Sábado, 21 de Janeiro de 2017
A EUROPA – O SUL vs. O NORTE

EURO007.jpg

 

  • A Europa do Sul foi tomada por uma classe de políticos que não hesita em «comprar» votos usando a demagogia que paga com dinheiros públicos – daí surgem os défices públicos;
  • A Europa do Sul sempre gostou muito mais de folgar nas belas praias do que estudar nos livros – daí a grande deficiência na instrução e formação e a pobreza estrutural dos PIB's com inerente dependência económica externa e consequentes dívidas privadas;
  • Os políticos da Europa do Sul convenceram os seus eleitores de que é aos ricos que cumpre pagar a crise travestindo esse conceito marxista na famosa «solidariedade europeia»;
  • A Europa do Sul contou com tudo isso e agora diz que os culpados são os ricos que não querem pagar a factura da sua «dolce vita»;
  • Os ricos não pagam, não; os ricos emprestam, sim, mas sobem a taxa de juro porque o risco aumenta com os dislates de novo em curso.

Ou seja, Schäuble mais não faz do que defender os interesses dos seus contribuintes e por isso se zanga com o que por aqui vai novamente...

 

Janeiro de 2017

Henrique Salles da Fonseca

Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:02
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Quinta-feira, 16 de Junho de 2016
FALÁCIAS E SOFISMAS

demagogia.jpgUm demagogo é aquele que defende doutrinas que sabe serem falsas a pessoas que ele sabe serem idiotas.

Henry Louis Mencken.jpgHenry Louis Mencken (1880-1956)

Jornalista, crítico e filósofo norte americano

 

 

Falácia – afirmação falsa não intencional; engano; erro.

Sofisma – afirmação de má-fé usada para enganar alguém; dolo.

 

Vivemos num tempo em que se assiste a um sensível “enlouquecimento” do processo acelerado de globalização em curso. O enfraquecimento do poder organizativo do mundo, que se afirmou nos últimos quinhentos anos e através do qual foi possível passar dos velhos absolutismos à experiência de democracia – nações, países e Estados soberanos –, é cada vez mais um dos dados relevantes da nossa actual globalização à procura de um sentido, de uma ordem que trave o risco da desumanização. A lógica da organização do mundo em países a caminhar para a democracia estendida a quase toda a Terra está a ser torpedeada por entidades “invisíveis”, com força de mito, precisamente em nome da vantagem de se pensar e agir globalmente. Falamos das organizações transnacionais sem rosto, sem democracia, sem sufrágio dos povos. A começar pelos “fantasmáticos” mercados que fizeram dos bancos reféns – os quais, como se tornou habitual dizer, “não devem ser irritados nem afrontados pois vingam-se nos Estados com as suas manobras financeiras –, passando pelas multinacionais até à multiplicação de grupos terroristas que espalham o terror por todo o lado, todas vergam hoje em dia os chamados “Estados soberanos” às suas exigências, acabando por submeter os povos a medos, a austeridades, a contribuições para pagar “dívidas” de que não foram autores.

 

Dei por mim a discordar da parte conclusiva deste texto (de autor[1] cuja seriedade é inquestionável) e, portanto, a considerá-lo falacioso.

 

Para mim, o busílis está na parte final, quando considera que se está a «submeter os povos a medos, a austeridades, a contribuições para pagar “dívidas” de que não foram autores».

 

Pois eu acho o contrário: os autores das dívidas foram os povos que venderam os seus votos aos demagogos que tudo prometeram sem que eles, os eleitores, tivessem que comparticipar substancial ou sequer razoavelmente no financiamento das benesses. Estas têm que ser financiadas por alguém e os demagogos não hesitam em recorrer aos aforradores – aqueles que não espatifam o que vão recebendo – pedindo-lhes emprestados os capitais que os Estados não arrecadam em Impostos para suprirem os défices públicos que a demagogia cria.

 

E como o uso desses capitais alheios se transformou num abuso, a dívida acumula-se em níveis perfeitamente obscenos como é corriqueiro por cá e por aí além... só havendo um modo de os países se libertarem dos pesados serviços da dívida com que se deparam: pagando o que devem e mandando os credores (e esses “banqueiros de rapina” que mais não são do que intermediários) às urtigas logo que devolvam os capitais que lhes pediram de empréstimo.

