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A bem da Nação

«EPPUR SI MUOVE»

Galileu.png

- E, contudo, ela move-se – disse Galileu depois de ter sido obrigado a abjurar a sua teoria de que a Terra gira em volta do Sol. Abjurou, sim, mas salvou a pele.

Conta-se a história de dois amigos que foram ao funeral de um terceiro e que, convidados a proferirem palavras de encómio ao defunto, concluíram que, com a morte do amigo, à Terra restava a hipótese da implosão. E, uma vez concluídas as exéquias, um deles pergunta ao outro o que é que ele gostaria que se dissesse quando morresse. A resposta foi imediata: - Mexeu-se!

* * *

Quem nasce, vive e morre. O nascimento é uma ocorrência partilhada com a mãe; a vida é eminentemente social; a morte é o único acontecimento exclusivo, não partilhado. A morte pode ser testemunhada mas não é partilhada. Pode haver várias mortes simultâneas mas cada uma é ocorrência exclusiva.

A vida para além da morte é matéria de fé, não é chamada para este escrito.

«Eppor», se o “A bem da Nação” tiver uma certidão de óbito, isso não impedirá que, esporadicamente, se mexa numa vida para além da morte. Mas disso dará sinal.

Como assim? Limitações de um amblíope.

A ver…

Janeiro de 2020

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Henrique Salles da Fonseca

E PORQUE HOJE É DOMINGO…

… ouso discorrer sobre coisas acerca das quais pouco (ou nada) sei

 

  1. Diz Christine Lagarde que o BCE está a estudar o tema das criptomoedas a fim de saber quais as virtualidades e riscos da criação do Criptoeuro – mais correctamente, de uma criptomoeda denominada em Euros. Como quem diz, «se não os podes vencer, junta-te a eles». Sim, parece-me bem, até porque há que estudar para reduzir as probabilidades de erro aquando da tomada da decisão. Mas haveria alguém que pensasse decidir sem estudar?
  2. Joacine exaltou-se e, em bom português, parece que «atirou com os aparelhos ao ar» - que tudo são mentiras e que está a ser alvo de perseguição política. Também terá dito que «a renúncia ao mandato está fora de questão». Ora, sendo nominativo, o mandato de Deputado é dela e não do Partido com quem está cada vez mais de candeias às avessas. Confirmada a ruptura, o «Livre» perde a totalidade da representação parlamentar, sai de São Bento e vai lamber as feridas para outro lado. Quanto à Deputada Joacine, passa a independente ou integra-se nutra representação parlamentar que a queira aceitar. Por exemplo, se o «Chega» a aceitasse, veria a sua representação parlamentar crescer 100% e adquiria por módica quantia «uma molhada de brócolos».

Janeiro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

O QUE ELES DIZEM...

DIZ O INE QUE:

Em Dezembro de 2019, o Índice de Preços na Produção Industrial (IPPI), registou uma variação homóloga de -1,6%, mais 0,3 p.p. face ao registado no mês anterior (-1,9%).

O agrupamento de Energia, apresentou uma variação homóloga de -2,6%, mais 2,2 p.p. face à variação verificada no mês de Novembro de 2019 (-4,8%). Os agrupamentos de Bens de Consumo e Bens Intermédios apresentaram variações homólogas de 0,3% e -3,3%, respectivamente, o que compara com as variações de 0,9% e -3,3%, registadas no mês anterior. O agrupamento de Bens de Investimento registou uma variação homóloga de 0,1% (0,3% no mês anterior).

O índice relativo à secção das indústrias transformadoras registou variações de -0,4% em termos homólogos (-1,1% no mês anterior) e de -0,1% em termos mensais (-0,8% em Dezembro de 2018).

Para o conjunto do ano 2019, a variação média do índice fixou-se em -0,2% (2,7% no ano de 2018), tendo os índices para o mercado interno e externo registado variações de -0,7% e 0,6% respectivamente (2,4% e 3,0% no ano anterior, pela mesma ordem).

 

E DIGO EU QUE:

Não gosto de que este tipo de índices apresente valores negativos pois que, persistindo, significam que a recessão se aproxima.

