Domingo, 17 de Abril de 2016
A LEVEZA DO PROFUNDO

 

O vôo sublime- foto de Paulo Jorge A. C. Pereira.

 

Foi nos idos de 70 do século passado, o XX, que li um pequeno livro do americano Richard Bach (1936, Illinois, EUA -) que na tradução portuguesa se chamava “Fernão Capelo Gaivota”.

 

Oferecido por uma amiga na despedida de uma das minhas saídas para África, li-o duas vezes durante o voo de Lisboa a Luanda; não o li pela terceira de Luanda a Lourenço Marques. E se o li duas vezes, isso ficou a dever-se ao facto de me ter sido oferecido por quem foi e porque nele descobri o peso que ao longo da vida transportamos com tudo o que é prosaico e senti a leveza do que é profundo.

 

Os pássaros do livro – como os da Natureza – passam a vida a tratar de comer; o pássaro-herói admirava-se como os seus congéneres ignoravam tudo o que é superior, nomeadamente a delícia do voo, ou seja, o imaterial, a espiritualidade. E se os outros perseguiam pequenas partículas e insectos, ele conseguia imaginar-se em céus infinitos e desmaterializar-se de uma nuvem para outra apenas por força do pensamento. A imaterialidade deveria reinar sobre o mundano, o espírito deveria comandar tudo …

 

É claro que me lembrei sempre do famoso conselho que nos sugere “primum vivere, deinde philosophare” mas não esqueci aquele extremo literário do americano Bach e sempre que vejo alguém a carregar um saco de batatas ou a falar com uma linguagem muito técnica – daquela que nós, os economistas, tanto apreciamos – logo neles vejo os companheiros do pássaro-filósofo Fernão Capelo Gaivota.

 

Eu próprio tratei de arrebanhar partículas e insectos enquanto estive ao activo mas agora que estou aposentado posso deliciar-me com o prazer de voar.  

 

Henrique Salles da Fonseca - Chile

Henrique Salles da Fonseca

(ao nascer do dia no Estreito de Magalhães)



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:20
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Segunda-feira, 15 de Fevereiro de 2016
LITERATURA SUBVERSIVA NA TURQUIA

 

espanto.png

 

A situação é de deixar qualquer um de boca aberta...

 

the soft machine.jpg

 

William S. Burroughs, se fosse vivo, ficaria satisfeitíssimo: o seu livro de 1961, “The Soft Machine”, foi mais uma vez proibido. Não que Burroughs fosse a favor da censura, com certeza; antes pelo contrário, grande parte da sua obra acusa a civilização ocidental de ser censória, não só abertamente mas também pela pressão económica e outras formas mais subtis. No entanto, “The Soft Machine” não é um livro cuja subversão do conteúdo salte logo à vista; perturba mais na forma, através de uma escrita cheia de entrelinhas e referencias obscuras que o leitor normal achará bastante chata. Por outras palavras, é uma obra para intelectuais que não representa qualquer perigo imediato para a estabilidade de uma sociedade burguesa medianamente policiada. O mais perigoso de Burroughs é a personagem que ele inventou para si próprio, não os seus livros.

 

Então, “The Soft Machine” acaba de ser proibido na Turquia, um país que há cem anos, mas principalmente nos últimos vinte, procura desesperadamente ser ocidental e “civilizado”. E foi proibido por uma repartição dificilmente imaginável num pais ocidental e civilizado: O Conselho do Primeiro Ministro para a Protecção de Menores de Publicações Explícitas.

 

Porque é que um livro para adultos, e ainda por cima para um grupo restrito de adultos cultos que se interessam por literatura experimental, foi parar a este Conselho, ninguém sabe; provavelmente terá sido uma denúncia. O facto é que os conselheiros o acharam perigoso, “desconforme com as normas morais” e susceptível de “magoar os sentimentos morais das pessoas”. Além disso acusam a obra de “falta de unidade no tema”, “em desacordo com uma unidade narrativa”, com “utilização de calão e termos coloquiais” e, pior, “a aplicação de um estilo de narrativa fragmentado.” Finalmente a obra de Burroughs “contem interpretações que não são nem pessoais nem subjectivas, retiradas de exemplos de estilos de vida de figuras históricas e mitológicas”.

 

Mas o que interessa não será, com certeza, o disparate desta interpretação de “The Soft Machine”, que ainda consegue ser mais marada do que o próprio livro. O que interessa é que ainda existam países que se preocupem em censurar obras que, pela sua própria natureza, pouca subversão possam causar, só porque não estão de acordo com a doutrina estabelecida, tanto para o conteúdo como para a forma.

