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A bem da Nação

DECLARAÇÃO

Aqui, o dono da «casa» sou eu e se, sendo aberta ao público, todos a podem visitar, nela só toma assento quem eu permito.

Actualmente, os textos publicados são apenas da minha autoria uma vez que a maioria dos outros Autores - que tanto me ajudaram a fazer este blog - se instalaram nas suas próprias «casas».

Quanto aos comentários, divido-os em três categorias:

  • Os substanciais, que equiparo a «textos de Autor»;
  • Os lacónicos, de simpatia, de aprovação ou de cordata rejeição;
  • Os que, pela forma ou pelo conteúdo, rejeito e não publico.

 

* * *

Os habitués desta «casa» sabem que sou cordato, republicano não jacobino e democrata cristão não religioso e sabem também que não tolero faltas de respeito a ninguém, tanto meu correlegionário como adversário, amigos, conhecidos ou terceiros que não conheça sequer pessoalmente, figuras públicas ou cidadãos comuns.

Vem tudo a propósito de dois comentários que rejeitei nos quais havia referências que considerei negativas ao Duque de Bragança, D. Duarte Pio, a quem reconheço um notável Sentido de Estado e que, embora tenha uma opção de Regime oposta à minha, me merece as mais altas estima pessoal e consideração institucional.

Sim, na minha «casa» só se senta quem eu quero.

22 de Outubro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

CONVERSAS SOLTAS - 5

Personagens:

  • Rei D. Manuel II
  • Presidente Manuel Teixeira Gomes
  • Rainha D. Maria Pia

Cenário – passeio sobranceiro à «Praia dos Pescadores» na Ericeira

* * *

MTG – Boa tarde, Majestade! Cá estamos nós prontos para espantar os nossos colegas, os fantasmas que nos atazanam.

R – Como as outras, a conversa de hoje também fica exclusivamente entre nós, nem às paredes a confessaremos porque as paredes têm ouvidos e os ouvidos têm pernas.

MTG – Às ordens de um Rei sereno até um Presidente sereno obedece. – ambos riram -  Mas é claro que manterei segredo do que Vossa Majestade disser. Ouso pedir reciprocidade de tratamento.

R – Os pedidos de um Presidente sereno são facilmente satisfeitos por um Rei sereno. Tratemos, pois, de afastar os nossos fantasmas…

MTG – Quem começa?

R – Posso começar eu. E, para já, não vou afastar os meus fantasmas mais antigos. Fico-me só pelo que aconteceu em 5 e 6 de Outubro de 1910: a viagem de Lisboa a Mafra e o embarque aqui na Ericeira. Como se imagina, nas Necessidades, toda a gente estava de cabeça perdida, desde os criados que se viam sem emprego até às Rainhas mas a carruagem apareceu a horas de viajarmos para Mafra, quando lá chegámos tudo estava preparado para nos receber durante a noite, na manhã seguinte viemos até aqui sem correrias de quem foge, tínhamos um bote à nossa espera e o yacht «Amélia» ancorado ao largo. Até mesmo o percurso de Lisboa a Mafra pareceu um passeio de Domingo. A República tinha sido proclamada em Loures no dia 4, não devíamos passar por lá; a viagem por Cheleiros seria impossível para os cavalos e, contudo, sem que eu desse uma única ordem, saímos calmamente das Necessidades, rumámos a Queluz, tomámos o caminho de Pêro Pinheiro e Negrais, Malveira e Mafra, tudo isto sem subidas nem descidas difíceis. Estava tudo pensado por alguém, tudo aconteceu sem atropelos. Este é o meu primeiro enigma. O segundo, o ambiente em Mafra onde parecia que nada se estava a passar no resto do país e, finalmente, o que aconteceu à chegada ao yacht quando, esperando nós que rumaríamos ao Porto, o Comandante me declarou – sem me pedir licença nem qualquer hesitação – que rumaríamos a Gibraltar e não a qualquer outro destino. Pura e simplesmente, estávamos a ser raptados e o rapto começara no preciso momento em que subíramos para a carruagem no pátio das Necessidades. E quando chegámos a Gibraltar, já estava tudo arranjado para a minha avó seguir para Génova e não nos acompanhar até ao nosso destino final que, entretanto, já sabíamos que seria Londres. Tudo excessivamente sincronizado para se poder assemelhar a uma fuga.

MTG – Eu não lhe chamaria rapto mas sim uma acção que visava pôr a Família Real portuguesa a recato, em condições que garantissem a sua própria segurança física.

R – E a minha avó?

MTG – Vim a saber mais tarde que Londres não queria que a Casa de Sabóia se imiscuísse nos assuntos do Império Britânico.

R – E o que é que Portugal tem a ver com o Império Britânico?

MTG – Formalmente, nada. Mas a antiga Aliança dá aos ingleses um sentido de obrigação de protecção de Portugal que não sentem com outros países.

R – A Aliança ou os vinhos do Porto e da Madeira, as possessões ultramarinas e mais não sei quê?

MTG – Pois… E quando Vossas Majestades chegaram a Londres e se instalaram no mesmo palácio em que a Senhora D. Amélia nascera (estava então a Família Real francesa também em exílio), houve que procurar um Embaixador português que «falasse» bem inglês…

R – A bon entendeur! Quer isso dizer que os ingleses já tinham ligações com os republicanos?

