Terça-feira, 10 de Janeiro de 2017
OS HIPERBÓREOS

Wotan.jpg

 

Presidindo ao Walhala, Wotan é o deus da guerra e envia as suas filhas valquírias para recolher os corpos dos heróis mortos em combate. Só morrendo em combate se garante a vida eterna – eis a fé dos hiperbóreos, aquela raça que se crê superior e que vive para lá das neves sopradas por Boreas, o vento do Norte.

 

Foi Umberto Ecco que me apresentou os hiperbóreos[1] por intermédio de Nietzsche que me disse, referindo-se à sua própria Nação, que...

 

hiperboreos.png

 

... bastante ousados, não poupámos os outros nem a nós mesmos; mas, por longo tempo, não soubemos onde ir com a nossa bravura; tornámo-nos sombrios, chamaram-nos fatalistas. O nosso «fatum» era a plenitude, a tensão, a acumulação de forças. Tínhamos sede de relâmpagos e de actos, mantínhamo-nos o mais longe possível da felicidade dos fracos, da resignação. Pairava a tempestade da nossa atmosfera; a natureza que nós somos obscurecia-se pois não tínhamos senda alguma. Eis a fórmula da nossa felicidade: um sim, um não, uma linha recta, uma finalidade. O que é bom? Tudo o que aumenta no homem o sentimento do poder, a vontade do poder, o próprio poder. O que é mau? Tudo o que nasce da fraqueza. O que é a felicidade? O sentimento de que o poder cresce, de que uma resistência foi vencida. Não o contentamento, mas mais poder. Não a paz, finalmente, mas a guerra; não a virtude, mas a excelência isenta de moralismos.

 

General Ludendorff e Hitler.jpg

Ludendorff e Hitler, auto-enviados de Wotan

 

Destaco: (...) não soubemos onde ir com a nossa bravura; tornámo-nos sombrios (...)

 

E hoje?

 

Hoje, os descendentes dos hiperbóreos – a que actualmente chamamos alemães – ainda lambem as feridas que sofreram por terem ido à glória duas vezes em menos de 100 anos. E, ao contrário do que dão a entender, não esqueceram Wotan e a ideia de superioridade em relação aos soalheiros povos do Sul que tomam por carnavalescos.

 

Como assim? É que também contaram com Lutero que os incitou à justificação da fé pela fé, sem intermediários com o Deus único. Dessa relação directa resulta um grande sentido de responsabilidade e, portanto, ainda mais sisudez e maior convicção de superioridade em relação aos que carecem de intermediários para obterem o perdão divino. O luterano é directamente responsável pelos seus actos perante Deus e não há bula que lhe valha.

 

Desta responsabilidade individual resulta uma Ética também sisuda, austera, que induz os descendentes dos hiporbóreos a servirem o bem comum da sua Nação, atitude que os faz viverem para trabalhar e para aforrar.

 

Pelo contrário, os meridionais acham muito mais graça ir para as praias gozar dos mares aquecidos e, se pecarem, logo pedem a absolvição. Entretanto, os subsídios de sobrevivência que os endividados Estados Providência lhes concedem, não deixam margem para dúvidas: não há vida mais bela que a das férias permanentes.

 

Então, os setentrionais poupam e os meridionais gastam.

 

São estas as duas perspectivas, totalmente antagónicas, que fazem os Varoufakis e outros causídicos das «cigarras» dizerem mal de Schäuble e de outros defensores das «formigas». Mas mais valia que se queixassem a Wotan.

 

Janeiro de 2017

Dubrovnik-réveillon 2016-17 (2).jpg

Henrique Salles da Fonseca

 

BIBLIOGRAFIA:

Umberto Ecco – «História das Terras e dos Lugares Lendários», Gradiva, 1ª edição, Outubro de 2015

Max Weber – «A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo», Editorial Presença, 8ª edição, Setembro de 2015

 

 

[1] - «História das Terras e dos Lugares Lendários», Ed. Gradiva, 1ª edição, Outubro de 2015, pág. 241 e seg.



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 07:25
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Quarta-feira, 28 de Setembro de 2016
SÔR HENRIQUE

 

Fulano de Tal.jpg

 

Todos nós já passámos pela desgraça de sermos tratados pelo nome próprio quando abordados pelos profissionais dos call centers ou equivalentes.

 

Foi o caso, ontem, quando uma diligente menina da oficina do meu carro me tratou por «Sôr Henrique». Imediatamente antes de lhe desligar o telefone, mandei-a aprender a lidar com os clientes. Ainda lhe ouvi de raspão um «An?» de espanto.

 

Reconheço que não fui um exemplo da boa educação mas o serafismo não é propriamente uma característica latina e há coisas com que me «passo». E esta do «Sôr Henrique» é uma delas. O mais triste é que essas pessoas nem sequer percebem a razão do meu agastamento.

 

O conhecido de um amigo meu, posto perante tal tratamento, responde com uma fleuma que eu não consigo assumir perguntando, muito “inocentemente”, algo como «não me lembro da escola em que andámos para me tratar pelo nome próprio...». Mas na escola e na tropa o tratamento entre iguais é por «tu» e não por «Você» pelo que eu acho que a pergunta do conhecido do meu amigo é cínica de mais para poder ser considerada subtil.

 

Bimbismo à parte, continuo a achar que o tratamento pelo nome próprio é monárquico – o Senhor D. Henrique, por exemplo – e que o tratamento republicano é pelo apelido – o Senhor Fonseca. Em casos mais identificados, os republicanos portugueses gostamos de ser tratados pelo título académico – o Senhor Engenheiro, o Senhor Doutor, o Senhor Arquitecto, etc. Reminiscências monárquicas resultantes da falta de condados e marquesatos a que nós, plebeus, não podemos recorrer (não que nos importassemos...).

 

Mas a menina do call center nada sabe sobre o meu título académico porque, no acto de inscrição do meu carro lá na oficina eu nada disse sobre essa questão (nem ninguém me perguntou porque não vinha de todo a propósito). Mas «Sôr Henrique» é que não!

