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A bem da Nação

OS ALCATRUZES

Por tradição, o povo é a maior fonte cultural.  

A cultura popular, sobretudo sensitiva, primária, com a tradição oral a anteceder a escrita das «lendas e narrativas», a música e as danças folclóricas a antecederem formas mais elaboradas de acordes e «ballets», a pintura rupestre a anteceder Rembrant e Picasso…

Ou seja, o primitivismo sensitivo a assumir cada vez mais formas elaboradas, espiritualizdas num processo evolutivo das mais baixas classes sociais, as do trabalho braçal, para as mais elevadas, as da aristocracia intelectual.

Assim se estabelece o domínio cultural, político, económico e social das elites pois a intelectualidade é a génese do elitismo. O «chico espertismo» é uma corruptela deste processo.

Mas, a partir de certo momento, a estabilidade social permite que a juventude popular desperte intelectualmente (universitários oriundos do analfabetismo familiar) e assuma funções que os instalados e adormecidos filhos de «boas famílias» deixaram de conseguir assumir.

Já Platão se queixava (ou era Aristóteles?) de que a juventude não respeitava os valores dos anciãos.

Eis o que se está a passar actualmente no âmbito de um processo pacífico mas outros processos foram menos sossegados. Refiro-me, por exemplo, à Revolução Francesa e à russa de 1917 mas outras houve que engrossaram rios de sangue.

E, então, é assim: pacífica ou revolucionariamente, as bases cansam-se das elites e derrubam-nas. Eis ao que assistimos nos telejornais.

Contudo, os que sobem hoje serão derrubados dentro de cinquenta anos (ou menos) com a repetição das lamúrias platónicas (ou aristotélicas?).

Jovens, estudem mais e brinquem menos se não quiserem ser obrigados a cumprir a sina dos alcatruzes quando ficam debaixo de água.

O SENTIDO DA VIDA

Esqueçamos as transcendências e admitamos que a vida é só esta em que nos encontramos.

Então, que sentido faz tirar a vida seja a quem for? A resposta só pode ser uma: nenhum!

Não temos o direito de tirar aquilo que não demos. E, mesmo assim, também não temos o direito de tirar a vida a quem a demos, os nossos filhos. Porquê? Porque, ao existirem, passaram a ter vida própria e deixaram de ser nossos, no sentido de que deles podemos dispor. Não podemos! E não podemos porque também isso seria contrário ao desígnio fundamental da preservação da espécie, à tranquilidade do ânimo de quem entretanto tem vida própria e sente.

Nem sequer é necessário apelar à semelhança com a imagem de Deus, basta ver que o ser criado sente e que esse sentimento tem que ser considerado supremo na escala da intimidade, da delicadeza íntima e da nossa compaixão para com o próximo, esse sobre que temos – ou não – o poder de vida ou de morte.

A morte faz parte da vida? Não! A morte é definitivamente um absurdo da vida.

Mas resta a convicção de que há uma outra dimensão para além da morte física. Todos queremos acreditar nisso e todos conhecemos exemplos que o provam.

Deixemos então viver e vivamos em compaixão, esse grande sentimento da vida.

Henrique Salles da Fonseca

CULTURA - O QUE É

Quando em 1938 Thomas Mann chegou aos Estados Unidos fugindo ao nazismo, deu uma conferência de imprensa em que disse: «Onde eu estiver, está a cultura alemã».

 Logo houve quem atribuísse esta frase a uma grande dose de arrogância e a simpatia com que foi recebido ficou claramente moldada pela impressão assim causada. Foi necessário esperar alguns anos para que essa frase fosse explicada pelo seu irmão mais velho, Henrique, quando nas suas memórias se refere ao episódio e o explica com a frase de Fausto: Aquilo que de teus pais herdaste, merece-o para que o possuas.

 Não fora, pois, arrogância mas sim um profundo sentido de responsabilidade que levara o escritor a identificar-se daquele modo com a sua própria cultura. O conhecimento do que outros fizeram antes de si já levara Hölderlin (1770 - 1843), o poeta de quem se diz ter sido atacado de mansa loucura, a afirmar que somos originais porque não sabemos nada.