 

Realmente, a Turquia ainda tem de andar muito até poder entrar na União Europeia. Pelo andar da carruagem, quando puder aderir já uma grande quantidade de países terá saído – por razões completamente diferentes.

 

José Couto Nogueira.jpg

 José Couto Nogueira



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 08:26
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Sábado, 26 de Dezembro de 2015
NEM POR OSMOSE – 1

 

Li em tempos que o Professor Marcello Caetano lia vários livros ao mesmo tempo e sempre associei esse hábito ao final político que a História lhe registou.

 

Creio difícil – se não mesmo impossível – fazer uma ligação lógica directa entre o dito hábito e o epílogo no Largo do Carmo mas, na verdade, mantive até muito recentemente o método de só ler um livro de cada vez. Seria esse um modo que arranjei de espantar fantasmas? Talvez, não nego. Até porque, como não sou supersticioso, só essa hipótese fantasmagórica resta.

 

Mas, agora que estou a ler vários livros ao mesmo tempo, arranjei uma desculpa que me parece muito lógica: uns são livros de consulta; outros são livros de correnteza. E dentre estes últimos, os de ler de fio a pavio, só leio um de cada vez.

 

Dos de consulta tenho ao activo o Dicionário de Filósofos (editado pelas Edições 70), Les 100 citations de la Philosophie, de Laurence Devillairs (PUF) e A Filosofia do Séc. XX coordenado pelo Professor Fritz Heinemann (pela Fundação Gulbenkian). Dos de correnteza, li há dias A um deus desconhecido de John Steinbeck (Livros do Brasil) e estou agora no pólo oposto a deliciar-me com Eu não venho fazer um discurso de Gabriel Garcia Marquez (D. Quixote). Num nível intermédio, meio consulta-meio correnteza, tenho o Outras cores de Orhan Pamuk (EDITORIAL PRESENÇA) que pode ser lido aos saltinhos uma vez que se trata de um conjunto de textos soltos que ele foi publicando aqui e ali mas que recentemente (2007) decidiu coligir em livro.

 

Ou seja, duma assentada, reuni na minha mesa-de-cabeceira três nobelizados e alguns Professores universitários.

 

E se os filósofos se vão entretendo com ideias a que previamente extraíram a mais remota ponta de humor e generalizam os conceitos de modo a que qualquer um de nós possa em qualquer circunstância «enfiar a carapuça», os nobelizados são muito mais humanos e integram-nos em cenários tão ou mais reais do que se nós próprios fossemos aos locais referidos. Como assim? Pois aí está a capacidade imaginativa, a urdidura das palavras, os conceitos despretensiosos que vão deixando por aqui e por ali... e nós, leitores, sempre livres de escolher os que nos servem e os que servem aos outros.

 

Steinbeck.jpg

 

Uma pequena amostra das frases de Steinbeck que me chamaram a atenção:

 

«... filósofo furioso, marxista pelo prazer da discussão.» (pág. 51) – a famosa dialéctica marxista;
«... ela tinha o cabelo tufado no alto da cabeça, mas continuava a comportar-se como professora.» (pág. 54) – professora tem cabelo acachapado e não há discussão;
«[ela] via-se a sair para ir à catequese em Monterrey e depois a tomar parte numa longa procissão de crianças portuguesas vestidas de branco marchando em honra do Espírito Santo (...)» (pág. 144) – a colónia açoriana na Califórnia na pena dum nobelizado sensibiliza qualquer português;
«... a vida não pode ser cortada repentinamente. Uma pessoa não pode estar morta enquanto as coisas que alterou não tiverem morrido. Os efeitos que provocou constituem a única prova de que esteve viva. Enquanto se conservar uma recordação, ainda que dolorosa, uma pessoa não pode ser posta de parte, morta. É um longo processo lento a morte de um ser humano.» (pág. 189) – o tema central do livro tem a ver com o espírito protector do pai do personagem principal que se instalara num grande carvalho e a desgraça se ter abatido sobre a comunidade quando um fundamentalista duma das inúmeras Igrejas americanas cortou a árvore.

 

Um livro sério em que o autor vai largando piadas que os leitores escolhem a seu bel-prazer, um tema muito espiritual que me pareceu esotérico mas admitindo que Steinbeck preferisse considerá-lo exotérico.