 

Contudo, eu conheço alguém que sabe «a potes» destas coisas do protocolo e do atendimento e daqui peço ajuda ao meu Amigo Embaixador José de Bouza Serrano para que me ensine o que lhe aprouver acerca disto tudo e, sobretudo, em relação à questão mais importante que é a de como havemos de resolver esta matéria que tanto incomoda quem leva carros às oficinas.

 

Lisboa, Setembro de 2016

 

Henrique-piscina dos monges em Kandy, Sri Lanka.JP

Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 14:29
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Quarta-feira, 21 de Setembro de 2016
AFINAL, O QUE SOMOS?

 

 

 

«A ultrapassagem do metafísico pelo positivo só se sustentou enquanto este último viveu da herança dos estádios anteriores (teológico e metafísico). Porém, o sucessivo afastamento e descuido em relação àquelas fontes deixou-o animicamente esvaído e eticamente desamparado».

 

D. Manuel Clemente.jpg

 

Este raciocínio de D. Manuel Clemente a págs.40 e seg. do seu livro “PORQUÊ E PARA QUÊ – Pensar com esperança o Portugal de hoje” assenta como uma luva à geração pós-moderna actual.

 

Contudo, a ética cristã de solidariedade e benevolência para com o próximo, de honradez e de trabalho, tem uma versão laica que pergunta, com enorme simplicidade, «o que é que eu posso fazer por ti sem o prejudicar a ele, esse terceiro que nem sequer conheço?». E esta atitude não carece de fundamento teológico.

 

No início do século XX, a sociedade portuguesa vivia numa quase hierocracia e foi contra esse domínio que a laicização da ética tentou abrir caminho. Mas não terá conseguido vingar no ambiente de iliteracia que então reinava e hoje, passado um século, continuamos a padecer as consequências desse desencontro.

 

Uma população tutelada pela ameaça da ira divina, não teve arcaboiço para se harmonizar eticamente sem tutela num espaço que se pretendia republicano, responsável. Aos portugueses, iletrados e habituados a uma estrutura social muito parametrizada, foi então pedido que assumissem uma plena cidadania. Mas, na verdade, nada lhes foi pedido: foi-lhes consumado o facto e, desenquadrados, deixados entregues a si próprios.

 

E como as elites republicanas se limitaram a copiar as homólogas monárquicas que as tinham antecedido digladiando-se em lutas renhidas pelo Poder, o vulgo continuou ignaro, não opôs resistência quando o mandaram morrer na Flandres e não fez «cara feia» quando apareceu alguém disposto a pôr ordem onde se instalara a desavença constante, o «tira-te tu para me pôr eu», a falência.

 

Seguiu-se nova parametrização social, rigor financeiro, resfriamento das vontades que se apresentavam aquecidas.

 

Essa parametrização durou 40 anos. Tantos como agora levamos de militância pós moderna.

 

Teremos entretanto conseguido fundamentar a liberdade de que queremos usufruir empreendendo uma síntese do que aprendemos entretanto para nos retomarmos como humanidade? Tenho esta como a questão portuguesa historicamente mais pertinente.

 

Ou será que não aprendemos nada? E andará por aí alguém com poder de síntese?

 

Henrique Salles da Fonseca, 2007, jpg

Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 15:00
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Domingo, 19 de Junho de 2016
O PRECEITO DO PRECONCEITO...

... NA DISCRIMINAÇÃO DO GÉNERO GRAMATICAL E DO SEXO

 

Da “Linguagem sexista” ao Domínio da Consciência social através da Novilíngua

 

Cada época, cada grupo, cada pessoa, quer possuir uma identidade própria e para tal constituir a sua narrativa como se só ela fosse a norma; para tal tenta afirmar os próprios vestígios na discrição ou na forma de interpretar e apresentar os mesmos fenómenos da vida humana que se repetem ao longo da sociedade e da História. É uma tendência natural confirmada na natureza ao observarmos cada planta a afirmar-se na procura do seu sol. O mesmo se observa na selva da polis, onde cada grupo pretende colocar o outro debaixo da sua sombra. Se outrora se vivia mais ao sol de Deus-Pátria-Família, hoje procura viver-se ao soalheiro de Dinheiro-Mercado-Ego sexual. Num tempo em que a justiça social e a democracia política e económica já ultrapassaram o seu zénite a luta das reivindicações passa a ser no campo da gramática.

 

No Brasil, a presidente Dilma, para granjear algumas almas com asas da cor do seu género, determinou ser chamada, senhora “presidenta”! Às vezes parece que o erro vale como trunfo, não fosse o português brasileiro!...

 

Neste sentido, a 13 de Abril, mas de forma mais moderada, o Bloco de Esquerda (BE) recomendou ao Governo a mudança do nome do documento de identidade “Cartão do Cidadão” para “Cartão da Cidadania”. Para o BE, a expressão Cartão do cidadão pertence à “linguagem sexista” (1).

 

Para os lutadores do género, a palavra “Cidadão” no cartão de identidade, torna-se desconfortável, porque favorece um sexo ao apontar para o apêndice terminal masculino da palavra, o que fere a sensibilidade de certas almas habituadas a ver tudo sob o ângulo do sexo, o que as predestina a terem de andar à espreita dele também na morfologia gramatical. Então, porque não voltar à designação “Bilhete de Identidade” por ser de dimensão mais aberta e de forma mais ambígua, dado a terminação da palavra em “e” não ser de provocação tão “sexista” como as terminações em “a” ou em “o” (2)?

 

Frustrados do Homem e da economia aproveitam-se da sociedade para criarem um novo indivíduo e, com ele, uma “novilíngua”; já que o povo não se muda, tenta mudar-se-lhe a gramática! Vai-se tendo a impressão de não nos quererem cidadãos, apenas nos quererem imaginar indivíduos abúlicos, portadores da sua cidadania. Sabem como é que se faz História e que para tal é necessária a mostrar a consciência disso. Por outro lado, que seria dos culpados se não houvesse os inocentes?