 

Estamos, pois, perante uma maligna classe política useira e vezeira em sofismas governando hordas encarneiradas que repetidamente votam nesses demagogos malignos. E como o grosso da dívida pública se destina a financiar políticas sociais sem suporte suficiente na tributação corrente da actividade produtiva, vulgo impostos, os beneficiários das dívidas constituídas são os povos, esses que o Autor do texto inicial isenta de responsabilidades e a quem eu atribuo todas as culpas estaminais.

 

Só há uma dicotomia possível com exclusão de quaisquer outras hipóteses: esses povos são responsáveis ou, em alternativa, são irresponsáveis, quer dizer, imbecis. Escolham.

 

Junho de 2016

 

Henrique Salles da Fonseca, Vietname, NOV14

Henrique Salles da Fonseca

(à entrada das grutas na Baía de Halong, Vietname, NOV15)

 

[1] - Professor Doutor Mendo Castro Henriques



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 14:28
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Sexta-feira, 13 de Maio de 2016
SOFISMAS, COMPLEXOS E TIQUES

 

 

Sofisma.jpg

A diabolização das poupanças empresariais e a sacralização de um factor de produção fizeram nascer ódios que só beneficiaram quem deles se quis servir para subir a escada do Poder.

 

Dito de outro modo: a diabolização do lucro e a sacralização do trabalho cultivaram a luta de classes como forma de fazer a revolução e instalar a ditadura.

 

O discurso esquerdino era (e continua a ser) o de tudo apregoar a favor das classes trabalhadoras e de tudo acusar os capitalistas e seus cúmplices, os burgueses.

 

O dramático percurso histórico desse processo culminou com a derrocada do Império Soviético qual baralho de cartas mal equilibradas. Ruiu o Império mas na mente dos seus devotos ficaram os sofismas, os complexos e os tiques.

 

Como exemplo de sofisma temos a diabolização das poupanças empresariais quando são elas que permitem novos investimentos sem recurso ao endividamento; como exemplo de complexo temos os raciocínios revolucionários de quem possui e até ostenta usos e costumes burgueses; como tiques podemos, dentre muitos, considerar a limitação da circulação automóvel em favor das bicicletas, maratonas nas pontes e vias principais, jogo das damas e bailaricos no largo onde antigamente se podia estacionar… pois há que estrangular os vícios burgueses e dar voz aos explorados…

 

Mas se o Estado tem que aumentar as receitas para poder distribuir a riqueza, como justificar essas políticas que contrariam o maior contribuinte que existe no país, o automobilista? E atenção! Não aceito teorias ecológicas quando é sabido que o Protocolo de Quioto não passa de um embuste[1] para extorquir dinheiro a todo o mundo a favor duma clique de «investigadores» ao serviço dum sector que se diz produtor de equipamentos “amigos” do Ambiente que funcionam com base em pressupostos dúbios. Também não façam a conversa anti-nuclear baseados na tecnologia de Chernobyl quando o que nós queremos é o nuclear de terceira geração à imagem e semelhança do que está a ser feito na Escandinávia. E quanto aos «explorados», eles já têm o Rendimento Social Mínimo para poderem continuar no confortável desemprego e no tráfico de estupefacientes como se constata pelos raides policiais aos bairros problemáticos. Os outros, os descendentes dos antigos proletários, já têm hábitos burgueses, pertencem à sociedade de consumo e não querem que se tenha pena deles.

 

Não haverá quem me acompanhe a dizer que BASTA DE HIPOCRISIA?

