se de negatofinas, as endorfinas de efeito negativo que eu acabo de inventar e de mandar para a Semântica.

Mas há que salvar a vítima do assédio mórbido e do estado caótico em que, entretanto, caiu. Chamo de lado a pressurosa mórbida mais próxima e digo-lhe: - Oh minha Amiga! Venha cá que eu tenho uma história para lhe contar. Então, quando ela se chega, pego-lhe na mão, ponho-lhe o braço pelas costas e damos três ou quatros passos de dança ao som da música que soa em fundo. Desprevenida, solta um AAHH! e logo ali as negatofinas se evaporam e dão lugar à adrenalina, à naftalina ou mesmo à músicofina. Felizmente, a música acabou.

Fim do drama, salva a vítima, cai o pano rapidamente.

É isso: assim como Judas foi denunciado na Quarta feira Santa, também este terrorismo tem que ser abanado e transformado em música.

Amanhã há mais

(continua)

Abril de 2020

Henrique Salles da Fonseca

CLAUSURA – 5

João Gaspar Simões (1903 – 1987)[i] tinha um cão, setter irlandês, chamado «Hallali»[ii] que, na minha tenra infância, me pareceu a materialização do que mais tarde viria a chamar o «conceito do belo». «Et pour cause», muito mais tarde ainda, ao ler «Uma Investigação Filosófica Acerca da Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo»[iii], acabei por associar a minha memória daquele cão a Edmund Burke (1729 – 1797). Nada me admiraria que um dia, no futuro, venha a saber que o filósofo tinha daqueles cães.

Então, se, como dizem os linguistas, o sublime é o óptimo, excelente, elevado, eminente, excelso, excepcional, extraordinário, incomparável, inigualável, insigne, superior, supremo, transcendente e o belo é o  bonito, lindo, atraente, encantador, formoso, airoso, elegante, esbelto, garboso, galante, bem-apessoado, apolíneo, donairoso, harmonioso, gracioso, jeitoso, venusto, perfeito, bem-feito, bem-acabado, bem-proporcionado, catita, mais vale resumirmos tudo no que o filósofo disse: sublime é o inultrapassável e o belo é aquilo que nos agrada.

E os filósofos é que têm a fama de serem chatos.

Vai daqui, a clausura levou-me hoje a pensar que também Burke não era filósofo profissional mas sim político e orador, membro do Parlamento pelo Partido Whig e que até tinha fama de ser um tipo divertido e «bon vivant». E se muitos dos grandes filósofos tinham outras formações de base, também fui levado a lembrar-me de que os filósofos profissionais sabem tanto sobre o que outros pensaram que ficam sem tempo para pensarem por si próprios e nos trazerem algo de inovador.

Pelo mesmo tipo de razões, acho que a verdadeira cultura é feita por amadores, os que pagam as suas próprias criações; os profissionais têm tanto que estudar a obra alheia que ficam sem tempo para a actividade criativa – por exemplo, são intérpretes musicais. Contudo, na pintura, se não têm obra própria, são por certo copistas de vocação falsária.

Veja-se assim onde, em clausura, me leva um cão. Onde me levará um cavalo?

Pois é, há clausura para além do vírus.

(continua)

Abril de 2020

Henrique Salles da Fonseca

 

[i] - Novelista, dramaturgo, biógrafo, historiador da literatura portuguesa, ensaísta, memorialista, crítico literário, editor e tradutor português (Wikipédia)

[ii] - Toque da trompa de caça aquando da morte do veado

[iii] - Edições 70

CLAUSURA – 4

Autênticas chacinas, os flagelos que estão em curso em Itália e em Espanha. Todos os crepes que possamos vestir são de menos para expressar o peso que nos vai na alma.

O que é que eles fizeram ou deixaram de fazer para terem chegado a tal descontrole?  E nós, o que é que fizemos ou deixámos de fazer para não termos (ainda) descontrolado a nossa situação? Espero que os técnicos de saúde pública saibam e que concluam com precisão onde se localiza a fronteira entre as boas e as más políticas.