MTG – Manda a prudência ao cavaleiro que mantenha um pé em cada estribo.

R – Agora sou eu que digo «Pois…». Realmente, com a sua chegada a Londres, sentimos uma certa segurança. Mas o fim da sua comissão foi um tanto repentinoa.

TG – O Presidente Sidónio Paes era da linha dura. Recebi ordem de regresso imediato a Portugal. Despedi-me do Rei Jorge V e da Rainha Alexandra que me receberam à pressa e, por amizade, fora das normas do protocolo. Despedi-me do Primeiro Ministro e segui no primeiro barco que arranjei. Passei por Lisboa para tratar de assuntos administrativos e recolhi-me a Vila Nova de Portimão e às minhas adoradas amêndoas, as minhas filhas, entretanto adolescentes. E assim fiquei em recato enquanto o Capitão Agostinho Lourenço punha a Marinha Grande na ordem sidonista. Com o fim do Consulado Sidonista, Lourenço desaparece da cena portuguesa durante 15 anos para só reaparecer em 1933 para instalar a PVDE. Ele e eu fomos como os alcartruzes mas em 1925 fartei-me de tudo, desmoralizei e exilei-me. Deixei os bens às minhas filhas e fui para longe da confusão que só com mão de ferro assentaria. E como não sou dos da «hard glove», auto-exilei-me  na Argélia francesa onde encontrei estalajadeiras amáveis e deixei-me por lá ficar à espera que o Capitão Agostinho Lourenço fizesse o que fez e que não era do meu estilo «soft glove».

R – E os «Serviços» abandonaram-no?

MTG – Bem, Majestade, digamos que as minhas modestas despesas foram sempre atempadamente liquidadas. Mas o meu funeral em Bougie foi pago pelo nosso Governo.

R – E com esta conversa, o Senhor afugenta algum fantasma?

MTG – Sim, Majestade. Estava muito necessitado de contar tudo a quem merecesse saber e me desse garantias de segredo absoluto. É o caso de Vossa Majestade.

Foi então que, no seu passo miúdo, vinda do «Passeio Marítimo», surgiu a Rainha D. Maria Pia que, passando junto do Rei e do Presidente, lhes fez saber que – Ho sentito tutto quello che hai detto e penso che, se non è vero, è ben trovaato – e, sempre no seu passo miúdo, seguiu até à porta da «Casa da Fernanda» onde se esfumou… Iria comer um «ouriço»? Que disparate! Quando é que já se viu um fantasma a comer?

Outubro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

CONVERSAS SOLTAS - 4

Personagens:

  • Rei D. Manuel II
  • Presidente Manuel Teixeira Gomes

Cenário – varanda do hotel em que o Presidente viveu de 1925 a 1941 frente ao Mediterrâneo na cidade de Bougies, leste da Argélia.

* * *

 *

MTG – Majestade, é uma honra recebê-lo no meu local de exílio. E, sobretudo, tão longe de Lisboa.

R – Ora, ora, Senhor Presidente, como sabe, nesta nossa condição, tanto nos faz a distância de Lisboa ao Porto como de Portimão a Bougies. E, curiosamente, estas são paragens que conheci na infância.

MTG – Ah! Desconhecia por completo.

R – Sim, sim. Na minha infância, fizemos um cruzeiro no yacht «Amélia» até ao Egipto. No regresso, se bem me lembro, percorremos vários portos nesta costa. Mas do que melhor me lembro é da entrada em Valeta, a imponência das muralhas do porto… E é claro que, do Egipto, me lembro das pirâmides e duma volta que dei num camelo.

MTG – Também conheci muitas destas paragens. Não na infância mas já como jovem adulto quando andei ao serviço da casa comercial do meu pai, a comprar e vender frutos secos. Sobretudo, amêndoa do Algarve. Mas o mercado era maior do que a produção e tínhamos que comprar noutras fontes. Viajei muito e ganhámos muito dinheiro. Mas… «nem só de pão vive o homem» e tive que enveredar por outros caminhos.

R - Os da literatura e da política?

MTG – Exacto. E assim foi que me vi em Londres como Embaixador.

 R – E que balanço faz dessa missão? Se não me engano, foram sete anos, ou seja, muito mais do que o habitual.

MTG – Era uma missão que a todos parecia impossível. Levar a Inglaterra a reconhecer a República sob a presença da Família Real acabada de chegar em exílio forçado, com laços familiares e de amizade pessoal com a Família Real inglesa… Bem, reconheço que a atitude serena da Família Real Portuguesa me facilitou enormemente a missão. Os ingleses fizeram-me saber muitas vezes que admiravam a serenidade do relacionamento de Vossa Majestade com o representante da República e – não deveria ser eu a dizê-lo – também apreciavam a atitude serena da representação diplomática. Tiveram sempre a delicadeza de nunca referirem que parecia sermos amigos. Ainda bem que tiveram esse cuidado. Evitaram problemas políticos que Vossa Majestade dispensava e a República, ali representada por mim, também não queria de modo nenhum.