 Em 1518, Ulrich von Hütten (1488-1523), companheiro de Lutero, escrevia a um amigo que, embora fosse de origem nobre, não desejava sê-lo sem o merecer: A nobreza de nascimento é puramente acidental e, por conseguinte, insignificante para mim. Procuro noutro local as fontes da nobreza e bebo dessa nascente. A verdadeira nobreza é a do espírito por via das artes, das humanidades e da filosofia que permitem à humanidade a descoberta e reivindicação da sua forma mais elevada de dignidade, aquela que faz distinguir a pessoa daquilo que também é: um animal.

 Ou seja, a nobreza conquista-se, não se adquire por via hereditária. Afinal, era isso que Mann significava quando chegou à América.

 E o que é, então, a essência da cultura? É o conjunto das obras intemporais, as perenes, as que não passam de moda, as grandes obras humanistas, as que desenvolvem o pensamento especulativo. É a conjugação lógica de axiomas para a construção de novos silogismos e para a definição de doutrinas inovadoras. Eis o âmago da cultura, de uma qualquer cultura: o raciocínio especulativo, a independência relativamente à letra, a interpretação dessa mesma letra, a busca do significado. Quanto mais uma cultura se identificar com os valores humanistas e os promover, quanto mais convidar ao significado, mais elevada é essa cultura.

 

E o que é ser culto? Será saber muitas coisas? Não, isso é uma enciclopédia. O conhecimento dos factos não define a cultura mas apenas a dimensão do conhecimento. O culto é aquele que está aberto à nova interpretação, o que busca o significado.

 E o que é ser educador? É dar corpo à segunda obra espiritual da caridade convidando os outros para o significado.

 Eis ao que as elites devem andar, a transmitir o significado das envolvências para elevação das massas; eis ao que elas têm andado, a imprimir um cunho pessoal aos acontecimentos para deslumbramento e alienação das massas.

Assim não se transmite o significado; assim se esmaga quem apenas serve para servir; assim se espanta quem poderia valer.

REVISITANDO SALAZAR

Fascista ou democrata?

Austero ou avaro?

Calculista ou aventureiro?

Generoso ou egoísta?

Impoluto ou corrupto?

 

Todas estas alternativas (por esta ou por qualquer outra ordem) me ocorrem quando penso em Salazar. Não tanto por ele mas sobretudo pelo resultado das suas políticas; não tanto por ele mas sobretudo pelo tempo que construiu; não tanto pelo que ele possa ter sido mas sobretudo pelo que a «vox populi» dele diz.

* * *

O meu ilustre primo Luís Soares de Oliveira, Embaixador, defende a tese de que, dentro da moral cristã, o Doutor Salazar perfilhava a via agostiniana e eu espero ansiosamente pelo seu texto «Epifania de Salazar» para conhecer os fundamentos dessa tese. Não é questão menor e creio que poderá esclarecer muitas questões ainda hoje enigmáticas. Aguardemos, pois.

* * *

DAS POLÍTICAS PERENES

Professor de Direito, distinguiu-se pela determinação de construir um Estado que se desse ao respeito depois de sucessivas crises políticas e financeiras ao longo dos finais do regime monárquico e da primeira República. Chamado por Carmona ao exercício efectivo do Poder, não hesitou em ditar as regras que passariam a reger a gestão financeira do Estado. A gestão da tesouraria, sobretudo. E porque homens sérios tinham sido cilindrados pelas arruaças e quezílias de variado calibre, muniu-se de um «escudo invisível» que lhe permitisse «arrumar a casa» sem atropelos.

Assim foi que, para além da chefia do Governo, Salazar assumiu a pasta das Finanças e foi ao MI6 buscar quem lá prestava serviço há 15 anos, o Capitão Agostinho Lourenço que passou a dirigir a Polícia de Vigilância e Segurança do Estado, a PVDE, que mais tarde foi redenominada PIDE.

Eis a génese de duas das políticas mais perenes de Salazar:

  • Prioridade absoluta do equilíbrio das finanças públicas sobre todos e quaisquer apelos de desenvolvimento;
  • Imposição da tranquilidade na ordem pública pela contenção dos democratas republicanos e neutralização de todas as vias fascizantes de direita (Rolão Preto) ou de esquerda (os comunistas).