 

A ver se o manuseio de tantos nobelizados melhora a minha escrita. Ou será que nem por osmose?

 

Lisboa, 26 de Dezembro de 2015

 

Henrique no barco-Israel.JPG

 Henrique Salles da Fonseca
(navegando de Chipre para Israel, Março de 2014)



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 16:46
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Quinta-feira, 17 de Dezembro de 2015
A VERGONHA E O ORGULHO

 

Turquia.png

 

Oriundo, como sou, de uma família ocidentalizada da classe média de Istambul, tenho de admitir que por vezes também sucumbo à crença de que a pobreza e a fragilidade da Turquia derivam das suas tradições, da sua cultura antiga e das várias formas como organizou socialmente a religião – que embora bem intencionada, é curta de vistas e até mesmo simplória.

 

Os ocidentalizados sonham transformar e enriquecer o seu país e a sua cultura imitando o Ocidente. Uma vez que o seu derradeiro objectivo é criarem um país mais rico, mais feliz e mais poderoso, tendem igualmente a ser «nativistas» e fortemente nacionalistas; podemos certamente ver estas tendências nos Jovens Turcos e nos ocidentalizados da jovem República da Turquia. Mas, enquanto alguns dos movimentos simpatizantes do Ocidente se mantêm profundamente críticos relativamente a certas características básicas do seu país e da sua cultura – embora não o façam com o mesmo espírito e ao mesmo estilo dos observadores ocidentais – vêem também a sua cultura como defeituosa, por vezes até mesmo inútil. Isto dá origem a outra emoção muito profunda e confusa: a vergonha.

(...)

Quando tento compreender esta vergonha, esforço-me sempre por relacioná-la com o seu oposto, o orgulho.

(...)

É partilhando as nossas vergonhas secretas que alcançamos a libertação; foi isto que a arte do romance me ensinou.

 

Orhan Pamuk.jpgOrhan Pamuk

In «OUTRAS CORES», ed. EDITORIAL PRESENÇA, 1ª edição, Março de 2009, pág. 236 e seg.

 

 



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 18:38
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Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2015
MANON LESCAUT

 

Vontade de falar de “Manon Lescaut” do abade Prévost, que releio – na analogia do seu enredo de abismos com os que vivemos no nosso país – me deu a “Pluma caprichosa” de 28/11, de Clara Ferreira Alves. Uma história de «um amor grande como um mar sem praias», retirando-lhe o tom faceto que preside aos excessos descritivos vocabulares dos amores de Cesário Verde com a sua “triste Helena” do poema “Setentrional”. Um amor intenso, uma paixão absoluta, feita de todos os excessos e de todas as renúncias ao bom senso, ao respeito por si próprio, a quaisquer perspectivas de miséria ou fome ou frio, ou prisão, ou morte, ou rejeição social, intercalados os momentos de penúria, de abjecção, de dor, com os momentos de total harmonia e carinho amoroso, neste par original, bem distinto do Paulo e Virgínia ou até mesmo de Margarida Gautier, a dama das camélias, cortesã que igualmente morrerá, rejeitada que foi pela família do amado Armando Duval. Bem distinto ainda do romance epistolar de Choderlos de Laclos, “Les liaisons dangereuses”, e do seu requinte analista da libertinagem aristocrática do século XVIII, e da sua problemática psicológica que dita os comportamentos de perversidade ou sensuais ao longo da obra. Outras novelas se poderiam citar, quer na literatura inglesa, quer na francesa, sem excluir o “Werther” de Goethe, que havia na estante do meu pai e me acompanhou em leitura de adolescência, bem como as aventuras do engenhoso fidalgo Don Quixote da Mancha, ou mesmo o pícaro Don Pablo de Ségovie, “El Gran Tacaño” de Quevedo, creio que prémio escolar em tradução francesa que o meu pai recebeu em Macau, nos seus estudos liceais feitos ali, durante os anos de tropa.