E se a recessão se aproxima numa circunstância global de juros negativos, o que resta às Autoridades Monetárias para combaterem o ciclo negativo? Eventualmente, nada. Teremos então que passar para outro tipo de medidas. Por exemplo, desenterrando Keynes.  E a pergunta é: - Será que na Europa ainda há espaço para mais obras públicas relevantes? E os défices públicos?

Em resumo, não gosto do cenário e não vejo que o debate esteja lançado no sentido de cada Partido (nacional e europeu) se estar a preocupar muito com o tema. Quando a crise se instalar, vai então ser uma cascata de atabalhoamentos.

Janeiro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

CARTA ABERTA

 

CARTA ABERTA A SUA EXCELÊNCIA O

PRESIDENTE DA REPÚBLICA

PROFESSOR DOUTOR MARCELO REBELO DE SOUSA

 

Excelência,

As minhas mais respeitosas e cordiais saudações que em democracia republicana se admitem.

Venho por este meio inconfidente manifestar a minha preocupação com o que as televisões diariamente me demonstram relativamente à magreza e às longas olheiras que quase fazem o périplo das parcas bochechas de Vossa Excelência.

Não estando eu academicamente habilitado a emitir um diagnóstico da situação clínica de Vossa Excelência, recorro ao nosso ditado que diz que «de médico e louco todos temos um pouco» e afirmo que os sintomas apontados resultam de cansaço.

Nestas circunstâncias, permito-me rogar a Vossa Excelência que descanse um pouco mais posto que nós, os seus admiradores e apoiantes, preferimo-lo num ritmo mais lento mas vivo do que acelerado e morto.

Não duvide Vossa Excelência do apreço que lhe manteremos caso não vá consolar todos aqueles que merecem consolo – vá só a casos plurais - , caso não acorra a todas as situações de emergência – vá só às de expressão regional e nacional – para que não deixe de presidir às circunstâncias mais relevantes e em que não o queremos ver substituído por quem constitucionalmente o faria.

A estabilidade económica, financeira e política por que Vossa Excelência pugna exige que o Presidente da República combata o stress pessoal, durma mais, engorde um pouco para que nós constatemos que as olheiras desapareceram.

A bem da Nação, pede deferimento,

Henrique Salles da Fonseca

O QUE ELES DIZEM…

DIZ O INE QUE

De Setembro a Novembro de 2019, as exportações de bens registaram um aumento de 7,4% e as importações de bens registaram um aumento de 6,6%, em termos homólogos. Houve um agravamento do défice da Balança Comercial em 207,1 milhões de euros no período analisado.

E DIGO EU QUE

Já não me lembrava dos tempos em que as taxas de crescimento das exportações eram superiores às das importações mas a esperança nascida pelos valores relativos foi desbaratada pelos montantes absolutos implícitos na conclusão do INE. Ainda não foi desta que o caminho para o buraco se inverteu.

Henrique Salles da Fonseca

HISTÓRIA MUITO RÁPIDA

Era um grupo duma trintena de amigos, todos ex-alunos de um importante colégio em Lisboa; todos casados ou, entretanto, viúvos com excepção de um que era Padre.

Reuniam-se a um determinado Domingto de cada mês para o almoço mas, antes, os católicos iam à Missa e os outros liam o «Diário de Notícias».

Janeiro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

LORELEI - 5

 

Heim, em alemão, significa casa. Esta informação prévia tem a ver com o facto de termos visitado Rüdesheim (a casa de Rüde) e Manheim (a casa do homem). Visitámos também Heidelberg (o monte de Heidel) e Speyer (sem tradução).