 

A prova de que o que está em jogo para o BE, não é o preconceito nem a discriminação mas sim a conversa em torno deles, vem do facto de não advertirem também para o caso de, no Cartão do Cidadão, se encontrarem registados outros dados ainda mais propícios ao preconceito e à discriminação; entre outros: a idade, o sexo, a medida, a assinatura, a fotografia, o nome, todos eles potenciam o preconceito.

 

Cartao de cidadao em branco.jpg

 

Registos a evitar para obstar à discriminação/preconceito

 

Abula-se a data de nascimento no cartão: a idade é um dos grandes factores de preconceitos e de discriminação; até o comércio e a indústria já se servem da idade para fazerem a sua propaganda adequada à idade.

 

Abula-se o uso da fotografia: através da foto pode-se deduzir qualidades temperamentais e tendenciais da pessoa para quem sabe um pouco de fisionomia. Através da análise do rosto pode-se chegar ao conhecimento de características psicológicas e seus traços de génio. Até a pele, mais ou menos bronzeada, também pode ser indicativo de pessoa mais ou menos sexy, o que também pode fomentar prejuízo ou discriminação.

 

Abula-se a assinatura: a escrita à mão também sofre da mesma peçonha porque quem tiver conhecimentos de grafologia pode usá-la como método de interpretação temperamental e de diagnóstico psíquico, podendo descobrir, através da assinatura, indicadores de personalidade. O manuscrito torna-se num factor de discriminação e preconceito.

 

Abula-se o nome: pelo nome pode chegar-se à etnia, religião e, por vezes, até à classe social.

 

Abula-se a indicação da nacionalidade: é factor de discriminação e de preconceito atendendo à escala do prestígio e de diferentes direitos dos Estados. Além disso os polipátricos ficam na indefinição entre o jus soli e o jus sanguinis.

 

Abula-se o registo do número do contribuinte: permite o controlo do cidadão e o registo dos três números (n° de identidade, do contribuinte e da saúde) facilitaria um governo espia.

 

Não falo já de fomentadores especiais de preconceito e discriminação que se escondem atrás do porte e do trajo, devido às consequências que poderiam levar ao estabelecimento do nudismo. Também a indicação de pertença religiosa ou partidária se torna, cada vez mais, num alimento do preconceito a que se pode seguir discriminação positiva ou negativa.

 

Uma consequência lógica passível de compromisso para o registo civil: substituição de todo o nome por números; seria a medida mais lógica contra o preconceito e a discriminação e o mesmo pacote legislativo teria a vantagem de unificar também o sexo. Depois poder-se-ia passar ao nome de ruas e de monumentos! Mãos à obra, trabalho não falta para os iconoclastas de uma sociedade egoísta e narcisista que só reconhece a própria imagem como ícone. Se continuamos a acção radical do neo-marxismo, a solução será irradiar a pessoa para acabarmos com as máscaras e todos os vestígios culturais.

 

Neste sentido, seria mais adequado apressar-se a abolição da linguagem e do pensamento; então encontrar-nos-íamos no paraíso terreal sem discriminações percebíveis entre todos os animais; sim, até porque na realidade não há conceito sem preconceito e aqui é que está o busílis de toda a questão! (3)

 

Conclusão

 

Fora de brincadeiras, o que aqui está em via é uma estratégia para reinterpretar o mundo e impor um discurso e uma lógica ao povo, para lá do senso comum e de maneira aldrabada; como o neo-marxismo já não tem mão sobre a economia procura tomar conta da arena pública assenhorar-se da linguagem do povo e, com ela, da sua consciência. Partem do princípio de que quem tem o poder da interpretação é senhor!

 

Tornou-se moderno ter à mão o sexo para chamar as pessoas ao regaço da ponderação moderna. Quem tiver mão nele tem mão em toda a sociedade. Assim, para quem quer poder, não há nada mais recomendável do que tornar-se senhor do sexo, servindo-se também da sexualização do género gramatical. Trata-se aqui de usar, para o público em geral, o outro pendente da sua doutrinação sexual nas escolas, nas tais aulas de “inocência” sexual para crianças ainda verdes que devem aprender a não ter preferências e assim formem uma sociedade despersonalizada sem preferências que esteja preparada para só preferir o que os que dominam a ribalta pública lhes apresentarem.

 

A sabedoria portuguesa costuma recomendar: „nem tanto ao mar nem tanto à terra” e a sabedoria europeia ensina: A virtude está no meio e não se encontra nos extremos! Relevante na discussão será ir ao encontro do Homem para que ele se ajude a poder vestir-se melhor. É certo que no uso da linguagem deveria haver mais equidade e ponderação; para levar isto avante, o melhor meio seria a arte e a cultura em geral mais que as terapias políticas de choque.

 

ACDJ-Prof. Justo-3.jpg

António da Cunha Duarte Justo

 

1. Agradeço ao BE a oportunidade que me dá para reflectir um pouco sobre um aspecto da problemática do Gender (género) tão cara ao BE e deste espalhar um pouco de nevoeiro com a minha nortada.

 

2. A lógica do género sofre de antropocentrismo em questões do trato do género gramatical não tendo em conta, animais, plantas e coisas!... Não perscrutam a injustiça no caso dos sobrecomuns, só com um género gramatical: a pessoa, a criança, a vítima, a criatura, a esquerda… Em tempos de esquisitices também não tratam bem os nomes “comuns de dois” : o/a jovem, o/a artista, o/a presidente, o/a fã, o/a turista, o/a imigrante.

 

Também os há, os nomes epicenos, com um só género gramatical, e sem diferenciação de sexos: será de obstar ao mal da cobra e do jacaré que englobam na mesma palavra o macho e a fémea; na cobra (macho ou cobra fémea) é discriminado o macho e no jacaré é discriminada a fémea.

