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A bem da Nação

A CAMINHO DO CÉU… (4)

 

AÍNDA COM OS PÉS NO CHÃO

Pés-no-chão.jpg

 

À laia de interregno, deixemos os níveis etéreos e desçamos às realidades terrenas para enquadrarmos a questão portuguesa nessa substituição do ser pelo ter.

 

Isso de se querer «tudo e já» conjugado com a substituição do ser pelo ter, numa economia pouco produtiva e, mesmo assim, com baixa produtividade, só pode levar ao desastre na balança comercial, na de transacções correntes e mesmo na de pagamentos. Daí à falência perante o exterior foi um passo (como todos sabemos por experiência colectiva própria) e não houve turismo nem remessas de emigrantes que na crise suprema conseguissem tapar o buraco. Tivemos mesmo que pedir ajuda aos credores e passar por todas as restrições que tanto doeram.

 

E, atenção, não refiro a apropriação indevida de bens e liquidezes que por aí campeou; apenas refiro a falta de capacidade da oferta interna para suprir o consumo também interno. Quando a produção interna é restringida por inúmeros factores (custos de contexto, opacidade dos mercados, vícios na formação dos preços) e o consumo é incentivado, só o cenário da catástrofe se afigura como plausível.

 

Então, não serão necessárias muitas mais explicações para se compreender que «quem não trabuca, não manduca» e que o verdadeiro motor do desenvolvimento não é o consumo mas sim a produção dos bens transacionáveis que todos tanto gostamos de consumir. Quase diria que Colbert deveria ser desenterrado para nos impor o seu mercantilismo durante uns tempos. E digo impor porque «às boas» não iremos lá. Lá, onde? À racionalidade da auto-sustentabilidade pela via da produção e da competitividade.

 

E aqui, trago um excerto de um escrito de Francisco Gomes de Amorim no qual se refere à podridão:

 

O Brasil bateu todos os recordes do mundo em ladroagem e corrupção, tem uma classe política com uma abissal falta de educação, cultura, ética, classe e conhecimentos, mas continua a ser um lugar meio mítico com o seu carnaval, as suas praias e as suas gentes, sempre amáveis.

 

Corrupção houve desde sempre, sempre. Lembremos só o Bezerro de Ouro, a ter-se passado foi há mais de 3.500 anos, os 30 dinheiros que o pobre Judas recebeu, os presentes que davam a Khrushchov quando premier dum mundo eufemisticamente chamado comunista, o governo do general Grant no EUA, considerado o mais corrupto de toda a história daquele país (incluindo Bush) e centenas, milhares de outros, entre eles o Príncipe Bernardo da Holanda que recebeu mais de um milhão de dólares para que usasse sua influência junto ao governo neerlandês na aquisição de aviões de combate americanos!

 

Olhemos à nossa volta e meditemos. Mas não olhemos de mais para não cegarmos com tanta vergonha nem meditemos de mais para não ensandecermos ou entrarmos em curto circuito neurológico.

 

Ponto final no interlúdio terreno, regressemos à elevação.

 

Fonte dos leões-Heráklion.JPG

 Henrique Salles da Fonseca

A CAMINHO DO CÉU… (3)

 

Anjo.jpg

 

O TER PELO SER

 

Então, todos querem tudo e já!

 

Assim é que, sob o culto do consumismo de bens, serviços e notícias, colhe perguntar se resta lugar para valores éticos e morais.

 

Mais concretamente, a questão está em saber qual é o lugar dos valores superiores num mundo de factos e como podem aqueles entrar neste mundo primário.

 

Poucos são os homens de Ciência que escrevem sobre valores porque a grande maioria considera que isso não passa de mero palavreado.

 

Contudo, os valores emergem juntamente com os problemas e frequentemente estes dizem respeito a factos.

 

Uma coisa, uma ideia, uma teoria ou uma mera abordagem podem ser admitidas como válidas para ajudar a resolver um problema mas só passam a pertencer ao mundo intelectual se forem submetidas à discussão, à crítica. Antes disso, pertencem muito provavelmente apenas à esfera do empirismo. Até porque tudo começa empiricamente e só depois é que evolui para outros patamares.