Então, foi assim:

  • No primeiro dia, como já referi, embarcámos em Estrasburgo, tivemos os salamaleques da recepção e navegámos toda a noite durante a qual transpusemos três eclusas – sono tranquilo;
  • Durante a manhã do segundo dia, navegámos para jusante ao longo do que eles chamam o «romântico Vale do Reno» ouvindo as explicações dadas por uma Senhora que estava dentro dos altifalantes do barco – castelos, mansões, igrejas, vinhedos nas duas margens, povoações à beira rio, histórias de conquistas e de reconquistas que até metiam suecos e espanhóis à mistura e, já mais recentemente, o extravagante rei Luís da Baviera a comprar uns quantos castelos em ruinas, a reabilitá-los e a contribuir fortemente para a delapidação das Finanças bávaras. Depois de passarmos o Lorelei, fizemos inversão de marcha frente a Sankt Goar (que não visitámos) e, passando novamente pelo Lorelei, acostámos em Rüdesheim. Pelo que a Senhora do altifalante dissera, estávamos todos convencidos de que ali era a capital do riesling e que haveria uma prova de vinhos a condizer com a fama do produto. Mas o que nos deram a ver foi o Museu da Música Mecânica com tudo o que pudéssemos imaginar de pianolas, grafonolas, realejos e não sei mais o quê… Mas se queres um vinhito, pagas! O exemplar único que me calhou era muito doce para meu gosto, ficou lá meia flute. Mas até poderia ser que o vinho ao lado fosse mais do meu agrado. Não ousei. No entanto, o que mais me chamou a atenção foi o facto de por aquelas encostas além os vinhedos estarem plantados em filas quase perpendiculares e não em socalcos por curvas de nível como no Douto. Eles lá sabem porquê (a Senhora do altifalante àquela matéria disse «nada») mas eu aposto mais no nosso método por impedir a erosão e por os vindimadores não terem que trabalhar pendurados por cordas em rappel (o que não vi que acontecesse). E assim foi nestas cogitações que zarpámos para montante rumo a Manheim…
  • Depois de navegarmos durante a noite, ao terceiro dia, apeámo-nos em Manheim, demos uma volta de autocarro pela cidade para termos a certeza de que ela existe e rumámos a Heidelberg onde visitámos o castelo.

Castelo de Heildelberg.jpg

  • E este, que nos é apontado como o expoente máximo do romantismo no Vale do Reno, está quase totalmente em ruinas, adivinha-se-lhe uma arquitectura romântica mas a História que transporta tem muito mais que romantismo pois, entre outras funções, foi ali que ficou detido em regime prisional e alimentado apenas a pão e água aquele que ficou conhecido como o Antipapa João XXIII, um dos três Papas que, em simultâneo, se arrogava o exclusivo da legitimidade. Luís III do Palatinado foi o representante do imperador e o juiz supremo, e foi nessa qualidade que em 1415, de acordo com o Concílio de Constança e a mando do Imperador Sigismundo, aprisionou o já deposto Antipapa João XXIII antes deste ser levado para a vizinha Mannheim. Mas durante a sua prisão no castelo, foi aberta uma janela panorâmica sobre o vale do rio Neckar para que ele pudesse ver a destruição que as guerras por ele provocadas tinham causado a toda a região. Outra curiosidade histórica tem a ver com a chamada Disputa de Heidelberg travada por Martinho Lutero com os seus irmãos Agostinhos no âmbito da justificação que lhe fizeram sobre cada uma das 95 teses que ele afixara na porta da igreja de Wittenberg. Com -4º C, rumámos a Speyer onde, dado o adiantado da hora, não visitámos o Museu Aeronáutico, embarcámos e preparámos-nos para o réveillon pois já estávamos em 31 de Dezembro. Na passagem do ano fui beijado por quem nunca tinha visto mais gordo nem mais magro, saudámos à felicidade de todos e cada um e deixámos os foliões a dançar.
  • O quarto dia foi dedicado à navegação nocturna e quando acordámos já estávamos acostados em Estrasburgo. Desembarcámos pelas 10,30 h e retomámos a cena da mais «curta» distância entre aquela cidade e Lisboa passando quase pelo Polo Norte. Demorámos só 13 horas assim economizando 5 em relação ao que acontecera na ida.

E como dizem os franceses, tout va bien quand fini bien. E foi o caso.