 

«Un homme et une femme» do século XVIII, uma bela e triste jovem de dezoito anos, amada pelo jovem de boas famílias, des Grieux, que a salva do convento onde os pais a enviam para ser religiosa e assim reprimir as suas tendências de libertinagem que, em jeito fatalista, ela considerava virem a ser causa da sua infelicidade. Ambos escondem os seus amores, em promessas de dedicação mútua e definitiva. Incapaz de suportar a miséria, a frágil e volúvel Manon entrega-se a um senhor B que denuncia des Grieux ao pai deste, fazendo que seja recuperado pela família da qual só por astúcia em manifestações de mudança e esquecimento consegue livrar-se, decidido a seguir os estudos sacerdotais. A sua fama chega aos ouvidos de Manon que o visita no parlatório com lágrimas de humildade e beleza convincentes e justificações da sua traição só por amor por ele, efectuada, já que o senhor B pagava bem e ambos poderiam usufruir do sacrifício da dedicada Manon. A nova queda do futuro sacerdote é imediata e a história prossegue, nas ambiguidades de Manon, no seu desvelo amoroso, na indiferença pelo Mal, com o perdão de des Grieux, e o clima passional estigmatizante e avesso a quaisquer pruridos de bom senso, a que o amigo de Grieux - Tiberge – vai acudindo com conselhos e auxílio financeiro, mas o enredo evolui em divergências de felicidade e vício, favorecido este pela intervenção de um irmão de Manon – Lambert - figura de sordidez, oportunismo e falta de escrúpulos, ele próprio comandando as vidas dos dois jovens, nos seus truques de sobrevivência que manipulam a irmã e o beneficiam a ele.

 

Um discurso de primeira pessoa, tanto do narrador inicial, no presente, como do próprio narrador des Grieux, em retrospectiva de desabafo agradecido, pelo auxílio financeiro pelo primeiro prestado aquando do embarque para a América da doce Manon degredada, que des Grieux irá acompanhar, em grande dedicação mas em penúria extrema. Um livro de aventura rocambolesca, de prisões, degradações e truques mas de demonstração de um amor infinito, que tudo sofre na vileza mas igualmente no admirável de uma paixão superior a todo o preconceito. Manon Lescault.jpgO final da história refere uma Manon bem amante, fugindo para a selva com o seu amado por sua causa perseguido, ela cada vez mais debilitada, ele despojando-se das suas vestes para a cobrir e agasalhar e afinal a enterrar, deitando-se, seguidamente, semi-nu na campa que para ela cavou, na esperança de morrer também. Des Grieux acabará por ser salvo pelo amigo de sempre, Lambert, regressando a França, para retomar a vida.

 

Uma novela francesa do século XVIII como nunca produzimos em Portugal, mais votados aos lirismos, à epopeia, à literatura de viagens ou à prosa oratória ou historiográfica. A nossa produção novelesca apenas se iniciaria por alturas do romantismo, com vários participantes que também existiam na estante do meu pai, e que culminavam no burilador de enredos “leves” – os nossos preferidos, de minha irmã e meus – Júlio Dinis e a sua obra aprazível, de criatividade, sedução e o necessário conhecimento humano e de costumes, com sugestões de anti-clericalismo e de contemporaneidade, no apontamento social não zurzido a vergastadas excessivamente críticas, como o fariam os escritores neo-realistas do século passado, de que ainda hoje sofremos o efeito clamoroso e redundante.

 

Vem, pois, este assunto a propósito do artigo da “Pluma Caprichosa” de Clara Ferreira Alves – “Meu caro João Soares” - no qual aconselha o novo ministro da cultura a preservar os nossos escritores mortos, em novas edições completas e a passear os poemas dos nossos poetas nos autocarros da nossa indolência ledora. E recordei uma vez mais autores do século XX do meu desagrado, entre os quais Vergílio Ferreira que, mau grado a escrita vária do seu experimentalismo literário constante, nunca conseguiu atrair-me, no maçudo de um discurso de análise intimista ou abstracta, em busca dos porquês e dos comos das transcendências ocultas à percepção humana. E isso me levou a Manon Lescaut, uma novela clara, movimentada, não pretensiosa, mas denotando argúcia na descodificação dos caracteres, de contrastes fundos entre o muito amor e a muita perversidade, ou antes, a incapacidade de Manon de reconhecer o erro das suas atitudes menos convencionais, ou a singeleza com que des Grieux esquece as convenções, totalmente dominado pela paixão avassaladora.

 

E, muito embora reconheça o alcance duma tal medida de publicação das obras completas dos escritores consagrados, julgo que esses modernos já estão suficientemente consagrados, mau grado a multiplicidade de publicações que enchem as prateleiras das livrarias com toda a casta de livros. Por mim, caso houvesse dinheiro para gastar nesses autores, preferiria trazer à ribalta novamente as edições dos clássicos da Sá da Costa, que João Gaspar Simões em boa hora se lembrou de revelar e que tanta luz vieram trazer ao nosso espólio cultural, que, extinta a Sá da Costa, conviria repor. Para não morrermos ainda, em regresso às origens e detectar se valeu a pena.

