Segunda-feira, 20 de Julho de 2015
FILOSOFIA MACABRA DA VIDA

 

Chien de Printemps.jpg

O livro foi-me emprestado pela minha nora Paula. É de Patrick Modiano, chama-se “Chien de Printemps”, galardoado com o prémio Nobel de Literatura de 2014. Éditions du Seuil, texto integral de cerca de 120 páginas. A primeira reacção foi de espanto: livro tão minúsculo merecedor do Nobel! O José Saramago daria pulos na tumba, embora outros “Nobel” se irmanariam em comunhão de tamanhos. Um escritor nascido em 1945, autor já de várias obras e vários prémios, um livrinho que corre mundo, transportando o seu Nobel, numa escrita simples, num entrecho quase diria nulo, de vidas que se confundem na distância do tempo, nos encontros do acaso, um livro de charada que nada pretende esclarecer porque não é seguro de verdade alguma, a insignificância do viver humano, como simples passagem, em divergências dos seres e simultaneamente nas suas equivalências ou afectos, histórias de vidas subentendidas nos próprios silêncios, a memória recuperando, a espaços, a maior ou menor relevância dos encontros, ou das situações.

 

Francis Jansen, a personagem central de quem se vão contar coisas, nos solavancos da vida, de quem pouco se sabe mas que deixou marcas, talvez em mulheres que o amaram, talvez no amigo que morrera, sem dúvida no narrador por ele retratado, quando tinha dezanove anos – “au printemps de 1964, et je veux dire aujourd’hui le peu de choses que je sais de lui.” – é parte do primeiro período e parágrafo. Outras fotografias serão tiradas, com uma Rolleiflex, a este e à namorada, “deux adolescents anonymes et perdus dans Paris”. A visita ao atelier de Jansen, uma breve abordagem do seu mundo de três malas e duas fotos – uma de Colette Laurent, outra dos dois amigos Jansen e Roberto Capra na Alemanha de 1945, Capra que o narrador conhecia pela referência à sua morte na Indochina. A sugestão de partida eminente que as malas denunciavam, o espaço de trinta anos para o retomar das referências, sugeridas pelo repegar na foto de 1964. A perseguição da lembrança, a busca de dados sobre Jansen, a lembrança do seu dito ao saber que o rapaz da sua foto pretendia vir a ser escritor, actividade que ele considerou a “quadratura do círculo”, visto que ele, com a sua de fotógrafo, pretendia apenas o silêncio. E pôs-lhe o desafio de recriar o silêncio com as palavras, os sinais de pontuação mais expressivos sendo para ele as reticências.

 

E foi assim que o jovem se tornou uma espécie de arquivista das fotos das três malas, que testemunhavam “gentes e coisas desaparecidas”. As gentes presentes, “une certaine Nicole”, Jansen não desejava encontrar, talvez no acabrunhamento da morte de Capra e de Colette Laurent, esta última conhecida do narrador, nos seus dez anos, quando passeava com a mãe, desaparecida no espaço, retomada ainda no tempo, alguns anos após.

 

E a narrativa vai rodando, em descritivos e referências, nos desenhos das fotos de Jansen, avolumando o mundo das coisas pequenas – plantas, uma teia de aranha, a concha de um caracol, pequenas ervas onde corriam formigas, a bota do fotógrafo. Ou os espaços amplos dos contrastes de cores, o branco da neve com o azul do céu, os prédios desertos, em que Paris parece abandonada, a busca de uma felicidade perdida para sempre… Mas os ruídos voltam de repente, casos são contados pela multidão, de histórias da vida, as palavras tornam-se puras onomatopeias, do narrador não restará senão “l’imperméable que je portais, roulé en boule, sur le banc”, o nada, a náusea de tudo o que se é ou supõe ser. O próprio Jansen poderia ser outro que, segundo os arquivos da sua terra natal já estava morto e tinha outra história. Et l’ombre de ce double, conclui Jansen, finit par se confondre avec nous.

 

Uma história simples, um pensamento de tragédia nele implícito, o macabro da condição humana. Chien de Printemps, expressão de Jansen, o título do livro de Patrick Modiano, Nobel de Literatura de 2014.

 

Berta Brás.jpgBerta Brás



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 02:46
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Sexta-feira, 29 de Maio de 2015
«DEUS E O DIABO É QUE ME GUIAM»

 

Sartre.png Duas peças de teatro de capas escurecidas pelo tempo, que me vêm dos anos 60 em África e que releio com mais atenção: “Jacob e o Anjo” de José Régio, “Le Diable et le Bom-Dieu” de Jean-Paul Sartre. Ambas peças de tese, a primeira aplicando o conceito místico da luta do homem consigo próprio, nos seus medos e demónios, Jacob terreno em desassossego permanente, vencedor por uma noite desse Anjo que afinal o elevará, reconhecendo-lhe a força espiritual, quais Julião Hospitaleiro ou o Santo Cristóvão levados para Deus por Cristo Redentor.

 

Também a peça de Sartre, publicada em 1951, (e sigo o texto da colecção “Le Livre de Poche” desse mesmo ano, da Librairie Gallimard), explora o conceito, grato aos escritores existencialistas, do Bem e do Mal equivalendo-se, num espaço de lutas, desafios e sofismas entre a maldade e a procura da santidade, numa época de desabamento de estruturas e valores, como esse da 2ª Guerra Mundial por que tinham passado os escritores do existencialismo. Através do seu teatro, pôde Sartre difundir, de forma mais acessível, a sua ideologia que tanto atraiu os jovens dessa geração e posteriores.

 

Um homem poderoso e sem escrúpulos, Goetz, bastardo de casa senhorial, o maior guerreiro da Alemanha, no século XVI da Reforma luterana, participa inicialmente nas lutas do povo, em Worms, luta conduzida por seu irmão Conrad, contra o Arcebispo e a Igreja, traindo-os seguidamente, matando o irmão, mas decidido a arrasar a cidade do Arcebispo, por desafio a Deus e desejo de fazer o Mal, num desprezo total por tudo e todos. Convencido pelo cura Heinrich de que o Bem é mais difícil de construir do que o Mal, decide criar, nos domínios que herdou, uma ”cidade do sol”, fazendo unicamente o Bem, numa pretensão, ainda, desafiante e mistificatória, de falso profeta, tomando os estigmas de Cristo para si, por meio do punhal com que cortou as mãos, para salvar a amante Catherine do inferno, assumindo os pecados desta, antes de esta morrer, pecados de que ele próprio fora responsável, ao entregá-la anteriormente aos vilipêndios dos homens.

 

O VII quadro (a peça, sem unidade de tempo nem de espaço, tem onze quadros, de interior ou de exterior, conforme as cenas se passam em salas (do Arcebispo), igreja ou acampamentos), explora, na “Cité du Soleil”, du bonheur, onde só o Bem é permitido, o conceito de que só o olhar dos outros existe, desaprovador (o olhar de Hilda), (segundo máxima de “Huis Clos” (1943), de que “l’enfer c’est les autres”). Mas a revolta dos camponeses contra a Igreja, algum tempo dominada pelo medo desta, vai rebentar de novo, após as ficções de bondade de Goetz: “Agora os profetas pululam. Mas são profetas da ira, que pregam a vingança.”, dirá Nasty, incitando Goetz a pegar novamente em armas. As cenas finais são de extrema violência nos conceitos e nos actos – Goetz mata Heinrich que o vem julgar, desmistificando o seu comportamento de fantoche no Mal e no Bem, no vazio do mundo sem Deus:

Goetz, Sartre.jpg«Goetz: E porquê este silêncio? Ele que se mostrou à burra do profeta, porque recusa Ele mostrar-se a mim?

Heinrich:Porque tu não contas. Tortura os fracos ou martiriza-te, beija os lábios de uma cortesã ou dum leproso, morre de privações ou de voluptuosidades: Deus está-se borrifando.

Goetz: Quem conta, então?

Heinrich: Ninguém. O homem é nada….»

 

Assim, nem o Mal nem o Bem contribuem para vencer a sua solidão de homem que descobre que Deus não existe. Retoma, afinal, a antiga determinação de combater, proposta por Nasty, à frente dos camponeses insubmissos, um homem “em situação”, adaptado às circunstâncias, decidido a matar quem se lhe opuser:

«Goetz:“ Nada receies, eu não fraquejarei. Causar-lhes-ei horror visto que não tenho outro modo de os amar, dar-lhes-ei ordens, porque não tenho outro modo de obedecer. Ficarei só com este céu vazio por cima da minha cabeça, porque não tenho outro modo de estar com todos. Há esta guerra para fazer e eu vou fazê-la.»

 

Premissa da corrente existencialista: O Homem é aquilo que faz, o Homem é aquilo que ele próprio se faz. Sem necessidade de Deus. Na responsabilidade dos seus actos.

 

É de 1941 a primeira edição de “Jacob e o Anjo”, (Primeiro Volume de Teatro), de José Régio, a 2ª de 1953, a 3ª, que sigo, de 1964, da Portugália Editora: “JACOB E O ANJO” mistério em três actos, um Prólogo e um Epílogo.

 

Como curiosidade, transcrevo a informação nela contida : « Esta peça subiu à cena pela primeira vez em Paris, no “Studio des Champs-Eysées”, na noite de 31 de Dezembro de 1952, numa adaptação de J. B. Geener feita sobre a tradução integral de André Raibaud”.

 

Um drama de estrutura una de acção tempo e espaço (palácio, em três cenários diferentes), baseado no versículo bíblico sobre a luta simbólica de Jacob e o Anjo: «Ficou só; e eis que um varão lutava com ele até pela manhã. – Génesis, cap. 32, v. 24), e tendo como fundamento dramático, o caso do Rei Afonso VI, traído pela mulher (Maria Francisca Isabel de Sabóia) e por irmão Pedro II, a pretexto da incapacidade daquele de gerar filhos.