FIM

Janeiro de 2020

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Henrique Salles da Fonseca

 

LORELEI – 4

 

MS Beethoven.jpg

MS Beethoven

Foi pelas 6 da tarde de 29 de Dezembro que embarcámos, fizemos o check-in e nos instalámos num camarote de bombordo; janelão escancarado para o cais, vá de correr as cortinas.
Cocktail de recepção a bordo seguido de jantar e piano-bar para os noctívagos. Bem… noctívagos a fingir pois a música calar-se-ia impreterivelmente à meia noite. Todas as «cerimónias» presididas pelo 2º Comandante; o Comandante estava a descansar porque entraria de quarto à meia noite. Nunca apareceu, limitámo-nos a saber que se tratava de um Oficial austríaco. Ao contrário da ópera de Wagner, este era o «Comandante fantasma» do barco real.
Mas tudo isto foram prolegómenos. O que interessa é saber ao que vínhamos.
Pois bem, o objectivo era – e foi – o de conhecermos o chamado «Reno romântico», não no sentido lamecha do romance da menina pobre com o príncipe encantado, mas sim o do período romântico da cultura europeia e, mais concretamente, do período romântico da cultura alemã. Ah! E se pelo caminho escorregasse um riesling ou outro, os empresários locais não se amofinariam. Diz quem sabe que a uva riesling ficou famosa pela sua versatilidade pois que se pode transformar no que o enólogo quiser, desde o tradicional vinho branco, passando por variedades de rosé e tinto. E, pasme-se, até se pode transformar em água. Foi com esta informação que me lembrei de um grande comerciante de vinhos português que, no leito de morte, chamou os filhos e lhes disse que «o vinho também se fabrica a partir das uvas».

RENO Cruzeiro.jpg

O «romantisch Rein»


Ignoro ao que iam os outros passageiros mas eu tinha como grande objectivo ver o Lorelei. Tudo o mais, muito interessante, era o embrulho do meu motivo principal.
E porquê esta fixação? Porque na juventude, a minha professora de alemão me fez empinar a poesia de Heinrich Heine
Ich weiss nicht, was soll es bedeuten,
dass ich so traurig bin;
Ein Märchen aus alten Zeiten,
dass kommt mir nicht aus dem Sinn.

Die Luft ist kühl und es dunkelt,
Und ruhig fließt der Rhein;
Der Gipfel des Berges funkelt
Im Abendsonnenschein.

Die schönste Jungfrau sitzet
Dort oben wunderbar;
Ihr goldnes Geschmeide blitzet,
Sie kämmt ihr goldenes Haar.

Sie kämmt es mit goldenem Kamme
Und singt ein Lied dabei;
Das hat eine wundersame,
Gewaltige Melodei.

Den Schiffer im kleinen Schiffe
Ergreift es mit wildem Weh;
Er schaut nicht die Felsenriffe,
Er schaut nur hinauf in die Höh'.

Ich glaube, die Wellen verschlingen
Am Ende Schiffer und Kahn;
Und das hat mit ihrem Singen
Die Lore-Ley getan.

O mais curioso é que eu já não sou capaz de ler esta poesia sem, no silêncio, cantarolar o que dela ficou como o lied mais conhecido.
Loreley (Tradução alheia e de que não gosto muito)
Não sei como explicar isto,
Por estar assim tão triste...
Uma lenda dos velhos tempos
Não me sai da cabeça

O ar está frio e já escurece,
E calmo flui o Reno.
O pico da montanha brilha
No crepúsculo vespertino.
A bela virgem se assenta
Lá em cima, admirável.
Suas douradas jóias cintilam
E ela penteia os seus cabelos louros.

Ela penteia-se com um pente de ouro
Enquanto canta uma canção.
E o canto maravilhoso,
Tem uma fascinante melodia.

O barqueiro em pequeno barco
Supera uma frenética ventania
E não percebe à frente o recife,
Ele olha só para cima, no alto.

Creio que as ondas vão devorar
Afinal, barqueiro e barco.
E assim se deu com seu cantar
A saga de Lore-Ley.