CONCLUSÃO – A perenidade destas políticas definiu todo o Consulado Salazarista mas ligou a então chamada «situação» ao imobilismo.

  1. DO FASCISMO

Salazar nunca disse ser democrata e teve todo o seu Consulado para o demonstrar mas também não era fascista pois governava dentro de um quadro legal de grande estabilidade, do conhecimento público, obrigatório (o desconhecimento da Lei não isenta o infractor do seu cumprimento) e de aplicação universal no espaço nacional. Um Estado de Direito, sem dúvida, mas que era o seu: autocrático e de inspiração cristã. Nada a ver com fascismo que é a governação ao sabor do capricho do ditador[i].

CONCLUSÃO – Salazar era um autocrata que nada tinha a ver com fascismo.

  1. DA AUSTERIDADE

Anacoreta, apologista da sua própria pobreza pessoal (não lhe eram conhecidos outros rendimentos para além do vencimento público) e sem grande vida de sociedade para além das relações previstas pelo Protocolo de Estado, era sabido que tanto podia estar a descansar (com humor, dizia-se que «o Senhor Presidente do Conselho descansa, não dorme como o vulgar cidadão») às quatro da tarde como estar a trabalhar às quatro da manhã e, de vez em quando, reunia o Conselho de Ministros. No dia seguinte, os jornais noticiavam que «Ontem, reuniu o Conselho de Ministros que tratou de assuntos da sua competência». Mas o normal era a dos ministros irem a despacho com Salazar sempre que disso necessitavam ou sempre que eram chamados. Para além dessa normalidade, havia uma outra rotina com alguém que não era ministro: o Capitão Agostinho Lourenço (Jimmy, nome de código no MI6) era recebido semanalmente para despachar «assuntos da sua competência». Mas deste, os jornais nada diziam. Hermetismo informativo e laconismo que bastava para fingir que «não se passava cavaco ao povo». Salazar era o pivot da governação, a coordenação governativa não saía da sua própria cabeça. Cada ministro geria o seu Ministério com o orçamento possível e, de preferência, que sobrassem verbas. E só muito raramente essas sobras passavam para o exercício seguinte (obras plurianuais).

CONCLUSÃO – Claríssima austeridade na gestão dos dinheiros públicos com entesouramento acumulativo no longo prazo; apologia da sua pobreza pessoal.

  1. DO CALCULISMO E DA AVENTURA

Ficou célebre a sua frase proferida em 27 de Abril de 1928 aquando da tomada de posse como Ministro das Finanças do Governo da Ditadura (militar): «Sei muito bem o que quero e para onde vou». O andamento da História confirmou o conteúdo desta frase no que se refere à política interna que a partir de 1933 ele controlou através do seu «Serviço de Informações» dirigido por Jimmy, o tal homem do MI6. Mas se deste modo, o controlo da situação interna lhe permitia ser calculista, na cena internacional não podia deixar de recorrer a alguma navegação às escuras. E, aí, não controlando as cartas do baralho, teve que se socorrer de «padrinhos» (os Aliados durante a guerra de 39-45) perante quem demonstrou grande ousadia raiando mesmo o aventureirismo. É disso exemplo o encontro com Franco em Sevilha em 1942.

CONCLUSÃO – Calculista na política interna, ousado-aventureiro na política externa.

  1. DA GENEROSIDADE E DO EGOISMO

Conta o Professor Adriano Moreira que certa vez chegou mais cedo do que o previsto ao forte de S. João do Estoril onde Salazar veraneava e que vislumbrou o Presidente do Conselho em oração na capela e a dispor a seu jeito as alfaias litúrgicas. O visitante esperou no exterior da capela que Salazar concluísse os seus trâmites de intimidade. Esta, sim, a relação que Salazar presava, com a Divindade; com os humanos era exigente perante os desígnios que ele próprio traçara para a Pátria. A generosidade e o egoísmo só têm cabimento no âmbito das relações sociais pelo que, limitadas estas à actividade inerente às suas funções oficiais, não é possível saber se Salazar era generoso ou egoísta.

CONCLUSÃO – É admissível que Salazar fosse generoso com a Divindade mas era claramente exigente com os humanos (não necessariamente egoísta).