 

Mais uma questão para os advogados do género resolverem: Nota-se grande falta de lógica do género           no emprego do masculino para a palavra tinteiro e o uso do feminino para a palavra caneta, já que, do             ponto de vista da “linguagem sexista”, o pormenor está na tinta!…

 

Na mesma ordem de ideias será de preparar uma moção para o próximo congresso do BE: A mudança do nome             “Bloco de Esquerda” para “Bloco do Esquerdo e da Esquerda” para que no partido o sexo feminino não bloqueie o         sexo masculino.

 

O uso do pleonasmo “queridos portugueses (os) e queridas portuguesas” vai ganhando terreno usando-se mais e         em deferências de cortesias pessoais mas que não fazem parte do uso gramatical

 

3. bula-se o prejuízo da discriminação baseada no preconceito da anti-discriminação!



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 13:56
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Sexta-feira, 27 de Novembro de 2015
AS RAÍZES DO MAL SOCIAL

 

Boko Haram.png

 

Porquê de tanta violência? Porquê de tanto fanatismo, pergunto-me quando vejo jovens e até crianças de armas em punho, aliciadas por gente que se diz religiosa, mas que no fundo quer é dominar o Homem através do medo e do terror à sua presença. O que faz essa juventude transviada se bandear para o lado escuro da alma humana?

 

Em geral, o que se percebe ao se ouvir os noticiários sobre o terrorismo que atinge actualmente Europa e África, é que quem executa esses actos bárbaros de violência são jovens potencialmente agressivos emergidos de ambiente ou história conflituantes, onde a sociedade de alguma maneira lhes bloqueia oportunidades ou desempenhos.

 

Procuramos entender; será que toda essa insatisfação pessoal/social encontra na violência das acções terroristas a válvula de escape, visível e contundente, que todos os dias nos jogam na cara? Será que essas criaturas encontram nas drogas ou nas promessas religiosas a recompensa de um mundo quimérico, após a morte, de sensações compensatórias que as impedem de se comunicar de uma maneira real e normal com o mundo que as cercam? Ou será que são pessoas portadoras de um desequilíbrio da função psíquica entre o ego-superego-id, onde o instinto não encontra repressão e o comportamento moral é tolhido ou simplesmente ignorado? Ou ainda será que existe nessas gentes uma conjugação de factores que, mentalmente trabalhados, se tornam veículo de manobras intimidatórias de poder de mentes doentias? Não é simples responder a tanta loucura que destrói e mata sem sentimento culpa.

 

Combater o terrorismo é uma luta inglória, pois mesmo que se acabe com este grupo que agora nos assombra, à força de armas e de retaliação responsiva, outro virá como outros no passado.

 

Combater o mal não é apenas fazer repressão à violência, com violência, é um acto diário de paciência e tolerância, diálogo, acordo e inclusão social.

 

Combater o mal social é acima de tudo respeitar o Homem nas suas múltiplas diferenças.

 

Maria Eduarda Fagundes Maria Eduarda Fagundes



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 22:56
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Domingo, 18 de Outubro de 2015
TEMÁTICAS PARA TODOS OS GOSTOS

 

 

Françoise Sagan.jpg

 

Releio livros antigos, aparentemente ligeiros, de Françoise Sagan, que, desde o seu «Bonjour tristesse», imediatamente desencadeador de escândalo e admiração, (esta última causada pela precocidade da escritora) protagonizaram um piparote nos costumes burgueses, encarcerados nos convencionalismos das chamadas hipocrisias sociais, impeditivas da transparência nas acções do foro pessoal e familiar. Estas, acondicionadas na ciência das conveniências, não impediram nunca, contudo, tantas das tais violências que uma sociedade machista possibilitou - e, ao que parece, continua a possibilitar, mau grado o travão que a defesa dos direitos humanos instituídos propõe.

 

As liberdades concedidas com o desenvolvimento cultural, as permissividades que as acompanharam, nos capítulos do feminismo, da prostituição, da homossexualidade, do desgaste das relações humanas, tudo isso perpassa sem convicção na obra de Sagan, em que, muitas vezes ela é figura principal, que encara cinicamente todas as questões morais ou amorais, na consciência da sua irrisão. Admiro-lhe, pois, o estilo, onde a psicologia se casa com o conhecimento humano resultante de experiência de vida, sem dogmas de verdades absolutas E as personagens surgem leves, sedutoras, ingénuas ou grotescas, e simultaneamente indiferentes, na sua intelectualidade que põe em causa todos os princípios da racionalidade, o ser afirmando-se superior a quaisquer princípios – caso dos irmãos suecos Sébastien e Eléonore, cínicos e belos e parasitas, tanto na comédia “Château en Suède” , como na novela “Des bleus à l’âme” traduzida em português como “Viver não custa”, em que surgem como cúmplices na procura de quem os sustente momentaneamente, aliciado pela sedução e indiferença que ambos revestem.

 

Estes e outros livros – “Aimez-vous Brahms?”, “Dans un mois, dans un an”, li-os há muito, como algo de novo que varreu concepções antigas e me ajudou a pensar, a voz da narradora, presente ou não, que se afirma na solidão irreparável da miséria humana, que as filosofias existencialistas tornaram mais percucientes. Vou-os relendo, sempre no mesmo encantamento, a “pobreza” não aparecendo entre as suas temáticas, na intelectualidade e bem-estar das sociedades que transpõe aos seus livros, desde os tempos recuados do seu “Bonjour tristesse”, no local paradisíaco da Côte d’Azur.

 

Pobreza é tema que amam os nossos escritores neo-realistas, na tristeza de uma pátria pobre e pouco intelectual, que amam os nossos deputados da esquerda com fins revestidos de uma generosidade ambígua, pobreza, o tema escolhido por Vasco Pulido Valente para a sua crónica de 11/10, clarificadora de mensagem e história. “A natureza da coisa”, assim se chama. Não mostra quanto é obscena, de facto, a pobreza, que, apesar dos tais direitos constitucionais, invade o mundo, com cada vez maior amplitude, lembrando o universo em expansão, de galáxias afastando-se. A riqueza em expansão, a pobreza em expansão. Tal o universo e as suas galáxias. Não deixa de ser obsceno, pese embora a nossa descrença nas intenções desses tais deputados da esquerda. Porque não atentam no facto de os que governaram quererem eliminar isso, tanto quanto possível.

