Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2017
ENCONTRO DE ESCRITORES – 5 –

 

 

- Eis-me, humildemente, a pedir a intercessão de Santo Ambrósio – rezei eu.

- Aqui estou, meu «filho» – disse de seguida o Santo – Então já sabes quem queres, quando e onde?

- Bem, vejo que não se esqueceu da nossa conversa anterior.

- No Céu, temos o dom da memória total.

- Então, quer isso dizer que o Dr. Alzheimer não está no Céu.

- Vá! Deixa-te de desconversas e vamos ao que interessa.

E fomos...

- Então, é assim, Santo Ambrósio: quanto ao «onde», já tenho tudo combinado para o Paço dos Duques de Bragança, em Guimarães; quanto ao «quando», pode ser logo que eu lá chegue; quanto ao «quem», deixo ao seu critério a escolha dos «reciclados».

- Ah! Essa dos «reciclados» é muito boa! Sim, estão totalmente recuperados dos venenos que os infestaram na Terra. Muito bem, vai tu andando para o dito Paço e quando lá chegares, diz-me. Olha! Nem precisas de mo dizer porque no Céu sabemos tudo e quando eu te vir no local, logo te envio os «reciclados». OHOHOH!!! Essa é muito boa!

E assim foi que me meti ao caminho... chegando nervoso ao grande salão dos banquetes ducais. Quem iria o Santo enviar-me???

Paço dos Duques de Bragança, Guimarães.jpg

 

Foi nessa dúvida que vi a enorme tapeçaria da parede abanar ligeiramente e uma sombra inconfundível a passar junto das garrafas de branco e tinto abertas sobre a grande mesa, como que a medir as saudades dos vapores. Vapor que agora era ele próprio...

 

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,

Triste de facha, o mesmo de figura,

Nariz alto no meio, e não pequeno;

 

Incapaz de assistir num só terreno, 

Mais propenso ao furor do que à ternura;

Bebendo em níveas mãos, por taça escura, 

De zelos infernais letal veneno;

 

Devoto incensador de mil deidades

(Digo, de moças mil) num só momento,

E somente no altar amando os frades,

 

Eis Bocage em quem luz algum talento;

Saíram dele mesmo estas verdades,

Num dia em que se achou mais pachorrento.

 

Eu próprio me esquecera por completo de pedir copos e, sobretudo, a tal «taça escura» pois bem sabia que ninguém tocaria em nada do que lá pusesse. Inconsequente esquecimento, até porque admito que a passagem pelo Purgatório o tenha desintoxicado dos vapores e da doentia apetência etílica. Poderia ter sido o maior poeta português mas deixou-se rodear por um anedotário de fábula burlesca e até pornográfica que nada terá a ver com ele. Mas pôs-se a jeito e aí está o povo para lhe torcer a fama.

 

Distraído com Bocage, não sei por onde entrou o seguinte que já vinha a declamar com voz tonitruante quando se aproximou de mim, apresentando-se...

 

Sonho que sou um cavaleiro andante. 

Por desertos, por sóis, por noite escura, 

Paladino do amor, busco anelante 

O palácio encantado da Ventura! 


Mas já desmaio, exausto e vacilante, 

Quebrada a espada já, rota a armadura... 

E eis que súbito o avisto, fulgurante 

Na sua pompa e aérea formosura! 


Com grandes golpes bato à porta e brado: 

- Eu sou o Vagabundo, o Deserdado... 

Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais! 


Abrem-se as portas d'ouro com fragor... 

Mas dentro encontro só, cheio de dor, 

Silêncio e escuridão – e nada mais! 

 

- Oh Mestre, então veio directamente dos Açores ou do Casino? – perguntei eu.

- Do Céu, meu Caro, do Céu!

Sorri-lhe por fora mas temi-o por dentro. Aquela falta de serenidade não fora muito benéfica no banco do jardim público de Ponta Delgada... à bons entendeurs. E foi por causa desse episódio que teve que passar pelo Purgatório. Pena, tanta perturbação por coisas que estavam fora do seu controlo. Mas, pelo menos, sempre nos explicou algumas das causas da decadência dos povos peninsulares. E essa angústia não poderia dar bons resultados numa mente clinicamente perturbada. Eis por que Deus, por certo, lhe perdoou acto tão desconforme com a esperança.

 

Tive que interromper a conversa com Antero para dar as boas vindas ao barbudo seguinte que trazia um melro poisado no ombro da sobrecasaca. E fui eu que me lembrei dos primeiros versos d’«A velhice do Padre Eterno» e lhos recitei como que a dizer que o reconhecera...

 

O melro, eu conheci-o:

Era negro, vibrante, luzidio,

Madrugador, jovial;

Logo de manhã cedo

Começava a soltar d'entre o arvoredo

Verdadeiras risadas de cristal.