Berta Brás.jpgBerta Brás



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 13:56
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Quarta-feira, 9 de Dezembro de 2015
SELMA LAGERLÖF

 

Selma Lagerlöf.jpg

 

Tenho-me lembrado de Selma Lagerlöf, apetecendo um livro bom, sem pretensões, nesta altura de tanta barafunda pouco criteriosa em que novamente nos encontramos a falazar, a decidir segundo normas que envergonhariam qualquer povo educado em sérios critérios de cidadania, responsabilidade, respeito e auto estima.

 

Vê-se que Selma Lagerlöf foi educada segundo esses preceitos que contribuíram, certamente, para a boa formação moral das crianças do mundo inteiro, sobretudo com o seu livro “A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersön através da Suécia”, de fantasia e sentimentos justos e passeios de encanto através dessa Suécia das suas lendas. Foi um livro que o professor de português da minha irmã, Duarte Marques, do Liceu Salazar de Lourenço Marques, aconselhara as alunas do 2º ano a ler, juntamente com os livros da Virgínia de Castro e Almeida “Céu Aberto” e “Em Pleno Azul” e que o meu pai logo se apressou a comprar, sempre colaborando na boa formação das filhas, apesar de não ser para larguezas o seu ordenado de Guarda-Fiscal na altura. É também por tudo isso que o recordo sempre, e mais agora que me apetece regressar a esse passado sem espectros ainda de futuros sombrios, como este em que se ouve dizer que a juventude portuguesa bebe mais do que as outras, as moças e moços universitários fazem concursos de bebida para recepção aos caloiros, e mais tarde vão ensinar alunos, ou tratar doentes ou defender causas, provavelmente sem nunca terem curado a bebedeira. E lembro a magia desses três livros que li e reli na minha adolescência, a que o Dom Quixote e os livros de Júlio Dinis da estante do meu pai e outros mais, acrescentaram o prazer da sua escrita e enredo criativo.

 

Na colecção de Prémios Nobel de Literatura publicada em tempos pelo DN, e que o meu marido adquiriu, encontrei um pequeno volume de Selma Lagerlöf – O Livro das Lendas – que já conhecia, e que reli, como forma de evasão, para mais uma vez me admirar com a evolução dos critérios para atribuição dos Nobel da Literatura, derivando quer para o rebuscamento frásico, quer para o factor político, ou apenas o enredamento dos jogos de nepotismo favorecendo tal atribuição.

 

Entre essas Lendas tão simples, que mereceram o Prémio Nobel, releio A Rapariga do Brejo Grande história de uma rapariga pobre que teve um filho de um homem rico que não reconhecia o filho, pronto a jurar falso em tribunal, de mão sobre a Bíblia, o que a pobre rapariga impediu, preferindo ser por ele desprezada e o seu filho destituído da ajuda paterna que ela pretendia obter em Tribunal, a deixá-lo cometer o sacrilégio de jurar falso, o que lhe valeria a condenação às penas eternas. O grito da moça humilde e chorosa merece-lhe a estima geral e a do próprio juiz e a atracção de um jovem, um pouco ingénuo, que acabará percebendo o sentimento que por ela nutre, embora enredado noutros amores mais favoráveis a um estatuto superior de proprietário considerado.

 

Uma história de amor e de bons sentimentos que jamais suporia dignos de um Nobel, história distinta, contudo, das novelas cor-de-rosa, pela seriedade de uma efabulação que é simultaneamente uma homenagem ao povo sueco mais humilde, na honestidade e firmeza do seu comportamento social, como as outras “lendas” revelam também, traços que igualmente definem a escritora Selma Lagerlöf, que desde a infância admiro.

Berta Brás.jpgBerta Brás



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 14:04
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Domingo, 6 de Dezembro de 2015
LITERATICES

 

 

Orhan Pamuk.jpg Foi Orhan Pamuk que me falou serenamente sobre Albert Camus e foi este que me apresentou Marengo. E quem é Marengo? Pois bem, não é uma pessoa mas sim uma povoação a cerca de 70 kms a poente de Argel e que apenas se assemelha com a terra natal de Camus por ser uma pequena povoação argelina e ambas se localizarem nem perto nem longe da orla costeira. Só que Dréan (Mondovi, no tempo de Camus) dista cerca de 700 kms de Marengo. Mas, dizem os entendidos, o escritor ter-se-á inspirado numa para contar sobre a outra.

