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A bem da Nação

AMNISTIA INTERNACIONAL

AMNESTY INDIA.jpg

 

A denúncia é internacional contra a limitação da liberdade de acção da Amnesty India por parte das Autoridades indianas.

 

Camuflada de nacionalismo, a proibição de as ONG’s operando na Índia se financiarem no estrangeiro e se deverem limitar aos financiamentos indianos. E como os financiamentos privados internos são extremamente escassos, a acção das ONG’s só se torna eficaz com o financiamento público. Então, todas aquelas que critiquem as Autoridades indianas, não recebem financiamento público e aproximam-se da extinção ou, pelo menos, da ineficácia.

 

Eis como o Governo Indiano castra muitas das vozes que se lhe opõem.

 

E por que é que se lhe opõem?

 

No caso da Amnesty India, porque denunciam os atropelos aos Direitos Humanos, prática muito mais vulgar na Índia do que a comunicação social deixa transparecer. Prática essa exercida tanto a nível das Autoridades centrais como das estaduais uma vez que tanto Delhi como muitos Estados da União são governados pelo mesmo Partido, esse para quem os Direitos Humanos parece terem que seguir um padrão que se molde aos interesses da nomenklatura no Poder.

 

Sim, em Portugal a Amnistia Internacional actua em total liberdade e também é por isso que eu prefiro ser cidadão duma pequena democracia que se constrói diariamente do que da «maior democracia do mundo» que se avilta a todo o momento.

 

Fevereiro de 2019

Tamil Nadu.png

Henrique Salles da Fonseca

(no Tamil Nadu, Maio de 2017)

Publicado também no «NIZ GOENKAR», Fevereiro de 2019

 

 

O QUE ELES DIZEM…

 

 DIZ O BANCO DE PORTUGAL QUE

 

No final de 2018, face a 2017, o endividamento do Sector Não Financeiro diminuiu 0,7 mil milhões de euros (-0,1% VH), fruto de um acréscimo de 4,8 mil milhões de euros no Sector Público (1,5% VH) e de uma redução de 5,5 mil milhões de euros no Sector Privado (-1,4% VH).

 

E DIGO EU QUE

O Sector Privado está a «arrumar a casa» mas a bagunça pública continua apesar das cativações «centenárias».

 

Bondi-2017.JPG

Henrique Salles da Fonseca

 

CULTURA – O QUE É?

 

Cultura.jpg

 

Quando em 1938 Thomas Mann chegou aos Estados Unidos, fugindo ao nazismo, deu uma conferência de imprensa em que disse: «Onde eu estiver, está a cultura alemã».

 

Logo houve quem atribuísse esta frase a uma grande dose de arrogância e a simpatia com que foi recebido ficou claramente moldada pela impressão assim causada. Foi necessário esperar alguns anos para que essa frase fosse explicada pelo seu irmão mais velho, Henrique, quando nas suas memórias se refere ao episódio e o explica com a frase de Fausto: «Aquilo que de teus pais herdaste, merece-o para que o possuas».

 

Não fora, pois, arrogância mas sim um profundo sentido de responsabilidade que levara o escritor a identificar-se daquele modo com a sua própria cultura. O conhecimento do que outros fizeram antes de si já levara Hölderlin (1770 - 1843), o poeta atacado de mansa loucura, a afirmar que «Somos originais porque não sabemos nada».

 

Em 1518, Ulrich von Hütten (1488-1523), companheiro de Lutero, escrevia a um amigo que, embora fosse de origem nobre, não desejava sê-lo sem o merecer: «A nobreza de nascimento é puramente acidental e, por conseguinte, insignificante para mim. Procuro noutro local as fontes da nobreza e bebo dessa nascente. A verdadeira nobreza é a do espírito por via das artes, das humanidades e da filosofia que permitem à humanidade a descoberta e reivindicação da sua forma mais elevada de dignidade, aquela que faz distinguir a pessoa daquilo que também é: um animal

 

Ou seja, a nobreza conquista-se, não se adquire por via hereditária. Afinal, era isso que Mann significava quando chegou à América …

 

E o que é, então, a essência da cultura? É o conjunto das obras intemporais, as perenes, as que não passam de moda, as grandes obras humanistas, as que desenvolvem o pensamento especulativo. É a conjugação lógica de axiomas para a construção de novos silogismos e para a definição de doutrinas inovadoras. Eis o âmago da cultura, de uma qualquer cultura: o raciocínio especulativo, a independência relativamente à letra, a interpretação dessa mesma letra, a busca do significado. Quanto mais uma cultura se identificar com os valores humanistas e os promover, quanto mais convidar ao significado, mais elevada é essa cultura.