 

 

Henrique Salles da Fonseca em Hanói, NOV14

Henrique Salles da Fonseca

(Hanói, Nov.14)

 

[1] - Ver “Mitos Climáticos” em http://mitos-climaticos.blogspot.com/

 



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 14:08
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Domingo, 2 de Setembro de 2012
HISTÓRIA DA IMPUNIDADE

 

 

De onde nascem as revoltas? Chega sempre o momento em que os governos – governos fechados, impunes, corruptos – enfrentam multidões em fúria a que se juntam outras multidões em fúria. Governos que, ou acabam por fugir à força como fez Ben Ali na Tunísia, ou perdem a bússola, incapazes de estancar a rebelião nas ruas, como […] Hosni Mubarak […]. "O catalisador indispensável é a palavra. Por isso, mais do que petardos ou estiletes, são as palavras – palavras descontroladas, circulando livremente, subterraneamente, rebeldemente".

A liberdade de expressão tem sido uma ficção no Egipto. Como no resto do mundo árabe. O controlo da imprensa, a perseguição dos dissidentes, o condicionamento do espaço público são fenómenos banais. Publicam-se mais livros na Grécia, lembra Anne Applebaum, do que em todos os países árabes. O que pode fazer uma população jovem neste sufoco? Pode usar o Twitter para espalhar mensagens, ideias e fotografias. E o que faz o Governo logo que toma conhecimento da ameaça? Fecha tudo; proíbe o acesso à Internet; limita o telemóvel; prende jornalistas. Uma ilusão. Se quiserem mesmo protestar, aqueles jovens arranjarão maneira de o fazer. "É a autoridade que provoca a revolução. Isto ocorre quando um sentimento de impunidade toma conta da elite: Estamos autorizados a tudo, podemos fazer tudo. Por algum tempo parece mesmo que eles podem fazer tudo. Escândalo a escândalo, ilegalidade a ilegalidade, passam sem punição. O povo permanece quieto, paciente, temeroso. Ao mesmo tempo, guarda um registo detalhado de todos os erros que em determinado momento serão somados". Os tunisinos sabiam da roubalheira do Governo em que se tinha especializado Ben Ali. Sabiam que no regime a impunidade era norma, que eles podiam fazer o que quisessem. Os egípcios também estavam a par do nepotismo e corrupção do país. Sabiam que Mubarak falsificou as últimas eleições, que o seu poder depend(ia) da repressão policial. Eram testemunhas da ostentação da família, num país em que 40% vive com menos de dois dólares diários. Bem podia Mubarak criar uma aparência de aprovação popular, bem podem os media do Estado ignorar os protestos do Cairo. Podemos resistir a tudo, excepto à humilhação. "Que foi que eu fiz", pergunta o governante, em derrota. "O que é que lhes deu na cabeça assim tão de repente?". Foi isto que ele fez: Ele abusou da paciência do povo." Mubarak promete reformas, recompõe o Governo, promove o chefe dos serviços secretos. Mas nada parece apaziguar a multidão do Cairo. Mais um cerco para hoje. Porque não são mudanças formais que a multidão procura. O desafio para Mubarak é restaurar a paciência do povo. Mas como é possível depois de se ter abusado? "A História conhece dois tipos de revolução. A primeira é a revolução por assalto, a segunda a revolução por cerco. O sucesso da revolução por assalto é decidida no primeiro ataque. Uma revolução por cerco é diferente; aqui o primeiro ataque é geralmente fraco. Mas os acontecimentos aceleram. Mais pessoas tomam parte. O sucesso da revolução por cerco depende da determinação e resistência dos rebeldes. Mais um dia. Mais um golpe." O que ditará o sucesso ou insucesso dos protestos é a intensificação da revolução por cerco. Dizem os repórteres que nunca, em ocasiões anteriores, a polícia de Mubarak foi tão ineficaz em reprimir. E se os polícias engrossarem em massa os manifestantes, aí sim, teremos atingido o ponto de não-retorno. O cerco destruirá a autoridade do regime.

"O xá deixou ao povo a escolha entre a Savak e os mullahs. E eles escolheram os mullahs". No Irão de 1979 milhares de iranianos educados estudavam na Europa e nos EUA. Não queriam regressar para a Savak (a polícia do xá). No Egipto, os resistentes são uma população jovem que estuda e vive no país. O que querem eles ainda não sabemos. E não querem, ou muitos não querem, a Irmandade Muçulmana ou líderes de fachada. Querem, para já, existir.