 

Um Prólogo em discurso didascálico, situando a acção no espaço do quarto onde dorme o Rei, acordado pelo Anjo em cenário de luta sobre o leito, formando espécie de bailado de contraste entre o grotesco aterrado da atitude real e o sublime dos gestos do Anjo (papel, naturalmente, desempenhado por um bailarino de qualidade).

 

Com o grito de terror do Rei, começa o 1º Acto, já em plena manhã, e as sucessivas interpelações coléricas do Rei aos Guardas, que acorrem solícitos ao seu apelo de “Socorro!” e são várias vezes desfeiteados por um Rei cruel, disfarçando o medo contido no seu grito, aquando da figura do Anjo presente na janela, como pretexto para conhecer a dedicação dos Guardas servis, na frustração do seu desaparecimento da mesma janela, que o faz passar por louco aos olhos das sucessivas personagens.

 

Um Primeiro Acto, pois, com o desfilar das figuras ligadas ao Rei – Generalíssimo, Físico, Rainha, Poeta Oficial, Sumo Sacerdote, Juiz Supremo, além dos Guardas, vítimas da violência e do desprezo reais - alternando as suas falas, caracterizadas, dum modo geral, pelo pretensiosismo de uma superioridade arrogante, ou o pedantismo do discurso empolado, no caso do Poeta, ou a afectação e ironia do discurso da Rainha ao Rei ou ao Bobo, com a saliência dos discursos irreverentes do Anjo no papel de Bobo, terminando o Acto com a condenação dos Guardas e a expulsão do Bobo, que fora tentando, baldadamente, esclarecer o “Rei do baralho de cartas” da sua designação chocarreira, sobre a sua essência imaterial.

 

O Segundo Acto passar-se-á nos aposentos da Rainha, adornado com sobriedade e bom gosto, sem marcas de época, elementos de um cenário intemporal. Os assuntos são em torno da deposição do Rei, a pretexto das suas visões e incapacidades governativas: o diálogo “de salão”, entre a Rainha e o Duque irmão do Rei (futuro D. Pedro), este, galante e cínico, com o aparecimento inesperado do Bobo trocista, perante a cólera da Rainha, seguidos do Sumo Sacerdote, o Generalíssimo e o Juiz Supremo e os seus discursos melífluos (do Sacerdote) ou mais directos, na trama sobre a deposição do Rei. O Bobo intervém de novo e é mandado prender pela Rainha. Mas após a saída dos três representantes do poder, A Rainha volta a chamá-lo, insinuando-se, coquette:

« … Desde que chegaste que sonho o momento de me revelar, de me entregar… Mas quando hoje vieste, sem eu te chamar, estava dentro de outro papel, era outra… E foi sinceramente que me indignei, suponho. Aqui está, Demónio! Demónio ou Anjo, meu querido… Sonhei que só tu serias capaz de me fixar. Estou a falar-te como nunca falei a ninguém. Quero entregar-me como nunca me entreguei… Piedade! Não brinques comigo! Eu também sou infeliz… Como ninguém sonha que sou! (escorrega nas almofadas, estende os braços, está de joelhos no chão).

BOBO: (com doçura); Todos os seres humanos são infelizes. E cada um tem a sua maneira particular de o ser. Por isso cada um está absolutamente a sós com o seu sofrimento. A vida de cada um é um deserto inatingível aos outros desertos. O Espírito é que a todos acompanha. Não é o mesmo céu que paira sobre todos os desertos? Sofre, mulher. Só o sofrimento mostra à maioria dos humanos a companhia do Espírito. Sofre e levanta os olhos…

RAINHA (ergue-se violentamente): Não me fales essa linguagem ridícula! Não a entendo!......»

…….RAINHA: …. Não chamei esses homens senão para estar segura da sua fraqueza, da sua cupidez… senão para os manejar em meu proveito. São nojentos! Eles todos! E agora só quero tudo para te dar; para te dar tudo, meu amado! Avalias o que te ofereço? Sabes o que te dou?

BOBO: -Está lá no livro: um prato de lentilhas…

 

A cena dramática prossegue, o BOBO tentando chamar à razão a “pobre mulher”: «Pois sofre, mulher; pois luta; pois levanta-te; pois afirma-te e contradiz-te! Mas inútil será qualquer dos teus múltiplos subterfúgios… Mas Deus não pode ser enganado. Deixo-te na tua solidão. Assim continuarei a lutar contigo até ser vencido ou realmente vencer…»

 

E a história que dá o título ao drama:

BOBO ( com muita brandura): - Queres que te conte uma história? Uma breve história? Sempre os humanos embalaram a dor ou taparam o tédio com histórias… Ora ouve: Era duma vez um homem astuto que já enganara o pai e o irmão para obter privilégios sagrados. Claro que se chamava Jacob. Ora um dia o Senhor Deus viu este homem e pensou: «Manha não te falta para enganar os teus parentes. Se além disso és capaz de vencer qualquer dos meus Anjos, estás apto a ser um dos reis da Terra, o chefe dum grande povo…» Não vou jurar que o Senhor Deus se exprimisse tal qual eu. Mas o que é certo é que mandou descer à Terra um dos seus Anjos mais robustos…

RAINHA: Cala-te! Não te posso ouvir. …..

 

Segue-se o encontro com o Rei, em cena de retrospectiva das desilusões da Rainha, à sua meiguice sucedendo a fria justificação da destituição do Rei, caso não aceitasse a proposta da sua abdicação, o que provoca a cólera daquele e a ordem da Rainha aos Guardas para que o algemem, e o guardem à vista, “com as honras devidas”.

 

O espaço do ACTO III é o quarto da prisão perpétua do Rei, sombrio, com um tocheiro ao centro iluminando a cena, cadeirões de coiro nos cantos, um tapete, o rei deitado no chão sobre o ventre.

 

Diálogo inicial com o Bobo irónico, um Rei desfeito de ira, vergonha e dor, atraiçoado por todos em quem acreditara. Estes surgem e justificam-se perante o Rei, algumas cenas caricatas, o Rei querendo desfazer-se do Bobo, preso de terror, finalmente aceitando-o, tendo compreendido: «Mas eu estou pronto, meu Senhor! Cumpre em mim a tua vontade. Leva-me enquanto me alumia este raio da tua graça! Leva-me contigo e depressa… tenho pressa…

BOBO: Já não é a mim que deves dirigir essas palavras.

REI: Ensina-me então a palavra do Silêncio…

 

O Epílogo, de desmistificação do sagrado pelo profano caricato:

FÍSICO: Parece-me que desta vez está pronto

ENFERMEIRO: Melhor para todos. Já cá não fazia nada, coitado!

FÍSICO: Nada. Só dava trabalho.

ENFERMEIRO: Ainda resistiu bastante! Resistente era ele; como todos os maus, Deus lhe perdoe. …

 

Duas peças de teatro quase contemporâneas, tratando a temática da condição humana, Numa perspectiva teológica convencional o drama de José Régio, de grande nobreza e equilíbrio. Numa perspectiva agnóstica, naturalmente, a peça de Sartre, provocatória, indiciadora de novos tempos revolucionários.

 

Berta Brás.jpgBerta Brás



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 04:34
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Sexta-feira, 15 de Maio de 2015
O VELHO JANUÁRIO

 

Fazia um calor do cão. Seco, de torrar a cabeça de quem não usasse chapéu.

 

Na casa onde nascera, no sertão da caatinga, o velho Januário, que há anos vivia sozinho, festejava com a família os seus 100 anos, com o sol, implacável como sempre, a castigar os valentes que por ali se atrevessem a estar, pior, a ficar. A perder de vista um juazeiro aqui outro mais além, espinhosas anãs e corcundas com os galhos secos a desafiarem a canícula, a terra vermelha.

 

Casa velha, velhinha, cheia de remendos, sempre cuidada e limpa, telhado sem goteiras, aliás inúteis porque a chuva ali o seu Januário dizia que não caía coisa que se visse há mais de ano, numa tosca mesa umas imagens da Senhora da Conceição e de Aparecida, ao lado das fotos da mulher e dos filhos e uma em que quase nada já se via, do dia do seu casamento. Na parede um velho crucifixo e um poster amarelado do Bom Papa João XXIII.

 

FGA-Januário.jpg

 

Tava rijo e são o bom do velho, cabelinho branco, ralo e de uma alvura linda, calejado e tisnado, cara bem enrugada, sabia que aquela figura, esquelética, escondida debaixo dum capuz e com a foice na mão, há tempos lhe rondava a vida. Não se amedrontava, nem pensava nisso. Esperava, tranquilo, a hora para ir ter com a sua saudosa e querida esposa com quem vivera perto de setenta anos e também com alguns dos filhos que se lembraram de partir mais cedo. Mas continuava todos os dias, sem jamais descansar, a procurar desde antes do raiar da aurora, um pouco de grama ou o que pudesse não deixar morrer de fome três ou quatro cabeças de gado, já que as cabras bem se desenvencilhavam comendo tudo e as galinhas ciscavam em todo o canto.

 

Nesse dia juntou quase toda a família. Filhos e filhas, noras e genros, netos e bisnetos, vieram de todo aquele sertão, uns quantos da cidade, dois até da capital, juntar-se à festa. Naquele grupo havia já um médico, advogados e comerciantes. Raros os que se mantiveram agarrados a um pedaço inóspito e ingrato daquelas terras. Não trouxeram presentes que o velho desprezava, mas comida e bebida para que todos vivenciassem com alegria tão importante momento. Vô Januário matara até o último porco, magro, que comprara ainda leitãozinho já a contar com este dia.