 

E o que é ser culto? Será saber muitas coisas? Não, isso é uma enciclopédia. O conhecimento dos factos não define a cultura mas apenas a dimensão do conhecimento. O culto é aquele que está aberto à nova interpretação, o que busca o significado.

 

E o que é ser educador? É «convidar os outros para o significado».

 

Eis ao que as elites devem andar: a transmitir o significado das coisas;

eis ao que elas têm andado: a imprimir um cunho pessoal aos acontecimentos.

 

Assim não se transmite o significado;

Assim se esmaga quem apenas serve para servir;

Assim se espanta quem vale.

 

IMG_1056.JPG

Henrique Salles da Fonseca

IN MEMORIAM…

 

… a um amigo que já não sofre mais.

 

18 de Fevereiro de 2019

31DEZ18-Estocolmo.jpg

Henrique Salles da Fonseca

 

https://www.youtube.com/watch?v=CaexXJ6UFnw

 

E AGORA, JOSÉ?

 

E agora, José?

A festa acabou,

A luz apagou,

O povo sumiu,

A noite esfriou,

E agora, José?

E agora, você?

Você que é sem nome,

Que zomba dos outros,

Você que faz versos,

Que ama, protesta?

E agora, José?

 

Está sem discurso,

Já não pode beber,

Já não pode fumar,

Cuspir já não pode,

A noite esfriou,

O dia não veio,

O bonde não veio,

O riso não veio,

Não veio a utopia

E tudo acabou

E tudo fugiu

E tudo mofou,

E agora, José?

 

E agora, José?

Sua doce palavra,

Seu instante de febre,

Sua gula e jejum,

Sua biblioteca,

Sua lavra de ouro,

Seu terno de vidro,

Sua incoerência,

Seu ódio — e agora?

 

Com a chave na mão

Quer abrir a porta,

Não existe porta;

Quer morrer no mar,

Mas o mar secou;

Quer ir para Minas,

Minas não há mais.

José, e agora?

 

Se você gritasse,

Se você gemesse,

Se você tocasse

A valsa vienense,

Se você dormisse,

Se você cansasse,

Se você morresse...

Mas você não morre,

Você é duro, José!

 

Sozinho no escuro

Qual bicho-do-mato,

Sem teogonia,

Sem parede nua

Para se encostar,

Sem cavalo preto

Que fuja a galope,

Você marcha, José!

José, para onde?

 

1942

Carlos Drummond de Andrade.jpg

Carlos Drummond de Andrade

NÃO À REGIONALIZAÇÃO DE PORTUGAL

 

Portugal é constituído por um só Povo, que fala uma só Língua. Não está dividido por quaisquer conflitos étnicos ou religiosos. Não tem sequer nenhuma tradição de administração regional autárquica – a menos que alguém queira tomar como exemplo, ou termo de comparação, o poder arbitrário e quase absoluto exercido pelos senhores feudais sobre os camponeses, na Idade Média.

(jornal i)

Alfredo Barroso.jpg

Alfredo Barroso

A VER…

Belém - posse de ministros.jpg

Eles, ali em baixo assinados, declararam solenemente cumprir com lealdade as funções que lhes foram confiadas.

 

A ver… dentro de meses, o veredicto será dos contribuintes eleitores.

 

Entretanto,

 

DIZ A DIRECÇÃO GERAL DA ADMINISTRAÇÃO E DO EMPREGO PÚBLICO QUE

Em Dezembro de 2018, o emprego no sector das administrações públicas se situava em 683.469 postos de trabalho, revelando um aumento de 2,1% em termos homólogos (mais 14.190 postos de trabalho).