  1. DA CORRUPÇÃO

É com toda a tranquilidade que refiro a unanimidade entre salazaristas e anti-salazaristas quanto à condição impoluta do Doutor Salazar. É sobretudo desta característica que ressurge o prestígio que muitos portugueses hoje lhe atribuem como Homem de Estado.

CONCLUSÃO – Salazar era impoluto.

* * *

Passo com total desinteresse ao largo da vida doméstica na residência oficial de S. Bento. Não me interessa saber quem lavava a roupa interior de Salazar e creio que a celebérrima D. Maria era politicamente acéfala e só se interessava pelos «arrozinhos» e nabiças que o Senhor Presidente comia.

* * *

O actual prestígio de Salazar – passados que são 50 anos sobre a sua morte – tem muito a ver com a sua condição impoluta quando posta em contraste com as desconfianças que hoje correm por aí… mas também porque muitos dos neo-salazaristas não viveram naquela época nem se preocupam com uma análise menos simplista das suas políticas.

As minhas críticas assentam nomeadamente no que segue:

  • Uma anacrónica (absurda no séc. XX) estrutura corporativa que tapava os problemas em vez de os resolver;
  • Uma política de entesouramento com prejuízo do desenvolvimento;
  • Uma política elitista de educação que nos fez suportar muito para além do seu Consulado elevadas taxas de analfabetismo, de impreparação cívica e profissional;
  • Uma política ultramarina avessa ao desenvolvimento intelectual e cívico das populações independentemente do grau de concentração da melanina – o terrível «Estatuto Ultramarino» de 1953 que só foi tardia e parcialmente corrigido em 1961.

E não refiro detalhes nem consequências pois quem me lê não espera nem carece de explicações.

De tudo, estou em admitir que…

  • Se Salazar tivesse saído do exercício do poder lá por 1947/8, o país estaria hoje cheio de monumentos em sua memória;
  • Está na hora de, sem mais complexos nem medo de fantasmas, se lhe prestar alguma homenagem na sua terra natal, Santa Comba Dão.

Setembro de 2021

Henrique Salles da Fonseca

 

[i] - Perdi a referência em que Dino Grandi terá dito a um jornalista algo como: «Fascisno é a prodigiosa capacidade de improviso do Duce».

EM BUSCA DA VERDADE

Quem trabalha para além da superfície das coisas, embora possa enganar-se, limpa o caminho para os outros e pode até fazer com que os seus erros sirvam a causa da verdade.

Edmund Burke

In «Uma Investigação Filosófica Acerca da Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo», ed. EDIÇÕES 70, Setembro de 2013, pág. 73

ES LA GUERRA SANTA, IDIOTAS!


Pinchos morunos y cerveza. A la sombra de la antigua muralla de Melilla, mi interlocutor -treinta años de cómplice amistad- se recuesta en la silla y sonríe, amargo. «No se dan cuenta, esos idiotas -dice-. Es una guerra, y estamos metidos en ella. Es la tercera guerra mundial, y no se dan cuenta». Mi amigo sabe de qué habla, pues desde hace mucho es soldado en esa guerra. Soldado anónimo, sin uniforme. De los que a menudo tuvieron que dormir con una pistola debajo de la almohada. «Es una guerra -insiste metiendo el bigote en la espuma de la cerveza-. Y la estamos perdiendo por nuestra estupidez. Sonriendo al enemigo».



Mientras escucho, pienso en el enemigo. Y no necesito forzar la imaginación, pues durante parte de mi vida habité ese territorio. Costumbres, métodos, manera de ejercer la violencia. Todo me es familiar. Todo se repite, como se repite la Historia desde los tiempos de los turcos, Constantinopla y las Cruzadas. Incluso desde las Termópilas. Como se repitió en aquel Irán, donde los incautos de allí y los imbéciles de aquí aplaudían la caída del Sha y la llegada del libertador Jomeini y sus ayatollás. Como se repitió en el babeo indiscriminado ante las diversas primaveras árabes, que al final -sorpresa para los idiotas profesionales- resultaron ser preludios de muy negros inviernos. Inviernos que son de esperar, por otra parte, cuando las palabras libertad y democracia, conceptos occidentales que nuestra ignorancia nos hace creer exportables en frío, por las buenas, fiadas a la bondad del corazón humano, acaban siendo administradas por curas, imanes, sacerdotes o como queramos llamarlos, fanáticos con turbante o sin él, que tarde o temprano hacen verdad de nuevo, entre sus también fanáticos feligreses, lo que escribió el barón Holbach en el siglo XVIII: «Cuando los hombres creen no temer más que a su dios, no se detienen en general ante nada».