(...)

- Desculpará, Mestre, mas mais não digo porque mais não tenho de cor.

- Ah, Henrique! Não imagina com quem tenho estado...

- Não imagino.

- Com o seu avô.

- Que boa notícia me traz o Mestre! Mas não me surpreende assim tanto como muita gente poderia esperar. Lembro-me perfeitamente da sua frase relativamente a ele de que se tratava de «um Santo que diz não acreditar em Deus». Eu sou testemunha de que ele era um verdadeiro Santo, não no sentido religioso mas sim no da ética e da moral. E a moral e a ética que ele professava eram as cristãs e mais nenhumas. Continuo a não crer que só vai para o Céu quem diz acreditar em Deus; quem diz que não acredita, se tiver tido na Terra um comportamento exemplar na perspectiva moral e ética cristãs, não tem que ser impedido da salvação eterna. Não é por alguém dizer que não acredita em Deus que Ele deixa de existir.

- Exacto! Concordo totalmente com essa perspectiva. Eu próprio O reconheci na hora da morte mas se não tivesse tido bom comportamento durante a vida, poderia muito bem ter passado pela reciclagem (como você diz) do Purgatório e correr o risco de passar de seguida à condenação eterna. Mas é com muito gosto que lhe digo que o seu avô está muito bem. E o seu tio também, lá por isso.

- O meu tio também se dizia ateu. Mas essa é uma questão menor para Deus.

- Bem. Agora vou ali dar uma palavrinha ao folgazão sadino para ele me contar o que fez lá pelo Oriente. Só não sei é se terei muita pachorra para o açoriano trombudo com quem ele está a conversar. Lá terei que os interromper.

E foi...

Então, como no Céu o tempo não conta e nenhum dos etéreos compinchas dava mostras de cansaço, dei por mim a imaginar como haveria de os aproveitar ao máximo sem cansar os leitores destes escritos. Só que eu me comprometi com Santo Ambrósio que todos eles voltavam o mais tardar à meia-noite terrena pois é então que as portas celestiais se fecham e toca a silêncio até às 6 da manhã terrenas. Fácil: deixo-os continuar até à hora limite, registo tudo com pormenor e conto amanhã ou depois aos leitores.

 

(continua)

Henrique em Praga.jpg

Henrique Salles da Fonseca

(Praça Venceslau, Praga)



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 18:41
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ENCONTRO DE ESCRITORES – 4 -

 

 

 

- D. Francisco – disse eu – tenho um problema a resolver para o que peço a sua ajuda.

- Pois não – disse ele com aquela expressão fantástica tão portuguesa da negativa significando afirmativa – diga o que o preocupa.

- Nesta nossa ronda pelos que usaram as letras para algo mais do que para fazer encomendas ao merceeiro, nem todos mereceram o Céu. Se o meu Amigo acha que também esses devem ser chamados aos nossos encontros – como já fez com o Antero - onde havemos de os procurar e por intermédio de quem?

- Respondendo por partes, acho que sim, também esses devem ser chamados. E se não estão no Céu, só podem estar no Purgatório ou no Inferno. Se estão no Inferno, não vejo modo de os sacarmos de lá; se estão no Purgatório, sugiro que invoquemos Santo Ambrósio ou mesmo São Boaventura que tanto nos explicaram sobre esse local. Pode ser que conheçam lá alguém que nos possa ajudar nessa busca de almas em vias de lavagem.

- Perfeito! E assim, não precisamos nós de contactar directamente o Chefe do Purgatório e não correremos o risco de algum salpico pecaminoso que ele ainda traga nas mãos das abluções ou dos clisteres purgantes. Os Santos têm curriculum suficiente para se salvarem de uma qualquer dessas putativas inconveniências.

- Fica então tudo esclarecido?

- Sim, creio que sim. Se um dos Santos estiver muito ocupado e não me puder responder, o outro há-de estar de folga. Oxalá!

- Oxalá é do árabe Inch Allah que significa «queira Deus». Veja lá se usa alguma expressão de que não gostem no Céu e lhe barram o contacto.

- Allah não é o Deus muçulmano; Allah é como se diz Deus em árabe. O Deus deles é o mesmo que o nosso; os Céus é que podem ser diferentes.

- Muito bem, então fica combinado que Você pede a um dos dois Santos e logo se vê o que eles dizem.

(...)

Disseram-me que São Boaventura estava a despacho (com Deus?) mas que Santo Ambrósio me poderia atender.

 

Stº Ambrósio (337-397).jpg

Stº Ambrósio (337 – 397)

 

- Meu «filho», em que te posso servir?

- Oh Santo Ambrósio: eu pretendo convocar para uma reunião terrena alguns escritores portugueses que devem estar no Purgatório mas não conheço ninguém da «nomenklatura» por lá mandante e lembrei-me de si porque nos explicou muito sobre o funcionamento daquilo e porque talvez consiga uma dispensa por pouco tempo de algumas almas escrevinhantes que ainda estejam por lá em abluções e clisterizações purgativas.