(Todas as citações pertencem ao livro de Ryszard Kapucsinski, Shah of Shahs, sobre a revolução no Irão em 1979.)

 

 Pedro Lomba

 

 

Público, 2011-02-01

 

(Adaptações assinaladas apenas para transformação do presente em pretérito, HSF)

 

 

COMENTÁRIO:

 

O mundo é velha cena ensanguentada

Coberta de remendos, picaresca,

A vida é chula farsa assobiada

Ou selvagem tragédia romanesca.

 

Disse-o Cesário, numa boa síntese, aplicável a estes e àqueles. E as causas estão na loucura dos que se assumem como poderosos e aos quais se permitem todas as manigâncias do poder, por  longo tempo impunes. Mas o desenvolvimento do progresso faz despertar para a consciência dos humilhados e lá se vai a impunidade dos poderosos. Nem sempre, contudo,  acontece isso, e a farsa segue.
 Berta Brás



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Sexta-feira, 29 de Junho de 2012
LIBERDADE E DEMOCRACIA

 

 

A liberdade não é um privilégio de alguns, mas um direito de todos, um direito precioso que o poder civil deve garantir. Todavia, a liberdade não significa arbítrio individual, mas implica a responsabilidade de cada um. Aqui se encontra um dos principais elementos da laicidade do Estado, ou seja, assegurar a liberdade para que todos possam propor a sua visão da vida comum, mas sempre no respeito do outro e no contexto de leis que visem o bem comum.

 

Bento XVI


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Domingo, 15 de Janeiro de 2012
MENSAGEM AO POVO...

 

 

 .....e a quem dirige o povo

 

  • Não criarás a prosperidade se não estimulares a poupança.
  • Não fortalecerás os fracos se enfraqueceres os fortes.
  • Não ajudarás o trabalhador se arruinares quem lhe paga.
  • Não estimularás a fraternidade humana se alimentares o ódio entre as classes.
  • Não ajudarás os pobres se eliminares os ricos.
  • Não criarás estabilidade permanente baseada no dinheiro emprestado.
  • Não evitarás as dificuldades se gastares mais do que ganhas.
  • Não fortalecerás a dignidade e o ânimo se ao homem subtraíres a iniciativa e a liberdade.
  • Não ajudarás o homem de maneira permanente se fizeres o que lhe compete ser ele próprio a fazer.

 

ABRAHAM LINCOLN


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Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2011
CHAMA-SE LIBERDADE

  

Praça Tahir, Cairo, pós-Mubarak

 

Sou contra a tirania, qualquer que seja a sua fonte, de um, de alguns, ou da maioria reunida em colectivo

 

 

Tenho seguido com interesse o debate que este jornal [Público] tem promovido sobre os acontecimentos no mundo árabe. Hesito, no entanto, em intrometer-me.

Posso ser acusado de conflito de interesses. Em 1998, em Nova Deli, fui co-fundador do World Movement for Democracy, que ainda hoje existe, com sede em Washington. Dez anos mais tarde, em Haia, voltei a ser co-fundador da European Partnership for Democracy, que tem sede em Bruxelas. No ano passado, recebi com surpresa uma Medalha de Gratidão, atribuída pelo European Solidarity Center, com sede em Gdansk, pelo apoio que terei promovido ao Solidarnosc polaco, na década de 1980.

 

Por outras palavras, a minha posição é demasiado simples e cortante: sou contra a tirania, qualquer que seja a sua fonte, de um, de alguns, ou da maioria reunida em colectivo. E sou a favor da democracia liberal, em qualquer parte do planeta, qualquer que seja a cor da pele, a religião, ou outras particularidades da comunidade em questão. Logo, sou a favor da democracia também no mundo árabe.

 

Isto não significa, no entanto, que eu possa, ou sequer queira, garantir que os actuais movimentos populares no mundo árabe vão conduzir à democracia. Ninguém pode saber. Mas isto significa que é muito claro o que o Ocidente deve fazer (e, lamento ter de o dizer, já devia ter feito há muito tempo) no Médio Oriente: condenar as tiranias, incluindo as potenciais novas tiranias em preparação; e exercer com vigor a sua influência para viabilizar transições ordeiras e pacíficas para regimes constitucionais pluralistas – vulgo democracias liberais – na região.

