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A bem da Nação

QUEM DIRIA…

Manuel_Teixeira_Gomes.png

Manuel Teixeira Gomes

(Portimão, 1862 – Argel, 1941)

(7ª Presidente da República – 6/10/1923 – 11/12/1925)

Principais obras literárias (in Wikipédia):

* * *

Membro de família abastada, Manuel Teixeira Gomes nasceu em Portimão no ano de 1862 e pelos 10 anos ingressou no seminário de Coimbra até que passou para a Universidade a fim de cursar medicina. Mas a boémia foi mais forte do que o rigor científico e assim foi que o jovem se passou a dedicar mais às artes, ou seja, à estroina.

O abastado pai convenceu-se então de que mais valia continuar a dar-lhe a mesada e deixá-lo viver a sua vida de rapaz, já então com mesclas de literatura, pintura e escultura. Mudando-se para Lisboa, optou pela literatura e passou a colaborar em revistas e jornais… até que o pai o conseguiu atrair para os negócios da família (frutos secos, nomeadamente algarvios) e o fez viajar pelo Mediterrâneo e Europa firmando contratos um pouco por toda a parte. O próprio escreveu na sua “Miscelânea”: Fiz-me negociante, ganhei bastante dinheiro e durante quase vinte anos viajei, passando em Portugal poucos meses.

Foi neste período que ganhou mais mundo do que aquele que já de cá levava, passou por experiências que lhe proporcionaram grandes recordações e nos facultaram a nós, seus leitores, páginas admiráveis. Senhor de vasta cultura, pôs no papel episódios rocambolescos e de muito outras ordens, por exemplo, aqueles que nos deixou intitulados “Duas novelas eróticas”. Quem diria…

Republicano, a sua vida política ao serviço do novo regime começou logo em 1911 e prolongou-se até 1918 no espinhoso cargo de Embaixador em Londres. Levar a Velha Albion a reconhecer a jovem e ainda pouco estável República Portuguesa não era tarefa fácil uma vez que os monarcas britânicos tinham laços familiares com os depostos monarcas portugueses que viviam exilados em Inglaterra. Mas conseguiu insinuar-se de tal modo que ao fim de alguns anos a família real o passou a convidar para o palácio com toda a naturalidade. Sabe-se, por exemplo, que a rainha Alexandra lhe pediu para lhe decorar o gabinete oriental no Palácio de Buckingham.

Normalizadas as relações diplomáticas entre Portugal e a Grã-Bretanha, foi a vez de em 1918 Sidónio Paes subir ao Poder demitindo o Embaixador em Londres que regressou ao Algarve para gerir directamente as suas propriedades.

Contudo, o fim do consulado sidonista fez com que logo em 1919 Teixeira Gomes fosse novamente chamado à diplomacia, desta feita em Madrid e em Londres.

Como Presidente da República, ocupou o cargo entre 5 de Outubro de 1923 e 11 de Dezembro de 1925 mas demitiu-se antes do fim do mandato deixando-nos com o seu conhecido desabafo: A política, longe de me oferecer encantos ou compensações, converteu-se para mim, talvez por exagerada sensibilidade minha, num sacrifício inglório. Dia-a-dia, vejo desfolhar, de uma imaginária jarra de cristal, as minhas ilusões políticas; sinto uma necessidade, porventura fisiológica, de voltar às minhas preferências, às minhas cadeiras e aos meus livros.

Com o advento do Estado Novo em 1926, auto-exilou-se em Argel onde retomou a escrita dos seus livros até que morreu em 1941. O seu corpo foi trasladado para Portugal em 1950 mas os seus escritos já cá estavam. Por exemplo, esses contos eróticos.

É de nos perguntarmos sobre o que será mais estranho: se um escritor do erotismo chegar a Presidente da República; se um Presidente da República divagar pelo erotismo.