Entretanto, à falta de melhores procedimentos, fiquemos em casa por muito penoso que isso possa ser.

Na situação actual, há duas coisas que não consigo fazer: humor e uma leitura tecnocrática das ocorrências.

A primeira é axiomática mas a segunda carece de explicação.

Há quem diga que esta desgraça é regeneradora da Humanidade pois mata os velhos e o confinamento provocará um «baby boom» lá por Dezembro-Janeiro.

Poderá ser que sim mas à custa de quantos dramas pessoais, de quanta perda de afectos familiares, de quanta sabedoria perdida?  Quanto ao acréscimo da natalidade, acho que todos devemos saudar os concepturos e os nascituros assim como louvar os autores do acontecimento.

Não perco a minha visão humanista.

Mas há duas coisas que considero positivas: a aceleração científica na busca da vacina e da terapêutica de combate ao mal; o recrudescimento da produção de tantos bens transacionáveis que nós (portugueses e demais europeus) nos habituáramos a mandar vir da China.

Temos que voltar a…

  • produzir o que consumimos,
  • criar (finalmente) a transparência nos mercados,
  • racionalizar a formação dos preços,
  • acabar com a sino-dependência em que estávamos a cair desde a compra de quinquilharia aos tão importantes ventiladores, à electricidade, aos seguros…

… sob pena de perdermos esta oportunidade para corrigirmos alguns dos erros que sucessivamente nos têm levado à bancarrota.

(continua)

Abril de 2020

Henrique Salles da Fonseca

CLAUSURA – 3

Há quem lhe chame quarentena mas duvido que nos fiquemos pelo confinamento (como dizem os franceses) durante o prazo de 40 dias implícito naquela palavra. Por isso, refiro-me a clausura. Esta, sim, por tempo indeterminado. Aliás, a soltura que se seguirá à clausura, não poderá ser «à la diable», deverá ser parcelar de tal modo que só possa sair quem esteja limpo e, mesmo assim, sujeito a verificações diárias. Ou seja, se para uns será quarentena, para outros será pentatena, exantena e sei lá mais quê... É aqui que me lembro de quem vive em casas pequenas, soturnas, húmidas, esses que nos Santos Populares saltam para os bailaricos nas ruas, esses para quem tudo são pretextos para sair dos tugúrios em que moram. Como a clausura lhes deve ser difícil de suportar.  Que fará essa gente, habituada a trabalhos braçais, todo o dia de mãos nos bolsos, metida em ambientes sórdidos, sem hábitos de cultura, sem vida interior? Eis o niilismo, o caminho para o vazio ou, pior, a plenitude imediata e imensa do vazio que se transforma na acusação de tudo e de todos, da própria sorte, o triunfo do mau-feitio, a revolta contra «eles, os que têm os livros»; a revolta do prisioneiro sem culpa formada e que todos sabem inocente.

Apirético, iletrado, imobilizado, incompreendido, o povo está prestes a dizer impropérios tão feios que nem constam dos dicionários escolares.

É que, por cá, à revolta niilista chama-se iliteracia.

(continua)

Abril de 2020

Henrique Salles da Fonseca

CLAUSURA – 2

Ilibado que ficou Putin no meu escrito anterior de qualquer maldade no processo pandémico em curso, esperemos pela pancada quando isto passar e ele quiser lembrar-nos de que existe. Mas, entretanto, nós, as vítimas inocentes do flagelo, assistimos ao ping-pong das culpas estaminais entre a China e os EUA. Quem, neste processo, nunca pecou, que atire a primeira pedra. Pois bem, somos todos os espalhados pelo mundo menos aqueles dois. Só nos falta saber qual dos dois apedrejar.