Porque es la Yihad, idiotas. Es la guerra santa. Lo sabe mi amigo en Melilla, lo sé yo en mi pequeña parcela de experiencia personal, lo sabe el que haya estado allí. Lo sabe quien haya leído Historia, o sea capaz de encarar los periódicos y la tele con lucidez. Lo sabe quien busque en Internet los miles de vídeos y fotografías de ejecuciones, de cabezas cortadas, de críos mostrando sonrientes a los degollados por sus padres, de mujeres y niños violados por infieles al Islam, de adúlteras lapidadas -cómo callan en eso las ultrafeministas, tan sensibles para otras chorradas-, de criminales cortando cuellos en vivo mientras gritan «Alá Ajbar» y docenas de espectadores lo graban con sus putos teléfonos móviles. Lo sabe quien lea las pancartas que un niño musulmán -no en Iraq, sino en Australia- exhibe con el texto: «Degollad a quien insulte al Profeta». Lo sabe quien vea la pancarta exhibida por un joven estudiante musulmán -no en Damasco, sino en Londres- donde advierte: «Usaremos vuestra democracia para destruir vuestra democracia».

A Occidente, a Europa, le costó siglos de sufrimiento alcanzar la libertad de la que hoy goza. Poder ser adúltera sin que te lapiden, o blasfemar sin que te quemen o que te cuelguen de una grúa. Ponerte falda corta sin que te llamen puta. Gozamos las ventajas de esa lucha, ganada tras muchos combates contra nuestros propios fanatismos, en la que demasiada gente buena perdió la vida: combates que Occidente libró cuando era joven y aún tenía fe. Pero ahora los jóvenes son otros: el niño de la pancarta, el cortador de cabezas, el fanático dispuesto a llevarse por delante a treinta infieles e ir al Paraíso. En términos históricos, ellos son los nuevos bárbaros. Europa, donde nació la libertad, es vieja, demagoga y cobarde; mientras que el Islam radical es joven, valiente, y tiene hambre, desesperación, y los cojones, ellos y ellas, muy puestos en su sitio. Dar mala imagen en Youtube les importa un rábano: al contrario, es otra arma en su guerra. Trabajan con su dios en una mano y el terror en la otra, para su propia clientela. Para un Islam que podría ser pacífico y liberal, que a menudo lo desea, pero que nunca puede lograrlo del todo, atrapado en sus propias contradicciones socioteológicas. Creer que eso se soluciona negociando o mirando a otra parte, es mucho más que una inmensa gilipollez. Es un suicidio. Vean Internet, insisto, y díganme qué diablos vamos a negociar. Y con quién. Es una guerra, y no hay otra que afrontarla. Asumirla sin complejos. Porque el frente de combate no está sólo allí, al otro lado del televisor, sino también aquí. En el corazón mismo de Roma. Porque -creo que lo escribí hace tiempo, aunque igual no fui yo- es contradictorio, peligroso, y hasta imposible, disfrutar de las ventajas de ser romano y al mismo tiempo aplaudir a los bárbaros.

Arturo Perez Reverte

 

Por gentileza do Embaixador Francisco Henriques da Silva

PELO TOQUE DA ALVORADA - 16

Hoje, a alvorada foi pelas 6,30 h, bem mais tarde do que a anterior. Não faltariam protestos nem talvez mesmo alguns «mimos» ao estilo da intifada se eu fizesse soar o clarim pelo que me deixei guiar pelo arrulho das rolas, as mais madrugadoras, logo seguido pelo chilrear da outra passarada. E assim foi que, entre arrulhos e chilreios, dei por mim a imaginar o modelo econométrico que nos poderia ajudar a medir a eficácia de uma política de substituição de importações capaz de transformar os nossos endémicos défices comerciais em superávites, mesmo que modestos. Tudo, claro está, no âmbito duma economia aberta como a nossa (para não lhe chamar desbragada) e de livre iniciativa. Então, «caí na real» quando me deparei com parâmetros dificilmente quantificáveis tais como a «mândria nacional», a elevada propensão para a «licenciatura em remanso de praia» e outros óbices de cariz estatístico de que os arrulhos e chilreios me distraíram. Concluo que o liberalismo em moda e em curso carece de uma mentalidade mais produtiva e muito menos esbanjadora. No meu modelo não entraram «casos de Polícia», que os há. 