 

É que o mundo mais primitivo, desprovido de vida, não tinha problemas e, como tal, não tinha valores porque os problemas entram no mundo pela mão da vida e não apenas pela da consciência. Daqui resultam dois tipos de valores: os criados pela vida, pelos problemas inconscientes tais como os do reino vegetal; os criados pela mente humana com base em soluções anteriores na tentativa de resolver problemas. É este último tipo de questões – formadas pelo conjunto de problemas historicamente originados em factos, respectivas soluções, críticas para o despiste de erros, teorias globalizantes e valores consequentes – que dá forma ao mundo da intelectualidade.

 

O mundo dos valores transcende, pois, o mundo sem valores e meramente factual, o mundo dos factos brutos.

 

O drama está quando se disfarça de intelectualidade a mera discussão de factos e, mais gravemente, de pessoas.

 

Eis a imensidão do que fica por fazer entre o primarismo factual e a elevação dos valores.

 

Resta a esperança de que uma elite consiga preencher esse imenso vazio.

 

Então, a primeira questão é: - O que são elites?

 

Sendo que a segunda questão é: - A elite é-o porque tem ou porque pensa e, portanto, é?

 

O materialismo considera que a elite tem.

 

A terceira questão é: - Alguém duvida sobre o que nós pensamos?

 

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 Henrique Salles da Fonseca

A CAMINHO DO CÉU… (2)

 

TUDO, JÁ!

 

Para além da espiritualidade, todas as religiões tratam de questões sociais de tal modo que cada uma delas construiu o seu próprio Código de Conduta e, daí, a sua civilização: civilização hindu, civilização budista, civilização judaica, civilização cristã, civilização muçulmana, …

 

Assim foi que tempos houve em que eram os teólogos a ditar essas normas sociais e quando os argumentos lógicos não bastavam, avançava-se com a ameaça da ira divina; e se mesmo esta não bastasse, ditava-se o dogma. Exemplos? Tantos que é impossível enumerá-los: não comer carne de porco; não beber álcool; não comer carne à sexta-feira; não cobiçar a mulher alheia; etc…

 

E foi da base dogmática e sequente exegese que derivou o quadro jurídico que a partir de certo estádio se tornou progressivamente mais «civil» e menos espiritual. Relativamente a nós, ao Ocidente, a Revolução Francesa foi decisiva para esse corte entre o Clero e o Povo.

 

Na sequência da tomada da Bastilha e com a chegada das forças populares ao Poder, o Regime laicizou-se e a ameaça da ira divina foi substituída pela «obra» bem mais terrena do médico Joseph-Ignace Guillotin.

 

Guillotin.png

 

Então, na ausência de uma justificação sobrenatural, qual passou a ser o rumo dos povos? E a resposta está no regresso à filosofia platónica em que o objectivo da vida é a obtenção do prazer - não há mais uma vida edénica para além da morte, há, na vida terrena, um direito inalienável de obtenção do prazer. Que tipo de prazer? O prazer de todos os tipos, desde o virtuoso ao vicioso. E como a fé numa vida para além da morte deixou de ser crível pelos actuais «senhores da guerra», há que obter de imediato o máximo de prazer.

 

E a filosofia de vida passou a ser, «Tudo, já!»

 

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 Henrique Salles da Fonseca

A CAMINHO DO CÉU… (1)

nuvens-ceu-azul.jpg

 

DA NATUREZA HUMANA

 

 

O crescimento não é um mero pormenor na ideologia do mercado livre. É toda a sua essência.

Jonathan Franzen, in «Liberdade», ed. D. Quixote, 4ª edição, Setembro de 2015, pág. 442

 

 

É da natureza humana ambicionar para o futuro algo melhor do que o presente já que ao presente lhe cumpre mostrar ser melhor que o passado.

 

E ao que não decorra deste modo se lhe chama contra-natura.