Ainda estou na minha: quem diria…

Claramente, uma personalidade sobre que falamos de menos e que lemos de menos. Pela minha parte, sinto que devia lê-lo mais se houvesse onde encontrar os seus livros. Na falta de novas edições, penso nele de cada vez que sobrevoo Argel e faço o gesto simbólico de o cumprimentar levando a mão esquerda ao chapéu (que não uso nos aviões) libertando a direita para um aperto de mão a «quem a levou bem levada» e deixou uma ou duas filhas pela calada das noites algarvias…

Henrique Salles da Fonseca

 

BIBLIOGRAFIA:

Manuel Teixeira Gomes, DUAS NOVELAS ERÓTICAS – Contexto Editora – Lisboa, 1995

VIANNA DA MOTTA E AS CORRIDAS DE CAVALOS

Columbano_-_Vianna_da_Motta_1923.jpg

José Vianna da Motta - São Tomé, 22 de Abril de 1868 — Lisboa, 1 De Junho de 1948 (80 anos)

* * *

Dizem-me que apareceram há pouco dois manuscritos de Vianna da Motta – partituras, claro – relativas a peças para piano com a informação de que são inspiradas nas corridas de cavalos a que o compositor terá assistido em 1880 em Portugal.

Quem está a estudar as ditas peças estranhou – e por isso me contactou – que elas tenham uma tonalidade e outras características que as associam à música espanhola e mesmo ao folclore cigano. Aproveitava o meu interlocutor para perguntar se as ditas corridas teriam sido realizadas no actual hipódromo do Campo Grande, em Lisboa.

Eis a resposta que dei ao interessado artista:

Exmo. Senhor,

É com todo o gosto que, melómano e cavaleiro, passo a responder às suas questões, em especial ao que Mestre Vianna da Motta possa ter visto.

Assim, começo por dizer que em Portugal nunca houve verdadeiras corridas de cavalos. O que sempre houve (e continua a haver) eram (e são) correrias com pilecas nacionais (não vocacionados para a modalidade) e cavalos estrangeiros de refugo. Nada do profissionalismo inglês nem sequer francês. Nada me espanta, pois, a inspiração espanhola nem sequer a cigana.

Mais: as correrias começaram pelos inícios do séc. XIX em Évora, daí passaram para a Granja de Sintra, daí para Belém e já no reinado de D. Manuel II, para o nosso Long Champ a que chamamos Campo Grande. Sim, no actual jardim, não propriamente no actual hipódromo que era então campo aberto rodeado de azinhagas.

Foi com a urbanização do actual Jardim do Campo Grande que os terrenos seus anexos passaram a ser usados equestremente pelo Jockey Club que iniciou obras de arranjo, nomeadamente pistas de corrida e bancadas (ainda existentes). Realizou uma única jornada de corridas no dia 27 de Junho de 1915 e apresentou-se ä falência.

O local ficou então na posse efectiva do seu proprietário, o Estado Português, até que em 1930 nos foi entregue, à Sociedade Hípica Portuguesa, por arrendamento. Até hoje.

Portanto, em 1880, Mestre Vianna da Motta terá visto umas correrias de muito provável inspiração espanhola e talvez mesmo cigana apesar do afluxo da melhor sociedade de então que de corridas verdadeira NADA saberia. Onde foi que isso aconteceu? Ou na Granja de Sintra ou em Belém. Duvido seriamente de que no Campo Grande.

Tenho para mim que o tom das peças tem tudo a ver com o que o Compositor possa ter visto.

Atenciosamente,

Henrique Salles da Fonseca

ELES ANDAM POR AÍ…

Foi Raymond Aron que, a págs. 91 da edição portuguesa das suas “Memórias”, me champu a atenção para o facto de a prevalência histórica do capitalismo sobre o determinismo histórico marxista ter esvaziado a Europa ocidental da revolução proletária, o que conduziu Herbert Marcuse – que viria a ser considerado o principal ideólogo do Maio de 68 - a virar-se para os contestatrários que prevaleciam, mesmo que numa sociedade em permanente mutação, isto é, os que rejeitavam os apelos do consumo e a integração na sociedade capitalista moderna.

Herbert_Marcuse_in_Newton,_Massachusetts_1955_jpeg

Herbert Marcuse (1898-1979)

E a partir desta chamada de atenção, procurei alguma informação mais e fiquei a saber que Marcuse viu, ainda que com certa cautela,  naquele “substrato de párias e estranhos, de explorados e perseguidos”, que se somavam aos guerrilheiros do terceiro-mundo,  uma possível esperança do sistema capaz de atenuar o seu pessimismo revolucionário.”

Contentes ou não, pareciam-lhe os únicos capazes de tirar os jóvens da acomodação, de sacudirem a sua falsa consciência social. Eram uma força elementar que violava as regras do jogo e ocupava o papel de povo eleito no novo messianismo libertário.