R – Gosto de confirmar que não fui motivo de preocupação. O Senhor devia ter muito mais com que se preocupar…

MTG – … o problema da dívida portuguesa, a ultrapassagem das sequelas políticas do «Ultimatum» que continuavam a azedar as relações bilaterais e, mais tarde, a pré-Grande Guerra, a nossa participação nos combates integrados nas Forças Britânicas, o nosso desempenho militar em África e mais um ror de temas que na altura pareciam relevantes mas que hoje dão vontade de rir.

R - Lembra-se de algum?

MTG - O empenho que coloquei na satisfação do pedido que a rainha Alexandra me fez de lhe redecorar o seu gabinete de trabalho com prejuízo de tempo na análise de informações mais ou menos relevantes que os Serviços de cada lado me iam transmitindo para eu enviar ou não à outra parte.

R – Os ingleses enviavam-lhe informações?

MTG – Informações classificadas que eu deveria analisar e encaminhar para quem eu considerasse conveniente. Nem sempre são as vias habituais, Majestade.

R – Pois, pois… Nem todos estão nos cargos certos, nem todos são merecedores das informações, nem todos percebem o que elas significam…

MTG -Nem todos os políticos ou funcionários se interessam pelo fim da História.       O fim da História – não o fim cronológico nem biológico mas, sim, o do alcance dos grandes objectivos da Humanidade tais como o equilíbrio económico estrutural, a harmonia social, a abastança cultural e moral – é nisso que o animal histórico, o homem, não pensa tão frequentemente quanto devia; dedica-se a questões menores, à análise conjuntural e perde o sentido dos grandes objectivos da Humanidade, o fim da História. Como Hegel diria, «a verdade que os homens demandam».

R - Sim, Senhor Presidente, concordo, mas já os latinos diziam «primum vivere, deinde philosofari» e nós, em vida, ainda estávamos na fase de tentarmos alcançar a primeira etapa, a do conforto material. Certa vez, tive conhecimento de uma discussão sobre o local politicamente mais apropriado para construir um simples chafariz para dar de beber a cavalos e azémolas. Um «Sentido de Estado muar».

MTG – E quando eu fui Presidente, as discussões não seriam muito diferentes dessa. Tudo tem a ver com os modos de satisfazer eleitorados, de ganhar votos nas eleições seguintes. E um Rei é deposto e um Presidente é levado ao desespero por causa da aguada de burros e mulas…

R – E por quê este exílio em Bougies?

MTG – Porque naquela época, aqui era a França exótica onde podia entregar-me tranquilamente à escrita e onde encontrei quem cuidasse de mim.

R – Senhor Presidente, fiquemos por aqui. Acho que continua a não querer contar tudo mas não se esqueça de que, para nós, «tudo o vento levou». O nosso próximo encontro vai ser na Ericeira onde espero espantar alguns colegas nossos.

MTG – Que colegas, Majestade?                                               

R – Fantasmas.

Outubro de 2020

Henrique Salles da Fonseca  

CONVERSAS SOLTAS - 3

Personagens:

  • Rei D. Manuel II
  • Presidente Manuel Teixeira Gomes

Cenário – Sala de música do Palácio da Ajuda, Lisboa

No meio da cena, o violoncelo do Rei D. Luís com uma poltrona de cada lado

* * *

R – Senhor Presidente, seja bem vindo à casa dos meus avós.

MTG – Obrigado, Majestade! A casa que, durante muitos anos, foi a «Real Barraca», de madeira.

R – Dá para imaginar o susto que o meu tetravô, o Rei D. José, apanhou no Paço da Ribeira com tudo a desmoronar-se e com o tsunami que alagou de enxurrada a baixa de Lisboa. Também eu nunca mais voltaria a entrar numa casa de pedra e cal.

MTG – Mas aqui estamos nós no cimo da Calçada da Ajuda, a recato de tsunamis e junto do violoncelo do Senhor D. Luís. Chegou alguma vez a ouvi-lo tocar?

R – Não. Eu nasci cerca de um mês depois da sua morte mas a minha avó dizia que em Portugal havia quem tocasse melhor violoncelo do que ele e que em Itália, então, muito melhor.

MTG – Ah, sim, a Côrte de Sabóia devia ser um centro cultural de primeira grandeza.

R – Era isso que a minha avó dizia. E foi lá que cumpriu o exílio. Exilou-se no seu próprio país. Teve mais sorte que nós.

MTG – E, contudo, ambos tivemos exílios dignos. Vossa Majestade teve um ambiente acolhedor e eu tive o ambiente que eu próprio escolhi.

R – Ainda hoje estou convencido de que o ambiente acolhedor que nos rodeou, à minha mãe e a mim, se ficou muito a dever a si, Senhor Presidente, enquanto Embaixador em Inglaterra.

MTG – A minha preocupação era a de que ninguém importunasse Vossas Majestades. A República nunca me deu ordens para hostilizar a Família Real exilada. Foi-me fácil actuar pela positiva. Na maior parte das vezes, bastou-me não fazer nada.

R – Mas houve ocasiões em que teve que agir.

MTG – Admirei muito o oferecimento de Vossa Majestade para integrar o Corpo Expedicionário Português na Flandres. Apoiei a ideia mas Lisboa não deu seguimento ao meu apoio e recusou a ideia. Embaixador não se enfurece mas lastimei-me à Raínha Alexandra. Terá sido ideia dela a integração de Vossa Majestade como Oficial da Cruz Vermelha britânica.