 

É claro que tudo isto não passa duma patetice e eu espero que Heine tenha ficado famoso por via de outros escritos. Este, contudo, foi celebrizado porque foi musicado por muitos compositores, alguns famosos, outros nem tanto…
https://www.youtube.com/watch?v=3DX_aykzT9Q


Para saber mais sobre o Lorelei, sugiro ao leitor que procure na Internet.por exemplo em https://pt.wikipedia.org/wiki/Lorelei


Nas duas vezes que passámos pelo penhasco, puseram a música numa interpretação muito boa. Na primeira passagem, fui para o tombadilho ver o rochedo em tiro tenso mas na segunda poupei-me do frio e fiquei no salão da proa onde, estando eu em pleno êxtase de vistas e música, um grupo catalão se pôs a falar de trivialidades como se passeassem numa rambla. Chegou-me a mostarda ao bigode e pedi silêncio explicando que aquele era o momento mais sublime de todo o cruzeiro. Não sei se perceberam se não, mas calaram-se e eu – e muitos outros passageiros – vimos, ouvimos e gostámos.
(continua)
Janeiro de 2020


Henrique Salles da Fonseca

LORELEI – 3

Strasbourg-canal.jpg

Domingo, 29 de Dezembro de 2019, dá connosco Estrasburgo adentro…

Se há, não descobrimos os autocarros do «Op on – Op off»; descobrimos, isso sim, excursões a pé mas eu só fui de Infantaria na recruta, quando tinha idade para isso. Optámos, então, por um percurso de barco pelos canais da cidade. Para não nos sentirmos sozinhos quando entrássemos no barco, já lá tinham posto mais 198 figurantes.

Auriculares a funcionar e aí vamos nós… Passeio de duas horas com meia hora de subida e de descida numa eclusa transposta nos dois sentidos. Mas isso também faz parte da História e do combate ao stress por que passáramos na correria para não perdermos o barco que, recordando, já tinha 198 cidadãos de alhures à nossa espera.

No caminho para lá, a conversa foi sobre a margem direita; na volta lá ao fundo, a Senhora que estava dentro dos auriculares falou acerca das construções militares mandadas erigir por Luís XIV e n0 regresso, a conversa foi sobre a que de início era a margem esquerda mas que se transformara em direita. E se isto aconteceu na visita à parte velha da cidade, o mesmo rodopiar de margens aconteceu na outra metade do percurso, a visita à parte moderna.

E que retive eu da muita conversa? Duas informações que me pareceram interessantes e uma questão para que não peço resposta.

  • Gostei de recordar que o Dr. Albert Schweizer era alsaciano; gostei de aprender que tinha sido Pastor luterano na igreja de São Nicolau junto da qual navegámos e que a Senhora dos auriculares assinalou; mais me recordou que ele era médico e organista; mas a partir daqui ela nada mais disse sobre esse importante Senhor e fui eu que me lembrei de que lhe foi atribuído o Nobel da Paz pelo trabalho desenvolvido em África com o hospital (sobretudo gafaria) em Lambaréné, na selva gabonesa; à minha questão sobre que influência terão tido as tocatas e fugas de Bach nos ouvidos dos cidadãos do Gabão que o ouviam, fiquei a saber pelo meu Amigo Bruno Caseirão que o Dr. Schweizer não tinha um órgão em Lambaréné mas sim um piano revestido a metal para que as térmitas não o comessem.
  • Terá sido em 1792 que Rouget de Lisle, Oficial da guarnição de Estrasburgo, terá composto a letra e a música de um «Chant de guerre pour l’Armée du Rhin» quando a sua Unidade se dirigiu à Áustria em pé de guerra; posteriormente, o canto tornou-se muito popular e as tropas assentadas em Marselha tomaram-na como sua mudando-lhe o nome para «La Marseillaise»; seguiu-se a adopção do canto como Hino Nacional de França. Não sabia, fiquei a saber.
  • Sob o comando de um tal Wagner (cuja identificação mais concreta não descobri na Internet), a ocupação nazi de Estrasburgo durou cerca de quatro anos durante os quais se cometeram as tropelias típicas daqueles transtornados. Quatro anos é muito tempo para que um invasor possa prescindir de apoios locais. É esta a parte da História a que o turista não tem acesso. Mas, mesmo que a língua alsaciana seja muito mais germanizada do que os franceses gostariam, talvez não fosse mau fazer saber à memória colaboracionista que nós, os da liberdade, sabemos dessas tropelias e que Pétain e Laval não nasceram do nada… Mas o machado dessa guerra está enterrado, deixemo-lo assim. Até porque a guerra agora é outra e já nos bate à porta ao som das exéquias do General Suleimani.