 

Em minha humilde opinião, esses tais de que fala Vasco Pulido Valente estão ansiosos por generalizarem a pobreza a todo o país, quais galáxias expandindo-se no espaço.

 

Berta Brás 2.jpg Berta Brás

 

A natureza da coisa

Vasco Pulido Valente.png Vasco Pulido Valente

Público, 11/10/2015

 

A pobreza foi descoberta pelos filhos da burguesia no século XIX. Até ali não era visível, como hoje ainda em grande parte não é, ou era considerada uma característica geral da criminalidade.

 

Foi já em 1958 que o historiador Louis Chevalier escreveu um livro em que distinguia as “classes laboriosas” das “classes criminosas” e explicou ao mundo essa particular cegueira da civilização ocidental. Houve, evidentemente, desde o princípio da Restauração dos Bourbons (1815-1830) uma espécie de literatura que explorava o equívoco entre o “povo” bom e o “povo” mau, que a gente “com qualquer coisinha de seu” lia com delícia, cujo exemplo mais conhecido é “Os Mistérios de Paris” de Eugène Sue, mil vezes copiado e recopiado, mesmo por Vítor Hugo na obra épica “Os Miseráveis”, que continua a ser na forma de opereta ou na forma de filme um sucesso contemporâneo.

 

No século XIX descobrir a pobreza (como descobrir o sexo) mudou a vida a muita gente. Não só essa estranha revelação abria o caminho para a idade adulta e para a cidadania, mas porque o adolescente “rico” se sentia por uma vez parte da humanidade e frequentemente com a missão de a reformar. Claro que primeiro vinham os sentimentos: a indignação, a fúria, a tristeza, o ódio por uma sociedade que permitia aquela atroz miséria. Mas, com o tempo, esses sentimentos cristalizavam numa vontade de acção: ou se trepava para uma barricada ou se escreviam utopias “socialistas”, para inquietar os poderes do dia e aliviar os remorsos. E aqui nesta luta pela transformação do mundo, que se achava radical e definitiva, nasceu um equívoco perene.

 

Do genuíno sofrimento pela pobreza não derivam conclusões seguras sobre a natureza da história ou sobre o regime em que a humanidade deve viver. Pelo contrário, o sofrimento leva quase sempre a ideias que não têm um uso prático ou a planos que escondem ou ignoram a realidade. Basta ver a nossa extrema-esquerda. Não nego que andem por lá pessoas bem-intencionadas. Sucede que a noção de que os sentimentos chegam para reformar a sociedade e o fanatismo em que a acção de costume se perde e se transforma podem quanto muito produzir alguma destruição sem nexo, não podem mudar nada duradouramente. Não por acaso a extrema-esquerda (de qualquer pinta ou nascimento) se parece toda com uma igreja, com o seu zelo e o seu ódio teológico. São pássaros da mesma pena.

 

 

 

 



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 12:53
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Terça-feira, 1 de Setembro de 2015
MISÉRIA ENVERGONHADA

 

Banco Alimentar.png

 

 

Uma das tónicas das campanhas demolidoras a que os noticiários já nos habituaram é a da miséria envergonhada e nós, ouvintes ou telespectadores, cá estamos, passivos, a tomar em conta tudo o que nesses oragos as pitonisas de ambos os sexos propalam. As misérias envergonhadas acontecem sobretudo naqueles que, até recentemente auto-sustentados, foram entretanto atacados por problemas de sobrevivência e envergonhadamente recorrem à caridade. E por que é que tal aconteceu? Porque estávamos a viver na mentira, os balões de oxigénio rebentaram e claudicaram os que não estavam preparados para a verdade.

 

Dito assim, com esta rudeza, até parece que estou a querer obter audiências como afanosamente fazem os jornalistas. Mas há modos menos grosseiros de dizer o mesmo, não procurando aplausos nem picos de audiência.

 

Recorrendo ao «economês», poderá dizer-se que o modelo de desenvolvimento baseado no consumo falhou e está agora a instalar-se um novo modelo baseado na produção de bens transaccionáveis. Mas, entretanto, a elasticidade da mão-de-obra não é suficiente para que os empregados nas empresas «viciosas» do velho modelo migrem directamente para as «virtuosas» do novo modelo; o desemprego aumenta e as novas situações de desamparo tentam passar despercebidas.

 

Recorrendo a linguagem mais sintética, dir-se-ia que, num modelo, a dívida infinita de cada um perante uma acolhedora sociedade envolvente define um dever absoluto que molda o comportamento individual e garante a homogeneidade social; por contraste, quando o bem se resume aos prazeres e ao útil, o egocentrismo privilegia-se e vinga o «sauve qui peut». Porque o que está em causa é a fricção entre o modelo moralista e o do pós-dever, o do dever perante o bem comum e o individualismo egoísta, do hedonismo e do desprendimento de toda e qualquer definição ética.

 

Baixando aos cenários noticiosos, eis o contraste entre a democracia cristã segundo a filha de um Pastor luterano criada na rude escassez comunista e o socialismo ocidental que floresceu na abundância materialista e que agora, exaurida a espiral consumista, cai na insustentabilidade por via da falência pura.

 

Numa época de ruptura do modelo hedonista em que o endividamento das famílias ultrapassara todos os limites definidos pela razoabilidade, em que mais valia ter do que ser e em que no futuro da despesa pública vingava o slogan «os ricos que paguem a crise», a solidariedade orçamental na União, afinal, não passava duma falácia dos propagandistas. E as dívidas devem agora ser pagas por cada devedor seja ele micro ou macro.

 

Tudo ficou assim subjugado ao pontual cumprimento do serviço das dívidas públicas de cada Estado e privadas de cada falido, sob pena de brusca cessação das ajudas externas entretanto obtidas e da ilusão criada pelos políticos adventistas do paraíso na Terra. E mais: no ponto a que se tinha chegado, a alternativa à austeridade seria o racionamento. Mas isso é uma evidência que os demagogos escondem dos seus eleitores.