O filósofo pugnou por um novo principio da realidade assente noutras formas produtivas [1] que não aquelas que então imperavam nos EUA e defendeu  que a progressiva liberdade sexual dos anos 60 era uma artimanha capitalista para tornar a juventude conformista e acomodada com a vida. O sexo, assim como era entendido naquela época, era o ópio da juventude. Marcuse parecia ter chegado a acreditar ser possível chegar-se à utopia.

Não alcançada a utopia, a tecnologia trazia, pela exigência excessiva de racionalidade, um enorme potencial totalitário.  O avanço tecnologico, mesmo que pervertido pelos sucessivos Governos para gerar desperdício, consumo conspícuo e armamentos, poderia ser resgatado para a construção de uma nova utopia, a de uma sociedade harmoniosa habitada por gente feliz, saudável,  libertada das opressões viciosas que a cercavam. Este, o seu horizonte histórico, a sua utopia.

Passados muitos anos dessas profecias e “utopias” e desde a sua morte em 1979, Marcuse, tido por “pai da nova esquerda", desapareceu dos fora académicos e dos internacionais. Mas…

… eles andam por aí,«bloqueados», por muito que seja o irrealismo das utopias.

Com a diferença de que os nossos marcusianos actuais não são aquele substrato de párias, estranhos, explorados e perseguidos que se somam aos guerrilheiros do terceiro-mundo. Os nossos bloquistas são intelectuais maduros mas claramente adeptos da «grande recusa», são potencialmente destrutivos e seguramente utópicos.

É uma pena haver tantos outros, não-bloquistas, a darem-lhes argumentos morais, éticos e legais para a sanha destruidora que os move.

Enfim, uns e outros, empenhados na destruição da nossa sociedade, também ela harmónica e não rancorosa, democrática e não dogmática, solidária e não leonina, de liberdade e sem espartilhos ideológicos que nós, os vulgares, afanosamente tentamos tecer.

É que, afinal, o «Bloco de Equerda» existe por culpa dos maus exemplos de quem se serve do Estado em vez de servir a Nação.

Aturemo-los… mas urge dar uma volta à democracia portuguesa.

Junho de 2019

Henrique Salles da Fonseca

BIBLIOGRAFIA:

Voltaire Schilling - «Marcuse , o apóstolo da Grande Recusa»

https://www.terra.com.br/noticias/educação/historia/

 

[1] - Procurei debalde informação sobre que novas formas Marcuse propunha.

BOM VERÃO!

Solstício de Verão em Stonehenge.jpg

 

Será que a comunicação é viciante?

Já tive mais certezas negativas sobre essa hipótese; há tempos negaria a pés juntos que o fosse; hoje, estou em crer que a comunicação é algo mais do que um gosto ou mesmo mais do que um hábito (virtuoso, claro). Mas admito que possa criar dependência e, em consequência, deixar de olhar para a qualidade dos conteúdos e passar para a preocupação de assegurar uma visibilidade constante. Só que isso pode arrastar o comunicador para aquilo a que vulgarmente se chama «encher chouriços», ou seja, publicar «coisas» só para não perder o «tempo de antena», mesmo que nada de especial tenha para dizer.

São vários os políticos que parece assim agirem no pressuposto de que «o fundamental é aparecer» para que o eleitor os não esqueçam. Sofisma, claro. Aparecer por aparecer só para não ser esquecido pode muito naturalmente levar à criação da ideia de que esse tal comunicador não passa de um «fala barato», de alguém que «não interessa nem ao Menino Jesus».

É, pois, evidente o prejuízo que a ânsia da comunicação pode provocar a quem não se sabe conter, a quem padece de verborreia ou de excesso de ego.

Até porque «quem muito fala pouco acerta», «pela boca morre o peixe» e ao abrir muito a boca «ou entra mosca ou sai asneira».

Portanto, na mente senso, na língua tento.

Votos de bom Verão para quem me lê!

 

No dia do Solstício de Verão de 2019

Henrique Salles da Fonseca

E A DANÇA CONTINUA…

 

DANÇA.png

 

Este é o tempo das trevas,

Da vilania deles,

Da mentira

E da humilhação.

 

Há tempos felizes…

… mas também os há de nojo;

Há-os dos risos

E há-os do pranto;

Mas há também um anjo

Que só ele nos ouve o choro

E nos dá o ânimo da cabeça erguida,

Do peito aberto à intempérie,

Da sanidade,

Da reversão dos tempos em que só se vê

O túnel no fim da luz.