Saídos do «bateaurama», passámos pela catedral que estava fechada apesar de ser Domingo e rumámos à procura de almoço. Na praça da catedral, nem pensar em encontrar lugar em qualquer dos muitos restaurantes pelo que decidimos sair dali. À saída da praça não tivemos problemas mas quem entrava era espiolhado pela Polícia (municipal?) como se estivesse a passar um controle de segurança num aeroporto. E foi aqui que, mais uma vez, me lembrei do peso histórico da passagem francesa pelo Magreb.

Encontrámos um bistrot muito acolhedor, almoçámos já não sei quê, fizemos horas à mesa e pelas ruas antigas circundantes porque o check-in no barco do cruzeiro no Reno seria só às 6 da tarde.

(continua)

Janeiro de 2020

Henrique Salles da Fonseca

LORELEI – 2

 

Há quem diga que a recta é a mais curta distância entre dois pontos mas há excepções nesse entendimento. Sim…? Sim! Por exemplo, as agências de viagens. Porquê? Porque para nos deslocarmos de Lisboa a Estrasburgo tivemos que passar por Amesterdão. Para piorar a solução, tivemos que cumprir uma seca de cinco horas até que nos levassem ao destino final. Vôos sem história, apenas uma nota de desconforto relativamente à indústria aeronáutica europeia pois o avião de Lisboa a Amesterdão foi um Boeing da KLM e de Amesterdão a Estrasburgo foi um Embraer de empresa também pertença da Air France. Também? Sim, a KLM é da Air France.

Avião erj145.jpg

Sem percalços, chegámos ao hotel pelas 18,30 h., ou seja, 18 horas depois de termos pisado o aeroporto de Lisboa. A próxima agência de viagens que me fale de rapidez, vai ter que provar previamente não estar a gozar comigo. Respirámos um pouco e chegou a hora de procurarmos um restaurante alsaciano para o jantar. Pois… Nas redondezas do hotel, a parte antiga da cidade e mais turística, tudo cheio (era Sábado) com o letreiro «complet» e, pior ainda, com filas às portas. Continuando… fomos parar à porta de um restaurante com óptimo aspecto e sem fila à porta. Entrámos, não fomos rejeitados mas disseram que só tinham uma mesa para duas pessoas lá ao fundo, no corredor. Muito bem, faríamos o pleno dessa mesa sem sobras. Mas era um restaurante espanhol. E nós, que até gostamos de «tapear», não se nos deu nos incómodos e mandámos vir várias espanholices que nos souberam lindamente. Acompanhámos com um tinto Rioja que desceu muito bem. Da próxima vez que formos a Granada, para a troca, havemos de procurar um restaurante alsaciano…
Tivemos que corrigir a conta porque estavam a querer oferecer-nos quase metade do que tínhamos consumido. Mesmo assim, não foi caro. Esta foi a primeira vez que vimos o Macron ser fintado. Não há recibos, facturas nem nada para registo nas Finanças, tudo economia paralela. Nunca ouvimos a pergunta – para nós, portugueses, perfeitamente banal – se queríamos factura-recimo com número de Contribuinte. Saímos saciados e satisfeitos pela barateza. Pudera, poupámos na componente fiscal. Espero que a gloriosa França não peça ajuda financeira ao humilíssimo Portugal para endireitar as suas finanças públicas quando o paralelismo vencer e levar tudo de rojo.
Ao pormos o pé na rua, a minha ambliopia não me impediu de ver uma patrulha de quatro militares de camuflado, pistola metralhadora em guarda baixa (apontadas para o chão a 45º), «coisas» penduradas no cinturão, deslizando silenciosamente entre os passeantes.
Há muito que não pregávamos olho, apetecia-nos sossegar antes que os franceses desatassem aos tiros. Recolhemos «a quartéis» que, no nosso caso, tinham um nome bastante estranho - «Hotel Maison Rouge». Apesar do nome, é casa séria.
Estafados, dormimos… amanhã é que vamos conhecer Estrasburgo a que eles chamam Strasbourg.
(continua)
Janeiro de 2020

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Henrique Salles da Fonseca

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  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D