- Sim, conheço toda a «nomenklatura» purgativa e posso dizer-te que fizeste muito bem em vires falar comigo em vez de ires falar com eles. Ainda te sujavas e isso é que seria uma maçada. Mas estou a ver que já não te lembras dos meus ensinamentos... Há quanto tempo morreram esses escritores que queres contactar?

- Ui! Alguns morreram há mais de 20 anos e outros há mais de um século...

- Então, meu «filho», não precisas da minha intercessão pois as almas só estão no Purgatório por um máximo de 40 dias terrenos no fim do que ou estão limpas e vão para o Céu ou continuam encardidas e vão para o Inferno. Assim sendo, se estão no Céu, podes voltar a contactar quem contactaste das vezes anteriores para as reuniões que já fizeram...

- Ah, já vejo que sabe dessas reuniões.

- ... no Céu sabemos tudo...

- Sim, claro, desculpe o meu esquecimento.

- ... estás desculpado. ... se estão no Inferno, desde já te digo que não te posso ajudar de maneira nenhuma e não conheço ninguém que o possa fazer. São casos perdidos. Portanto, o melhor que podes fazer é pedires ajuda a alguém no Céu.

- Muito bem, acha que me pode ajudar?

- Sim, dize quem queres convocar, quando e para onde e eu vou ver o que se arranja.

- Posso dizer mais logo?

- Podes dizer quando quiseres. No Céu não medimos o tempo. Invocas-me e voltamos à conversa.

(...)

(continua)

 

Fonte da Telha-27NOV16 (barco museu).jpg

 Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 18:23
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Quarta-feira, 9 de Novembro de 2016
LIDO COM INTERESSE – 70

 

 

A guerra do fim do mundo.jpg

Título – A GUERRA DO FIM DO MUNDO

 

Mário Vargas Llosa.jpg

Autor – Mário Vargas Llosa

Tradutor – Salvato Telles de Menezes

Editor – RTP/Leya

 

 

São 599 páginas de texto pois começa na 21 e acaba na 620. Antes do início, há todos aqueles prolegómenos tais como o título e a ficha técnica, por que habitualmente passo os olhos, mas esta edição conta também com um prefácio que não li. Mas se um dia...

Quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar...[1]

... então, em desespero, poderá ser que me abalance para essa leitura que por certo nos quer dizer o que devemos pensar quando começarmos a ler. Ainda não totalmente munido de «capito diminutia», não li. E se um improvável dia o fizer, será apenas com o intuito de comparar a opinião do prefaciador com a minha própria opinião.

 

Independente da opinião do autor do prefácio e tendo apenas lido metade do que se apresenta na contra-capa (a outra metade é um extracto do prefácio já referido), atirei-me à leitura com todo o interesse por se tratar da minha estreia em Mário Vargas Llosa e por já saber que se tratava de um romance histórico sobre um episódio que eu desconhecia totalmente, a Guerra de Canudos.

 

Da contra-capa extraio que em finais do século XIX, no Brasil, no sertão da Baía, um vasto movimento popular formado em torno de um místico – António Conselheiro – funda uma sociedade à margem do mundo oficial. O Governo do Rio de Janeiro (onde então era a capital federal) reage enviando uma pequena força militar para “repor a ordem”. Mas a resistência foi imediata e eficaz obrigando a tropa a fugir. E com isto se dá início à Guerra de Canudos para a qual foram mobilizados milhares de soldados que, depois de muitos mortos, os sublevados são, enfim, esmagados a ferro e fogo.

 

Mas não nos esqueçamos de que se trata de um romance histórico. E o mais fantástico é ver o Autor a misturar a realidade com a fantasia com tanta plausibilidade que por vezes tive que recorrer à Internet para saber quais eram os personagens reais e os fictícios. E a certa altura adiantei-me na consulta e fiquei a saber antecipadamente o que ia acontecer no livro. Mas em vez de me estragar a leitura, deu-me margem para saborear a trama romanesca, a qualidade literária e um aplauso ao trabalho de investigação a que Vargas Llosa deve ter sido obrigado.

 

O texto português é muito bom e considero da mais elementar justiça um louvor ao Tradutor. Quase me apetecia dizer que se o original for tão bom quanto é a tradução, Vargas Llosa é mesmo um Autor formidável, muito superior ao nasalado Bob Dylan[2].

 

Novembro de 2016

Henrique Salles da Fonseca.png

Henrique Salles da Fonseca

 

[1] In «Vou-me embora p’ra Passárgada», Manuel Bandeira

[2] Cuja obra literária desconheço por completo; apenas o conheço como nasalado.