 

Netos e bisnetos nem todos se conheciam, e o encontro foi motivo de grande satisfação.

Os mais velhos, idosos, aposentados, procuravam relembrar momentos da infância e adolescência vivida naquele casebre onde se criaram, as brincadeiras que inventavam e os trabalhos para ajudar os pais, enquanto a garotada não parava de brincar e correr em volta da casa, procurar “novos” bichinhos pelo ralo mato em derredor, e o anfitrião feliz e agradecendo a vida que teve, dura, privado de conforto, mas que lhe dera uma prole magnífica. Revia-se nos filhos, admirava o tamanho dos netos já adultos e enchia-se de ternura com os bisnetos a quem acariciava e abençoava com as suas mãos calejadas.

 

Fora da casa estacionavam, pacientes, os vários meios de transporte que os descendentes usaram para ali chegar: uns jegues, uma mula, duas carroças e até, para espanto de alguns, três automóveis.

 

Bem comidos e bebidos, a conversa começava a perder a vivacidade e diminuir de volume sonoro porque o estômago lhes absorvia parte da necessária energia, alguns roncando num canto do casebre.

 

Vô Januário desde o ano anterior havia começado a preparar uma boa pinga, da melhor, porque 100 anos não se festejam sem grande festa, e não deixava de acompanhar os vários brindes de “saúde” e os “tchim-tchim” com que os presentes o brindavam, desejando-lhe ainda muitos anos de vida.

 

Aguentava ele bem o tranco, as peles da face mudavam do tisnado para um bonito tom de rosa escuro, quando pediu que todos se calassem. Queria dizer-lhes alguma coisa que era importante.

 

Fez-se silêncio, mandaram que se aquietassem as crianças ou fossem para longe, o avô ia falar!

 

Vô Januário, sentado num banco um pouco mais alto, a família como que em anfiteatro, olhou para todos com um sorriso de alma limpa, e na sua foz rouca:

 

Meus filho, netos e bisneto. Todos sabem, ou deviam saber que nesta casa, construída com muito suor e sacrifício pelo meu pai que Deus tem, foi onde eu nasci. Nunca daqui saí a não ser as poucas veiz que fui à cidade, onde sentia que não era lugar para mim, habituado a esta simplicidade, pobreza, sim, também, mas onde nunca se viu alguém faltar ao respeito aos pais ou até entre irmãos. Todos cresceram à sombra da palavra que sempre honraram. Nesta casa nasceram os nove filhos, que só seis ainda aqui estão porque o Pai do Céu achou que precisava lá no Alto de mais alguns anjinhos para o ajudarem.

Há algum tempo, que para mim tem sido muito e difícil de suportar, a vossa mãe foi encontrá-los e sei que estão todos Lá à minha espera. Irei quando o Senhor Deus, o Pai do Céu, quiser.

 

Desta terra seca, cheia de pó voando quando entram os ventos, terra de retirantes e pobreza, com muito esforço e muita fé conseguimos tirar o suficiente para criar os seis filhos e filhas que sobreviveram. E que foram à escola aprender o que os mais velhos nunca conseguimos.

 

Foi a natureza que nos deu tudo, até a coragem para não baixar os braços e não desanimar na luta permanente.

 

Falta pouco para a “malvada com a foice” me vir buscar. Há muito que a aguardo, e às vezes, de noite, sonho com ela e sorrio, o que a deve deixar muito desanimada. Prova disso é que não aparece! (Risos da família). Mas ela é teimosa e ninguém pode fugir dela muito tempo.

 

Uma coisa vos quero pedir, e que levem muito a sério.

 

Foi esta natureza, seca e dura, que, como disse, nos deu toda a vida que levámos. A ela devo tudo quanto fui e quanto tenho.

 

Quando eu fechar os olhos, quero que me prometam que me ajudarão a pagar-lhe o muito que recebi.

 

Não quero funeral, nem caixão, nem velório, nem velas acesas, nem cemitério. Nada disso.

 

Envolvam o meu corpo, nu, nuzinho, pelado de tudo, num pano velho e vão depositar-me lá no alto daquela elevação. Deitam-me de barriga para o ar, tragam o pano de volta e deixem-me ali ficar.

 

Aquilo que recebi vou devolver aos urubus, corvos, formigas, minhocas e quem sabe até a um lindo lobo guará, ou mesmo à rainha do mato, a onça-pintada. Assim conseguirei saldar parte da minha dívida.

 

Os ossos, com o sol forte e inclemente e o tempo quente, acabarão também em poeira.

 

Para o caso da papelada, vocês vão dizer que quando aqui voltaram não me encontraram, ninguém sabia de mim, que há muito não me viam, e que eu deveria ter morrido andando lá no meio do nada.

 

Também tudo quanto tenho para vos deixar é este pedaço de terra que não vale um mirréis furado!

 

Não se preocupem. A partir do momento que fechar os olhos, o velho Januário não vai preocupar-se mais com as coisas deste mundo. E vocês, quando pensarem em mim, não é para se lembrarem dum velho quase sem dentes, mas do que vos ensinei e do exemplo que procurei dar-vos.

 

Sois todos gente honrada.

Que mais posso eu pedir a Deus?

 

31/03/2015

 

Francisco G. Amorim-IRA.bmp

Francisco Gomes de Amorim



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 00:05
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Terça-feira, 24 de Março de 2015
AINDA O LIVRO DE JOÃO MAGUEIJO

 

bifes mal passados, magueijo.jpg Nunca fui a Inglaterra e poucos ingleses conheci. Conheci o John, que vivia na África do Sul, com a Carol, um casal de uma educação modelar a quem acolhemos na nossa casa numa altura em que houve cheias em Lourenço Marques. Como tinham vindo a férias em roulotte, os amigos de estúrdia – o Rui, o Raposo, não sei se o Knopfli também – revezaram-se para os ajudar durante as férias, alagadas por vários dias. Discretos, educados, de uma alegria feita de contenção e sensatez, diferente da estridência que os amigos portugueses punham nas suas graças de boémia galhofeira, embora generosa e acolhedora. Um casal exteriormente belo, correspondendo a uma beleza interior, como me pareceram mais tarde os pais da menina inglesa Maddie, passeando a sua tragédia de mãos dadas e forma aprumada e tensa, a impor ao mundo a sua dor real, suscitando no mundo uma real piedade. E todavia, não ignorei que esse mundo lhe proporcionou bons ganhos, anualmente, quando se despoletava nova arremetida em busca do mistério do desaparecimento de Maddie, e voltava a encontrar esses pais sempre belos, sempre unidos, sempre trágicos e contidos, com a televisão acompanhando-os, e creio que amigos britânicos poderosos também, castigando o polícia português – que ousara desmistificar o mito, ao alvitrar diferente solução para o caso – enviando os seus farejadores ingleses – homens e cães – num desprezo superior pela polícia portuguesa ineficiente. Lembrei novamente o mediático caso, que me fez suspeitar de que talvez Magueijo não falseasse a verdade na sua crítica acerba, estranhando, contudo, que cuspisse assim na mão de quem lhe estendera os braços para a ciência e para o emprego, e que, apesar disso, o continuava a aceitar desportivamente.

 

Também Garrett descreve os ingleses, ou antes, as misses inglesas das paixões de Carlos anteriores ao enamoramento com Joaninha. E Eça, nas “Cartas da Inglaterra”, nos traços de cupidez e domínio imperial britânicos, e em que o “Times” surge como exemplo da inflexibilidade e convencionalismo vitorianos por vezes comprometidos com uma tal partida alheia maliciosa, manchando-lhe a reputação. Ou no próprio “Os Maias”, o exemplo de um Craft de carácter e sensibilidade superiores, no tipicismo da sua fleuma contrastando com a vibratilidade espirituosa e exaltada de Ega ou com a pose pedante e vazia dos Gouvarinhos oficiais portugueses. Ou as figuras de “Uma família Inglesa”, de Júlio Dinis, a impecável e extremosa miss Jenny, o seu convencional e rígido pai, Mr. Whitestone, contrastando com o leviano mas sensível irmão e filho Carlos, que o amor regenera romanescamente para o trabalho e a responsabilidade familiar. Uma sociedade de bons princípios burgueses, que Júlio Dinis colheu nas leituras de Jane Austen, das irmãs Brontë, e que retomamos nas velhas misses Marples e outras personagens da Agatha Christie, quer dos livros quer do cinema, bem como em tantas figuras do cinema britânico, que nos fizeram estimar ou repelir a rígida sociedade aristocrática inglesa, que Óscar Wilde – sobretudo – é perito a descrever, quer nos comportamentos quer através das falas de personagens, exímias na exploração do paradoxo e da sátira a essa própria aristocracia a que pertence. Num plano mais realista, percorremos com Charles Dickens não só os sombrios caminhos da nevoenta Inglaterra – que os filmes sobre Sherlock Holmes igualmente mostram, bem como os contos fantásticos de Edgar Poë – como certos antros de miséria material e moral, perversa ou burlesca das classes mais desprotegidas.

 

Contudo, a “loira Albion” surge no meu espírito sempre na sua altivez e riqueza interior que a nós próprios, portugueses, originou uma família de Avis marcada pelo génio, pela mão materna de D. Filipa de Lencastre, “ínclita geração” de quem dependeu a descoberta do mundo para lá dos mares, mundo que, de resto, os ingleses, mais do que os outros povos, avassalariam, com a sua cultura, a sua língua, a sua civilização, colhendo nele os frutos da sua ambição poderosa e organizada, e deixando nele as marcas civilizacionais específicas, derrotados embora pelos protestos dos pacíficos Gandhis que não aceitaram a humilhação.