Isto significa deixar muito claro que o Ocidente não deve pactuar com tentativas de manipulação autoritária dos movimentos populares actualmente em curso no mundo árabe. E que deve apoiar activamente lideranças locais que se identifiquem com os princípios do governo representativo limitado pela lei.


Foi isso que fizeram Ronald Reagan, João Paulo II e Margaret Thatcher na década de 1980, quando condenaram a tirania comunista – como muito bem explicou o meu amigo John O’Sullivan no excelente livro O Presidente, o Papa e a Primeira-Ministra (Aletheia, 2007). Foi isso que fez Winston Churchill desde 1917 até à sua morte, em 1965: condenou o comunismo soviético nascente, depois o nazismo, e de novo o comunismo, quando este já estava consolidado e fazia descer uma "cortina de ferro" sobre a Europa central e oriental. E o mesmo fez Edmund Burke na segunda metade do século XVIII. Condenou a violação britânica dos direitos dos católicos irlandeses, dos direitos dos súbditos indianos e dos direitos dos colonos americanos. Finalmente, denunciou a violação dos direitos dos franceses pelo autoritarismo, alegadamente progressista, da Revolução Francesa.

 

Não vejo porque não podemos fazer exactamente o mesmo no mundo árabe. Significa isto que queremos impor aos muçulmanos o modo de vida ocidental? De maneira nenhuma. Significa apenas que não reconhecemos o direito de alguns muçulmanos violarem os direitos humanos dos seus semelhantes. É esta uma visão exclusiva, ou exclusivista, do Ocidente? Não vejo porquê. É uma visão acessível a qualquer pessoa, independentemente da sua "raça", religião, ou outra característica particular. Milhões de "não ocidentais" emigram anualmente para o Ocidente em busca da liberdade e do seu fruto, a prosperidade. Apesar disso, o Ocidente não os obriga a abandonar a sua religião, nem os seus costumes peculiares, a menos que impliquem coerção intencional sobre terceiros.

 

Uma coisa é certa: o Ocidente não deve, nem pode, abandonar a defesa da liberdade, apenas porque algumas pessoas preferem impor a tirania. É assim, foi assim, e continuará a ser assim, desde a velha Atenas de Péricles e da Grande Geração, o berço marítimo da sociedade aberta, há 2500 anos. Eles deixaram-nos uma herança nobre que ainda perdura: chama-se liberdade.



 João Carlos Espada

Director do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa; titular da cátedra European Parliament/Bronislaw Geremek in European Civilization no Colégio da Europa, Campus de Natolin, Varsóvia

 

Público 2011-02-28


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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 17:29
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Segunda-feira, 20 de Dezembro de 2010
A ESQUERDA E A DIREITA

 

 

Algo que me parece merecer voltar a ser tratado é o que se refere às designações de "esquerda" e "direita" em política, dadas as confusões que continuo a ver, mesmo em pontos que se me afiguram claros.

 

Um desses casos é o das pessoas que dizem que tais designações já não fazem sentido e que devemos esquecê-las.

 

Como é sabido, esses termos nasceram, com significado político, na Assembleia Nacional francesa, em 1789, em que, à direita do Presidente se sentavam os nobres e a defesa de privilégios e à esquerda o povo, lutando por igualdade, contra os privilégios.

 

Creio que hoje, a lutar pela "igualdade" haverá muito poucos pois as diferenças humanas são motivo suficiente para que tal não seja possível. Contudo, entre a igualdade absoluta e uma desigualdade enorme há toda uma gama intermédia onde, nuns mais, noutros menos, mas sempre longe dos extremos, se situam os países mais desenvolvidos, os de mais alto nível de vida e onde, pelo menos, não existe ou é uma ínfima minoria, os que vivem muito mal, graças a governos competentes e honestos.

 

Pelo contrário, onde encontramos grandes desequilíbrios, com uma pequena minoria com largos proventos e um número avultado (ou avultadíssimo) de pessoas vivendo com dificuldades e até passando fome, é nos países subdesenvolvidos, governados por indivíduos sem escrúpulos.