 



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 08:33
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Domingo, 23 de Outubro de 2016
QUEM FOI FRANÇOIS DE LA ROCHEFOUCAULD?

 

 

 

“Hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude”.

 

“Muitas vezes praticamos o bem para podermos praticar o mal com mais impunidade”.

 

“Não desprezamos todos aqueles que têm vícios, mas desprezamos todos aqueles que não têm nenhuma virtude”.

 

“Se não tivéssemos defeitos, não sentiríamos tanto prazer em reconhecê-los nos outros”.

 

“Há pessoas tão levianas e tão frívolas que estão igualmente distantes de possuir verdadeiros defeitos e sólidas qualidades”.

 

la-rochefoucauld.jpg

François de La Rochefoucauld

 

“A esperança, figura charlatã e evasiva, pelo menos conduz-nos na vida por uma boa estrada”.

 

“Todos nós temos força suficiente para suportar os males do outro”.

 

“Os velhos gostam de dar bons conselhos para se consolarem de não poderem dar maus exemplos”.

 

“Nunca somos tão felizes nem tão infelizes quanto imaginamos”

 

“As paixões são os únicos oradores que sempre convencem. São uma arte da natureza de regras infalíveis; e o homem mais simples que tem paixão convence melhor do que o mais eloquente que não a tem”.

 

“O orgulho é igual em todos os homens (ricos ou pobres), só diferem os meios e as maneiras de mostrá-los"

 

*  *  *

 

François, Duque de La Rochefoucauld (Paris, 15 de Setembro de 1613 – Paris, 17 de Março de 1680) foi um moralista francês, François VI, Príncipe de Marcillac e, mais tarde, Duque de La Rochefoucauld, foi destinado à carreira militar, tendo participado da campanha da Itália em 1629. Envolvendo-se em intrigas contra o Cardeal Richelieu, em favor da rainha Ana da Áustria, foi preso e exilado em Verteuil, no ano de 1631. Depois da morte de Richelieu, voltou a conspirar contra a corte, tendo participado activamente da Fronda, a guerra civil que agitou França entre 1648 e 1653.

 

Em 1652, gravemente ferido nos olhos, encerrou a carreira de soldado e conspirador. Passou em Paris os últimos anos da vida, destacando-se nos salões literários, especialmente no de Madame de Sablé.

 

La Rochefoucauld cultivou o género de máximas e epigramas, divertimento social que transformou em género literário, escrevendo textos de profundo pessimismo. O seu livro mais famoso, "Reflexões ou sentenças e máximas morais", apareceu pela primeira vez em 1664.

 

Até à quinta edição do livro, La Rochefoucauld foi condensando as suas máximas, ao mesmo tempo que restringia o seu típico amargor. Espírito cáustico, amargurado, atribui ao amor-próprio um papel preponderante na motivação das acções humanas. Todas as qualidades da nobreza – as falsas virtudes — têm a movê-las o egoísmo e a hipocrisia, atributos inerentes a todos os homens.

 

Segundo ele, a necessidade de estima e de admiração está por trás de toda a manifestação de bondade, sinceridade, gratidão. Claramente, um pessimista desencantado com o género humano.

 

Além das "Reflexões", La Rochefoucauld escreveu sua autobiografia, "Memórias de MDLR sobre as intrigas com a morte de Luís XIII, as guerras de Paris e da Guiana e a prisão dos príncipes", que engloba o período entre 1624 e 1632 e que serve de base para as conclusões desenvolvidas nas "Reflexões".

 

Outubro de 2016

 

Henrique Salles da Fonseca.png

Henrique Salles da Fonseca

 

BIBLIOGRAFIA:

Wikipédia



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 00:22
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Terça-feira, 30 de Agosto de 2016
ANTÓNIO GONÇALVES DIAS

Gonçalves Dias.jpgAntónio Gonçalves Dias, poeta, professor, crítico de história, etnólogo, nasceu em Caxias, Maranhão, em 10 de Agosto de 1823 e faleceu em naufrágio, no baixio dos Atins, Maranhão, em 3 de Novembro de 1864. É o patrono da Cadeira n.º 15, por escolha do fundador Olavo Bilac.

 

Era filho de João Manuel Gonçalves Dias, comerciante português, natural de Trás-os-Montes e de Vicência Ferreira, mestiça. Perseguido pelas exaltações nativistas, o pai refugiara-se com a companheira perto de Caxias, onde nasceu o futuro poeta. Casado em 1825 com outra mulher, o pai levou-o consigo, deu-lhe instrução e trabalho e matriculou-o no curso de latim, francês e filosofia do prof. Ricardo Leão Sabino. Em 1838 Gonçalves Dias embarcaria para Portugal, para prosseguir nos estudos, quando lhe faleceu o pai. Com a ajuda da madrasta pôde viajar e matricular-se no curso de Direito em Coimbra. A situação financeira da família tornou-se difícil em Caxias, por efeito da Balaiada e a madrasta pediu-lhe que voltasse, mas ele prosseguiu nos estudos graças ao auxílio de colegas, formando-se em 1845. Em Coimbra, ligou-se Gonçalves Dias ao grupo dos poetas que Fidelino de Figueiredo chamou de "medievalistas". À influência dos portugueses virá juntar-se a dos românticos franceses, ingleses, espanhóis e alemães. Em 1843 surge a "Canção do exílio", um das mais conhecidas poesias da língua portuguesa.