 

Eis os motivos da minha discordância com o livro “Bifes mal passados”, de João Magueijo. Talvez se eu tivesse que lá viver, também sentiria, na pele rebelde, certa zanga explícita nesse livro, contra a arrogância da discriminação social, em que são peritas as classes mais aristocráticas, tema igualmente das ironias de Eça. Mas conheço pessoas que lá viveram ou vivem e se deram muito bem. A minha irmã é das que lhes tem aversão, e concordo que ela sabe muito.

Berta Brás 2.jpg Berta Brás

 

 



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 08:03
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Domingo, 15 de Fevereiro de 2015
UM LIVRO ENCANTADOR

 

O meu irmão.png

 

Um livro sério, no seu tom tantas vezes faceto, um livro muito belo, na sua temática sobre uma doença que escolhe um filho para desgraçar uma família, unida em todo o caso no amor centrado nesse, incapacitado para uma vida de racionalidade, mas não para ser como meiga bênção apaziguadora e redentora dos sofrimentos dos que o amam. «O meu irmão”, um livro de Afonso Reis Cabral, Prémio LeYa 2014.

 

Afonso Reis Cabral.png

 

Uma vez mais uma acção de intriga ziguezagueante, com deslocações frequentes nos espaços e nos tempos, tempo presente o do Tojal dos começos da narração, o qual vai alternando com evocações dos tempos e espaços passados, ordenados por capítulos não numerados, a justificar a amálgama indiferente dos acontecimentos vividos, todos eles correspondendo-se na catástrofe de um ser deficiente na família, tempo de memória ao sabor do pensamento, centrado sobretudo nesse irmão Miguel, menino por vezes amável, por vezes birrento, e sempre amado com pleno amor. E nessa disparidade de eventos do passado ou do presente, nos capítulos sem numeração, vão alternando igualmente comentários em letra diminuta, como que pronunciados entre dentes pelo narrador, como espectador fora do contexto, em pensamento percuciente aclarando ou justificando procedimentos, poetizando-os, ironizando-os, ou mesmo introduzindo novos dados narrativos.

 

E a narração desse mundo passado, justificativo do seu mundo presente, assim vai surgindo em episódios, que a sensibilidade do narrador, feita de um misto de dorida revolta pela condenação sem culpa, que criou dureza, e um amor absoluto pelo irmão, vai envolvendo na poeticidade do seu discurso, também caricato, também de crítica, como disfarce de sentimentos que não pretendem resvalar em pieguice, outras vezes de um descritivo conciso, de beleza e precisão figurativa: ”Ponte da Telha é uma farpa humana nas costelas do monte”. Mundo da infância, da adolescência, com os pais e irmãs e o irmão mongolóide, a dor disfarçada em sorrisos de muito amor, as conveniências da família por vezes sobrepondo-se, como naquela semana passada na praia da Amália, tendo decidido que Miguel, que usava fraldas, ficaria entregue à APPACDM (Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental) e logo o arrependimento pairara, uma das irmãs “não aguentou”, indo buscá-lo e levando-o consigo para casa do namorado, telefonando a seguir:

 

A Inês telefonou-nos à noite. Tínhamos comido os percebes (apanhados pelo pai, nas rochas) e eu estava com a cara às bolas por causa das alergias.

- Fui buscá-lo e estou na quinta do Pedro. Não aguentei.

A minha mãe sempre teve um jeito feliz de sorrir e disfarçar. Também ela, mais do que qualquer um de nós, sentia remorsos.

- Fez bem – respondeu.

- Eu ouvia a voz de Inês por entre os inchaços e sabia que vinha aí coisa, mas aquelas pústulas ardiam e eu estava desconsolado porque perdera a oportunidade de assustar o meu irmão. Bastava mostrar-lhe a cara.

Depois rebentou uma frase assim de passagem.

- Hoje o Miguel foi sozinho à casa de banho pela primeira vez.

Ouvi o clique a desligar. Era um telefone retro, daqueles de roda com números. A minha mãe desligou-o com força.

 

Um enredo carregado de episódios, que põem em destaque actuações de uns e outros, episódios por vezes hilariantes, como aquele, da adolescência, no rio Paiva, em que flutuavam nas suas bóias a mãe, Miguel e o irmão/narrador - a mãe ora afastando-se de Miguel, ora aproximando-se dele para lhe molhar a cabeça com carinho, o narrador vivendo os êxtases sensuais do enredo do livro de Proust “À Sombra das Raparigas em Flor” - mas atentos uns nos outros, em invisível elo protector. De repente, Miguel ia causando o afogamento da mãe, a cuja bóia se agarrara, na necessidade animal de sobreviver” por ter perdido pé, e o irmão, em vez de acorrer imediatamente aos gritos da mãe, foi pôr a salvo primeiro, na margem, o livro das suas íntimas emoções, que não queria molhar. Os remorsos e a vergonha descarregaram-se posteriormente em fúria contra o irmão, cujo susto se manifestava no choro e no apelo lancinante a “Luciana”, a sua amada: «A minha mãe (salva pelo marido), chegou por fim à margem, retomando o sorriso de antes. Estendeu a mão húmida sobre a cabeça do Miguel, deu-lhe um beijo na testa e subiu devagar até casa.»

 

Luciana! A menina feia e demente por quem Miguel se apaixonara, na APPACDM, causa de rixas frequentes de Miguel com os companheiros da escola, que lha disputavam ou não, mas de quem ela se servia para provocar tantas vezes ciúmes no seu amado. Desde a adolescência, já antes de o irmão partir para Lisboa, em busca de um mundo de maior realização do que naquele Porto em que a casa se movia em torno de Miguel. Amor absoluto, causa das ingénuas explosões de alegria de Miguel perante os pais, quando bem sucedido, e de cólera animal, quando contrariado por Luciana. Amor que o tempo não destrói, que terá o seu clímax, muito após a morte dos pais, na busca tresloucada do narrador, pelas ruas do Porto, pelo irmão fugitivo, que ele encontrou finalmente na espelunca onde haviam vivido Luciana e a mãe e de que resultará a morte de Luciana, pela violência descontrolada do perseguidor, contrariado pelos dois fugitivos em todas as suas propostas de solução.

 

Já então Miguel vivia com o irmão, ambos quarentões, este último libertando as irmãs, casadas e mães, do encargo de Miguel, no arrependimento por o ter abandonado quando jovem, indo estudar para Lisboa.

 

É no contexto da morte dos pais que surge a casa do Tojal, comprada pelos pais, onde viviam nas férias, e que o narrador compra às irmãs, aparente refúgio libertador dos pesos da vida, do trabalho e da preocupação pelos problemas sentimentais do irmão, incapaz de compreender o desaparecimento dos pais na sua vida. E de Luciana, A Luciana”que era dele, Luciana” que “era ele.”: Isto vai passar-se no Tojal. Ora o Tojal é perto de Arouca e longe de tudo o resto.”

 

Um Tojal de isolamento e de toscas figuras de barbárie, as dos caseiros, - a mulher – senhora Olinda - que acima de tudo ama o filho doente – Quim- rapaz imbecil e mau, centrado em si e nos seus ódios, com a habilidade única de saber conduzir o tractor – o marido esquivo, somítico e infeliz, desprezado pela mulher – Aníbal. Uma família boçal, vivendo da terra e para a terra, bichos imundos e solitários nos sentimentos, mas afinal manhosos e ferinos nas relações com os “fidalgos” da cidade, como é exemplo o diálogo entre as duas mães, em dada visita destes à sua casa no Tojal: A senhora Olinda costumava comparar o Miguel ao Quim, dizendo à minha mãe “O meu filho hoje sente-se melhor. E o seu?” Comparava o doente ao deficiente, o dependente ao dependente, mas a minha mãe sentia-se constrangida porque comparar é admitir conceitos abstractos e o Miguel correspondia a tudo menos a critérios predefinidos. O Miguel não era comparável ao Quim. Porém a Sr.ª Olinda insistia “E o seu?” e a minha mãe ripostava: “O meu está óptimo. É muito respeitado na área dele, dizem que é uma autoridade”. A senhora Olinda não percebia a resposta, bebia o resto do vinho e retirava-se.

 

Ao meu pai bastava a vista para se consolar. Também nunca lhe ocorrera comparar o Miguel ao Quim. Não se intrometia, limitava-se a beber o copo de vinho até ao fim.

 

Ao contrário, pois, de seu trisavô José Maria de Eça de Queirós, o escritor crítico das burguesias endinheirada ou intelectual, ou governativa, já esgotadas na graça mágica do universo queirosiano, Afonso Reis Cabral, 25 anos precoces, não repudia as figuras de uma ou mais realidades toscas, condizentes com um sentido existencial de proximidade democrática, sem distinções sociais, que lhe permitirão extravasar os seus dons de ironia e o seu sentido crítico. Tal irá acontecer também com o universo demencial da APPACDM, nos descritivos comportamentais dos deficientes e métodos de acompanhamento no seu habitat. Ou mesmo, na apologia irónica do verbete, a que se dedicou em função dos seus trabalhos enciclopédicos, verbetes que recordo igualmente dos meus tempos de estudo, coisa que não utilizei, ao contrário de colegas meus, por achar monótono, mais próprio de arquivistas, mas cuja aplicação hoje me parece visivelmente generalizada em todos os centros de pesquisa.

 

Um livro, afinal, também de suspense, uma figura hedionda tornando-se o centro da atenção de um pobre ser simpático e meigo, com o síndrome de Down, menino protegido pelos pais e mais tarde pelo irmão que acabará por matar – digamos sem querer, após a busca do irmão fugido - essa horrorosa e raquítica doente mental, elo de separação de afectos, mulherzinha teimosa, polarizadora da paixão do seu companheiro, e sobre a qual o narrador se lançará com sanha assassina, após ele próprio ter sido zurzido pelos dois “amantes”. Ao levá-la ao hospital, com a ajuda do irmão, suspeitando a sua morte e para se livrar de sarilhos policiais, terá ocasião de a transportar, deixando o irmão fechado no carro, para os lados de um vale, na serra do Valongo, onde a depositou “pequena, serena, quase bela”, numa cama de folhas secas, que arranjou para ela, quer para maior comodidade, no caso de estar viva, quer em homenagem poética, em caso da sua morte.