R – Adivinhei que tinha havido alguma actuação do então Embaixador de Portugal junto de alguém que nunca identificara até agora.

MTG –  Soube então que Vossa Majestade ficou zangado por não ter sido aceite a sua generosidade mas, perante a recusa, não consegui fazer grande coisa.

R – Mais do que zangado, fiquei triste. De princípio, fiquei desiludido com a nomeação inglesa para a Cruz Vermelha mas, passados uns dias, pensando mais serenamente, concluí que só podia ter sido obra do Senhor Embaixador. E foi esse o sentido do meu super-discrteto cumprimento em Ascot quando o Senhor, à distância, tirou o chapéu e eu fingi dizer que sim à minha mãe que, a meu lado, nada dissera. Ela percebeu tudo e limitou-se a dizer «Vaut mieux comme ça», discretamente e à distância. Espero que tenha percebido o meu agradecimento.

MTG – Sim, percebi e foi essa afabilidade que me deu alguma tranquilidade no desempenho das minhas funções. E foi também com entusiasmo que anunciei a iniciativa de Vossa Majestade de oferecer a sala de operações ortopédicas ao Hospital Português em Paris. Quando me chumbaram a ideia de colocar uma placa a referir que fora Vossa Majestade que oferecera a sala, tive que puxar pela cabeça e acabar por mandar escrever aquela ignomínia que lá foi colocada «Oferta de um português em Londres». Peço que me desculpe.

R – É claro que desculpo! Na altura, achei mal mas, face às circunstâncias, não vejo hoje que melhor solução houvesse. Sobretudo com o jacobino que então representava Portugal em França. Quem era ele?

MTG – Já não me lembro mas não era por certo alguém que gostássemos de ter nestas nossas conversas.

R – Claro que não! É isso que admiro em si, Senhor Presidente: o Senhor não é jacobino e tem uma concepção serena da República, deseja para Portugal o mesmo que eu. Como tudo poderia ter sido diferente se nos tivéssemos conhecido no início do meu reinado…

MTG – Como se viu, também eu não fui capaz de fazer grande «coisa». A insubordinação que vigorava entre as elites nos finais da Monarquia era a mesma que me levou ao desespero como Presidente da República. Só uma mão pesada que se abatesse sobre essa balbúrdia poderia resolver o problema mas nem Vossa Majestade nem eu eramos filosoficamente capazes disso. As elites portuguesas encarregam-se ciclicamente de fazer esboroar as intenções inocentes dos democratas liberais.

R – Não merecem a liberdade que lhes demos a servir. E que me conta do seu exílio?

MTG – Contarei com o maior gosto numa próxima oportunidade porque o pessoal da limpeza está a entrar ao serviço e não convém que nos confundam com alguma nuvem de pó.

R – Muito bem, o nosso próximo encontro vai ser em Bougie. A nós, o Governo da Argélia não exige Passaportes nem Vistos.

Outubro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

CONVERSAS SOLTAS - 2

Fulano - Olá, ainda bem que chega!

Eu - Obrigado.

Beltrana – Olá! Estávamos aqui a falar sobre coisas etéreas.

Eu – Ena! A esta hora tão matutina?

Beltrana – E por que não? É uma hora tão boa como outra qualquer…

Eu – Sim, sim. Então, do que falavam?

Fulano – Não se assuste! Estávamos a falar de Metafísica.

Eu – Boa! E que diziam?

Fulano – O que é a Metafísica?

Eu – É o que está fora da Física.

Beltrana – Eu bem dizia que estávamos a falar de coisas etéreas…

Fulano – Pode dar um exemplo?

Eu – Uma ideia, um princípio, um conceito…

Fulano – Uma ideia? Como é isso?   

Eu – Sim, qualquer coisa imaterial.

Beltrana – Assim, tão simplesmente? Então, o «hardware» dos computadores é físico e o «software» é metafísico.

Eu – AHAH! Bem visto. Quase me apanhou. Sim, o «hardware» é físico mas o «soft» não é metafísico porque é… electricidade. E porque nem tudo o que lá circula é doutrinário, genérico, conceito. Esses conceitos, sim, são metafísicos mas são-no por si próprios e não por circularem numa via «soft».

Beltrana – Mas assim, não é nenhum bicho de sete cabeças como parece com as explicações complicadas que por aí andam…

Fulano – E era sobre essas explicações complicadas que estávamos a partir pedra.

Eu – Complicar é fácil. Mas se a definição é simples, tudo o que lá cabe pode não ser assim tão simples.

Beltrana – Como por exemplo…?

Eu – Desde o conceito aritmético mais simples (2+2) até Deus.

Fulano – Deus, uma ideia?

Eu – Sim, uma ideia… «e no princípio era o Verbo»…

Beltrana – Está a dizer que Deus não é mais do que uma ideia?

Eu – Deus é uma ideia que se explica pelos chamados Argumenrtos Ontológicos.

Betrana – Os argumentos quê?

Eu – Ontológicos do grego «onthos» que significa «ser». Os argumentos pelos quais se chega à existência de Deus.

Fulano – Isto, sim, é conversa boa para servir como aperitivo para o almoço. E pode dar um exemplo desses argumentos?