 

Regressando ao Brasil em 1845, passou rapidamente pelo Maranhão e, em meados de 1846, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde morou até 1854 fazendo apenas uma rápida viagem ao norte em 1851. Em 46, havia composto o drama “Leonor de Mendonça” que o Conservatório do Rio de Janeiro impediu de representar a pretexto de ser incorreto na linguagem; em 47 saíram os “Primeiros Cantos”, com as "Poesias americanas", que mereceram artigo encomiástico de Alexandre Herculano; no ano seguinte, publicou os “Segundos Cantos” e, para se vingar dos seus gratuitos censores, conforme registam os historiadores, escreveu as “Sextilhas de frei Antão”, em que a intenção aparente de demonstrar conhecimento da língua o levou a escrever um "ensaio filológico" num poema escrito em idioma misto de todas as épocas por que passara a língua portuguesa até então. Em 1849, foi nomeado professor de Latim e História do Colégio Pedro II e fundou a revista Guanabara, com Macedo e Porto Alegre. Em 51, publicou os “Últimos Cantos”, encerrando a fase mais importante da sua poesia.

 

A melhor parte da lírica dos Cantos inspira-se ora da natureza, ora da religião, mas sobretudo do seu caráter e temperamento. A sua poesia é eminentemente autobiográfica. A consciência da inferioridade de origem, a saúde precária, tudo lhe era motivo de tristezas. Foram elas atribuídas ao infortúnio amoroso pelos críticos, esquecidos estes de que a grande paixão do Poeta ocorreu depois da publicação dos “Últimos Cantos”. Em 1851, partiu Gonçalves Dias para o Norte em missão oficial e no intuito de desposar Ana Amélia Ferreira do Vale, de 14 anos, o grande amor de sua vida, cuja mãe não concordou por motivos de sua origem bastarda e mestiça. Frustrado, casou-se no Rio, em 1852, com Olímpia Carolina da Costa. Foi um casamento de conveniência, origem de grandes desventuras para o Poeta, devidas ao génio da esposa, da qual se separou em 1856. Tiveram uma filha, falecida na primeira infância.

 

Nomeado para a Secretaria dos Negócios Estrangeiros, permaneceu na Europa de 1854 a 1858 em missão oficial de estudos e pesquisa. Em 56, viajou para a Alemanha e, na passagem por Leipzig, em 57, o livreiro-editor Brockhaus editou os Cantos, os primeiros quatro cantos de Os Timbiras, compostos dez anos antes e o Dicionário da língua tupi. Voltou ao Brasil e, em 1861 e 62, viajou pelo Norte, pelos rios Madeira e Negro, como membro da Comissão Científica de Exploração. Voltou ao Rio de Janeiro em 1862, seguindo logo para a Europa, em tratamento de saúde, bastante abalada, e buscando estações de cura em várias cidades europeias. Em 25 de Outubro de 63, embarcou em Bordéus para Lisboa, onde concluiu a tradução de “A noiva de Messina”, de Schiller. Voltando a Paris, passou em estações de cura em Aix-les-Bains, Allevard e Ems. Em 10 de Setembro de 1864, embarcou para o Brasil no Havre no navio Ville de Boulogne, que naufragou no baixio de Atins, nas costas do Maranhão, tendo o poeta perecido no camarote, sendo a única vítima do desastre, aos 41 anos de idade.

 

Todas as suas obras literárias, compreendendo os Cantos, as Sextilhas, a Meditação e as peças de teatro (Patkul, Beatriz Cenci e Leonor de Mendonça), foram escritas até 1854. O período final, em que dominam os pendores eruditos, favorecidos pelas comissões oficiais e as viagens à Europa, compreende o Dicionário da língua tupi, os relatórios científicos, as traduções do alemão, a epopeia “Os Timbiras”, cujos trechos iniciais, que são os melhores, datam do período anterior.