 

Miguel terá longa crise de raivas, apelos e acusações de meses, igual a outras que teve antes. Mas a história terminará com os dois irmãos apaziguados. E amigos, como sempre foram. No espaço de Tojais, prontos a regressar ao seu apartamento, no Porto:

 

O nevoeiro, mais forte sobre o rio, tapa-se sobre nós numa mudança de vento. Não consigo ver o Miguel, ele que ainda agora estava à minha frente. Estico o braço mas não o alcanço. Chamo-o e logo a mão dele agarra-se à minha com força. Quer-me próximo porque tem medo do que o rodeia. Tal como eu, também não vê no nevoeiro.

 

Regressamos lado a lado, devagar, tacteando. Perto do caminho que sobe para nossa casa, estreito-o com força. Murmuro-lhe ao ouvido «Miguel, não sei o que dizer», e ele responde “Não digas nada».

 

Berta Brás 2.jpg Berta Brás



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Terça-feira, 13 de Janeiro de 2015
UMA AMÁVEL OBRA DE HISTÓRIA TRÁGICO-CÓMICA

 

 

BB-D. MARIA I.jpg

 

Sobre a primeira rainha portuguesa – D. Maria I. Sobre Portugal e, de permeio, sobre movimentos europeus com reflexo neste. Espaço temporal: de meados do século XVIII ao primeiro quartel do séc. XIX.

Título: D. MARIA I – A Vida Notável De Uma Rainha Louca.

Em epígrafe: A história de uma mulher bondosa e frágil que viria a ser a primeira rainha de Portugal.

Autora: Jenifer Roberts (Publicado em 2009).

Tradutor da 2ª Edição, (de 2013): Edgar Rocha.

Editora: Casa da Letras

 

Estrutura da obra:

 

Uma Introdução, contendo, em epígrafe, breve retrato de D. Maria I feito pelo Duque de Châtelet em 1777:

 

D. Maria I é indiscutivelmente merecedora de estima e de respeito, embora não tenha os atributos que façam dela uma grande rainha. Ninguém poderia ser mais amável, mais caridosa ou mais sensível, embora estas qualidades sejam diminuídas por uma excessiva devoção religiosa.

 

Seguidamente, a narradora situa a politicamente apagada figura de D. Maria I no seu contexto histórico, revelando-a como vítima de uma época de transição entre a Monarquia Absoluta, da corte faustosa do seu avô D. João V e as ideias iluministas do tempo de seu pai – D. José, rei tímido e inerte – conducentes às políticas de dureza de Pombal – o despotismo esclarecido – tendente a abalar os alicerces de uma governação anterior, apoiada num clero poderoso, repressivo e obscurantista, refractário às ideias de progresso, e numa nobreza fútil, ociosa e parasitária.

 

Dá-nos ainda a Introdução as fontes humorísticas em que se apoiou a autora para a sua obra: a correspondência dos embaixadores britânicos em Lisboa – Robert Walpole – “o qual escreveu cartas muito elucidativas e divertidas”. “Outra fértil fonte foi o diário do Marquês de Bombelles, embaixador francês em Portugal durante os anos 1786-1788, que era deliciosamente indiscreto nas páginas do seu diário privado.”

 

Serviria de ponto de partida para a sua personagem e “entourage” a carta de uma irmã – Philadelphia Stephens – do inglês William Stephens, proprietário da “Fábrica de Vidros da Marinha Grande”, que relata, para um primo em Inglaterra, a visita de três dias feita pela rainha e família real a essa fábrica. Ao escrever sobre William Stephens e a sua grande fortuna, encontrou a historiadora as “memórias” do Dr. William Withering, quando este visitou a fábrica em 1793, e em que escreveu:

O Sr. Stephens teve a honra de receber a rainha e a família real de Portugal durante três dias, em 1788. Os acompanhantes de Sua Majestade, juntamente com o vasto fluxo de pessoas dos campos em redor, formavam uma assembleia de vários milhares. Foram empregados trinta e dois cozinheiros e proporcionados estábulos para oitocentos e cinquenta e três cavalos e mulas. Para crédito da honestidade e da sobriedade dos portugueses, só se perderam duas colheres de prata de entre as sessenta dúzias que foram usadas e, embora fosse colocado vinho nos aposentos usados pelos criados, nem um único homem foi visto bêbado.

 

Estas referências introdutórias às suas fontes humorísticas, - (as outras virão na Bibliografia Seleccionada, além das citadas ao acaso da narração) - com transcrição de uma delas – provavelmente, embora de intenção sardónica, a menos comprometedora para os nossos toscos costumes de provincianismo pedante, definem o propósito da narradora, de encobrir, sob a capa da simpatia por uma pobre, embora sensível e gentil, figura de mulher, uma real intenção de acentuar o grotesco de tantos dos costumes de uma corte tacanha na sua pompa e exigência protocolar perfeitamente risíveis. Alguns exemplos o confirmarão posteriormente.

 

Após outros dados contidos na Introdução, segue-se a esclarecedora Árvore Genealógica sobre as famílias Bragança e Bourbon.

 

O Prólogo com, em epígrafe, a data «3 de Fevereiro de 1792», numa estruturação circular que denuncia propósitos de arte num descritivo romanesco - põe em relevo o dia em que D. Maria I, durante uma representação teatral em Salvaterra, enlouquece de vez – e o seu regresso a Lisboa, no bergantim real, é realizado sem pressas, no meio do protocolo retardador, apesar da aflição geral, o seu filho de 24 anos, João de Bragança, completamente incapaz de precipitar a solução do caso, sujeitando ainda a pobre mulher sua mãe, na chegada a Lisboa, a aparecer à janela do Senado da Câmara, perante a multidão que dá vivas e mais tarde fará procissões e rezas pela saúde da sua Rainha.

 

Seguem-se as três partes da biografia:

 

A I – “Princesa Herdeira”- compreendendo os capítulos 1-7; a II – “Poder Absoluto”; os capítulos 8-13; a III – “Uma mente frágil” – os capítulos 14 – 19. E o Epílogo. Todos eles contendo epígrafes alusivas sotopostas, de sínteses esclarecedoras.

 

A obra compreende ainda, como Apêndices – como relato histórico que pretende ser – 0 Relato da visita Real à Marinha Grande, feita por Philadelphia Stephens, de forma bastante desempoeirada, o Elenco, (curtos dados biográficos acerca das personagens reais das famílias de Bragança e Bourbon, dos Aristocratas e Ministros do Estado, dos Padres, dos Estrangeiros), Notas, Bibliografia Seleccionada. Índice Remissivo.

 

Uma história transbordando simpatia por uma “Rainha Louca” - nos vinte e quatro anos finais da sua vida - de facto uma jovem que, educada em padrões de um convencionalismo exibicionista e fanatismo denunciadores de atraso, se tornou contudo uma mulher bondosa e bastante lúcida, que muito sofreu.

 

E as pinceladas de uma narração que acumula elegantemente traços descritivos espácio-temporais no seu enredo semeado de picardias linguísticas dos embaixadores estrangeiros, ou comentários sobre uma história de riqueza provinda do Brasil, mal aproveitada em fausto, irão seguir-se, a partir do capítulo I, com o nascimento dessa princesa (futura primeira rainha portuguesa), cinquenta e sete anos antes do narrado no Prólogo, no mesmo Terreiro do Paço, mas no palácio da família de Bragança grotescamente convencional: De acordo com os costumes, o bebé assomou do corpo da mãe à vista de uma pequena multidão de padres, cortesãos, ministros, médicos e criados…. Assim que a notícia foi anunciada, logo se juntou uma grande multidão no Terreiro do Paço. O ar reverberava com os aplausos, com o dobrar dos sinos e com os tiros de canhão. Os coches dos diplomatas estrangeiros depressa chegaram ao palácio. «Fui imediatamente à corte», escreveu o embaixador britânico para Londres nessa mesma noite, «porque me disseram que assim era hábito e tive audiências com a família real para os felicitar. Recomendo que a carta de felicitações do rei não tarde e que seja enviada no próximo barco, pois esta corte é muito sensível a tais pormenores.

 

De D. João V, avô desta criança, nascida em Dezembro de 1734, baptizada, em 9 de Janeiro de 1735, com o nome de Maria Francisca Isabel Josefa Antónia Gertrudes Rita Joana de Bragança - (e atrevo-me a sugerir que nesta sobrecarga de nomes estará a razão inicial da sua loucura posterior) – escreve a narradora:

 

Em teoria, D. João V era um monarca com poderes absolutos. Na prática, era apenas um escravo dos sacerdotes…. O rei construía conventos e igrejas, cobria-os com mármores raros e enchia-os de tesouros: altares de ouro e prata cravejados de pedras preciosas, quadros e esculturas de Itália, bibliotecas com milhares de livros. A sua alegria eram as procissões religiosas», escreveu Voltaire. Quando se apegava à construção, edificava mosteiros; quando queria uma amante, escolhia uma freira.

 

E a história vai progredindo, com os acontecimentos que rodearam a infância e a juventude da princesa e lhe foram marcando o temperamento e o destino:

 

Tendo crescido numa corte descrita como «muito enfadonha e cheia de cerimónias - até o embaixador britânico se referia ao “tédio excessivo do protocolo real” – Maria estava familiarizada com muitas formalidades da vida no palácio.