 

É óbvio que nos primeiros há um elevado número de acções de esquerda que, no entanto, não impedem que haja pessoas com largos proventos, que pagam impostos elevados, que permitem financiar a educação, a saúde, a protecção na velhice, etc. Nos segundos é normal que a carga fiscal caia principalmente nos de poucos proventos, além de se incidir mais nos impostos indirectos como o IVA, do que nos directos, a que muitos de largos proventos arranjam maneira de fugir.

 

Ninguém, nem nenhum governo, é "de esquerda" porque se declara como tal. São as acções que pratica que definem o ponto onde se situa, na linha que se estende entre a extrema esquerda e a estrema direita. É preciso que as pessoas compreendam que tudo o que favorece os que têm mais e prejudique os que têm menos são acções de direita e, se são em larga escala, são de extrema direita.

 

Chamar de "esquerda" a um governo que assim procede é alardear enorme ignorância das mais elementares regras de política que, diga-se de passagem, qualquer cidadão devia conhecer.

 

Professor Miguel Mota.jpg Miguel Mota

 

Publicado no "Linhas de Elvas" de 16 de Dezembro de 2010


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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 14:37
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Terça-feira, 20 de Outubro de 2009
POSTAIS ILUSTRADOS XXXI

 

JUSTIÇA E POLÍTICA
 

“Pode um pensamento ter estilo sublime, e não ser pensamento sublime; e pode achar-se um pensamento sublime, com estilo simples”.
Luís António Verney, Verdadeiro Método de Estudar, Carta VI.