 

Então, as mudanças estruturais trazem à evidência o engano que reinava pela mão de quem apregoava que o consumo gerava riqueza e os novos pobres têm agora vergonha das mentiras em que se tinham deixado cair. Mas os telejornais encarregam-se de evidenciar estas novas aflições cumprindo a saga que se auto-outorgaram de relatarem exaustivamente a objectividade dos factos eximindo-se a qualquer juízo moral. E os novos pobres são incentivados a ultrapassarem a vergonha e a gritarem contra os «maus da fita», os credores.

 

Será este o estertor do espectáculo pós-moralista e o anúncio duma nova ética do dever, mesmo que light? Não se trata duma aporia, apenas chegou a hora da verdade.

 

Eis a guerra em que todos hoje participamos e em que cada um é livre de escolher a sua própria barricada, a da verdade ou a outra.

 

Agosto de 2015

 

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 Henrique Salles da Fonseca



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Terça-feira, 25 de Agosto de 2015
A FORÇA DO OCIDENTE

 

HSF-Burka.png

 

A infame submissão da mulher muçulmana aos caprichos masculinos é dos aspectos mais negativos com que o Ocidente se depara ao acolher as hordas de imigrantes que todos os dias arriscam a vida no Mediterrâneo.

 

Não está em causa a legitimidade da busca de melhores condições de vida – de sobrevivência, até – para essas populações; o que não se pode admitir é que esses imigrantes queiram transpor para a Europa as condições degradantes que na origem impõem à mulher.

 

Unânimes na condição inferior feminina, para a maior parte dos muçulmanos elas nem sequer têm alma, são instrumentos que existem apenas para servir os interesses do homem. E como instrumentos, não têm que ter vontade nem opinião.

 

E a pergunta é: e se essa mulher imigrante na Europa decidir alcançar o mesmo estatuto de plena dignidade humana e social que observa na mulher europeia?

 

Então, a resposta terá muito provavelmente a ver com a maior desorientação masculina nessa sociedade imigrante.

 

Bastará que a Europa decrete a proibição de qualquer pessoa transitar na via pública com o rosto tapado para que a vida se complique para os mais radicais; bastará que o acolhimento ao imigrante seja em tudo igual às politicas de conforto social que os Estados europeus dispensam aos seus próprios naturais para que o tão propalado parasitismo imigrante esmoreça; bastará que cada Estado europeu prossiga políticas de integração e não facilite a criação de guetos.

 

Bastará que uma rejuvenescida Ana de Castro Osório ou Carolina Beatriz Ângelo avance por essa Europa além como estandarte da emancipação da mulher imigrante.

 

HSF-As três Marias.jpg

 

Mais recentemente, tivemos «as três Marias» - Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa e Maria Teresa Horta – cujo exemplo poderia servir de nova bandeira ao feminismo na Europa assim mostrando uma das maiores forças de que o Ocidente dispõe, a dignidade da mulher.

 

Agosto de 2015

 

Eu, Barril-8AGO15-2.jpg

Henrique Salles da Fonseca



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Quarta-feira, 22 de Julho de 2015
LA CONCIÈRGE VINDICATIVE

 

la vielle concièrge.jpg 

Politicamente correcto? Aujourd’hui, ça j’ne connais pas.

 

Puxar para cima quem está em baixo, fazer com que todos tenham acesso aos níveis mais elevados de instrução. Reconhecer a todos por igual segundo as suas capacidades, não segundo as suas origens e muito menos segundo as suas necessidades.

 

Das necessidades trata a caridade; a economia reconhece as capacidades. E uma das capacidades tem a ver com as origens, as que dão crédito e permitem até os avales pessoais do paizinho, da mãezinha ou mesmo do avô que já está esquecido e entrevado mas ainda é capaz de assinar atravessado.

 

E quem não tem crédito? Bem, quem não tem crédito, tem que o conquistar pela prática da competência, da honestidade e de mais uns quantos atributos de que os banqueiros gostam. E isso é justo? Não sei se é justo ou injusto, sei apenas que não pode ser de outro modo. Quem tem os capitais, empresta-os ou não conforme os seus próprios critérios e como o dinheiro é dele, é a ele que compete determinar as condições em que o empresta. Uma das condições é a dos juros.

 

Bandidos, agiotas e outros epítetos que tais, eis o que bradam os que não dispõem do capital que tanta falta lhes faz para lançarem o seu próprio negóciozinho ou, mais comummente nos dias que correm, para consumirem duradouramente. Pois se até há políticos que nos dizem que é aos ricos que cumpre pagar a crise… Não hão-de eles ter vontade de lhes passar, aos ricos, um baraço pelo pescoço.

 

E que mais dizem esses da política? Ah!, que todos temos irreversíveis direitos adquiridos, que todos temos direito a toda a felicidade JÁ!, que «eles» é que têm os livros e por isso lhes compete decidir dentro das mais amplas liberdades.

 

Lavei quilómetros de soalhos, abri e fechei milhares de vezes as portas do edifício para «eles» passarem, despejei centenas de caixotes de lixo, sentei-me horas infindas à porta do prédio tentando segurar a cabeça tal a soneira que me dava, tenho todos os direitos, tudo me é devido, eu quero tudo, JÁ! e por inteiro.

 

Vi – e não me peçam que conte mais uma vez – as vergonhas de muitas cá da rua; só comentei uma vez com as minhas colegas para elas saberem com o que contam nos prédios delas. Se não fossemos nós, o que seria a pouca vergonha por aí fora…

 

E se essas cabras não se portarem como eu acho que elas se devem portar, aí eu passo-me dos carretos, ponho a boca no trombone e elas vão-se ver aflitinhas da vida. Ai vão, vão! As cabras.

 

Mas se me derem a reforma por inteiro, deixo-as com as poucas-vergonhas delas e vou para a terra fazer a horta que a minha mãezinha que Deus tem me deixou. Sim, porque me fartei de trabalhar para pagar o curso da minha filha que já é Doutora.