 

Dando-se a circunstância de a vocação da política ser precisamente a de desenhar o caminho entre a situação presente e a situação futura que se pretende melhorar, não há programa político que não refira o objectivo do crescimento como instrumento para se alcançar um determinado tipo de bem-comum. Até porque o decrescimento está associado à recessão, à perda de qualidade de vida.

 

Então, é na definição do bem-comum e no caminho para lá se chegar que diferem as diversas propostas partidárias, as quais, em democracia, são ciclicamente postas a referendo popular.

 

Ganha o melhor? Não propriamente; ganha o que melhor souber «vender o seu produto». Mais concretamente, ganhará aquele que fizer as promessas mais apetecidas pelos eleitores. E assim tem sido desde que a ditadura do número – a que chamamos democracia - passou a ser o melhor regime que se nos oferece. Contudo, as forças políticas que tradicionalmente (desde o final da II Guerra Mundial) têm dominado o cenário europeu, vêm ultimamente sofrendo sérias ameaças e até rudes golpes por parte de novas forças a que os «velhos» se apressam a apelidar de populistas. E esses «novos» não são apenas de direita (a Alternative für Deutschland, o francês Front National, o Freiheitliche Partei Österreichs, etc.) mas também de esquerda (o Bloco de Esquerda em Portugal, o Podemos em Espanha, o Sirysa grego, etc.). E nas bocas dos «velhos», todos estes novos passam por populistas… como se eles, os tradicionais, não tivessem sempre sido isso mesmo. A essência da democracia é o populismo e dizer o contrário é ser elitista, platónico.

 

E se já nos cenários tradicionais o que para uns era positivo e para outros podia ser negativo, actualmente, as diferenças radicalizaram-se. Ou seja, as variáveis dos diversos modelos económicos (e sociais) têm interpretações diferentes conforme o campo político a que pertençam os observadores e quanto mais actores buscarem o protagonismo, mais essas diferenças tenderão a acentuar-se.

 

Aos eleitores são apresentados leques mais profusos de alternativas e resta saber se o eleitorado distingue o trigo do joio, ou seja, o plausível do utópico.

 

Há quem considere a produção como o grande motor do desenvolvimento mas outros há que consideram que o grande motor é o consumo; há quem aposte na indústria a há quem aposte nos serviços; há quem queira erradicar o analfabetismo mas também há quem considere que a felicidade está na ignorância… Mas todos apregoam que querem o crescimento.

 

Crescer até onde? Tem o crescimento um tecto ou pode ir até ao Céu infinito? Se não tem, tudo bem, o modelo político pode continuar; se tem, o discurso político extingue-se. E depois?

 

Depois, teremos que mudar de políticos.

 

 

A bordo Dawn Princess-3.JPG

 Henrique Salles da Fonseca

LIDO COM INTERESSE – 80

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 Título – ESSA DAMA BATE BUÉ

Autora – Yara Monteiro

Editora – GUERRA E PAZ

Edição – 1ª, Setembro de 2018

 

Romance do mais realista que pude alguma vez imaginar. E logo eu que deixara de ler romances…

 

Quem quiser ter uma ideia bem aproximada daquilo em que Angola se transformou desde que assumiu a plena soberania, não pode deixar de ler este pequeno livro com apenas 197 páginas de texto distribuído por capítulos curtos.

 

Para não cometer inconfidências, extraio da contracapa que a personagem principal, Vitória, nasceu em Angola mas foi criada pelos avós na Malveira, em Portugal, para que se transformasse numa «boa esposa». Mas, não ultrapassando o trauma de ter sido abandonada pela mãe, uma guerrilheira, foge para Angola pouco antes do casamento à procura da mãe.

 

Chega a uma Luanda completamente caótica, de flagrantes contrastes sociais, aguarela em que tragédia e comédia roçam ombros. A Autora traça aqui um quadro tão realista que dá ao leitor a impressão de se encontrar envolvido pelo cenário absurdo que descreve a selva que é a actual capital angolana.

 

Mais do que isto, o drama por que vêm passando tantos angolanos na tentativa de recomposição duma sociedade destruída por décadas de guerra civil, a ditadura dos «todo poderosos» do regime político instaurado, o «salve-se quem puder» a que os simples se têm que entregar para garantirem a sobrevivência.

