Quinta-feira, 23 de Junho de 2016
UM SEFARDITA NA AMÉRICA

 

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 Jacob Rodrigues Rivera

(pintado por Gilbert Stuart)

 

A importância da comunidade judaica (em particular a sefardita) na vida económica e cultural das Américas, desde os tempos do descobrimento e ocupação do Novo Mundo, esquecida pela população em geral, vem sendo resgatada pela comunidade académica actual.

 

Fugidos da Inquisição Ibérica, os judeus de origem portuguesa e espanhola (sefarditas) do século XVI ao século XIX encontraram, a principio, no continente americano, um lugar para ganhar a vida e assumir a sua religião.

 

Após a expulsão dos holandeses de Pernambuco em 1654, boa parte dos judeus instalados no nordeste brasileiro fugiram para o interior da província ou partiram para as Colónias Inglesas (Barbados e Jamaica) e Holandesas do Caribe e Suriname, até chegar à Nova Amsterdam (hoje New York). Em geral eram plantadores de cana-de-açúcar, donos de escravos e engenhos, ou comerciantes oriundos da diáspora sefardita portuguesa que dispersados na Europa (Portugal, Espanha, Holanda, França e Inglaterra) haviam encontrado na América Portuguesa a possibilidade de viver, longe da Inquisição.

 

Na nova sociedade americana, esses cristãos-novos e bnei anussim (descendentes de judeus baptizados à força) mesmo sendo elementos estranhos à sociedade local, conseguiram formar uma comunidade cultural, económica e socialmente influente. Assim é que os sefarditas (judeus portugueses e espanhóis) como os asquenazitas (judeus da Europa oriental) sofreram modificações impingidas pelo meio-ambiente, tanto quanto pela religião que os regiam. Como um judeu português é diferente de um judeu Tedesco (alemão), o português católico comporta-se diferentemente de um judeu português.

 

A presença judaica sefardita, de influencia colonial americana, desenvolveu sem muitos escrúpulos o comércio de escravos e a transferência o riquezas (ouro, prata, açúcar, rum, peixe salgado, chocolate,...) de um lado para outro do Atlântico. Plantaram e manufacturaram, comercializaram e distribuíram produtos usando seus próprios navios. Enriqueceram, tornaram-se influentes através de casamentos, actividades culturais, filantrópicas e comerciais. Elevaram-se socialmente, despertaram a cobiça e a inveja em cristãos, holandeses e piratas. Apesar de os reveses, firmaram-se na nova sociedade americana onde contribuíram definitivamente com seu desenvolvimento.

 

A partir do século XVII, Newport progrediu mais fortemente, tanto no sector económico como no cultural, com a chegada da comunidade judaica que ali se instalou. Entre esses indivíduos destacou-se Jacob Rodrigues de Rivera, além de outros das famílias judias Lopez, Seixas, Gomes, de Toro ou Touro, Levy, Hays, Meyers, Hart. Trouxeram consigo tradições e desejos de liberdade que marcaram a identidade do povo americano. Famílias com larga prole, que se relacionavam em redes de negócios e casamentos, propiciaram uma grande influência económica e cultural na sociedade estadunidense.

 

Segundo a pesquisadora Sandra Malamed, Jacob Rodrigues de Rivera teria nascido em Portugal, em 1717, porém de família originária de Sevilha. Em criança foi para New York com seu pai. Fez carreira mercantil. Chegou a Curaçau onde havia comunidade judaica e entreposto comercial. Ali casou com Hannah Pimentel. Desse enlace nasceram em New York seus filhos Abraham e Sarah Rodrigues de Rivera que se casou com o primo de seu pai, Aaron Lopez (nascido Duarte Lopez, em Portugal), rico comerciante, traficante de escravos e armador de navios em Newport.

 

Naturalizou-se em 1746 (N.Y) e em 1748 mudou-se para Newport, onde, associado a Aaron Lopez, torna-se um dos mais importantes comerciantes da região.