 

E DIGO EU QUE

Não há Contribuinte que possa suportar tamanha carga fiscal e que está mais do que na hora de desvincular o sistema de ensino.

 

Fevereiro de 2019

Bondi-2017.JPG

Henrique Salles da Fonseca

 

 

ESCRITORES QUASE ESQUECIDOS - 8

Poilão.jpg

 

UM VELHO POILÃO

 

O tempo fez-me vergar

E as minhas raízes saltar,

Agarro-me ao que de mim resta

E tento reconhecer a minha geração

Neste carnaval de extrema solidão.

No meu reino, tenho pesadelos:

Tractores de dentes aguçados;

Ávidos lenhadores de machado em punho.

Meus adoradores

Miram o meu tronco carcomido pelo tempo

À espera da queda fatal.

Angustiado sonho como os belos tempos,

Vejo os meus braços verdes,

O meu tronco firme

Ostentando uma cabeça frondosa

De cabelos encarapinhados

Simulando perfis ocos

De rostos apinhados.

Ainda recordo

As sombras que dei,

Histórias de amor, noites de fogueira...

Quantas não assisti?

Fui símbolo de amor proibido

 

Odete Semedo.jpg

Odete Semedo

(Guiné-Bissau)

 

PERGUNTEM AO PAPA!

Papa Francisco.png

 

Foi em 1964, pelos seus 28 anos de idade, que o Padre Jorge Bergoglio ensinou literatura nos dois últimos anos do Liceu no Colégio de la Inmaculata Concepción em Santa Fé [1].

 

Encaminhando os alunos para a escrita criativa, sigamos a narrativa do Papa Francisco:

 

Foi uma coisa um pouco arriscada. Devia fazer de tal modo que os meus alunos estudassem «El Cid». Mas os rapazes não gostavam. Pediam-me para ler Garcia Lorca. Então, decidi que deveriam estudar «El Cid» em casa e durante as lições eu trataria os autores de que os rapazes mais gostavam. Obviamente, os jovens queriam ler as obras literárias mais “picantes”, contemporâneas como «La casada infiel» ou clássicas como «La Celestina» de Fernando de Rojas. Mas ao ler estas coisas que os atraíam naquele momento, ganhavam mais gosto em geral pela literatura, pela poesia e passavam a outros autores. Para mim, esta foi uma grande experiência. Cumpri o programa mas de modo desestruturado, isto é, não ordenado segundo aquilo que estava previsto, mas segundo uma ordem que resultava natural da leitura dos autores. E esta modalidade tinha muito que ver comigo: não gostava de fazer uma programação rígida, mas eventualmente saber mais ou menos onde chegar. Então comecei também a fazê-los escrever. No final, decidi dar a ler a Borges [2] dois contos escritos pelos meus rapazes. Conhecia a sua secretária, que tinha sido a minha professora de piano. Borges gostou muitíssimo e então ele propôs escrever a introdução de uma colectânea.

 

Perguntar-se-á agora o que chamou a minha atenção em história tão plausível e, quase diria, banal...

 

Inesperadamente, o que chamou a minha atenção foi aquela Senhora que secretariava um escritor da envergadura universal de Jorge Luís Borges e que foi professora de piano dum futuro Papa.

 

Dá para imaginar a estatura humana e cultural daquela porteña (nome atribuído aos naturais de Buenos Aires) anónima? Quantas pessoas assim fantásticas andarão por aí escondidas e esquecidas?

 

E quem era ela?

 

Perguntem ao Papa!

Henrique à porta do Seminário de Rachol, Goa.JPG

Henrique Salles da Fonseca

(à porta do Seminário de Rachol, Goa, NOV15)

 

BIBLIOGRAFIA:

Entrevista exclusiva do Papa Francisco às revistas da Companhia de Jesus”, António Spadaro, SJ, BROTÉRIA – Agosto/Setembro de 2013, pág. 112 e seg.

 

[1] A cerca de 500 kms a noroeste de Buenos Aires, Argentina

[2] Jorge Luís Borges, primeiro laureado com o «Prémio Formentor de Literatura» em 1961

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