 

«Em Setembro de 1752, D. José assinalou o segundo aniversário da sua aclamação com uma série de touradas e de óperas em Lisboa, incluindo exibições de um famoso “castrato”. A corte», escreveu o embaixador britânico, «está totalmente ocupada com touradas, concertos e óperas, quase todos os dias da semana.

 

Três meses mais tarde, D. Maria atingiu o seu décimo oitavo aniversário, uma ocasião celebrada com um beija-mão no palácio. A princesa, que se tinha tornado alta, magra, com traços bem definidos e um sorriso caloroso, aceitou os cumprimentos dos embaixadores estrangeiros e membros da corte com uma elegância graciosa. Apesar de ter uma educação limitada – instruída por padres jesuítas, sem ênfase nos assuntos do Estado, era uma mulher feita. Falava e lia francês, a língua diplomática das cortes da Europa, sabia latim e estudava religião e teologia. Aprendeu a desenhar e a pintar com os melhores artistas do país, estudou canto com David Perez, o mestre de música italiano, e tanto ela como as irmãs sabiam “tocar bem vários instrumentos”.

 

A supremacia de Sebastião José de Carvalho e Melo, ministro indicado por Mariana Vitória de Bourbon a seu filho D. José, “indeciso, extremamente inseguro de si próprio e com a consciência de que a sua educação fora bastante negligenciada» segundo o embaixador inglês, em breve se revelaria de extrema relevância: «Como o ministro tem o seu pé no estribo», escreveu o embaixador, em Junho de 1753, «as coisas mudaram muito favoravelmente para o seu lado».

 

O terramoto de 1 de Novembro de 1755 trouxe a ascensão de Pombal e a mão pesada que se estendeu sobre o Reino, expulsando os Jesuítas, liquidando elementos da nobreza, a pretexto de um atentado a D. José, numa sua aventura nocturna.

 

“Diz-se que D. Maria terá implorado misericórdia a seu pai quando as sentenças foram anunciadas, mas D. José não se emocionou com as suas lágrimas.”

 

Em 1760, D. Maria casa com seu tio, 18 anos mais velho, Pedro (III), irmão de seu pai, um casamento feliz, tendo concebido oito filhos, dos quais só três sobreviveram até à idade adulta.

 

Uma história que se vai desdobrando em dores bastantes, com a morte rondando a cada passo, nos seus próprios familiares, em que a varíola fez graves estragos, num país de repente a braços com um Bloqueio Continental imposto por Napoleão contra a Inglaterra, e a que Portugal se negou a aderir, com resultados negativos para si, uma invasão francesa que, sob conselho inglês, forçou a família real a embarcar-se para o Brasil, com D. Maria I já há muitos anos louca, mas ainda sujeita a protocolos reais, a sua morte e mais tarde o retorno do caixão a Portugal, depositado na Basílica da Estrela, após um funeral de Estado em Março de 1822, com as próprias netas a ter de assistir à mudança de vestuário do corpo putrefacto e nauseabundo da sua avó.

 

Uma história de bastas cenas trágicas, da responsabilidade de Pombal mas com a conivência de D. José, de cenas grotescas (como a do dia alardeado em que Carlota Joaquina, destinada a D. João VI se torna núbil, ou das mesuras e genuflexões dos cortesãos e dos servidores para com a família real), história em que são bastas também as referências à má criação dos infantes, a uma Carlota Joaquina adúltera, desprezando o marido enfadonho e inútil, uma história de falsos esplendores, de muitos infortúnios, afinal.

 

Transcrevo, de Voltaire, um passo da sua primeira carta filosófica “Sobre os Quakers”, a simplicidade e a educação destes, que certamente favoreceram o civismo do povo inglês, origem de um trabalho histórico que põe a nossa educação (além da inércia e desatenção dos reis para com o povo) em cheque. Poderia servir de epígrafe aos considerandos acima expostos sobre o trabalho de uma historiadora que tomou como ponto de partida para a sua obra, opiniões trocistas recolhidas nas suas pesquisas bibliográficas :

 

“«Ele (o Quaker) estava vestido, como todos os da sua religião, com um fato sem pregas nos lados e sem botões nos bolsos nem nas mangas, e usava um chapéu de rebordo descido, como os nossos eclesiásticos: ele recebeu-me com o seu chapéu na cabeça e avançou para mim, sem fazer a menor inclinação do corpo; mas havia mais polidez no ar aberto e humano do seu rosto do que há no uso de pôr uma perna atrás da outra e de levar na mão o que é feito para cobrir a cabeça

 

Berta Brás.jpg

Berta Brás



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 14:40
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Quinta-feira, 2 de Outubro de 2014
MANUEL BANDEIRA

 

 

- Como se chama a fêmea do cupim?

- Como se conjuga o Presente do Indicativo do verbo «precaver»?

 

Se para um português à primeira pergunta corresponde chumbo pela certa, já quanto à segunda, fiquei a pensar e sou capaz de aventar algo como...

- Eu precavejo

- Tu precavês

- Ele precavê

- Nós precavemos

- Vós precaveis

- Eles precavêem

 

Será?

Ora se para mim o cupim é a bossa dos bois brâmanes, como é que se pode pôr a questão de a bossa ter fêmea? No máximo, seria o cupim da vaca. Mas não! Há certamente mais quem seja cupim algures nesse mundo de Cristo... Só pode! E então o que é esse cupim que tem fêmea? Pois não precisei de fazer como Augusto Gil quando disse «fui ver» e se deparou com a neve. Bastou-me chegar ao final do texto de Manuel Bandeira para saber que se trata de ave aquática do Rio Grande do Sul cuja fêmea se chama arará. E o mais interessante é que o poeta recorrera a ornitóloga amiga nordestina e a tudo quanto era dicionário e... nada. Foi preciso telefonar a uma cruzadista sua conhecida para que ela respondesse sem qualquer hesitação: arará!

 

E o mistério continua um pouco mais à frente quando me aparece um parentirso que o poeta trata por tu como se tal «coisa» fosse do mais natural que Deus tenha posto na Terra. Então ele conhece o parentirso e não sabia o nome da fêmea do cupim? Oh! Subida Academia que afinal nada sabes de ornitologia... Muito bem, fiquemos então a saber que o parentirso é um estilo assumido pelos bacantes e foliões quando em fúria nos idos da Antiguidade Clássica. Toma e embrulha!

 

Não se pense, contudo, que Manuel Bandeira tivesse por hábito «arrotar postas de pescada». Não! Lendo-o, ficamos com a sensação nítida de que ele dizia estas coisas como se elas fossem mesmo do conhecimento do comum dos mortais. E se na prosa ele usa de um humor fino e até mesmo jocoso, na poesia temo-lo frequentemente a abordar assuntos banais com uma naturalidade encantadora. Não raro, junta humor a poesia com uma ponta de «non sense» totalmente inesperada. É o caso de «PNEUMOTÓRAX»:

 

Febre, hemoptise, dispneia e suores nocturnos.

A vida inteira que podia ter sido e que não foi.

Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:

- Diga trinta e três.

- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...

- Respire.

...

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.

- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?

- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

 

E também o «VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA» é humorístico:

 

Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada

 

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconsequente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

 

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

 

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d’água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

 

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcaloide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

 

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.

 

Ou ainda em «AUTO RETRATO»

 

Provinciano que nunca soube

Escolher bem uma gravata;

Pernambucano a quem repugna

A faca do pernambucano;

Poeta ruim que na arte da prosa

Envelheceu na infância da arte,

E até mesmo escrevendo crónicas

Ficou cronista de província;

Arquitecto falhado, músico

Falhado (engoliu um dia

Um piano, mas o teclado

Ficou de fora); sem família,

Religião ou filosofia;

Mal tendo a inquietação de espírito

Que vem do sobrenatural,

E em matéria de profissão

Um tísico profissional.

 

 

Mas nem sempre Manuel Bandeira está virado para a brincadeira. Por vezes é nostálgico como em «ANDORINHA»:

Andorinha lá fora está dizendo:

— “Passei o dia à toa, à toa!”

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!

Passei a vida à toa, à toa…

 

E bem cedo se fartou dos parnasianos, os da métrica cronométrica e da rima bem rimada:

POÉTICA

Estou farto do lirismo comedido

Do lirismo bem comportado

Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. director.

Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo.

Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais

Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção

Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador

Político

Raquítico

Sifilítico

De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo

De resto não é lirismo

Será contabilidade, tabela de co-senos, secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos

O lirismo dos bêbedos

O lirismo difícil e pungente dos bêbedos

O lirismo dos clowns de Shakespeare

— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação!

 

E por aí além... até que outro poeta, seu amigo, lhe disse quando se comemoraram os 50 anos da sua poética...

 

Certamente não sabias

Que nos fazes sofrer...

É difícil explicar

Esse sofrimento seco,

Sem qualquer lágrima de amor,

Sentimento de homens juntos,

Que se comunicam sem gesto

E sem palavras se invadem,

Se aproximam, se compreendem

E se calam sem orgulho.

Não é o canto da andorinha, debruçada nos telhados da Lapa,

Anunciando que a tua vida passou à toa, à toa.

Não é o médico mandando exclusivamente tocar um tango argentino,

Diante da escavação no pulmão esquerdo e do pulmão direito infiltrado.

Não são os carvoeirinhos raquíticos voltando encarrapitados nos burros velhos.

Não são os mortos do Recife dormindo profundamente na noite.

Nem é tua vida, nem a vida do major veterano da guerra do Paraguai,

A de Bentinho Jararaca

Ou a de Christina Georgina Rossetti:

És tu mesmo, é tua poesia,

Tua pungente, inefável poesia,

Ferindo as almas, fogo celeste, ao visitá-las;

É o fenómeno poético, de que te constituíste o misterioso portador

E que vem trazer-nos na aurora o sopro quente dos mundos, das armadas exuberantes

E das situações exemplares que não suspeitávamos.