 

A sua obra poética, lírica ou épica, enquadrou-se na temática "americana", isto é, de incorporação dos assuntos e paisagens brasileiros na literatura nacional, fazendo-a voltar-se para a terra natal. Ao lado da natureza local, recorreu aos temas em torno do indígena, o homem americano primitivo, tomado como o protótipo de brasileiro, desenvolvendo, com José de Alencar na ficção, o movimento do "Indianismo". Os indígenas, com suas lendas e mitos, seus dramas e conflitos, suas lutas e amores, sua fusão com o branco, ofereceram-lhe um mundo rico de significação simbólica. Embora não tenha sido o primeiro a buscar na temática indígena recursos para o abrasileiramento da literatura, Gonçalves Dias foi o que mais alto elevou o Indianismo. A obra indianista está contida nas "Poesias americanas" dos Primeiros cantos, nos Segundos cantos e Últimos cantos, sobretudo nos poemas "Marabá", "Leito de folhas verdes", "Canto do piaga", "Canto do tamoio", "Canto do guerreiro" e "I-Juca-Pirama", este talvez o ponto mais alto da poesia indianista. É uma das obras-prima da poesia brasileira, graças ao conteúdo emocional e lírico, à força dramática, ao argumento, à linguagem, ao ritmo rico e variado, aos múltiplos sentimentos, à fusão do poético, do sublime, do narrativo, do diálogo, culminando na grandeza da maldição do pai ao filho que chorou na presença da morte.

 

Pela obra lírica e indianista, Gonçalves Dias é um dos mais típicos representantes do Romantismo brasileiro e forma com José de Alencar na prosa a dupla que conferiu caráter nacional à literatura brasileira.

 

Obras: Primeiros cantos, poesia (1846); Leonor de Mendonça, teatro (1847); Segundos cantos e Sextilhas de Frei Antão, poesia (1848); Últimos cantos (1851); Cantos, poesia (1857); Os Timbiras, poesia (1857); Dicionário da língua tupi (1858); Obras póstumas, poesia e teatro (1868-69); Obras poéticas, org. de Manuel Bandeira (1944); Poesias completas e prosa escolhida, org. de Antonio Houaiss (1959); Teatro completo (1979).

 

(da Internet)



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 17:06
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Domingo, 14 de Agosto de 2016
THE POWER AND THE GLORY

 

 

Foi na minha juventude que «The power and the glory» me chegou numa tradução francesa que me não deu o prazer por que eu esperava. Vou ter que o reler no original ou numa tradução portuguesa; os tradutores portugueses têm tido um trabalho notável.

 

Diz-se que, de toda a língua inglesa, é o romance mais lido no século XX mas diz-se tanta coisa...

 

graham-greene.jpg

 

Sei que tudo resultou de uma viagem que Graham Greene fez ao México – a Tabasco e Chiapas – para conhecer a perseguição religiosa que por ali acontecera nos anos vinte por ordem de Plutarco Callas.

 

Lembro-me que o enredo se refere aos dramas de um padre católico que continuava na região. Perseguido pela polícia, não era herói nem santo e vivia na clandestinidade com a certeza de ser um pecador por ter uma filha mas, destruído pela bebida, perseguido e fraco, para ele a fé era uma certeza que não se deixava limitar pelas misérias do mundo e que conduzia o crente ao poder e à glória.

 

A matéria histórica está pormenorizadamente relatada por vários sítios e para a conhecer não é hoje necessário sair de casa pois a Internet dá-nos informação de sobra. E fá-lo em todas as perspectivas – a dos perseguidores e a dos perseguidos – o que nos permite imaginar as «coisas» pelos vários lados.

 

Não é, pois, para conhecer a História que vou reler o livro; é para ter o prazer literário que me lembro não ter tido com a tradução francesa.

 

Mas é também para me aproximar da questão psicológica da figura central do enredo para quem todas as misérias mundanas são afinal ultrapassadas pela fé. E a questão vai ser a de saber se por causa da fé aquele farrapo conseguia continuar no vício ou se só a fé o fazia transportar a cenários virtuais de poder e de glória que, na realidade, não possuía. Vícios apesar da fé ou quê?

 

Para já, dá para imaginar a desgraça de quem tem vícios e não tem fé.

 

Vou ler, já volto...

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Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 19:16
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Domingo, 17 de Julho de 2016
KAFKA E A BONECA

 

Kafka e a boneca.png

 

O AMOR VOLTA, EMBORA DE FORMA DIFERENTE

PARA ONDE VAI O AMOR QUE SE PERDE?

 

Um ano antes de morrer Franz Kafka viveu uma experiência singular. Passeando pelo parque de Steglitz, em Berlim, encontrou uma menina a chorar por ter perdido a boneca. Kafka ofereceu a sua ajuda para procurar a boneca e combinou um encontro com a menina no dia seguinte e no mesmo lugar. Incapaz de encontrar a boneca, escreveu uma carta como se fosse dela e, quando se encontraram, leu-a à menina. «Por favor, não chores por mim, parti em viagem para ver o mundo.» Esta foi a primeira de muitas cartas que, durante três semanas, Kafka entregou pontualmente à pequena, narrando as peripécias da boneca em todos os cantos do mundo: Londres, Paris, Madagáscar... Tudo para que a miúda conseguisse apagar a grande tristeza que a atormentava!