 
Calhou que a série de textos de Teologia da Economia sucedesse entre eleições europeias, legislativas e autárquicas e um feriado nacional: o 5 de Outubro (de 1910!) Daí, eu ter optado por abordar as questões relacionadas com este período recente, sendo matéria mais viva, polémica e menos árida do que aquela sobre a qual venho discorrendo. Do 5 de Outubro apenas digo que é uma comemoração ligada a um acto repugnante de homicídio (neste caso, regicídio), quando a verdadeira comemoração devia ser a do 5 de Outubro de 1143! Nesta data, subscreveu-se em Zamora o tratado [1] que está na génese da nacionalidade portuguesa. E sobre isto mais não digo. O recente período eleitoral foi rico em informação e eventos. Aconteceu que ouvimos muita coisa e que, metade ou dois terços do que ouvimos é, infelizmente, demagogia pura. No linguajar do marketing político, nas campanhas que antecederam os sufrágios, o objectivo foi sempre o mesmo: a venda do produto político! E tivemos de tudo um pouco na tentativa de nos impingir um produto quase sempre deteriorado – o que não merecíamos Em primeira análise é esta a questão que se põe. Merecemos os políticos que temos ou não? A resposta não é fácil. Partidos houve que insistiram em forçar nas suas listas a presença de pessoas a contas com a Justiça. É uma questão de ética política. Vieram contar-me a história de que sem haver prova há presunção de inocência. Tudo bem, só que as suspeitas que recaem sobre os presumíveis inocentes, já são de per si um ónus que devia impedir a participação em qualquer acto político [2]. A ideia errada que alguns têm de que o voto tem o poder de branquear a acção da Justiça preocupa-me por que Democracia não é isto, não queremos que seja isto. O voto não pode criar nos que dele beneficiam a imunidade com o consequente efeito de impunidade. O conceito que se tem de que Política é uma coisa e Justiça é outra, é desastrado e perigoso e só interessa a quem tem culpas no cartório; quem ganha uma eleição pretende-se criminalmente branqueado por força da vontade popular [3]. Uma visão anárquica dos conceitos que regem a Política e a Justiça em sociedades evoluídas e organizadas. Admito que um cidadão objecto da acção da Justiça e condenado, cumprida a sua pena, se possa sujeitar, de pleno direito, a sufrágio dos seus concidadãos, porque já prestou contas dos seus erros e já cumpriu a punição que lhe foi imposta. Voltou, por isso, a ser senhor da sua cidadania. Mas, a responsabilidade de quem assim procede, arrostando, teimosamente, com a Ética Política e atirando-a para o lixo, não é desses espertos, porque a Lei é permissiva e, de facto, perante a Lei não estão a praticar crime algum. À luz da Lei podem fazê-lo e fazem-no. A responsabilidade é daqueles que, no exercício parlamentar, ao longo de todos estes anos, vão fazendo Leis às pinguinhas, pouco claras, pouco enérgicas, sempre com o receio incompreensível de pôr na ordem as coisas que estão mal; em resumo, do legislador. E nós, lusitanamente, vamos indo. Somos um Povo de Fado (destino?) e Toiradas. Pegamos o touro de caras, mas curiosamente, sempre com o barrete enfiado na cabeça. Mas, estes anos e, particularmente, nos três últimos sufrágios, os eleitores já foram tirando o barrete. Se repararem, as europeias foram votadas de uma maneira; as legislativas já tiveram um voto diferente e nas recentes autárquicas o voto foi diferente da Câmara Municipal para a Assembleia Municipal e destas para Assembleia de Freguesia. É isso que faz com que a lusitanidade já não seja sinónimo de ingenuidade e credibilidade perante a patologia política da psicopatia social que nos cerca agoirentamente. Vamos caminhando firmemente em direcção à maturidade política. Estamos a varrer lentamente esta inércia assustadora e, simultaneamente, encantadora que nos caracteriza; este tem-te não caias; este dolce far niente genético. No rescaldo eleitoral sobraram-nos os que, desde o nascimento da democracia nunca perdem; os que perdem de quando em vez e os que ganham sempre, mesmo quando está na cara que perderam. Mas todos usam os mesmos sofismas, que se vão desgastando e perdendo a credibilidade perante eleitores cada vez mais atentos, salvo algumas deslocalizadas desatenções. O último sufrágio que deveria ter sido um acto de liberdade e consciência cívica, ficou manchado pela brutalidade de um acto criminoso que teve como progenitora a intolerância e a arrogância de quem se julga com direitos superiores aos dos outros, exercendo pequenos poderes geograficamente limitados. Estranha era esta que vivemos...   Esta 11ª legislatura que agora se inicia, espero que, tal como a crise que nos assombrou, e que já começou a dar sinais de recuperação, seja o regresso à dignidade perdida; ao sistema de Saúde humano e livre de burocracias; à Educação para todos e em melhores condições de trabalho para alunos e professores; à Justiça célere, eficiente e eficaz; à política de Segurança sem hesitações, em resumo, à sociedade responsavelmente livre e justa que nos faça sentir felizes e orgulhosos de nós mesmos e a que nós temos direito. Esperemos pelo diálogo e que a vontade de todos, sem excepção, seja sublime e não de transformar este desiderato em conversas de surdos e monólogos ininteligíveis. Parafraseando Verney: “Pode o diálogo ter um estilo sublime, e não ser uma vontade genuína; e pode achar-se uma vontade sublime, com estilo mais sincero e menos barroco”.
 Luís Santiago
 
 
[1] Tratado de Zamora – Acordo celebrado em 5 de Outubro de 1143, entre os primos Afonso Henriques, pelo Condado Portucalense e Afonso VII pelo Reino de Leão que estabeleceu a paz e definiu as fronteiras do Reino de Leão e do Reino de Portugal, designação pelo qual passou a ser conhecido o Condado Portucalense;
[2] “Quem estiver a contas com a Justiça não se pode candidatar a cargos públicos nem tem direito a voto” Henrique Salles da Fonseca, em 14 de Outubro de 2009, em texto deste blog “DESCULPEM OS MAIS SENSÍVEIS... ...MAS EM DEMOCRACIA DEVERÁ SER ASSIM”;
[3] Ouvi espantado uma pessoa que até considero esclarecida, que, convictamente, me declarou que um político, mesmo condenado, sem sentença transitada em julgado, e que fosse eleito com grande e expressiva quantidade de votos devia ver a sua sentença anulada. Fiquei horrorizado com a confusão que vai naquela cabeça. Retorqui-lhe que as pessoas que exercem esses cargos já são remuneradas (algumas substancialmente) pelos cargos para que forem eleitos e que enriquecerem à custa dos negócios mercê das funções que exercem e são remuneradas pelos impostos que todos nós pagamos, constitui prática ilegítima e imoral que é classificada na lei por enriquecimento sem causa, se, entretanto, não for crime.
 