Agosto de 2o21

Henrique Salles da Fonseca          

 

 

LÍNGUA PORTUGUESA EM GOA

Delfim Correia Da Silva (Prof.)

Director do «Instituto Camões» em Goa

Departamento de Estudos Portugueses - Universidade de Goa
16 August at 18:25  ·
Caros amigos, vem este meu texto a propósito da verdadeira "mis en scène" que constituiu a reportagem altamente difundida pela AFP e vertiginosamente transmitida, no último fim de semana, em várias línguas, através de diversos orgãos de comunicação social internacionais, sobre o rápido desaparecimento da herança lusófona em Goa e, muito em particular, a morte da língua portuguesa.
Dois factos curiosos a registar:
1) a matéria parece não ter sido muito valorizada pelos jornais locais.
2) a reportagem foi realizada em fevereiro/março de 2021, mas só agora divulgada.
A História é o que é. Não podemos reescrevê-la de acordo com aquilo que gostaríamos que tivesse sido. O copo para uns está meio cheio, e para outros meio vazio, ou até totalmente vazio! O que, relativamente à herança portuguesa em Goa, não é francamente o caso! Não vou discutir as razões sustentadas pelas aves necrófagas ou profetas da desgraça, nem tentar dourar a pílula, apenas apresentar neste meu espaço factos que contrariam essa narrativa e que tenho ouvido desde a minha chegada a Goa em 2008.
A herança cultural portuguesa não se reduz ao pastel de nata ou ao fado, a cujo ressurgimento tive o prazer de assistir, principalmente a partir de 2014, com a realização do concerto de Cuca Roseta na Kala Academy, o Concurso de Fado da Semana da Cultura Indo-Portuguesa, o projeto cultural “Fado de Goa” do Hotel Taj Vivanta, liderado por Ravi Nischal, ao qual Sónia Sirsat deu a melhor continuidade e mais recentemente a criação do CIPA onde os turistas afluem para sentir, a exemplo do icónico restaurante Alfama no Hotel Cidade de Goa, o ambiente de uma verdadeira casa de fado. Hoje em dia, começa a despontar um leque de entusiastas fadistas que seguem não só os passos da sua mentora e formadora, Sónia Sirsat, mas também da talentosa Nadia Rebelo. O fado é ainda objeto de estudo académico, pois integra desde o ano académico 2018-2019 o programa de uma disciplina curricular do B.A. em estudos portugueses, na Universidade de Goa.
Escusado será de referir a importância do rico património cultural de influência portuguesa existente em Goa, quer a nível da arquitectura, quer nas áreas da literatura, da música ou das artes em geral que atraem anualmente centenas de investigadores nacionais e estrangeiros, possivelmente tantos ou mais do que a Macau, território que serve muitas vezes para estabelecer uma errónea comparação com Goa, realidades muito distintas por razões que, por serem fastidiosas, me abstenho de desenvolver.
A peça jornalística, centrada na rápida perda da identidade cultural portuguesa, mereceu algum destaque no que diz respeito à língua, e o estado lastimoso em que se encontra neste território. E mais uma vez, não podemos tomar como referência o pujante crescimento verificado na China e em Macau, em particular, por se tratarem de realidades muito diferentes.
Sei que este texto, poderá ser lido, na sua forma original, por pouco mais de 10,000 habitantes em Goa, número escasso se comparado com os potenciais leitores de há 60 anos. Mas ao contrário do apregoado declínio da língua portuguesa no território, nos programas escolares e académicos temos assistido a um lento, mas seguro progresso do português.
Sim, é verdade, após 1961 a língua sobreviveu em ambiente familiar, em quase clandestinidade, a transmissão foi estabelecida dos pais para os filhos e mais tarde para os netos. Noutros casos, com a morte dos mais velhos, morreu também uma língua de herança.
O português, em contexto de ensino-aprendizagem, é uma língua estrangeira em Goa, a par do francês, havendo ainda a considerar alguns, poucos, aprendentes de alemão, italiano e espanhol.