Eu – Sim, claro! Há muitos mas eu tenho sempre três na ponta da língua – o de Santo Anselmo, o de Pascal e o de Einstein.

Fulano – Eh caramba! Assim de enxurrada?                                  

Eu – Bem, não propriamente de enxurrada. Posso dizê-los calmamente.

Beltrana – E, então, que disseram eles?

Eu – O mais progressista foi o mais antigo destes três, Santo Anselmo. À nossa semelhança quando hoje dizemos que «o que não está na Internet é como se não existisse», ele disse que «as coisas só existem se nós as imaginarmos; se não as imaginarmos, é como se não existissem». Então, imaginemos algo que está mais a cima do que qualquer outra coisa que possamos imaginar, que seja inultrapassável. Esse «algo» é Deus.

Beltrana – É curioso dá que pensar. Não é de repente que se percebe. OK! Fica o registo para mas amadurecer. E o Pascal?

Eu – Cito-o mais por curiosidade do que pela elevação do raciocínio que não passa de um exercício de contabilidade de «Ganhos e Perdas»:

- se acreditas em Deus e ele existe, depois da morte terás todas as recompensas;

- se não acreditas mas ele existe, perdes tudo;

- se acreditas e ele não existe, não ganhas nada;

- se não acreditas e ele não existe, não ganhas nem perdes.

Portanto, o melhor é acreditares.

Fulano – Fico na dúvida sobre se Pascal está gozar connosco ou…

Beltrana – Não gosto desse raciocínio.

Eu – Einstein é mais interessante. Começa por uma afirmação, faz uma pergunta e responde:

- O Universo começou com o «big bang»;

- Quem deu a ordem para que essa mega explosão ocorresse?;

- A única resposta possível, Deus.

Fulano – Prefiro este.

Beltrana – Também eu.

Eu – Parece que estamos todos de acordo. Mas há muitos mais argumentos ontológicos. Normalmente, agrupam-se em conjuntos mais ou menos homogéneos.

Beltrana – Grupos de argumentos? Que grupos são esses?

Eu – Religiões.

 

Fulano – Então, as religiões são grupos de argumentos?

Eu – Sim, mas não só.

Fulano - Mais quê?

Eu – Fé.

Beltrana – Ah, claro! E tudo isso é Metafísica.

Eu – Exacto! Mas agora são horas de almoço, tenho que ir andando.

Fulano – E vamos continuar esta conversa noutra ocasião?

Eu – Por mim, encantado. E deixo já um mote para que, entretanto, vão vendo o que diz o Google sobre «Exegese». Até breve!

Fulano – Até brreve!

Beltrana – Beijinhos!

Outubro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

CONVERSAS SOLTAS – 1

 

Personagens:

  • Rei D. Manuel II - 1889 – 1932 (exílio em Inglaterra, 1910-1932)
  • Presidente Manuel Teixeira Gomes - 1860 – 1941 (Embaixador em Inglaterra, 1911-1918; PR, 1923-1925)

* * *

Os espíritos vagueiam pelos lugares dos respectivos afectos, não pelos cemitérios.

Nascido no palácio de Belém, D. Manuel II vagueava pelo jardim e parou junto ao gradeamento olhando o Tejo que naquele dia estava azul. Como sempre, cruzara-se com quem não o via nem sequer o sentia mas, desta vez, foi ele próprio que sentiu que quem estava a seu lado também se encontrava nessa tal outra dimensão, a volátil…

MTG - Creio, Majestade, que, finalmente, podemos conversar sem que rebente algum escândalo político.

R - Ah! Senhor Embaixador, sim, finalmente. Mas ao Senhor também coube a amarga tarefa de chefiar este Estado. Tratá-lo-ei por Presidente e não mais por Embaixador.

MTG - Sim, amarga tarefa, essa, a de se ser Chefe de Estado constitucional em Portugal. Constitucionalmente, nada se pode fazer mas, afinal, é ao Chefe de Estado que todas as explicações são exigidas.

R - Exacto! Mas mais vale assim do que o tratamento dado aos déspotas em final de carreira a quem cortam o pescoço. E nem sequer foi preciso a Luís XVI de França ser déspota – que nem sequer o foi de modo evidente - para o «despentearem».

MTG – O Senhor seu Pai não era déspota e…

R – O meu Pai nomeou um Chefe de Governo que bulia com os Partidos (tanto monárquicos como com o Republicano) que se consideravam os «donos» do País. Mexeu num ninho de vespas ou, como dizem os brasileiros, «cutucou a onça com vara curta». Desequilibrou um equilíbrio muito instável para tentar sair de um caminho que não levava a lado nenhum e…

MTG - … e aqui estamos nós a recordar situações aparentemente diferentes – uma em Monarquia e a outra em República – para concluirmos que, afinal, o problema português tem mais a ver com as elites do que com o tipo de Regime. Estamos sempre a esbarrar na gestão da «coisa pequena», na falta de grandes rasgos de imaginação, de quem lance o trampolim para o meio do ginásio.

R - … e se alguém o faz, logo os medíocres se assanham em denegrir essa iniciativa.