Por isso sofremos: pela mensagem que nos confias

Entre ônibus, abafada pelo pregão dos jornais e mil queixas operárias;

Essa insistente mas discreta mensagem

Que, aos cinquenta anos, poeta, nos trazes;

E essa fidelidade a ti mesmo com que nos apareces

Sem uma queixa, no rosto entretanto experiente,

Mão firme estendida para o aperto fraterno

– O poeta acima da guerra e do ódio entre os homens –,

O poeta ainda capaz de amar Esmeraldas embora a alma anoiteça,

O poeta melhor que nós todos,

O poeta mais forte

 

 Carlos Drummond de Andrade

 

 

 

 

 

Mas este fica para mais logo...

Outubro de 2014

Chipre Norte-Mosteiro de Belapais 3.JPG

 

 

Henrique Salles da Fonseca



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Sábado, 27 de Setembro de 2014
OS POETAS E OS OUTROS...

 

 

 

Há um poeta francês que distingue «les gens d’un certain âge et les gens d’un âge certain». Só um poeta consegue distinguir que os engenheiros têm sempre «un âge certain» mas só os namoradeiros chegam a ter «un certain âge».

 

 

Só, pois, os que hoje têm «un certain âge» se podem lembrar das charlas que Vinícius de Moraes fazia na televisão portuguesa e que nós, os não engenheiros, ouvíamos com algum espanto. Palco do Teatro Villaret apenas com uma cadeira e um microfone. Entrava Vinícius com o seu violão e uma garrafa de whisky cheia que poisava junto da cadeira. E o improviso começava com uns sons dedilhados sem grande nexo, daqueles que só servem para acompanhar tudo o que nas redondezas apareça a precisar de companhia. Passado meio século, pergunto-me hoje se eram os sons do violão que acompanhavam as palavras do poeta ou se eram as palavras que acompanhavam o dedilhado... Mas de uma coisa eu tenho a certeza: havia uma total concordância entre os sons violados e as palavras whiskadas, tudo sem grande nexo. É que a erudição etilizada faz um género que muitos apreciam e o programa da RTP – por certo que à falta de alternativa – alcançava elevados níveis de audiência.

 

E o que me ficou dessas charlas? Pouco. Ficou-me a convicção de que a própria Censura se deixaria embalar pela toada de grande vacuidade substantiva e que a única mensagem que Vinícius então nos trouxe foi a de que havia mundo para além do formalismo sorumbático ou do humor formal que o Regime nos ditava.

 

Eis por que, na memória daquela poética circunstância televisiva, eu hoje me posso considerar «quelq’un d’un certain âge» que se lembra de que até meia garrafa, a poesia de Vinícius era boa e que a partir de meio era gira.

 

Ficou-me ainda o desinteresse pela leitura dos seus poemas que, afinal, só poderão ser devidamente apreciados quando bem whiskados, o que não farei pois o whisky faz-me caspa.

 

Mas, para não sairmos daqui sem um cheirinho da sua obra tão aplaudida, procurei algo que me pareceu escrito antes do meio da garrafa:

Não Comerei da Alface a Verde Pétala

Não comerei da alface a verde pétala
Nem da cenoura as hóstias desbotadas
Deixarei as pastagens às manadas
E a quem maior aprouver fazer dieta.

 

Cajus hei-de chupar, mangas-espadas
Talvez pouco elegantes para um poeta
Mas peras e maçãs, deixo-as ao esteta
Que acredita no cromo das saladas.

 

Não nasci ruminante como os bois
Nem como os coelhos, roedor; nasci
Omnívoro: dêem-me feijão com arroz

 

E um bife e um queijo forte, e parati
E eu morrerei feliz, do coração
De ter vivido sem comer em vão.

 

Sóbrio, este é para quem tenha «un âge certain».

 

Mas nem todos os poetas se inspiram nos greens da Escócia ou nos voos do Famous Grouse...

 

 

Mário Quintana, o poeta da bondade, não precisa de prosas explicativas.

Os poemas

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde

e pousam no livro que lês.

Quando fechas o livro,

eles alçam voo como de um alçapão.
Eles não têm pouso nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.

E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti…

Outras, de que gosto especialmente:

Relógio

O mais feroz dos animais domésticos
é o relógio de parede:
conheço um que já devorou
três gerações da minha família.

Poeminho do contra

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!

 

Inscrição para um portão de cemitério

 

Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce – uma estrela,
Quando se morre – uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão-de emendar-nos assim:
"Ponham-me a cruz no princípio...
E a luz da estrela no fim!"

 

Uma conversa prosaica para acabar:

 

Simultaneidade

 

 – Eu amo o mundo! Eu detesto o mundo! Eu creio em Deus! Deus é um absurdo! Eu vou me matar! Eu quero viver!
 – Você é louco?
 – Não, sou poeta.

 

Mas esta prosa de Verão já vai longa e o que aqui falta fica para o Outono...

 

Setembro de 2014

 

 Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 16:43
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Sexta-feira, 26 de Setembro de 2014
FOI O RICARDO QUEM TEVE A CULPA

 

Há mais de doze anos – perdi-lhe a conta e o cartão identificador - ainda a minha Mãe era uma mulher válida, que subia as escadas para o seu quarto, no primeiro andar, como os outros, e podia tomar conta da casa, caso eu precisasse de sair por algum tempo, embora comedidamente, que a minha Mãe sempre foi soberana e cobrava em exigência de docilidade posterior. Mas tratava-se de uma catarata, a do meu olho esquerdo, e o meu marido sempre me acompanhara nessas tardes a Lisboa, no comboio e metro, aos serviços da CGD, e até no dia da operação não arredou pé, facto que nunca esqueci, nem o gesto do João que nos levou nesse dia, e ali esteve, dia de terror que toda a gente afirmava que se fazia com uma perna às costas, do que sempre discordei. Por isso levei doze ou mais anos a ignorar a catarata do olho direito, até que a minha “qualidade de vida” definitivamente impôs o inevitável, a minha Paula encarregando-se do caso, ali no Hospital onde treinavam e muitas vezes apresentavam o seu coral “Vox Maris”. A minha Mãe já não estava, mas está o Fox a impedir a camaradagem do meu marido, pretexto hábil de recusa do anterior companheirismo, que me fez sentir-me só e abandonada no deserto da vida, disposta a tudo conseguir sozinha, entregue “à bicharada”, sem dar parte de fraca, mas com muita compaixão de mim. Por isso, quando o Ricardo me telefonou nessa manhã, a voz embargou-se-me e confessei que estava apavorada, mas ele não se comoveu e para me fazer rir, ditou que depois eu faria um artigo sobre o caso. E assim fiquei, pois, com o meu ego, lembrando a “Lágrima” da nossa Amália, a desejar um xaile para me deitar no chão e só acordar no dia seguinte, reduzida ao “Não sou nada. Nunca serei nada” de autopiedade, do Álvaro de Campos, mas ficando-me por aí, sem mais dimensão com que ele continuou essa sua “Tabacaria” universal.

 

É claro que a minha irmã não me abandonou e também não arredou pé, nessa tarde, levando-me ao Hospital e esperando comigo, no confortável quarto onde eu iria pernoitar. Mas quando os enfermeiros me vieram buscar, soçobrei em lágrimas sem poesia, o que não facilitou as coisas. As enfermeiras eram simpáticas, e quando uma delas me assegurou, sorridente, que o medo era próprio das pessoas inteligentes, embora assim fortalecida na auto-estima que contrariava as convicções expressas no poema “Tabacaria” com que me enovelara há muito tempo já, na previsão do acto, apertei as mãos a suster-me, para cumprir com valentia, esvaziando na força destas as energias que suavizariam o caminho da operação entregue ao oftalmologista excelente. A verdade é que o médico ainda teve umas exclamações de impaciência, porque me mexi, apesar da força das minhas mãos a aparar o choque à distância. Tortura. Eu só desejava uma anestesia geral, num xaile que fosse, para acordar no dia seguinte, tudo isso passado. Mal passado, todavia. Na operação anterior não tomei tantos remédios, como os que estou a tomar, nem nada que se parecesse com a variedade de gotas para o olho e os comprimidos para acelerar a cura. E quando regressei ao quarto, a minha irmã continuava firme, na companhia da minha neta Catarina que me viera ver no seu dia de folga, e pouco depois a Paula, que me meteu nesta, e que estivera a ensaiar no seu coral, com que preenche os breves espaços das aulas. Inútil a pieguice do orgulho, na contenção egocêntrica das nossas tragédias que o não são, afinal, e bom é sempre o carinho que nos cerca, mesmo que seja só para chorarmos por nós ou de nós rirmos.

 

Silêncio em Outubro

 

Entretanto, trouxera, para acabar de ler, antes da operação, o extraordinário romance do escritor dinamarquês Jens Crhristian Grøndahl «Silêncio em Outubro”, que tenho lido ao deitar, uma obra de uma intriga aparentemente igual à de tanta gente, mas transformada pela magia da palavra, como arca de tesouros mais ricos que os descobertos por Ali Babá na caverna dos ladrões, por um estilo transparente e simultaneamente de uma riqueza verbal e de conceito que transfiguram os mais simples gestos ou acções e apetece fixar, como fixamos os versos ou frases dos escritores clássicos, de que este é exemplo, mesmo em tradução.