 

* * *

 

Da badana extraio que a Autora nasceu no Huambo em 1979 mas que com dois anos de idade veio para Portugal, que casou, que vive no Alentejo e se dedica à escrita a às artes plásticas.

 

* * *

 

Partes que chamaram a minha atenção:

 

Num último abraço de despedida, os braços trocaram de corpos, os rostos trocaram de olhos, que trocaram de alma. (pág. 16)

 

Conforme nos vamos aproximando do povoado, a mais visível marca da guerra é o silêncio imposto à vida diária. Até mesmo o capim tem a respiração suspensa. (pág. 17)

 

«Faz de conta que estás na tua casa» é uma formalidade da boa educação que intenta colocar a pessoa convidada à vontade. É bem-intencionada mas é falsa. Ou, pelo menos, assume que os hábitos na nossa casa são os mesmos do que dos de quem nos recebe. Por norma, não é o mesmo. Não fazer de conta que estamos na nossa casa é meio caminho andado para garantir uma boa convivência quando se é visita. (pág. 37)

 

(…) mãos que choram lágrimas caladas. (pág. 84)

 

[No aeroporto, ele] gosta de observar os viajantes. Imagina-lhes a vida que levam e a que tentam esconder. O mestre sabe que a aparência é enganadora. Confia mais na ausência da luz que revela a sombra. (pág. 135)

 

A Lua acomoda-se na parte do céu que mais lhe convém. (pág. 156)

 

[Em romagem, as mulheres vão] caminhando apoiando os pés na fé. (pág. 191)

 

* * *

 

E, concluída a leitura, a pergunta que me ocorre é: - Terão os povos angolanos evoluído algo no relacionamento entre si próprios desde os tempos em que por lá andou Paulo Dias de Novais?

 

Outubro de 2018

 SET18.JPG

 Henrique Salles da Fonseca

MERDEKA – 11

 

 

O último dia da nossa presença em Bali foi livre de programas pré-estabelecidos pelo que cada um fez o que muito bem lhe apeteceu. A todos apeteceu praia de manhã, almoço no hotel e piscina à tarde. Eu aproveitei a folga de compromissos para fazer uma «massage». E não fique o leitor a pensar em coisas especiais porque o que eu queria – e tive – foi uma massagem dos joelhos para baixo pois andam os artelhos a doer-me sempre que ando um pouco mais do que eles, artelhos, querem que eu ande. E o resultado foi o de ter ficado com os sapatos a dançar nos pés (a activação da circulação de retorno foi eficaz) mas quanto à dor nos artelhos com o forçar da andadura… vou ali e já venho. Talvez que se perder uns quilitos, a «coisa» melhore. A ver…

 

Esta coxeira é para ser solidário com a minha égua «Lola» que a dormir deu um jeito tal na perna direita que esteve coxa durante quase 15 dias. Ela já está boa, eu não.

 

Regressando a Bali e à praia do hotel, reconheço que é muito boa mas quem, como eu, está habituado à praia do Barril, em Tavira, fica com a certeza de que a motivação «praística» não justifica que um português voe meio planeta. Mas fomos lá por todos os motivos que já constam destas crónicas e que justificaram plenamente a viagem.

 

Só que, se houvesse menos azáfama por todo o lado em que andámos e se não houvesse engarrafamentos de trânsito, eu admitiria que ali fosse o paraíso mas… foi-o por certo há 50 anos como disse a minha amiga. Hoje, tem uma gente encantadora, paisagens muito bonitas, oferece qualidade de vida. Mas eu creio que o paraíso exige algo mais que não sei ao certo definir.

 

Foi, entretanto, hora de jantar cedo para irmos apanhar o avião que nos levaria ao Dubai seguido de outro que nos levaria a Lisboa. Voos sem história, tudo normal. No ar, não sentimos mais um tremor de terra que ocorreu numa ilha indonésia mais perto de Bali do que os anteriores e seus tsunamis. Foi já no Dubai que soubemos disso.