E assim a esperança renasce,

As gentes regressam ao baile,

E a dança continua…

UMA MÃO CHEIA DE PROBLEMAS

Em 1750, mais de 200 anos após o Tratado de Tordesilhas, é assinado o «Tratado de Madrid» ou «Tratado dos Limites» como também ficou conhecido, que, mais uma vez, procurou resolver pela via diplomática os problemas de fronteiras entre os territórios pertencentes à Coroa portuguesa e aos domínios espanhóis, constituindo uma nova etapa na trajectória das missões jesuítas.

TRATADO DOS LIMITES-1750.jpg

A Colónia de Sacramento passou de novo para a posse de Espanha em troca dos Sete Povos das Missões, da margem esquerda do rio Uruguai. Os índios deveriam abandonar as suas terras, retirando-se do actual Rio Grande do Sul para a margem ocidental do rio Uruguai, hoje território argentino e paraguaio. É decretado o gradual desmantelamento das missões.

Os guaranis não acolheram bem a decisão da entrega das terras e das aldeias edificadas ao longo de décadas. O abandono das terras representava a ruína total dos povoados e a destruição de toda as actividades económicas, sociais, políticas e religiosas vividas naqueles espaços. Os guaranis resistiram às determinações régias e o contingente militarizado das reduções passou a representar uma ameaça aos intentos das potências ibéricas que decidiram invadir as missões. Para a Europa, era inconcebível que os indígenas não fossem súbditos fiéis e obedientes, comportando-se de acordo com as monarquias ibéricas. Em Maio de 1754, dois exércitos vão contra os redutos: um português vindo de Norte por mar; outro espanhol vindo do Sul pelo rio Uruguai. A 12 de Fevereiro de 1761, optou-se pela substituição do «Tratado de Madrid» pelo «Tratado do Prado», que estatuía a entrega dos Sete Povos das Missões e da Colónia do Sacramento aos antigos donos. Novos conflitos eclodiram e a paz só viria a ser restabelecida em 1777 com o «Tratado de Santo Ildefonso». Durante todo este percurso, a indefinição de fronteiras na região platina foi uma constante.

O «Tratado de Madrid» representa o início de uma série de transformações que viriam a comprometer as relações entre a Igreja e o Estado, com incidência na América do Sul. A guerra guaranítica e a ocupação dos Sete Povos pelos Exércitos ibéricos acabaram por provocar o declínio demográfico, a dispersão dos índios e por pôr fim à comunidade de jesuítas e guaranis. O período que decorreu entre 1753 e 1769 caracterizara-se por uma significativa dispersão populacional. Neste processo, não podem ser só considerados os factores externos mas também factores de ordem interna, como a rigorosa disciplina imposta na sequência da ocidentalização e as contendas entre chefes locais desejosos de manter a supremacia na região.

Vencidos, destroçados e espoliados das terras onde viviam, os índios abandonaram as aldeias – uns regressaram aos matos, outros foram para junto das cidades dos colonos, outros, ainda, acompanharam os luso-brasileiros, povoando as primeiras vilas do Rio Grande do Sul.

Novos aldeamentos indígenas surgiram com uma administração secular, baseada em modelos de organização social e política, ajustados a outros princípios.

* * *

 E a pergunta que resta colocar é: e que danos foram provocados aos portugueses por ali abandonados?

21ABR19.jpgHenrique Salles da Fonseca

BIBLIOGRAFIA:

HISTÓRIA DA COMPANHIA DE JESUS EM PORTUGAL, Maria de Deus Beites Manso, EDIÇÕES PARSIFAL, 1ª edição, Setembro de 2016, pág. 163 e seg.

«LUCKY», O CÃO

Todo o cristão de qualquer religião sabe que cão pequeno se amofina com cão maior e que com cães à bulha sempre pode dar mau resultado alguém meter-se lá pelo meio. Não é por mal, mas na refrega sempre há uma dentuça que roça a pele e lá vem um rasgo a merecer pontuação.

O «Lucky» é um canzarrão tão manso quanto o seu tamanhão e o «Farrusco» um meia-tigela com bigodaças que não gosta de carros nem de «colegas» da sua espécie.

E por qualquer razão menos explicada em canês, eis que o «Farrusco» se amofina com o «Lucky», o leva ao desespero e sofre as consequências que também David não temeu com Golias. E, como nos homens, não se metam com pachorrentos… e eis que o «Farrusco» deu duas voltas pelo ar depois de ter andado de rojo. Vieram os donos mas só o da parte do calmeirão se aventurou lá pelo meio. Isso não o livrou da tal dentuça que rasgou sem deixar assinatura.