 

Eis como em duas penadas fiquei a saber coisas que nunca me tinham passado pela cabeça ao sobrevoar a Argélia, país que o meu imaginário rotula de bisonho, povoado de imanes mandantes e tementes obedientes, sem uma missão, sem futuro, enfim, um posto de abastecimento de gasolina e gás. Mas, afinal, na Argélia vive-se. Ou melhor, viveu-se. Haverá hoje na Argélia alguém com vontade de dar uma gargalhada?

 

Camus.png Eu nunca tinha lido Camus, estreei-me com O Estrangeiro e, por sugestão de Pamuk, dei por mim a pensar no que é uma «escrita enxuta». Bem, é algo que a escrita dele próprio, Pamuk, não é totalmente. Camus é «pão-pão; queijo-queijo» enquanto Pamuk usa travessões, parênteses e pontos e vírgulas. Mas, faça-se justiça, nada que se compare com a escrita banhada pelas monções asiáticas de Immanuel Kant que mistura cinquenta assuntos num só parágrafo e o desgraçado do leitor que se entretenha durante o resto da vida a dividir orações e a tentar pôr uma certa ordem na confusão. E se, chegando ao fim, fizer alguma ideia do que esteve a ler, então merece ganhar um prémio. Mas como esse fim coincide com o fim da vida, nunca ninguém recebeu tal prémio. Ou seja, há muita gente a fingir que percebe Kant mas eu acho que não percebem nada. Mais: absolutamente nada! Kant andou 80 anos a gozar com o pagode e os profissionais da filosofia tentam enfiar-nos uns barretes com interpretações mais do que dúbias. Mas todo o mortal percebe Camus que não tentou enfiar barretes a ninguém e também por isso foi nobelizado em 1957. Pamuk foi-o em 2006. Kant, não.

 

E o que me disse Pamuk sobre Camus? Da pág. 167 e seg. de «Outras Cores» na edição de Março de 2009 da Editorial Presença, respigo: (...) aquilo que realmente condenou e destruiu Camus foi, sem dúvida, a Guerra da Argélia. Como franco-argelino, ficou dividido entre o seu amor pelo mundo mediterrânico e a sua devoção a França. Compreendendo as razões da revolta anti colonial e da violenta rebelião que desencadeara, Camus não podia assumir uma posição dura contra o Estado Francês, tal como Sartre fez, visto que os seus amigos franceses estavam a ser mortos pelas bombas árabes – os «terroristas», como eram chamados na imprensa francesa – que lutavam pela independência. E então escolheu nada dizer. Num ensaio comovente e compassivo, que escreveu após a morte do seu velho amigo, Sartre abordou o dilema íntimo e perturbador que Camus ocultou com um honrado silêncio.

 

Pressionado a tomar partido, Camus optou por explorar o seu inferno psicológico em «O Convidado». Este conto político perfeito retrata a política não como algo que escolhemos avidamente, mas antes como um acidente infeliz que somos obrigados a aceitar. É difícil discordarmos de tal caracterização.

 

Vou procurar «O Convidado» e por certo voltarei aqui.

 

E no meio de um Inverno, eu finalmente aprendi que havia dentro de mim um Verão invencível.

Albert Camus

 

Continuemos...

 

Lisboa, 5 de Dezembro de 2015

 

Henrique, navegando na baía de Cochim-NOV15.jpg

Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 10:36
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Terça-feira, 20 de Outubro de 2015
UMA BEBEDEIRA DE EXCEPÇÃO

 

 

«A IMPORTÂNCIA DE SE CHAMAR ERNESTO»

(comédia de Óscar Wilde)

 

earnest.jpg

 

https://www.youtube.com/watch?v=bOLD27G9JHc

 (filme completo)

 

Dissertar sobre um livro que nunca se leu é difícil mas quando deambulam por aí tantas recensões, a dificuldade atenua-se.

 

Por isso vamos sabendo que nesta comédia o tal Ernesto não existe pura e simplesmente e que duas Senhoras se deixam convencer estarem dele noivas num enredo que logicamente as conduz ao... celibato. Ou seja, muito stress e, afinal, tudo debalde.

 

Eis por que sempre considerei que a importância de se chamar Ernesto é nenhuma porque se conclui pela vacuidade: personagem inexistente e celibato das sempre-noivas.