Esta história foi contada a alguns jornais e inspirou um livro de Jordi Sierra i Fabra (Kafka e a Boneca Viajante), onde o escritor imagina como teriam sido as conversas e o conteúdo das cartas de Kafka. No fim, Kafka presenteou a menina com uma outra boneca, obviamente diversa da original. Uma carta anexa explicava: «As minhas viagens transformaram-me...» Anos depois, a petiza, agora crescida, encontrou uma carta enfiada numa abertura escondida da boneca substituta. Em resumo, o bilhete dizia: «Tudo o que você ama irá eventualmente perder, mas, no fim, o amor regressará de uma forma diferente». “


May Benatar, "Kafka and the Doll: The Pervasiveness of Loss", publicado no Huffington Post.

 

Esta história carece de esclarecimento


A amiga de Kafka, Dora Diamant foi testemunha do encontro de Kafka com a menina. Como ela também era escritora, transmitiu para a posteridade a verdadeira história. Kafka contou à sua amiga Dora o que ele escreveu nas cartas inventadas por ele para consolar a menina. Isto é a única coisa histórica que sabemos sobre ” Kafka e a boneca”.

 

Kafka não deu boneca nenhuma à menina. O fim foi diferente: na última carta dele, na qualidade de boneca, ele escreveu à menina que a boneca se tinha casado e não podia voltar mas que a amava.

 

Depois da segunda guerra mundial nos jornais alemães houve um apelo dirigido à menina que tinha recebido as cartas da boneca (Kafka) para que se apresentasse ou as publicasse. Infelizmente ninguém respondeu ao apelo e estas cartas perderam-se.

 

Como não sabemos o conteúdo exacto das cartas, alguns escritores inventaram o que poderia ter sido o conteúdo dessas cartas. Verdade, porém, é apenas o que se encontra na narração de Dora Diamant: http://www.franzkafka.de/franzkafka/fundstueck_archiv/fundstueck/457439

 

Através da aventura da boneca que Kafka escreveu à menina, (nas cartas que lhe entregava em nome da boneca), Kafka queria consolar a menina e curá-la da sua tristeza por causa da separação sofrida.

 

De facto, uma perda, uma separação, uma morte, um divórcio ou um distanciamento provoca sempre dor. O importante para o caso é o estabelecimento de relação para poder haver abrandamento da dor ou cura. Então o amor volta embora de forma diferente.

ACDJ-Prof. Justo-1.jpg

 António da Cunha Duarte Justo



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 16:08
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Sábado, 4 de Junho de 2016
ENTRE O NADA E O IMPOSSÍVEL

Orhan Pamuk-Outras Cores.jpg

Como vivo num país em que a norma é não ler e o leitor é considerado uma espécie de aberração, não posso senão respeitar as afectações, as obsessões e as pretensões dos poucos que lêem e criam bibliotecas no meio do tédio e da grosseria gerais”.

Orhan_Pamuk.jpgOrhan Pamuk

in “Como eu me desfiz de alguns dos meus livros”, «OUTRAS CORES – Ensaios sobre a vida, a arte, os livros e a cidade», EDITORIAL PRESENÇA, 1ª edição, Março de 2009, pág. 119 e seg.

 

 

Orhan Pamuk, turco ocidentalizado de Istambul, escritor profissional, ganhou o prémio Nobel da Literatura em 2006.

 

Toda a tónica da sua obra se centra na falta de enquadramento de alguém pertencente a uma família com várias gerações ocidentalizadas a viver num país predominantemente muçulmano, cheio de tensões internas entre os laicos que puxam para a Europa e os outros, os que puxam para o Corão. O drama reside na alternativa entre a perda de valores civilizacionais e a prevalência destes, tidos por retrógrados. E como não há outra transcendência que localmente tenha direito à vida, a desorientação navega entre o nada e o impossível.

 

O pior é quando o nada está associado à miragem europeia e quando o tradicionalismo muçulmano é tido como uma ameaça por uma parcela crescente de europeus. Onde fica a Turquia? Haverá alguma “ponte sobre o Bósforo” que una estas duas margens da sociedade turca, ou tudo não passa duma fricção entre duas placas tectónicas civilizacionais?

 

Terão os turcos ocidentalizados um código moral e ético próprio, laico, fundamentado em princípios não obrigatoriamente ligados ao Decálogo judaico-cristão que lhes permita algum posicionamento frente ao Islão?

 

Sim, não nos podemos esquecer que a base estaminal de cada civilização é uma religião associada. Como poderão, então, os agnósticos e ateus turcos posicionar-se num cenário em que numericamente são esmagados por uma multidão crente numa religião que vem dando provas de grande proselitismo?