 

Uma história de amor, talvez de adultério ou apenas algum desgaste que resultam em fuga da mulher – Astrid – e na reconstituição da vida própria do narrador – crítico de arte, também motorista de táxi quando a conhecera, ainda jovem – e ao longo da narrativa vai incluindo factos que, percorrem essa vida, em analepses frequentes, de instantes sempre iluminados por clarões incisivos que a cada passo nos deslumbram quer no realismo dos traços, quer na seriedade da crítica, quer na visão satírica de uma sociedade burguesa, intelectual, ou mais jovem, quer no colorido que tudo envolve: uma infância um tanto desamparada, por uma mãe vaidosa e ausente e um pai ocupado e fraco, uma vida pessoal de rapaz habituado a gerir o seu destino, passando as suas camisas, cozinhando a sua comida, vivendo as suas aventuras. Finalmente o conhecimento de Astrid e do seu filho Simon, fugindo do presunçoso realizador de cinema com quem vivia, apanhando o táxi, em voltas sem rumo, até que ele os hospeda em sua casa. E depois de um casamento de dezoito anos, com uma filha comum, Rosa, um dia Astrid parte, no inesperado de um comportamento orgulhoso e fechado, que o deixa inerte e ansioso, sem, contudo querer dar parte de fraco. Seguindo-lhe, porém, as voltas, segundo as pistas deixadas pelo extracto de contas comum, imaginando os seus passos, reconstituindo panorâmicas já vividas, a própria filha, cúmplice da mãe, deixando na indefinição o paradeiro desta, conhecendo embora o amor que unia os pais e cujo orgulho os isolava na respectiva concha, deixando antever uma hipótese de viragem.

 

Uma história de gente comedida e orgulhosa, que prefere o silêncio à justificação, a fuga e o olhar enigmático de Astrid antes de voltar costas e desaparecer, como penetrando silenciosamente no íntimo do marido, para sempre em dúvidas e em suposições dos motivos impulsionadores da sua decisão.

 

Toda a intriga é um repescar de memórias, de explicações hipotéticas, de divagações que vão confluindo em uma consciência da impossibilidade do definitivo. Toda a obra é de um extraordinário interesse, quer no desenho dos caracteres, quer na elegância dos conceitos e sobretudo no fulgor de um descritivo sensorial e imagístico de extraordinário efeito.

 

Foi um livro oferecido pelo Ricardo, Binha e Ana, em 2002. Só agora o li, soterrado que fora na vida dispersa que sempre vivi. Nele o Ricardo escreveu: “Um título sugestivo… não te esqueças que faço anos em Outubro!... Feliz aniversário»

 

Um título sugestivo, sim, este de “Silêncio em Outubro”. Mas eu não me importaria de lhe dar por título “Sinfonia em Outubro”: pela expressão sensorial em que a cor domina, pela argúcia na descrição de personagens, de eventos ziguezagueando ao sabor das recordações, na busca incessante ditada pelo amor e a comunhão, na consciência dos gestos da mulher, mesmo na distância dos espaços e dos tempos. Como escritor de arte, o narrador deslocava-se frequentemente aos Estados Unidos, em pesquisas, que possibilitaram relações de adultério e a consciência pesada.

 

Já em tempos transcrevi a introdução do livro, iniciada em Lisboa. Não resisto à tentação de fechar estas páginas com a transcrição do seu final, também em Lisboa, com pena de não o fazer a tantos outros descritivos desta Arca de esplendorosa magia, o mistério fazendo dela parte, num desenlace não decidido, de narrativa aberta:

Peguei no monte de cartas na mesinha da entrada e levei-as para o meu quarto de trabalho. Li repetidamente os extractos de banco de cima abaixo com as datas e os sítios onde a Astrid usara o seu Master-Card, uma narrativa lacónica de nomes e números sobre os seus movimentos. Deixara este rasto para me levar de novo a Lisboa, pela nossa rota de outrora. E ali me deixava agora, entregue às minhas recordações. Enquanto me sento, ainda de casaco, frente à minha vista sobre os Søerne, acaba talvez de acordar no hotel da rua da Senhora do Monte. Talvez se sente um pouco na borda da cama, repousando o olhar na parte da cidade e do rio que por acaso é o seu panorama. Talvez espere ainda um bocadinho antes de se vestir e de sair do quarto. Imagino-a recostada numa nesga de sol, olhando nua para os telhados de Lisboa, para o rio amplo e para a outra margem, onde os pára-brisas de carros invisíveis numa fracção de segundo captam o sol, cujos reflexos atravessam o rio para a sombra desse quarto como rápidos e desconexos sinais de Morse. Talvez se admire de tudo ter dado nisto, como se não pudesse ter sido doutra forma e nada estivesse no entanto decidido. Quando me recordo da Astrid em Lisboa há sete anos atrás, ela anda só, não me vejo com ela em parte nenhuma. Sozinha, de olhos semicerrados contra o sol claro de Outono que faz brilhar os trilhos dos eléctricos nas ruas íngremes à sua frente. Estava sol na manhã seguinte, e demos uma volta pela Graça, pelo mercado onde já desmontavam as tendas. Fomos indo sem saber bem aonde, descendo simplesmente rumo ao rio azul que estava sempre a aparecer entre os telhados. Não estou em nenhuma das fotografias de Lisboa, é só a Astrid, como se eu nem lá tivesse estado. Sentada na esplanada de um café do Rossio, perto do qual os eléctricos guincham, ao dar a curva e o sol bate no fumo leve dos vendedores de castanhas, enquanto ela inclina a cabeça olhando para a chávena de café à sua frente, alheia num pensamento. De costas para mim, numa vereda do Jardim Botânico erguendo a cara de perfil num olhar atento às asas de um pássaro que esvoaça contra a folhagem densa das plantas sob a abóboda das árvores que coam o sol cujas manchas amarelas pejam o saibro e o seu casaco claro. Na amurada do pequeno cacilheiro que nos levou à outra margem, de óculos escuros e alvo sorriso frente à cidade branca. Tirou-me apenas uma fotografia, nas ruínas do Convento do Carmo. Sem telhado, os pardais voam ao ar livre entre os muros nus e cheios de musgo. Estou de pé, na relva, sob as ogivas que se desenham contra o céu como costelas descarnadas. Sorrio ao fotógrafo invisível, mas o disparo demorou e o sorriso parou. Já não é de facto sorriso nenhum, apenas um esgar forçado e idiota ao encontro do meu próprio olhar, como se me visse por seu intermédio. Como se, ao encarar-me a mim próprio, abrisse um vazio onde ela já desaparecera.

Obrigada Ricardo, pela vossa oferta longínqua deste livro que só agora leio, neste Setembro do meu silêncio conciso, de incompreensão também. Prometo que não silenciarei nos teus anos deste próximo Outubro. Não acreditas que isso fosse alguma vez possível. Espero que gostes do meu artigo, que me receitaste como terapia do medo. Este, irracionalmente avassalador quando toca a nossa integridade física. Parente de uma tristeza desesperançada, quando encara a progressiva destruição que nos vai projectando no sentido de um “Medo de existir” do filósofo José Gil, embora este confinado ao caso político português.

 Berta Brás



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 16:29
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Domingo, 14 de Setembro de 2014
EN PASSANT...

 

 

Passando semanalmente por alguns escaparates livreiros, dou por mim a pensar que muito têm aqueles fulanos a contar para conseguirem escrever tantos calhamaços tão grossos. Mais: há escritores que não devem fazer outra coisa na vida se não transpor para o papel ideias novas que devem recolher afanosamente por tudo quanto é sítio, verdadeiros caçadores de insectos e fantasmas. Ou será que se limitam a conjugar arranjos e combinações de banalidades?

 

A intensa sequência editorial de alguns dá mesmo para imaginar que estiveram durante muito tempo à espreita de «coisas» que mereçam relato e, de repente, põem tudo no papel, de enxurrada. Só que alguns são suficientemente jovens para que esse tempo de espreitadela não seja compatível com as respectivas idades. Vai daí, volto a imaginar que se trate do tal tecido de arranjos e combinações de banalidades.

 

Por vezes, mais do que ler as badanas e contracapas, folheio a esmo ou por sugestão do índice (quando existe) e constato que há quem tenha escrita enxuta e quem a tenha adjectivante, melosa, insinuante e sinuosa. Prefiro a escrita enxuta e facilmente me farto da melosa que considero pródiga nos gastos de papel.

 

Pelo tema que aborda, a ética pós moderna, comprei um livro de um filósofo francês que venho estudando mas que poderia ter quase metade do número de páginas se a escrita fosse sóbria. Mas é floreada para não dizer mesmo que é repetitiva. Só que este autor não refere banalidades: observa o mundo numa perspectiva bem original, procura-lhe justificações e dá-lhe prospectivas. No entanto, tudo isso poderia ter sido feito sem molho e apresentando apenas o filet mignon que o leitor procura. Mais prosaicamente, eu preferia que não me dessem palha.

 

Voila! Os escaparates livreiros, assemelhados às manjedoiras em que saciamos a fome de leitura, poderiam ter metade do tamanho (e do negócio) se retirássemos a palha que nos querem impingir, se os escritores não se limitassem a conjugar banalidades, se tudo fosse filet mignon.

 

Acabei há dias de ler um livro com 574 páginas de escrita marcial, só com conduto e sem palha. Comecei a lê-lo em Dezembro de 2011, fui-o saboreando e arrumei-o agora bem à mão de semear pois vou lá voltar; os que me deram palha estão arrumados por aí...

 

Pois se até a minha égua está proibida de comer palha, por que hei-de eu levar com ela criada por escritores e enfardada por editores? Não! E se até à picanha retiro as gorduras para evitar a formação de colesterol nas veias, também as letras as quero castrenses para evitar o colesterol mental que tanto obstipa alguns narradores e comentadores da nossa praça.

 

E isto é mesmo só en passant...

 

Setembro de 2014

 

 Henrique Salles da Fonseca



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 20:15
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