 

Então, plagiando Isidore Lucien Ducasse, mais conhecido pelo pseudónimo literário de Conde de Lautréamont (Montevideu, 4 de Abril de 1846 — Paris, 24 de Novembro de 1870) e um dos escritores franceses mais refractários, (...) confesso que o considerei cheio de uma notável quantidade de importância nula...

 

Em todo o caso, não quero deixar de referir o trocadilho algo jocoso entre «Ernest» e «earnest» que a tradução portuguesa perde.

 

E, depois, tenho a acrescentar que não leio escritos de quem tenha opções de vida que nada me dizem. E porque Camilo Castelo Branco se suicidou, nunca o li. Uma excepção: Ernest Hemingway que se suicidou quando estava completamente bêbado na convalescença duma depressão. Por outras razões, também nunca li Truman Capote.

 

Outubro, 2015

 

Porto Santo-MAI15-B.jpg

Henrique Salles da Fonseca

 



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 14:14
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Domingo, 18 de Outubro de 2015
TEMÁTICAS PARA TODOS OS GOSTOS

 

 

Françoise Sagan.jpg

 

Releio livros antigos, aparentemente ligeiros, de Françoise Sagan, que, desde o seu «Bonjour tristesse», imediatamente desencadeador de escândalo e admiração, (esta última causada pela precocidade da escritora) protagonizaram um piparote nos costumes burgueses, encarcerados nos convencionalismos das chamadas hipocrisias sociais, impeditivas da transparência nas acções do foro pessoal e familiar. Estas, acondicionadas na ciência das conveniências, não impediram nunca, contudo, tantas das tais violências que uma sociedade machista possibilitou - e, ao que parece, continua a possibilitar, mau grado o travão que a defesa dos direitos humanos instituídos propõe.

 

As liberdades concedidas com o desenvolvimento cultural, as permissividades que as acompanharam, nos capítulos do feminismo, da prostituição, da homossexualidade, do desgaste das relações humanas, tudo isso perpassa sem convicção na obra de Sagan, em que, muitas vezes ela é figura principal, que encara cinicamente todas as questões morais ou amorais, na consciência da sua irrisão. Admiro-lhe, pois, o estilo, onde a psicologia se casa com o conhecimento humano resultante de experiência de vida, sem dogmas de verdades absolutas E as personagens surgem leves, sedutoras, ingénuas ou grotescas, e simultaneamente indiferentes, na sua intelectualidade que põe em causa todos os princípios da racionalidade, o ser afirmando-se superior a quaisquer princípios – caso dos irmãos suecos Sébastien e Eléonore, cínicos e belos e parasitas, tanto na comédia “Château en Suède” , como na novela “Des bleus à l’âme” traduzida em português como “Viver não custa”, em que surgem como cúmplices na procura de quem os sustente momentaneamente, aliciado pela sedução e indiferença que ambos revestem.

 

Estes e outros livros – “Aimez-vous Brahms?”, “Dans un mois, dans un an”, li-os há muito, como algo de novo que varreu concepções antigas e me ajudou a pensar, a voz da narradora, presente ou não, que se afirma na solidão irreparável da miséria humana, que as filosofias existencialistas tornaram mais percucientes. Vou-os relendo, sempre no mesmo encantamento, a “pobreza” não aparecendo entre as suas temáticas, na intelectualidade e bem-estar das sociedades que transpõe aos seus livros, desde os tempos recuados do seu “Bonjour tristesse”, no local paradisíaco da Côte d’Azur.

 

Pobreza é tema que amam os nossos escritores neo-realistas, na tristeza de uma pátria pobre e pouco intelectual, que amam os nossos deputados da esquerda com fins revestidos de uma generosidade ambígua, pobreza, o tema escolhido por Vasco Pulido Valente para a sua crónica de 11/10, clarificadora de mensagem e história. “A natureza da coisa”, assim se chama. Não mostra quanto é obscena, de facto, a pobreza, que, apesar dos tais direitos constitucionais, invade o mundo, com cada vez maior amplitude, lembrando o universo em expansão, de galáxias afastando-se. A riqueza em expansão, a pobreza em expansão. Tal o universo e as suas galáxias. Não deixa de ser obsceno, pese embora a nossa descrença nas intenções desses tais deputados da esquerda. Porque não atentam no facto de os que governaram quererem eliminar isso, tanto quanto possível.

 

Em minha humilde opinião, esses tais de que fala Vasco Pulido Valente estão ansiosos por generalizarem a pobreza a todo o país, quais galáxias expandindo-se no espaço.