Nesta guerra do empurra, os mais activos são, como de costume, os esquerdistas que chegam mesmo a levar à dúvida quem, prevenido, não abocanharia as suas cenouras. Uma das «coisas» que veio agora à ribalta foi um vídeo de 2015 em que Bill Gates previne a respectiva audiência do perigo que representaria um vírus que por aí viria e a todos apanharia desprevenidos. Curiosamente, em 1981 foi publicada uma novela de Dean Koontz intitulada «OS OLHOS DA ESCURIDÃO»[i] em que o Autor especula, no âmbito da ficção científica, essa mesma hipótese de um vírus que assolasse o mundo desprevenido. E, das duas, uma: ou ele estava dentro dos segredos de algum laboratório mais ou menos maligno que estivesse a trabalhar num vírus desse calibre e arriscaria a própria cabeça ao pôr a boca no trombone ou era apenas uma ficção que acertou «na mouche» 39 anos depois. Ora, o Autor está vivo no momento em que escrevo estas linhas pelo que é fácil concluir nada de temeroso ter revelado pois fizera apenas uma especulação. Seria interessante perguntar a Bill Gates – e eu não o farei apesar de ter o endereço da respectiva Fundação[ii] – se leu o dito livro e se ali se inspirara para a palestra de 2015. Pela mesma razão, também o famoso Bill poria a cabeça em risco se delatasse algum segredo de tal calibre. Nova especulação e, neste caso, se não revelada a fonte, plágio.

Portanto, tudo mentira quanto à autoria americana da perversão inicial.  Os pró-chineses vão ter que engendrar nova balela.

Antes desta, era a dos soldados americanos que, afinal, não comeram o pangolim que por lá andou a envenenar chineses residentes a grande distância de Pequim e mais longe ainda de Xangai onde nada acontece. Pois é: curiosamente, só há virose longe dos grandes chefes comunistas e dos maiores capitalistas chineses.

Nestas últimas horas, vi outro vídeo em que certas Autoridades americanas (cuja identidade não consegui verificar) anunciavam a detenção de um cientista que vendera o vírus aos chineses. Não faltará quem agora diga que foram os americanos os causadores da desgraça. Ao que eu respondo que se se tratava de um caso de espionagem chinesa e de traição de um americano, este deverá pagar pela traição mas os chineses é que terão libertado a «besta» sendo, portanto, eles, os grandes causadores da pandemia.

Venham novos argumentos contra os americanos porque estes não me convencem. Daqui por 30 ou 40 anos talvez se venha a saber a verdade sobre quem atirou a tal primeira pedra pelo que, agora, desligo-me dessa polémica e passo a outros temas. O mundo que gire lá fora que eu fico aqui em clausura à espera que a tormenta passe. Só porque não lhes dou hospedaria, deve haver milhões de vírus que morrem sós e abandonados - este, o meu contributo para a causa da Humanidade.

 (continua)

Abril de 2020

Henrique Salles da Fonseca

 

[i] - «THE EYES OF DARKNESS» - Dean Koontz

[ii] - https://www.gatesfoundation.org/

 

CLAUSURA – 1

À semelhança de Marcelo Caetano, Gorbatchov também quis democratizar um regime monolítico, hermético. Em ambos os casos, o resultado foi o colapso. Por cá, o aligeiramento dos procedimentos radicais de direita deu aso ao surgimento de um golpe de Estado comunista; na URSS, pelo contrário, o PCUS acabou afastado da governação e substituído pela bagunça de Ieltsin que deu largas à Máfia russa sob a bandeira da privatização económica.

Nós, por cá, já reduzidos à dimensão territorial europeia, tivemos que fazer o 25 de Novembro de 1975 para que a democracia vingasse; a Rússia também perdeu as colónias que tinha na Europa e perdeu a influência que, entretanto, tivera nas ex-colónias portuguesas que lhe tinham sido entregues pelo 25 de Abril de 1974.

Portugal optou pela via democrática europeia; a Rússia optou por Putin. Vale-nos a coesão nacional de sermos uma única Nação dentro das mais antigas fronteiras no Velho Continente; à Rússia valem os recursos naturais num território imenso, transcontinental. A nós, falta-nos a elevação do nível médio de instrução e formação; aos russos falta a deswodkização. Nós, sem voos estratégicos espectaculares, estamos a tratar democraticamente dos gatunos que há tempos assaltaram o nosso Poder; Putin, nostálgico do protagonismo internacional russo, trata os seus gatunos de modo autocrático. Nós, por cá, temos o Poder organizado segundo o método de Hondt; a Rússia tem-no segundo as de Putin.