 

Doutora em quê? Ah! Isso eu não sei; é Doutora lá das letras. E ela trabalha em quê? Ela agora está no desemprego mas já tem um namorado que vai a casa dela todos fins de tarde e lhe paga os lanches. Ele é um rapaz muito fino que até tem bigode e tudo. Ele tem um ofício ali na rua a proteger umas amigas que ganham a vida ali por perto… É segurança? Sim, é isso! O Júlio é segurança, agora me lembro do que a minha filha contou. O pior é a porteira que ela lá tem no prédio que não a deixa sossegada com os mexericos que tece à pequena. Uma porca, essa porteira que só vê mal em tudo. Um dia vou lá e digo-lhe das boas.

 

E sabe que mais? Isto está precisado é duma revolução! Uma revolução das porteiras? Sim, das porteiras! E a porteira do prédio da sua filha também vai a essa revolução? Ah! Essa não sei se a deixo lá ir; não sei, não!

 

É isso! O que está a dar é ser-se gigolo e chamar-se Júlio.

 

E é disto que temos que aturar, nós os que temos outras profissões e nos chamamos de modos diferentes.

 

Julho de 2015

 

Henrique Salles da Fonseca em Curaçao (2011)

Henrique Salles da Fonseca



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Segunda-feira, 15 de Junho de 2015
SÃO HEROÍNAS, AS MULHERES PORTUGUESAS

 

Simone de Beauvoir.jpg

 

É com o entusiasmo de sempre que releio Simone de Beauvoir, que sempre me pareceu pôr nos seus livros uma densidade de vida que nos fazia devorar a sua leitura e viver com ela as experiências dos seus passeios, dos seus convívios, das suas dores e prazeres, dos seus conceitos, dos amigos que foram povoando e deixando a sua vida, da sua escrita nada rebuscada mas de uma elegância e eficácia de traço perfeitos, resultado de uma inteligência e dom de observação verdadeiramente superiores. Uma mulher que absorveu a vida, que lhe sofreu as tragédias e que pôs nos romances de ficção, como L’Invitée, a mesma seriedade e despojamento íntimo das suas Memórias, quer as da rapariga bem comportada, quer as da força da idade, quer as do após guerra, em “La Force des Choses” em dois volumes que ando a reler. Lembro em “La Femme rompue” a tragédia da mulher dona de casa, mãe galinha e esposa exemplar, que descobre que o marido a atraiçoa, novela que tanto me emocionou na altura, tal o realismo da sua escrita forte e apaixonada, com que exemplificou a condição da mulher subjugada, por princípio machista que a marginalizou para as suas funções próprias de procriação e domínio caseiro, apesar dos escritores que ao longo dos tempos foram alertando para outras possibilidades de realização feminina. Em Le Deuxième Sexe Simone de Beauvoir junta-se ao rol das defensoras da emancipação feminina com essa sua obra filosófica de análise e responsabilização dos dois sexos na defesa dos direitos femininos.

 

Vem isto a propósito do artigo de Maria Filomena Mónica – As mulheres portuguesas são parvas – que o Ricardo me enviou, com apreço pela análise. Maria Filomena Mónica fez-me recuar para Simone, não por identidade de comportamentos – Simone de Beauvoir foi, de facto, uma mulher livre, que se assumiu como tal numa sociedade de que conquistou o respeito – mas nos traços com que se descreveu, os mesmos que, segundo Simone de Beauvoir, os pais e a sociedade esperavam dela – o casamento, a procriação, uma vida sem escândalo. Maria Filomena Mónica é uma mulher bonita, realizada, que luta pelos direitos das mulheres.

 

Ao contrário do que sucede noutros países, em que o dinheiro do trabalho feminino é dispensável no orçamento do lar, podendo as mães permanecer em casa e educar os filhos nos primeiros tempos, em Portugal isso não acontece, os ordenados de ambos os cônjuges indispensáveis para o equilíbrio orçamental. Segue-se que as crianças sejam entregues cedo à vida em comunidade pré-escolar ou escolar, os pais sempre numa sarabanda de movimentação – levar os filhos antes do trabalho, buscar os filhos depois do trabalho, tratar dos filhos. E das refeições. E das roupas. E da casa, suponho que só à noite ou nos fins-de-semana. Vejo isso, do meu sossego de reformada, que de vez em quando fica com os netos. E admiro as mães e os pais com os seus filhos ao colo, pega, despega, num cansaço de rins, mas numa satisfação de cumprimento e de amor.

 

Simone de Beauvoir não teve filhos, foi uma mulher livre que pôde mergulhar na vida e nos livros das suas paixões. É claro que não acontece isso à maioria das mulheres, mas o que me parece – mau grado uma conjuntura laboral que não favorece as mulheres grávidas – é que muitas delas também não querem engravidar porque preferem absorver a vida nos seus prazeres, como fez Simone de Beauvoir. É preciso muito despojamento, muito dom de si, para acumular trabalho e filhos e casa. Felizmente os rapazes hoje em dia já têm mais a noção de uma partilha de tarefas caseiras. O quadro da mulher “escrava”, descrita por Filomena Mónica, aponta para a mulher que se assume nas suas funções de maternidade e de dona de casa, como antigamente. Tem isso a ver, certamente, com a falta de educação ou de interesse cultural de que enferma a nossa sociedade. A verdade é que se pode conciliar trabalho, filhos, casa, interesses culturais. A mulher-a-dias pode ajudar, se os ordenados o permitirem. E o carro tem lugar cimeiro nas suas andanças, é claro.