- Quantos pontos?

- Talvez uns 3 ou 4 mas antes deles lá estarem, muito foi o sangue que jorrou. E foi de esguicho, lá isso foi.

Grande alvoroço na aldeia com rosnadelas, latidos, brados dos homens a tentarem pôr ordem na desordem e, mais do que tudo, a gritaria das mulheres que, só elas, suplantavam todos os decibéis. E foram elas que me sugeriram estar a passar-se alguma calamidade de amanhã vir nos jornais e que me fizeram assomar à varanda.

A cena acabou com os dois lutadores apartados «a pontapé sabe Deus em quem» e em reclusão nas respectivas casotas, em casa de cada dono. E o meu vizinho, o do calmeirão, a caminho do Posto de Saúde para a apropriada cozedura.

Só uns 20 minutos depois é que as mulheres serenaram e deixaram de gritar com os cães, já eles por certo não se lembrando de quê. Mas elas, sim, lembravam-se e vão ter conversa para um bom par de horas. Aí isso é que vão!

Faz anos que o calmeirão chegou à aldeia. Ninguém sabe donde veio mas há quem diga que as cadelas grandes que vivem ao pé do «Boina Verde» e lá almoçam e jantam, vão parir à Mata dos Medos e que, a partir de certa altura, mandam os filhos embora pois o restaurante não está ali para abrir falência com tanta boca a alimentar. E o calmeirão deve ter descido a encosta e apareceu na aldeia a dar ao rabo, todo satisfeito por lhe cheirar a gente boa. E foi aceite como novo aldeão. Dormia aqui, almoçava ali, todos lhe falavam, nada lhe faltava.

Um dia, brincando com a «Nina», a cadela da minha vizinha, à porta do café central, não percebeu que vinha lá um carro e foi atropelado. Espatifaram-lhe a mão esquerda e o pobre bicho entrou em desespero sem perceber por que lhe tinham feito tanto mal. O dono do café agarrou-o ao colo, pôs a mulher (a minha vizinha) ao volante e foram a correr para o hospital veterinário onde o calmeirão foi atendido imediatamente. A cirurgia passava bastante além do orçamento do meu vizinho pelo que sedaram o calmeirão, lhe puseram os ossos tão no sítio quanto possível, cozeram-no e puseram-lhe uma tala. Que ia ficar manco. E isso, se não gangrenasse e se não tivessem que o amputar.

E foi assim, entalado, que o conheci. As dores já tinham desaparecido, não houve gangrenas, os ossos lá foram soldando e o cão foi assim baptizado de «Lucky».

- Eh pá! Tiveste muita sorte!

É claro que a partir daí, o «Lucky» foi adoptado pelo meu vizinho sem discussão do resto da aldeia. Mas o dono só o podia passear ao raiar do Sol e à noitinha, depois de regressado da lota. Então, dispus-me a passear o calmeirão que já me conhecia das visitas regulares que lhe fazia e das lambarices que lhe levava. Fiz um amigo que me reconhece de ano para ano e abana o rabo cada vez que o visito no Inverno.

É claro que andou entalado só uns meses e, afinal, tendo ficado com um aprumo esquisito, corre e brinca na perfeição. De tal modo bem que atirou com o metediço «Farrusco» ao chão e depois ao ar, pôs os homens aos pontapés e as mulheres a gritar.

É mesmo um canzarrão.

Lucky.jpg

Henrique Salleda Fonseca

(com o «Lucky» a lamber-se e com o braço esquerdo todo torto)

O VALIOSO TEMPO DOS MADUROS

velhotes.jpg

Contei os meus anos

E descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente

Do que já vivi até agora.

Tenho muito mais passado do que futuro.

Sinto-me aquele menino que recebeu uma taça de cerejas.

As primeiras, chupou displicente,

Mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.

Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.

Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,

Cobiçando os seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para conversas intermináveis,

Para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias

Que nem fazem parte da minha.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas

Que apesar da idade cronológica, são imaturos.

Detesto fazer acareação de desafectos que brigam pelo

Majestoso cargo de Secretário Geral do coral.

As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos.

O meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência,

A minha alma tem pressa...