 E então, que resulta de tudo isto?

Para já, nós estamos numa de querermos que «não nos chateiem»; Putin, pelo contrário, não se importa nada de chatear os outros se isso lhe devolver algum do protagonismo da sua saudosa URSS.

Nós, temos uma dimensão imaterial universal traduzida numa lusofonia largamente ultrapassada pela lusofilia; a Rússia tem dimensão material e emigrantes saudosos, sim, mas com medo da casa-mãe. Para muitos, espalhados por toda a parte, nós somos o centro do mundo; a Rússia, de tão grande, não cabe no centro de nenhuma das suas inúmeras etnias.

Nós somos queridos; eles são temidos.

E, apesar de tantas diferenças, tanto nós como eles fomos punidos pelo corona vírus. Porquê? Porque não somos chineses.

(continua)

Abril de 2020

Henrique Salles da Fonseca

POR TORDESILHAS ALÉM… - 12

Vão-se os anéis mas fiquem os dedos. Prescindimos das excursões e de mais uns dias de hotel mas conseguimos antecipar o regresso: de início, previsto para 22 de Março, antecipado pela própria companhia aérea para 21 e, finalmente, antecipado pela nossa agência de viagens em Lisboa para 18.

Mas como nestes tempos que correm, o que é verdade agora pode não o ser amanhã, só acreditávamos que viríamos no dia 18 depois de sentirmos os motores do avião a trabalhar. Significaria isso que tinha sido dada autorização para aterrarmos no destino, Madrid. Portanto, na dúvida, fui informando a nossa Embaixada no México de que, eventualmente, poderíamos vir a necessitar de ajuda oficial para o repatriamento. Tudo correu como desejávamos e não foi necessário incomodar a Embaixada.

Vôo sem história aeronáutica – apenas uns ligeiros tremeliques horizontais – mas em que apenas foi servido o jantar; quem quisesse pequeno almoço, que o pagasse.

Pesado, o ambiente a bordo: silêncio de quem não sabia o que iria encontrar no destino; parecia um vôo de resgate de refugiados, a evacuação de sobreviventes de um cataclismo. Nós os quatro sabíamos que tínhamos um carro à nossa espera numa determinada empresa de aluguer de automóveis em Barajas. Mais: carro com matrícula portuguesa para facilitar a passagem da fronteira no Caia, com capacidade para quatro adultos que gostam de comodidade e bagageira capaz de conter oito malas. Aluguer sem condutor, eu sem visão para poder guiar, o Pepe, mal dormido no avião, teve que alinhar com mais seis horas ao volante. Heróico!

Autoestrada contínua de Barajas a Lisboa, diziam-nos que haveria controlos policiais cada 10 kms e que no Caia a fronteira fechava às 8 da noite para só reabrir às 6 da manhã com fila interminável. Tudo mentira, tenho por terroristas as pessoas que lançam essas atoardas. Pouco trânsito de pesados e menos ainda de ligeiros, não houve um único controlo policial, no Caia não havia qualquer fila, exibimos os passaportes através dos vidros fechados e, sem delongas e com uma certa cordialidade, fomos mandados entrar no nosso país. Viemos a saber que a fronteira está aberta 24 horas por dia. Eram quase 7 da tarde do dia 19 de Março quando metemos a chave à porta de casa.

Para desgosto dos dependentes das negatofinas (as endorfinas negativas) que, sob a capa da amizade e da protecção, fazem a vida dos mais sensíveis num inferno, chegámos sem dramas nem outro constrangimento que não o cansaço físico, não psíquico.

Como dizem os franceses, «tout va bien quando fini bien».