 

As mulheres portuguesas são parvas

Maria Filomena Mónica.png Maria Filomena Mónica

(Historiadora)

Quando casei, o que de mim se esperava, além da procriação continuada, era que passasse o dia a arrumar a casa, a cozinhar pratos requintados e a vigiar a despensa. Hoje, a estas tarefas vieram juntar-se outras. As mulheres modernas são também supostas ser boas na cama, profissionais competentes e estrelas nos salões

Nos últimos tempos, fui entrevistada por vários jornais, os quais, suponho que devido à crise económica, me enviaram mulheres muito novas. Eram geralmente bonitas, espertas, altas, modernas e rápidas. Eis, pensei, a Nova Mulher. Inesperadamente, o final das conversas tendeu a escorregar para a dificuldade que elas encontravam na compatibilização entre o trabalho e a maternidade. Num caso, aconteceu mesmo ter eu descoberto estar a desempenhar o papel de psicanalista, dando conselhos sobre a forma como a jornalista em causa, que acabara de ter um filho, podia e devia reivindicar para si, sem se sentir culpabilizada, um maior espaço de autonomia.

Suponho que o facto de ser mulher, mãe e avó convida a estas confissões imprevistas. Não me importei: as revelações das jovens serviram para me mostrar que as novas gerações femininas, pelo menos as da classe média, não têm a vida mais facilitada do que eu a tive há quarenta anos. Por um lado, as "criadas de servir", como antigamente lhes chamávamos, são hoje mais caras, por outro, a ideologia dominante sobre a função da mulher alterou-se menos do que eu pensava.

 

É isto que um trabalho, publicado por Karin Wall, do Instituto de Ciências Sociais, e por Lígia Amâncio, do ISCTE, veio demonstrar. A quase totalidade dos portugueses (93 por cento) considera que, num casal, tanto o homem quanto a mulher devem trabalhar fora de casa, mas um número impressionante (78 por cento) diz que uma criança pequena sofre quando a mãe trabalha. Cerca de metade da população afirma que as mães se deveriam abster de trabalhar quando têm filhos com menos de seis anos. Ora, devido aos salários reduzidos da maioria dos trabalhadores masculinos, Portugal possui a mais alta taxa de emprego feminino da Europa, uma situação que só pode conduzir a que as portuguesas vivam em estado permanente de culpabilidade.

Mas há mais. Os portugueses excedem-se verbalmente no seu amor pelas crianças: para 62 por cento, os indivíduos que não têm filhos levam uma "vida vazia". Ora, são estes senhores, que tanto dizem amar os filhos, que se não dão ao trabalho de lhes mudar as fraldas, de os levar ao médico ou de os alimentar. As mulheres portuguesas gastam três vezes mais horas do que os homens na lida doméstica: elas despendem, por semana, vinte e seis horas, eles apenas sete, o que dá uma diferença de dezanove horas semanais, uma média superior à europeia. As portuguesas continuam a ser exploradas, como se nada se tivesse passado desde o momento, na década de 1960, em que a minha geração ergueu a bandeira da emancipação feminina.

Algumas das jovens, que responderam ao inquérito, declararam conformar-se com a distribuição do trabalho vigente, chegando a dizer que "nós nunca nos zangamos por causa das tarefas domésticas", continuando a lavar a roupa, a passar a ferro e a mudar fraldas, como se os filhos não fossem responsabilidade de ambos. Sei, por experiência própria, que é mais fácil fazer greve às tarefas domésticas do que ao tratamento dos filhos. Apesar das minhas resistências iniciais, acabei por admitir que existe um laço afectivo diferente entre a mulher, que teve de carregar um feto na barriga durante nove meses, e o homem que se limitou a depositar nos ovários um montinho de espermatozóides. Mas isto não explica a exploração a que as minhas compatriotas são sujeitas, não só pelos maridos, como por uma sociedade que continua a atribuir-lhe todos os males contemporâneos, do consumo juvenil da droga à anomia cerebral dos alunos.

Nunca esperei que a situação fosse tão má quanto a que este inquérito revela. Na minha ingenuidade, pensei que, na História, havia domínios - sendo um deles a emancipação feminina - em que tinham verificado progressos. Depois de ler estes dados, tenho dúvidas. Algumas raparigas ainda parecem pensar que a sua única função no Universo consiste em desempenhar os papéis de esposas devotadas, seres paranoicamente ocupados com a limpeza do pó e mães tão excelsas quanto a Virgem Maria. De certa forma, o destino das raparigas na casa dos trinta ou quarenta anos corre o risco de ser pior do que o meu. Quando casei, o que de mim se esperava, além da procriação continuada, era que passasse o dia a arrumar a casa, a cozinhar pratos requintados e a vigiar a despensa. Hoje, a estas tarefas vieram juntar-se outras. As mulheres modernas são também supostas ser boas na cama, profissionais competentes e estrelas nos salões. Mas isto é uma utopia. Nem a mais super das super mulheres pode levar as crianças à escola, atender os clientes no escritório, ir à hora do almoço ao cabeleireiro, voltar ao escritório onde a espera sempre um problema urgente, fazer compras num destes modernos supermercados decorados a néon, ler umas páginas de Kant antes de mudar as fraldas do pimpolho, dar um retoque na maquilhagem, telefonar a três "babysitters" antes de arranjar uma, ir ao restaurante jantar com os amigos do marido, discutir a última crise governamental e satisfazer as fantasias sexuais democraticamente difundidas pelos canais de televisão. Estou a falar, note-se, de mulheres socialmente privilegiadas. A vida das pobres é um inferno sem as consolações de que as suas irmãs de sexo, apesar de tudo, usufruem.

É por isso que a luta tem de continuar. Não sei se sou "feminista", nem me interessa debater a questão terminológica. Sei que sou contra todas as injustiças e, entre elas, contra a ideologia que nos quer manter encerradas numa Casa de Bonecas. Ao longo dos anos, tenho ouvido de tudo, incluindo mulheres que dizem estar contra a emancipação feminina. Pensei então que não valia a pena perder tempo com tontas. Mais madura, considero hoje que o melhor é retirar-lhes o direito ao voto, o direito ao divórcio e a protecção legal contra a violência doméstica. Se gostam de ser escravas, que o sejam. Acabou-se o tempo das contemporizações. Quem luta, tem direitos; quem se resigna, fica de fora.

 

Berta Brás.jpg Berta Brás



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 17:51
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