 

Berta Brás 2.jpg Berta Brás

 

A natureza da coisa

Vasco Pulido Valente.png Vasco Pulido Valente

Público, 11/10/2015

 

A pobreza foi descoberta pelos filhos da burguesia no século XIX. Até ali não era visível, como hoje ainda em grande parte não é, ou era considerada uma característica geral da criminalidade.

 

Foi já em 1958 que o historiador Louis Chevalier escreveu um livro em que distinguia as “classes laboriosas” das “classes criminosas” e explicou ao mundo essa particular cegueira da civilização ocidental. Houve, evidentemente, desde o princípio da Restauração dos Bourbons (1815-1830) uma espécie de literatura que explorava o equívoco entre o “povo” bom e o “povo” mau, que a gente “com qualquer coisinha de seu” lia com delícia, cujo exemplo mais conhecido é “Os Mistérios de Paris” de Eugène Sue, mil vezes copiado e recopiado, mesmo por Vítor Hugo na obra épica “Os Miseráveis”, que continua a ser na forma de opereta ou na forma de filme um sucesso contemporâneo.

 

No século XIX descobrir a pobreza (como descobrir o sexo) mudou a vida a muita gente. Não só essa estranha revelação abria o caminho para a idade adulta e para a cidadania, mas porque o adolescente “rico” se sentia por uma vez parte da humanidade e frequentemente com a missão de a reformar. Claro que primeiro vinham os sentimentos: a indignação, a fúria, a tristeza, o ódio por uma sociedade que permitia aquela atroz miséria. Mas, com o tempo, esses sentimentos cristalizavam numa vontade de acção: ou se trepava para uma barricada ou se escreviam utopias “socialistas”, para inquietar os poderes do dia e aliviar os remorsos. E aqui nesta luta pela transformação do mundo, que se achava radical e definitiva, nasceu um equívoco perene.

 

Do genuíno sofrimento pela pobreza não derivam conclusões seguras sobre a natureza da história ou sobre o regime em que a humanidade deve viver. Pelo contrário, o sofrimento leva quase sempre a ideias que não têm um uso prático ou a planos que escondem ou ignoram a realidade. Basta ver a nossa extrema-esquerda. Não nego que andem por lá pessoas bem-intencionadas. Sucede que a noção de que os sentimentos chegam para reformar a sociedade e o fanatismo em que a acção de costume se perde e se transforma podem quanto muito produzir alguma destruição sem nexo, não podem mudar nada duradouramente. Não por acaso a extrema-esquerda (de qualquer pinta ou nascimento) se parece toda com uma igreja, com o seu zelo e o seu ódio teológico. São pássaros da mesma pena.

 

 

 

 



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 12:53
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Quinta-feira, 17 de Setembro de 2015
PARA ONDE VAI O AMOR QUE SE PERDE?

 

MM-KAFKA E A MENINA.jpg Giuseppe de Christofaro

 

Um ano antes de sua morte, Franz Kafka viveu uma experiência singular. Passeando pelo parque de Steglitz, em Berlim, encontrou uma menina a chorar porque havia perdido a sua boneca.


 
Kafka ofereceu ajuda para procurar a boneca e combinou um encontro com a menina no dia seguinte no mesmo lugar.

 

Incapaz de encontrar a boneca, ele escreveu uma carta como se fosse a boneca e leu-a à garotinha quando se encontraram. “Por favor, não chores por mim, parti numa viagem para ver o mundo”.

 

Esta foi a primeira de muitas cartas que, durante três semanas, Kafka entregou pontualmente à menina, narrando as peripécias da boneca em todos os cantos do mundo: Londres, Paris, Madagáscar…

 

Tudo para que a menina esquecesse a grande tristeza!

 

Esta história foi contada a alguns jornais e inspirou um livro de Jordi Sierra i Fabra (Kafka e a Boneca Viajante) onde o escritor imagina como teriam sido as conversas e o conteúdo das cartas de Kafka.

 

No fim, Kafka presenteou a menina com uma outra boneca. Ela era obviamente diferente da boneca original.

 

Uma carta anexa explicava: “as viagens transformaram-me…”.

 

Anos depois, a garota, agora crescida, encontrou uma carta enfiada numa abertura escondida na querida boneca substituta. O bilhete dizia: “Tudo o que você ama, eventualmente perderá, mas, no fim, o amor retornará numa forma diferente”.

MM-May Benatar.png May Benatar

in “Kafka and the Doll: The Pervasiveness of Loss” (publicado no Huffington Post)

 

 



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 00:07
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