 

Àquela época colonial americana, Newport era um verdadeiro “melting pot” de culturas e etnias, onde se abrigavam cidadãos católicos britânicos, hugenotes franceses, judeus sefarditas (fugidos da Inquisição) e escravos. Nessa cidade foi pioneiro com seu primo na introdução do comercio do espermacete, óleo retirado da cabeça de baleia (cachalote) usado na manufactura de velas ( técnica aprendida em Portugal e transferida para a América) e como lubrificante e combustível para lâmpadas. Com Nicholas Brown de Providence (RI), membro da família Brown, co-fundadora da Universidade de Brown, manteve rentável negócio praticado com as Índias Ocidentais e África, pois os barcos que transportavam as mercadorias (rum, açúcar, escravos, sabão, peixe, farinha, óleo de baleia, velas,...) eram também de sua propriedade ou da sociedade com seu primo Aarão Lopez, um dos mais importantes e ricos comerciantes de Rhode Island.

 

Jacob Rodrigues de Rivera era um cidadão de espírito público. Sua actuação se dava também em âmbito cultural. Além de organizar o Clube Hebraico de Newport, teve seu nome associado com a formação da Biblioteca Red Wood e com a construção da Sinagoga de Yeshuat Israel. Em 1773 foi nomeado administrador do Cemitério Judaico de Savannah.

 

Na ocasião da Revolução Americana, Jacob Rodrigues de Rivera teve que partir para Massachussets em 1777, devido ao bloqueio marítimo britânico à cidade. Esteve em Boston e depois em Leicester, onde sua filha e genro estavam. Mais uma vez ali seu nome aparece ligado à cultura local. Torna-se então um dos benfeitores do Yale College. Ofereceu um quadro do rabi Hajim Issac Carigal ao Colégio, agradando Erza Stiles, teólogo, professor e director da Instituição.

 

No período da Revolução Americana, devido ao tipo de negócio que desenvolvia, teve graves reveses financeiros. Mas o seu espírito, tino comercial, redes e associações fizeram com que ele se recuperasse. Conta-se que, já superadas as dificuldades financeiras, convidou seus antigos credores para um jantar, onde debaixo de cada prato havia a quantia de seu crédito com os seus convidados, com os juros e correcção monetária!

 

Em 1782 retornou a Newport, e passou a residir numa casa hoje referência arquitectónica do período Colonial Americano. Quando morreu em 1789 deixou para os herdeiros um abastado património. Seus livros, a sua Torah, ouro e prata ficaram para seu filho Abraham. Os bens restantes foram divididos entre Sarah, Hannah e Abraham. Gilbert Stuart retratou-o num quadro doado à Redwood Library (Newport).

 

Muitas foram as benfeitorias da comunidade judaica na antiga Colónia inglesa e no desabrochar da identidade da nova nação norte-americana. Universidades, livrarias, sinagogas, lojas maçónicas, entrepostos comerciais, indústrias, bancos, clubes. Instituições hoje reconhecidas mundialmente.

 

No entanto, a diáspora sefardita, o número crescente de consórcios entre judeus e não judeus, as perseguições político-religiosas, as intolerâncias abertas e as veladas, fizeram com que a identidade judaica se diluísse no mundo ocidental. Mas, apesar de tudo, é inegável que a garra desse povo está historicamente presente na cultura e na força financeira dos países onde houve empenho no trabalho e tolerância étnico-religiosa.

 

Uberaba, 21/06/16

Maria Eduarda Fagundes

 Maria Eduarda Fagundes Nunes

 

Dados compilados de:

Mercadores e Gente de Trato ( Dicionário Histórico dos Sefarditas Portugueses). Direcção Científica de A. A. Marques de Almeida. Lisboa 2009. 1ª edição.

Os Judeus, o dinheiro e o mundo (Jacques Attali)

Enciclopédia Judaica 1906 (por Cyrus Adler , L. Hühner)



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 07:53
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1 comentário:
De Henrique Salles da Fonseca a 23 de Junho de 2016 às 22:59

Cunha Ventura Gagean partilhou a publicação.



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