 

Temo que, por muito imponentes que sejam, as pontes sobre o Bósforo não terão qualquer influência numa futura secessão da Trácia relativamente à Ásia Menor. E já não sei o que dizer de um Curdistão independente...

 

Que têm os turcos ocidentalizados a ver com as políticas de Erdogan de regresso à islamização e ao banimento de muito do que fez Atatürk?

 

Os turcos não têm o hábito da leitura? Temo que cada vez mais seja impossível ser-se escritor na Turquia pois cada vez mais haverá cada vez menos leitores de leituras pagãs.

 

Eis o tipo de problemas por que passei quase incólume das duas vezes que visitei a Turquia. Mas Erdogan ainda fazia cerimónia e Orhan Pamuk ainda não chegara à minha leitura.

 

Hoje, temo pela Turquia.

 

Maio de 2016

 

Tetrapylon - Afrodisias.JPG

Henrique Salles da Fonseca

(MAI11, Afrodisias, Turquia)

 

 

 



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 07:51
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Sexta-feira, 27 de Maio de 2016
NAS CALADAS NOITES DE INVERNO

 

Casal Angelina e Raúl Brandão, óleo de Columban

 Óleo de Columbano Bordalo Pinheiro, 1928

 

Nas caladas noites de Inverno, quando despego o olhar dos papéis, encontro sempre os teus olhos que me envolvem de ternura. Isto é quase nada – e revolve o mundo. É saudade, é a vida que passa e a morte que se aproxima, enquanto o tronco arde no lume, o pinheiro estala ou o carvalho amorroa.

 

De fora vem o hálito da floresta e das águas. Mais silêncio... Surpreendo-te então a repetir o meu pensamento, ou é o teu que me acode ao mesmo tempo. Não fales! Outra figura transparece atrás da tua figura. Nesse momento até o lume parece encantado e ficas tão linda que antevejo a vida misteriosa que me fascina e deslumbra. Isto só dura um segundo. Mas basta às vezes que sorrias e é a tua alma que sorri; basta às vezes que não fales e é a tua alma que me fala. Nesse momento somos um ser: eu sou tu; tu és eu; tu sorris, eu sorrio. Então cai sobre nós o silêncio – e eu descubro o que só nos é dado ver depois da morte, a amplidão das almas, seu poder magnético e, num deslumbramento, ao lado da existência pueril, a imensidade do universo e o infinito que nos rodeia e de que perdemos a sensação pelo hábito.

 

Mª Angelina e Raul Brandão.jpg

Raúl Brandão

Raúl Brandão e a sua mulher, Maria Angelina, com quem manteve uma grande cumplicidade criativa

 

In O SILÊNCIO E O LUME, Dezembro de 1924



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 18:04
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Domingo, 17 de Abril de 2016
A LEVEZA DO PROFUNDO

 

O vôo sublime- foto de Paulo Jorge A. C. Pereira.

 

Foi nos idos de 70 do século passado, o XX, que li um pequeno livro do americano Richard Bach (1936, Illinois, EUA -) que na tradução portuguesa se chamava “Fernão Capelo Gaivota”.

 

Oferecido por uma amiga na despedida de uma das minhas saídas para África, li-o duas vezes durante o voo de Lisboa a Luanda; não o li pela terceira de Luanda a Lourenço Marques. E se o li duas vezes, isso ficou a dever-se ao facto de me ter sido oferecido por quem foi e porque nele descobri o peso que ao longo da vida transportamos com tudo o que é prosaico e senti a leveza do que é profundo.

 

Os pássaros do livro – como os da Natureza – passam a vida a tratar de comer; o pássaro-herói admirava-se como os seus congéneres ignoravam tudo o que é superior, nomeadamente a delícia do voo, ou seja, o imaterial, a espiritualidade. E se os outros perseguiam pequenas partículas e insectos, ele conseguia imaginar-se em céus infinitos e desmaterializar-se de uma nuvem para outra apenas por força do pensamento. A imaterialidade deveria reinar sobre o mundano, o espírito deveria comandar tudo …

 

É claro que me lembrei sempre do famoso conselho que nos sugere “primum vivere, deinde philosophare” mas não esqueci aquele extremo literário do americano Bach e sempre que vejo alguém a carregar um saco de batatas ou a falar com uma linguagem muito técnica – daquela que nós, os economistas, tanto apreciamos – logo neles vejo os companheiros do pássaro-filósofo Fernão Capelo Gaivota.

 

Eu próprio tratei de arrebanhar partículas e insectos enquanto estive ao activo mas agora que estou aposentado posso deliciar-me com o prazer de voar.  

 

Henrique Salles da Fonseca - Chile

Henrique Salles da Fonseca

(ao nascer do dia no Estreito de Magalhães)



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:20
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