 

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:24
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Quinta-feira, 15 de Outubro de 2009
RELIGIÃO PÕE À PROVA A TOLERÂNCIA DO ESTADO SECULAR

 

 
MUÇULMANO CONSEGUE LUGAR PARA REZAR NA ESCOLA


 
A directora do Liceu Döstberg de Berlim tinha proibido um aluno muçulmano de rezar no corredor da escola. Fundamentava a recusa com a neutralidade da escola. O aluno utilizava um tapete de oração usando a pausa para rezar.
 
O educando, que não queria abdicar do seu direito de rezar cinco vezes ao dia, incluindo o horário escolar, meteu a questão em tribunal. Este decidiu expressamente sobre este caso particular dando razão ao muçulmano.
 
Os juízes argumentaram que o aluno podia escolher uma esquina para rezar, não implicando isso a perturbação da paz escolar nem a neutralidade do Estado. Embora a decisão não tenha sido de carácter geral, outros crentes podem basear-se nesta decisão para fazer valer o seu direito.
 
Os juízes consideram a liberdade religiosa como um acto interior que implica a possibilidade da sua expressão pública também através da oração.
 
O Senado de Berlim já manifestou a intenção de apelar para o Tribunal Superior contra esta decisão.
 
A decisão do tribunal deixa lugar para muitos medos. A luta de tapetes de oração muçulmana por um lado e a luta contra cruzes na escola serão temas propícios a aquecer mesmo ânimos pacatos!... Quem tiver mais força reprimirá os outros. Afinal, também aqueles que se empenhavam contra o ensino da religião nas escolas, vêem-na agora surgir pelo lado que não esperavam.
 
O governo socialista em Portugal expulsou as cruzes das escolas. Será que se algum muçulmano manifestar a mesma coragem em Portugal como os muçulmanos mostram na Alemanha, o direito português lhe dará lugar para a oração? O medo duma escola devota será proporcional à náusea dos preservativos socialistas na escola portuguesa!!!...
 
Parece um caso bicudo de resolver para a sociedade secular. Se os muçulmanos conseguirem impor um lugar para a oração na escola, será que os outros crentes não terão o mesmo direito?
 
Mas quem era tão tolerante criando a pausa dos “fumadores”, ou a esquina dos fumadores, certamente também conseguirá a suficiente tolerância para possibilitar na escola um espaço discreto, um espaço do silêncio. Os muçulmanos marcam personalidade e a presença a que os cristãos já não estavam habituados. As exigências de uns acordam as dos outros!
 
Os muçulmanos, duma maneira geral, não fazem distinção entre o cidadão e o fiel, só conhecem o homo religiosus. A sociedade laica ocidental já começa a ter insónias ao imaginar nas suas escolas genuflexórios, tapetes de oração e outras práticas ligadas a necessidades que não as laicas.
 
Quem como o PM Sócrates instrumentalizou a escola para a distribuição de anticonceptivos gratuitos e para a indoutrinação sexual, certamente não terá dificuldade em colocar também genuflexórios e tapetes de oração. Uma outra componente da tolerância e uma saída airosa para muitos problemas que surgirão, inerentes a uma sociedade avançada com necessidades cada vez mais individualizadas, seria a promoção e financiamento do ensino privado gratuito.
 
Liberdade de religião e tolerância são valores significantes, o mesmo se dizendo da neutralidade da escola.
 
Uma solução pacífica passará talvez pela criação nas escolas duma sala do silêncio onde todos, independentemente de credos, poderão retirar-se por alguns momentos para reflectir.
 
Reflexão é uma mercadoria rara na nossa corporação!
 
Se razão sem fé é deserto, fé sem razão é pântano!
 
   António da Cunha Duarte Justo

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publicado por Henrique Salles da Fonseca às 14:40
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