 

Para fechar estas croniquetas, uma nota de pé de página sobre o que me passa pela cabeça quando sobrevoo o Norte de África.

 

Cartago.jpg

 

De cá para lá (Lisboa-Dubai), sobre Cartago, sempre me lembro de Aníbal e, quando chegamos à Argélia, lembro-me sempre de Santo Agostinho, da sua célebre frase «não basta fazer coisas boas - é preciso fazê-las bem» e da sua Hipona que hoje se chama Annaba (que também sobrevoamos).

Annaba, ex-Hipona.jpg

 Annaba, a ex-Hipona de Santo Agostinho

 

Manuel_Teixeira_Gomes.png

Mas de lá para cá, precisamente o mesmo percurso mas em sentido inverso, lembro-me sempre de Manuel Teixeira Gomes. Porquê? Aqui deixo a sugestão de estudo para quem me lê.

 

E por aqui me fico com estes mistérios das circunvoluções cerebrais que para lá me fazem lembrar de uns e para cá de outro.

 

Et ita concludit trinus

 

Java, Candi Mendut, Buda sentado.JPG

Henrique Salles da Fonseca

(Java, Candi Mendut, junto à única estátua de Buda sentado à moda ocidental)

MERDEKA – 10

 

Antes que me esqueça, uma nota muito positiva à qualidade do piso das estradas principais, secundárias e mesmo rurais (ou quase vicinais) por que andámos tanto em Java como em Bali. Nas muitas centenas de quilómetros que percorremos, não sentimos um único solavanco.

 

Os meus leitores desculparão que eu passe por cima do passeio de elefante já que esse simpático trombudo não é típico de Bali; os antepassados da “Gigi” que montei vieram de Samatra onde, aí sim, são indígenas. Também não vou dar grande relevo à visita que fizemos ao vulcão Batur à vista de cuja cratera almoçámos sempre com um olho alerta para qualquer fumarola que aparecesse. Não apareceu. Os tremores de terra e tsunamis que aconteceram durante a nossa visita à Indonésia ocorreram no arquipélago das Celebes que dista de Bali tanto ou mais do que Berlim em relação a Lisboa.

 

A simpática «Gigi» em Bali.JPG

Mas não passo por cima de uma outra visita que efectuámos com alguma solenidade ao templo hindu da fonte sagrada «Tirta Empul» a cujas águas são atribuídos efeitos de rejuvenescimento eterno. E porquê solenidade? Porque andava por lá quem acredita nessas qualidades sobrenaturais e uma das minhas características é a de nunca bulir com a fé alheia.

 

Tirta Empul - 4.JPG

  

Houve aqui um companheiro de viagem que teve a gentileza de chamar a minha atenção para a juventude que acorre ao santuário e, de facto, os únicos adiantados nas respectivas idades eramos nós próprios, os forasteiros.

 

Que fiquem eternamente jovens, é o que lhes desejo. Nós, os anosos, não acreditamos que os poderes daquelas águas consigam tirar-nos os anos por que já passámos e, portanto, cumprimos a exigência de envergar o sarong mas não nos banhámos.

 

(continua)

Tirta Empul - 1.JPG

Henrique Salles da Fonseca

MERDEKA – 9

 

 

Foi há quase 50 anos que uma amiga me disse «Oh Henrique, Bali é o verdadeiro paraíso na Terra!». E eu disse a mim mesmo que não haveria de ir para o Paraíso celestial sem antes visitar o paraíso terreno. E fui!

 

À semelhança do que sucede com o Paraíso celestial, a Bali também se chega pelo ar mas, neste caso, num voo comercial, de preferência vestido à moda dos turistas e não numa nuvem envergando uma túnica branca com direito a auréola nem asindo uma lira das de oito cordas. Diferenças menores, portanto…

 

Chegados ao paraíso, fomos de imediato levados para o hotel e logo à entrada fiquei boquiaberto com a grandeza, a beleza, o requinte. Lembrei-me de que Luís XIV haveria de gostar. E, já que me lembrei dele, então fiquei «bouche bée».