Sem muitas cerejas na taça, quero viver ao lado de gente humana,

Muito humana; que sabe rir dos seus tropeços,

Não se encanta com triunfos,

Não se considera eleita antes da hora,

Não foge da sua mortalidade.

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,

O essencial faz a vida valer a pena.

Mário de Andrade.jpg

 

 

 

 

 

Mário de Andrade

 

 

DA WIKIPÉDIA:

Mário Raúl Morais de Andrade (São Paulo, 9 de Outubro de 1893 — São Paulo, 25 de Fevereiro de 1945) foi um poeta, escritor, crítico literário, musicólogo, folclorista, ensaísta brasileiro. Foi um dos pioneiros da poesia moderna brasileira com a publicação de seu livro Pauliceia Desvairada em 1922.

DA ÉTICA

 

A ultrapassagem do metafísico pelo positivo só se sustentou enquanto este último viveu da herança dos estádios anteriores (teológico e metafísico). Porém, o sucessivo afastamento e descuido em relação àquelas fontes deixou-o animicamente esvaído e eticamente desamparado.

 

Este raciocínio de D. Manuel Clemente a págs. 40 e seg. do seu livro “PORQUÊ E PARA QUÊ – Pensar com esperança o Portugal de hoje” assenta como uma luva à geração pós-moderna actual.

 

Contudo, a ética cristã de solidariedade e benevolência para com o próximo (muito próxima da compaixão budista), de honradez e de trabalho, tem uma versão laica que pergunta, com enorme simplicidade, «o que é que eu posso fazer por ti sem o prejudicar a ele, esse terceiro que nem sequer conheço?». E esta atitude não carece de fundamento teológico pelo que é perfeitamente aplicável a quem se diz afastado das religiões. Ou seja, estar longe das religiões não é argumento para ignorar o princípio ético.

 

No início do século XX, a sociedade portuguesa vivia numa quase hierocracia e foi contra esse domínio que a laicização da ética tentou abrir caminho. Mas não terá conseguido vingar no ambiente de iliteracia que então reinava e hoje, passado um século, continuamos a padecer das consequências desse desencontro.

 

Uma população tutelada pela ameaça da ira divina, não teve arcaboiço para se harmonizar eticamente sem tutela num espaço que se pretendia republicano, responsável. Aos portugueses, iletrados e habituados a uma estrutura social muito parametrizada, foi então pedido (exigido, imposto?) que assumissem uma plena cidadania. Mas, na verdade, nada lhes foi pedido: foi-lhes consumado o facto e, desenquadrados, deixados entregues a si próprios, abandonados.

 

E como as elites republicanas se limitaram a copiar as homólogas monárquicas que as tinham antecedido digladiando-se em lutas renhidas pelo Poder, o vulgo continuou ignaro, não opôs resistência quando o mandaram morrer na Flandres, no sul da Angola e no norte de Moçambique assim como também não fez «cara feia» quando apareceu alguém disposto a pôr ordem onde se instalara a desavença constante, o «tira-te tu para me pôr eu», a falência.

 

Seguiu-se nova parametrização social, rigor financeiro, resfriamento das vontades que se apresentavam aquecidas. Essa parametrização durou 40 anos. Tantos como agora levamos de militância pós-moderna, a herdeira do niilismo.

 

Se não quisermos continuar na senda da desintegração social, a ignorar a solidariedade estruturante da sociedade civil e a insistir na troca do ser pelo ter, devemos parar um pouco para refrectir se merecemos a liberdade de que queremos usufruir. Para isso, temos que interiorizar a síntese do humanismo, da solidariedade, da compaixão.

Tenho esta como a questão portuguesa histórica e sociologicamente mais pertinente:

  • Na perspectiva singular, individual – a ética da compaixão – na dimensão do «eu, tu, ele»: «O que é que eu posso fazer por ti sem o prejudicar a ele, esse terceiro que eventualmente nem sequer conhecemos?»;
  • Na perspectiva plural, colectiva – a ética do Sentido de Estado – na dimensão do «nós, vós, eles»: «O que é que nós podemos fazer por vós sem os prejudicar a eles, esses terceiros que eventualmente nem sequer conhecemos?»

 

Temo que essa síntese não esteja suficientemente assumida pela generalidade dos cidadãos mas urge promove-la antes que por aí apareça alguma sharia que nos seja imposta por estranhos radicais.

 

 Então, regressemos à ética antes que seja tarde.

 

Junho de 2019

 

Henrique Salles da Fonseca

 

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