MTG – Exactamente, Majestade! O nosso problema fundamental é a mediocridade polvilhada de inveja. Sacrificam-se os homens em nome de fins históricos apregoados como sublimes e, afinal, esses fins encontram-se ao nível das couves e das batatas a que os arautos da História se dedicam mal saem dos focos que inundam a ribalta. O juízo moral que incide sobre o Chefe e a sua obra é condicionado por essas couves e batatas, é tão fino que dá para lhe chamarmos grosseiro. Foi esse o julgamento que produziu o regicídio, foi esse o julgamento que levou Vossa Majestade
a Ericeira no dia 6 de Outubro de 1910, foi o desespero pela obra imperfeita que me levou a embarcar no navio «Zeus» em Dezembro de 1925 com destino ao norte de África. Porque a minha sorte teria sido igual à de Vossa Majestade caso eu tivesse deixado a iniciativa por mãos alheias. Dá para revermos o que fizemos enquanto passámos pelo «activo»?

R – Sim, claro que dá! Pela minha parte, mantive-me fiel à Carta Constitucional que jurei defender aquando da minha entronização perante as Cortes.

MTG - …ocasião em que baniu a cerimónia do «beija-mão real». Vendo a História ao contrário, apetece perguntar se valeu a pena. Nós, republicanos, achámos bem e houve quem aplaudisse a abolição de um cerimonial anacrónico mas não foi isso que levou a que se desistisse da mudança de Regime; em simultâneo, poderá ter acontecido que alguns monárquicos se sentissem menos vinculados ao Rei.

R – Obediências servis, dispensei-as porque não as tenho como seguras nem compatíveis com a dignidade humana. Isso era tipicamente medieval. Apesar das fragilidades que aponta, acho que fiz bem ao abolir uma cerimónia abjecta aos olhos do século XX. Quando o Senhor assumiu a Presidência, achar-se-ia mais confortável com algo semelhante por parte das Ordens profissionais ou de outros importantões da sociedade civil?

MTG – Claro que não! Mas, em República, não há juras dessas…

R – Pois! Há outras, daquelas que não se fazem às claras.

MTG – Como no tempo da Monarquia.

R - …mais a Carbonária. Mas tanto o Senhor como eu, já não estamos em condições de corrigir a História. Fica a conclusão de que ambos fizemos o melhor que pudemos pelo nosso querido país.

MTG – Tiro também outra conclusão: Vossa Majestade e eu estávamos, afinal, do mesmo lado da barricada, o da democracia, ambos opostos aos totalitarismos.

R – Senhor Presidente, agradeço ter vindo conversar. Acho que ainda temos mais coisas a dizer mas terá que ficar para uma próxima oportunidade pois estão a chegar vivos que querem ver o Tejo.

O Presidente Marcelo chegou-se à grade da varanda para fazer uma selfie com Ursula von der Leien mas não viram os espíritos que se esfumaram.

 

Mais do que solta, esta é uma conversa improvável

Outubro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

CULTURA INDO-PORTUGUESA

RESUMO

Tipologia de conceitos

  • Estéticos - arquitectura, mobiliário, música, pintura, …;
  • Religiosos - cristianismo e hinduísmo;
  • Linguísticos - concanim românico (Goa) e português;
  • Culinários

* * *

Como relevante potência mundial que já é e como grande potência que será num prazo não muito distante, a Índia tem na diversidade cultural um dos seus mais importantes Valores, riqueza plural que a beneficia e enriquece.

Com altos e baixos, foram quase 500 anos de intercâmbio e miscigenação entre a Índia e Portugal - eis a Cultura Indo-Portuguesa.

Nas expressões compostas, o elemento determinante é o primeiro. Portanto, neste caso, trata-se de uma Cultura indiana com influência portuguesa. Se o contrário existisse (e não o creio), seria a Cultura Luso-Indiana significando uma Cultura portuguesa com influência indiana.

Concomitantemente, tratando-se de uma Cultura indiana, a sua sede é na Índia. Uma sede excêntrica, dispersa por tantos centros quantos aqueles em que o intercâmbio cultural se fez com mais ou menos intensidade ao longo da História.

Bangalore foi a cidade onde mais inesperadamente encontrei falantes de português. Trata-se, logicamente, de uma língua de base portuguesa mas os seus praticantes eram (são?) afirmativos na convicção de que aquele português é tão autêntico como o que se fala noutras paragens por esse mundo além... E eu próprio tomei a iniciativa de lhes confirmar essa autenticidade.

Para além desta localização, para mim inesperada, mais outras que, essas, sim, já conhecia, desde Diu a Cochim passando por Baçaim, Silvassa, Corlai,… Mas, dentre todas as formas linguísticas que legitimamente integram a Cultura Indo-Portuguesa, o concanim românânico assume uma relevância especial não só por ser correntemente usado por cerca de meio milhão de pessoas mas  porque, sendo escrito em caracteres latinos, possui só por esse facto uma capacidade de internacionalização muito superior a todas as demais línguas indianas. Urge torná-lo acessível ao resto do mundo incluindo-o, por exemplo, no «Google Translator»[i]. Esta, a minha primeira sugestão para a afirmação da Cultura Indo-Portuguesa à escala global[ii].

Esta miscigenação cultural é muito vasta não apenas na perspectiva geográfica mas sobretudo em múltiplas temáticas. Assim, para além da arquitectura religiosa e profana, assumem especial relevo a música (mandó, p. ex.) e a culinária.