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Lobby do hotel Ayodya, em Bali

Bali-Ayodya Hotel-sala de dança balinesa.jpg

 Sala para apresentações de dança balinesa no hotel Ayodya

 

Gostei de constatar que o paraíso é luxuoso e não austero como os puritanos apregoam.

 

No dia seguinte fomos logo de manhã levados a ver um espectáculo de teatro dançado e quase nada falado. Ainda bem que não se esforçaram muito com as falas e respectivas «deixas» pois nós, a multidão de espectadores, não haveríamos de perceber patavina. Com a mímica percebemos tudo, ou seja, a eterna quezília entre o bem e o mal e a tentativa de estabelecer um certo equilíbrio entre o caos e a ordem.

 

Contando com um dos espectáculos de mímica mas fabulosos que alguma vez vi, em Cochim (com tema muito semelhante, aliás), este também mereceu todos os aplausos que lhe demos no final. E qual não foi a nossa agradável surpresa quando ao jantar desse mesmo dia tivemos um espectáculo-resumo privativo no teatro do nosso hotel com direito a confraternização com o elenco. Mas este espectáculo privativo teve a participação de um coro que não actuara de manhã e que viemos a saber constituir, por si próprio, um ex-libris da cultura balinesa. Trata-se do Kecak Dance e não resisto a ir ao YouTube buscar um vídeo para que os meus leitores também possam apreciar algo muito diferente do que estamos habituados:

https://www.youtube.com/watch?v=t0HY0oD84OM

 

Sugiro que saltem o discurso introdutório, que passem directamente para a actuação do coro e sigam por aí fora…

 

(continua)

KECAK DANCE.jpg

 Henrique Salles da Fonseca

(com as «boazinhas» do teatro-dança e com o «malandreco»)

MERDEKA – 8

 

 

A visita ao palácio do Sultão deu-me a sensação desagradável de estar em casa de alguém sem ter sido convidado. Porquê? Porque Sua Alteza vive lá e não veio à porta receber-nos. Mas como tinha mandado uma guia falante de espanhol esperar por nós ao portão, pude presumir um convite subentendido. E como pagámos bilhete de acesso ao palácio, fiz de conta que o bilhete era o convite. Mas a sensação desagradável de estar a furar o ambiente íntimo de Sua Alteza não se desvaneceu por completo.

 

A pompa real exige muitos servos a quem o Sultão paga modestos salários mas a quem oferece casa de habitação que entra no património do servo e pode ser transmitida aos respectivos herdeiros que não ficam obrigados à vassalagem que originou a posse do imóvel. Ou seja, nos vastos domínios urbanos que circundam o palácio e respectivos jardins, reside muita gente que já não tem qualquer relação funcional com o Sultão.

Presente português ao Sultão de Yogy.JPG

Mamarracho oferecido a um anterior Sultão pelo Estado Português em data não identificada e representando sabe Deus o quê pois parece um energúmeno qualquer a fazer mal a um cão.

 

Pergunta que saltou da boca de alguém do nosso grupo: - O Estado Indonésio paga as despesas do Sultão?

 

Resposta: - O Estado paga apenas as despesas directamente relacionadas com as funções oficiais do Sultão na sua qualidade de Governador; tudo o mais é suportado pelo próprio Sultão.

 

Nova pergunta: - Os bilhetes de acesso ao palácio são suficientes?

 

Nova resposta: - Não, o Sultão é empresário, tem diversas fontes de rendimento.

 

Lembrei-me de que a Rainha de Inglaterra também tem rendimentos privados e de que, no final da nossa Monarquia, a Casa Real Portuguesa estava com as finanças viradas do avesso.

 

Mas voltando a onde estávamos, o palácio do Sultão de Yogy no centro histórico de Yogyakarta, ficámos a saber que tudo são pretextos para festejos reais, plebeus, privados e públicos. Sim, os indonésios são muito divertidos e não perdem pitada no que respeita a folguedos.

 

O meu leitor compreenderá que eu tenha registado dois motivos de festejo: o da primeira menstruação de cada princesa; o da menopausa de cada uma das esposas do Sultão. À pergunta sobre se a menopausa das concubinas também é assinalada, a guia explicou que o actual Sultão só tem uma esposa (que era modelo antes de ser Sultana) e não tem concubinas (que se saiba).