FIM

Março de 2020

Henrialles da Fonseca

POR TORDESILHAS ALÉM… - 11

Mármore branco e luzidio por tudo quanto era chão e paredes naquela bela aerogare de Cancún. Encaminhados para a fila dos guichets da Polícia de Fronteiras, a Bandeira Nacional Mexicana panda no seu pau encimado por seta doirada. Grande dignidade merecedora da admiração dos forasteiros - neste caso, eu. Verificados e carimbados os passaportes, a agente à paisana a dar-nos as bienvenidas. Cinco estrelas.

Contraste absoluto com a agente fardada e de máscara que rudemente nos verificou os passaportes à entrada do Panamá. Desculpei-a porque admiti que o marido dela se tivesse portado mal na véspera. Ou porque nem sequer tivesse marido.

Esperava-nos um mexicano baixote que se apresentou como José e nos conduziu a uma carrinha – quatro adultos habituados a mordomias e oito malas não se metem numa carripana qualquer - que cheirava a limpo. Bom piso nos 30 ou 40 kms até Playa del Carmen. O guarda da cerca exterior do hotel não estava informado da nossa chegada senão para daí a dois dias, não nos deixava entrar. Barafustámos, ameaçámos com a ira divina, apregoámos o cancelamento das reservas futuras e o Fulano que estava do outro lado da comunicação do guarda lá deu licença para que entrássemos.  Afinal, esse mini-déspota, tiranete, eunuco de harém, era um atabalhoado que não era capaz de fazer o nosso check-in e fomos nós (mais uma vez, a Graça e o Pepe) a fazerem tudo. O José da carrinha não nos abandonou enquanto não teve a certeza de que estávamos em segurança. De caminho para os quartos já por horas nada cristãs, o recepcionista estendeu-me a mão num gesto de boas-vindas. Mão gorda, saposa. Devem ser assim as mãos dos guardas dos haréns.

Arquitectura e decoração sumptuosas, só tínhamos por ambição verificar tudo isso no dia seguinte. Para já, cama.

Luxo, luxo, luxo.

O programa das festas era a permanência de uma semana com três excursões mas tudo saiu truncado por estarmos a assistir ao encerramento sucessivo dos espaços aéreos e a corrermos o risco de ficarmos retidos no México sem ligações a casa. Aliás, a própria companhia aérea se encarregou de antecipar o vôo e nós fizemos apenas uma excursão. Mas os outros dias foram muito bons: uma dúzia de restaurantes dentro do hotel para que pudéssemos escolher à vontade no regime de tudo incluído. Para quem este regime é novidade, a exuberância dos consumos é notória; para quem está habituado (nós), a moderação é a norma. Quarto sobranceiro à piscina e a curtíssima distância da praia; baía fechada por rede anti-dentuças, os primos do cação da nossa sopa; água a condizer com as nossas expectativas – entrada afoita; comes ligeiros e bebes tanto inocentes como hard servidos à descrição com água pelo pescoço ou à sombra de alguma palapa. Aquela não é mas poderia ser a «praia do nababo».

Excursão interessante de um dia inteiro por local arqueológico (Tulum) e piramidal (Cobá). Mas, mais do que o campus arqueológico (não tive pernas que lá me levassem) e as pirâmides, interessou-me mais o que se passa actualmente com a Civilização Maya. Tanto quanto o homem do rickshaw que nos levou às pirâmides contou, em casa falam a língua maya mas na escola só aprendem castelhano; aprendem História maya mas nada mais. Concluo (talvez abusivamente) que o Estado Mexicano tem medo da Civilização Maya e do que algum revivalismo possa significar para a integridade nacional - já lhes chega Chiapas.

Entretanto, as notícias que nos chegavam da Europa e, mais concretamente, de Espanha, eram aterradoras. Estava (e ainda está, no momento em que escrevo estas linhas) em curso uma verdadeira chacina. Havia que apressar o regresso antes que o colapso nos impedisse de voltar a ver as famílias e os amigos.

(continua)

Março de 2020

Henrique Salles da Fonseca

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