Em Portugal, por exemplo, em paralelo com restaurantes tipicamente indianos, abundam os restaurantes goeses[iii] numa acção de divulgação e afirmação cultural da maior relevância.

Um texto como este – por mais breve que pretenda ser - não pode omitir uma referência ao contributo da Igreja Indiana para a exegese católica ao longo dos já longos anos que o Catolicismo conquistou fiéis no sub-continente indiano. Hindus e católicos foram ensinados a conviver pela sabedoria adquirida pelo pragmatismo da vida e da proximidade diária. E é monumento da tolerância que faz jus à maior democracia do mundo, a União Indiana, nas suas próprias afirmações nos «fora» internacionais. Mas não basta dizer, há que o provar. E a preservação-protecção da Cultura Indo-Portuguesa será uma prova real.

Será por certo um trabalho ciclópico mas convido quem me lê a pensar comigo na nobreza do que será organizar um processo que eleve a Cultura Indo-Portuguesa a Património da Humanidade. E se a minha ideia tomar forma, que o seja sob a égidem conjunta dos Governos da Índia e de Portugal.

Ficam as sugestões.

Setembro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

 

[i] - O canarim já está disponível no Tradutor da Google mas essa língua não pertence à Cultura Indo-Portuguesa

[ii] No mundo actual, só existe quem está na Internet.

[iii] - Lastimavelmente, na região de Lisboa não sei da existência de restaurantes tipicamente diuenses nem damanenses

EFEMÉRIDE – 27 DE SETEMBRO DE 1810

BATALHA DO BUÇACO

A Batalha do Buçaco foi travada na Serra do Buçaco durante a Terceira Invasão Francesa a Portugal, no decorrer da Guerra Peninsular, a 27 de Setembro de 1810. De um lado, em atitude defensiva, encontravam-se as forças anglo-lusas sob o comando do Tenente-general Arthur Wellesley, visconde Wellington. Do outro lado, em atitude ofensiva, as forças francesas lideradas pelo Marechal André Massena. No fim da batalha, a vitória mostrava-se nitidamente do lado anglo-luso.

Passam hoje 210 anos.

Para saber mais, continuar a ler em «Batalha do Buçaco – Wikipédia»

 

27 de Setembro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

«FANIE» (conclusão)

Soe dizer-se «a pedido de várias famílias» quando já não conseguimos identificar todos os pedidos de… qualquer coisa. No caso presente, fica, pois, o registo do pedido do meu Amigo Carlos Prieto Traguelho quanto ao modo como o Sô Manel se desenrasca sozinho e ficam sem menção especial os relativos à situação actual da «Fanie». Mais aproveito para informar neste breve intróito que a fantasia ficou lá a trás no texto inicial.

* * *

Cego que se prese usa bengala como valiosa substituta dos olhos falidos. E foi isso mesmo que fez o Sô Maneç durante uns tempos depois de a «Fanie» ter regressado à escola de cães-guia mas, por alguma razão que me escapou, decidiu abandonar o «varapau». Passou então a aceitar a boleia de quem segue na direcção que ele quer. Mas – e há sempre algum «mas» - poucas são as pessoas que sabem conduzir cegos: ou andam muito depressa, ou pegam no braço do cego, ou se esquecem de avisar da presença de um degrau,… Uma molhada de bróculos. 

E, contudo, é muito fácil conduzir um cego:

1º- Deixe que seja o cego a pegar no seu braço ou ombro, não o contrário;

2º- Não puxe o cego, iguale a sua velocidade em relação à dele;

3º- Passe longe dos postes e outros obstáculos pois o cego vai ao seu lado e não a trás de si;

4º- Avise da existência de degraus.

Aos poucos, as pessoas da aldeia já vão sabendo destas normas e o Sô Manel já vai dando muito menos tropeções do que de início. Tout s’arrange…

E a «Fanie»?

Perguntei directamente ao Sô Manel quando, em Julho passado (2020)k também eu quase cego, nos encontrámos na esplanada.

- Mas que coincidência o Senhor perguntar-me por ela e eu ter telefonado ontem a saber se estava tudo bem. Que sim, tem estado como «mestra» de alunos cachorros mas há uma semana que está de licença de parto. Teve uma ninhada de seis canitos pretos, quatro meninos e duas meninas.

HAPPY END

Setembro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

 

«FANIE»

 

Canez, a fala dos cães.

O Sô Manel é o cego da aldeia. Cegou já adulto tardio, está reformado com modesto conforto. Embarcadiço que foi, conheceu o mundo mas, agora, o seu mundo é a aldeia e, mesmo assim, nem toda – fica-se pelo parque central e respectivos limites pois mora do lado sul e o café a que vai diariamente fica no do norte. Não lhe conheço família mas pelo modo como veste, adivinho que tenha quem por ele veja e dele cuide – um cego não acerta nas cores nem engoma correctamente os vincos da roupa. Mas o que mais dá para ver na sua indumentária é o boné. Deve ter sido comprado nalgum porto inglês e estou mesmo a imaginar um Lord britânico gorducho e de grande bigodaça à caça do «famoso grouse» debaixo de um boné daqueles. Mas o Sô Manel não caça e limita-se a tomar um café simples, sem «mosca»[i] nem outros baptismos.