 

Imaginei-nos em Belém à volta do pedestal de Afonso de Albuquerque a celebrar a menopausa da Dona Carmona com fragatas e varinos embandeirados Tejo abaixo e acima...

 

Basta de ridículo, fiquemo-nos hoje por aqui.

 

(continua)

Castelo de água, Yogyakarta.JPG

 Henrique Salles da Fonseca

(na piscina real do Castelo da Água Taman Sari que foi obra de um arquitecto português do séc. XVII não identificado nas brochuras turísticas)

 

MERDEKA – 7

 

Nascidas nos meus tempos livres, estas croniquetas destinam-se aos tempos livres de quem as lê, devem ser leves, despretensiosas, não chatas. Apenas uma preocupação: a de cumprir as regras da Sintaxe e da Semântica daquele a que chamo o «português padrão». É que, mesmo em literatura de cordel, as regras gramaticais são para cumprir. E os linguistas - que com a sua «doutorice» cabimentam as burradas que tanto se propalam com base no sofisma de que «basta que alguém diga para que a fórmula exista» - que se danem. Quando esses intelectuais linguisticamente desordenados (para não dizer desleixados ou permissivos) deixarem de se entender com quem os rodeia, terão que fazer com a nossa língua o que os indonésios fizeram para se entenderem uns com os outros inventando uma língua comum. Ora bem, essa língua já existe e é o português padrão que se escreve em conformidade com o Acordo Ortográfico de 1945 e não com o absurdo de 1990.

 

Pode este preâmbulo parecer descabido nesta crónica sobre a minha viagem à Indonésia mas, na verdade, bem me lembrei de toda esta questão da língua comum quando soube do artificialismo do «bahasa indonesia».

 

E assim cogitando foi que, sem sairmos de Java, partimos de Jakarta para Yogyakarta num voo de mais de uma hora. Sim, as distâncias por ali não se medem com timidez.

 

A cidade tem características urbanas muito semelhantes às da capital nacional mas tem uma particularidade que eu não estava minimamente preparado para ouvir: trata-se da sede de um Sultanato.

Yogyakarta-Prambana.jpg

Templo hindu de Prambana, Yogyakarta

Um puzzle em minuciosa reconstrução depois de recolhidas e identificadas as pedras que por ali estavam ao abandono

 

E a pergunta que se impunha era: - Mas o Estado Indonésio não é laico?

 

A resposta não se fez esperar: - Sim, é laico mas não jacobino, não agride a cultura popular.

 

Eu insisto: - E o Sultão governa mesmo?

 

A guia responde: - A principal função do Sultão é a de ser o guardião da cultura e da tradição.

 

Pensei (mas não disse) que por ali o Sultão corresponde ao nosso Secretário de Estado da Cultura.

 

A guia adivinhou a minha insatisfação e completou a informação: - Aqui, na província de Yogy, o Governador é o Sultão que preside ao corpo legislativo que, esse sim, é eleito por sufrágio directo provincial. O mesmo se diga das Autarquias cujos órgãos também são eleitos por sufrágio directo local. O Sultão de Yogy é o único Governador (provincial) que em toda a Indonésia tem um mandato vitalício e hereditário. Mas agora há um problema: o actual Sultão só tem cinco filhas e nenhum filho varão. Ninguém ainda sabe como vai ser a sucessão. Talvez nem o próprio. É que por ali funciona o equivalente à Lei Sálica (https://pt.wikipedia.org/wiki/Lei_s%C3%A1lica) e…

 

Na falta de solução por que pudessemos almejar no prazo da nossa presença em Yogy, deixei cair o tema e passei à frente…

 

Nota final em «economês»: quando a dívida externa portuguesa per capita era de US$ 47.632,00, a homóloga indonésia era de US$ 651,00.

 

(continua)

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 Henrique Salles da Fonseca

(em Yogyakarta, à porta do palácio do Sultão de Yogy)

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