A minha experiência em Goa, enquanto leitor do Camões na Universidade de Goa, responsável pelo Departamento de Português e Estudos Lusófonos de 2009 a 2018, coordenador da Cátedra Camões “Joaquim Heliodoro da Cunha Rivara” e membro, até muito recentemente, do Board of Studies de Português permite-me assegurar que os estudos portugueses estão, contrariamente ao que pretendem fazer crer, de saúde, com resultados nunca antes alcançados.
O Departamento de Português esteve encerrado de 2001 a 2005. Até esse período, 39 alunos saíram formados com o M.A., registando-se apenas um doutorado, em 1995. Graças ao extraordinário trabalho do meu antecessor, foi possível reabrir o Departamento e reiniciar o programa de M.A. em 2006. Desde então, saíram da Universidade de Goa 95 mestres em Literatura e Cultura Portuguesas, muitos deles, hoje, docentes em universidades indianas, colégios e escolas secundárias. Hoje em dia, o Departamento de Português oferece um amplo programa de Estudos Portugueses. Para além do M.A. e do M.Phil, criado em 2014, os cursos de graduação contam também com os programas de B.A. Honors, inaugurado em 2019-2020, e do Doutoramento relançado em 2020-2021.
Se nos últimos dois anos, assistimos a uma redução no número de alunos inscritos nos cursos livres e opcionais, em grande parte devido à suspensão das aulas presenciais e dos cursos da Cátedra, consequência da pandemia, o número de inscritos nos cursos de graduação, afinal o que mais importa em termos académicos, aumentou substancialmente. E muito em breve,  com o conhecimento exato dos resultados das matrículas para o presente ano letivo 2021-2022, haverá, estou certo, dados ainda mais animadores.
Há muito tempo que o Departamento de Português deixou de ser a “lanterna vermelha” na Universidade de Goa, considerando o número de alunos matriculados. O M.A. em português tem, desde 2006, funcionado ininterruptamente e nos programas até se verificou uma expansão.
Claro, o copo está apenas meio cheio! Falta desenvolver projetos academicamente mais ambiciosos. Estamos a dar nesse sentido alguns importantes passos. Para além da Cátedra Cunha Rivara que conta com conceituados investigadores e professores visitantes de prestigiadas universidades portuguesas, deu-se início no ano passado ao programa de Doutoramento em Português. Dos alunos formados com M.A. pelo Departamento após 2006, dois estão atualmente inscritos no PhD da Universidade de Goa, um inscrito no programa de PhD da Universidade de Delhi, dois encontram-se na fase da escrita da tese doutoral (um, pela Universidade Nova de Lisboa, e o outro, pela JNU/Universidade do Porto), e um outro, após ter concluído o M.A. em 2010, defendeu recentemente a sua tese de doutoramento na JNU.
Poderia, como bom indicador, mencionar ainda a procura que temos sentido no Centro de Língua Portuguesa do Camões em Pangim. Devido à pandemia encerramos os cursos presenciais em março de 2019. Em junho de 2019 reiniciamo-los na modalidade online com muito mais sucesso. Este ano já ultrapassamos a centena de inscritos.
Em janeiro de 2021 realizamos, a pedido da diretora dos Arquivos e Arqueologia, um exame para a seleção de tradutores. Dos 20 candidatos, 19 foram aprovados com elevadas classificações.
Estes são alguns dos factos, e poderia apresentar muitos mais, que, no mínimo, mostram que o rei não vai assim tão despido. Tirem as vossas conclusões!

EXTRAÍDO DA GENÉTICA

DÚVIDA MENDELIÁNA-DARWINIANA - cono se pode ser normal quando (no dizer dos talibãs) se é filho de um ser inferior, a mulher?
CONCLUSÃO - Não se verificando uma degradação da  espécie humana (pelo contrário) se conclui que a mulher NÃO é inferior e que o pensamento dos mulahs é apenas misógino.
 
 

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