O seu luxo era «Fanie», a cadela guia que o levava de casa ao café e de volta[ii].

Preta, raça Labrador, de meia idade, bem tratada, lembrava-me o tal Lord da bigodaça, estava gorducha.  O seu trabalho diário limitava-se a conduzir o dono ao café e volta numa distância total de menos de trezentos metros. O resto do tempo passava-o a comer, a dormir e a fazer mimos ao dono. Pouco se mexia e o Sô Manel achava que a cadela estava a ficar farta daquela vida, vida estúpida para qualquer cão. E começou a pensar que não tinha o direito de submeter a cadela a tanta desmotivação. Pensou soltá-la no parque mas logo imaginou a canzoada labrega da aldeia à volta dela a tentar indecências na via pública e afastou a ideia. A «Fanie continuava a usar o quintal da casa para as suas precisões.  E de ideia em ideia, foi rejeitando todas as hipóteses sem descortinar uma que lhe agradasse e pudesse dar alguma alegria
a sua amiga. Sentia que a neura avançava pela vida da «Fanie» e desesperava-se com tentar retribuir a bondade da cadela. Ele não se dava ao direito de causar neura a quem só lhe fazia bem. E tomou a decisão: devolveria a «Fanie» à escola dos cães-guia se lhe garantissem que ela ficaria como «mestra» dos cães alunos e que não voltaria a ser submetida a um suplício neurótico a guiar algum cego de mau feitio. Ele próprio havia de se desenrascar sem guia. Já conhecia bem o caminho, tinha um ou outro ponto de referência pelo tacto, contava os passos, ia libertar a cadela.

Telefonou para a escola, obteve a garantia que pediu, combinaram a data e a hora em que estariam na esplanada do café para a «Fanie» regressar à sua origem dos tempos infantis.

Nessa tarde, como sempre, lá foram até à esplanada mas a certa altura, o Sô Manel ouve vozes desconhecidas e sente a cadela a mudar de rumo. Assusta-se e grita: -Fanie, Fanie, para onde vais que me desgraças? Mas logo uma das tais vozes desconhecidas lhe disse que não havia perigo, que o cão estava a desviar-se das obras que estavam a fazer no passeio para os carros não voltassem a estacionar ali e os peões pudessem deixar de andar na estrada.

-  E logo isto havia de acontecer no próprio dia em que combinei mandar a «Fanie» embora! – cogitava o Sô Manel  - Isto tem mensagem… deixa cá compensar o pobre animal pelo berro que lhe dei. – e assim foi que, chegados à esplanada, para além do seu café, encomendou um «bolo de arroz» para a sua amiga. Esta, gulosa, tragou-o num instante quase não dando tempo de abanar o rabo. Vai daí, regressou a rotina e, com ela, o seu par, o tédio. E a sempre presente paciênte bondade de «Fanie» com a mão mole do dono ao longo do dorso numa festa suave…

Até que chegou o dia combinado para a cadela mudar de vida.

Estranhamente, o dono metera quase todos os seus brinquedos (todos menos um dos mais pequenos) num saco grande de supermercado. Não percebia o que se estava a a passar mas lá cumpriu a sua missão até ao outro lado do parque. Lenta, paciente e bondosamente (sem bulhas com gentes nem cães), chegaram à esplanada, tomaram café e «bolo de arroz» sem perceber mas sem perguntas e ali ficaram com as pessoas do costume a dizerem as baboseiras do costume mas o saco dos brinquedos e o «bolo de arroz»…???

Foi então que chegou um carro com o escrito «Escola de cães-guia» que parou ali mesmo à frente. Um rapaz e uma rapariga apearam.se e, mesmo antes de cumprimentarfm o Sô Manel, a rapariga pôs um joelho no chão em frente da «Fanie», afagou-he a cabeça com as mãos por baixo das orelhas, deu-lhe uma pequena turra testa com testa, disse qualquer coisa e a cadela, como só as «mulheres»  sabem fazer, emitiu um gorjeio que toda a gente percebeu ser um choro de felicidade. Era a sua antiga dona nos tempos em que era cachorrinha. O rapaz deu-lhe uma bolacha daquelas de que os cães mais gostam e só então disseram ao Sô Manel que já ali estavam. Cumprimentos feitos, palavras de circunstância, troca dos documentos da identidade da cadela e despedidas rápidas. Ao Sô Manel tremeu-se-lhe o queixo, formou-se-lhe uma bola na garganta, engoliu um soluço e estendeu a mão para afagar o dorso da sua amiga preta mas a cadela já lá não estava. À janela traseira do carro, a «Fanie» sorria como só os cães felizes sabem sorrir.

O Sô Manel ainda sibilou «Fanie, Fanie», meteu a mão no bolso e afagou o pequeno brinquedo que cativara à sua amiga.

Na esplanada fez-se silêncio e naquele dia os donos do estabelecimento ofereceram o café e o «boço de arroz». É que, por ali, todos sabem que em canez, bondade se diz «Fanie».

~

Setembro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

NOTA FINAL – Esta história é quase verdadeira; a fronteira com a fantasia situa-se onde o leitor quiser

 

[i] - Vinho moscatel de Setúbal

[ii] - Sugiro a quem ne lê que não se assuste com o tempo pretérito da frase

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