Domingo, 23 de Agosto de 2015
PORQUE HOJE É DIA DE VER A DEUS - 5

 

 Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda

(Biblioteca online)

P. António Vieira, SJ.png Padre António Vieira

 

V

 

Chegado a este ponto, de que não sei nem se pode passar, parece-me que nos está dizendo vossa divina e humana bondade, Senhor, que o fizéreis assim facilmente, e vos deixaríeis persuadir, e convencer destas nossas razões, senão que está clamando por outra parte vossa divina justiça; e como sois igualmente justo e misericordioso, que não podeis deixar de castigar, sendo os pecados do Brasil tantos e tão grandes. Confesso, Deus meu, que assim é, e todos confessamos que somos grandíssimos pecadores. Mas tão longe estou de me aquietar com esta resposta, que antes esses mesmos pecados muitos e grandes são um novo e poderoso motivo dado por vós mesmo para mais convencer vossa bondade.

 

A maior força dos meus argumentos não consistiu em outro fundamento até agora, que no crédito, na honra e na glória de vosso santíssimo nome: Propter nomen tuum. E que motivo posso eu oferecer mais glorioso ao mesmo nome, que serem muitos e grandes os nossos pecados? Propter nomen tuum, Domine, propitiaberis peccato meo: multum est enim: "Por amor de vosso nome, Senhor, estou certo – dizia David – que me haveis de perdoar meus pecados, porque não são quaisquer pecados, senão muitos e grandes." Multum est enim. Oh! motivo digno só do peito de Deus! Oh! consequência que só na suma bondade pode ser forçosa! De maneira que, para lhe serem perdoados seus pecados, alegou um pecador a Deus que são muitos e grandes. Sim; e não por amor do pecador, nem por amor dos pecados, senão por amor da honra e glória do mesmo Deus, a qual quanto mais e maiores são os pecados que perdoa, tanto maior é e mais engrandece e exalta o seu santíssimo nome: Propter nomen tuum, Domine, propitiaberis peccato meo: multum est enim. O mesmo David distingue na misericórdia de Deus grandeza e multidão. A grandeza: Secundum magnam misericordiam tuam; a multidão: Et secundum multitudinem miserationum tuarum. E como a grandeza da misericórdia divina é imensa e a multidão de suas misericórdias infinita; e o imenso não se pode medir, nem o infinito contar; para que uma e outra, de algum modo, tenha proporcionada matéria de glória, importa à mesma grandeza da misericórdia que os pecados sejam grandes e à mesma multidão das misericórdias, que sejam muitos: Multum est enim. Razão tenho eu logo, Senhor, de me não render à razão de serem muitos e grandes nossos pecados. E razão tenho também de instar em vos pedir a razão por que não desistis de os castigar: Quare obdormis? Quare faciem tuum avertis? Quare oblivisceris inopiae et tribulationis nostrae?

 

Esta mesma razão vos pediu Jó quando disse: Cur non tollis peccatum meum et quare non aufers iniquitatem meam? E posto que não faltou um grande intérprete de vossas Escrituras que arguísse por vossa parte, enfim se deu por vencido e confessou que tinha razão Jó em vo-la pedir: Criminis in loco Deo impingis, quod ejus, qui deliquit, non miseretur? – diz S. Cirilo Alexandrino – Basta, Jó, que criminais e acusais a Deus de que castiga vossos pecados? Nas mesmas palavras confessais que cometestes pecados e maldades; e com as mesmas palavras pedis razão a Deus por que as castiga? Isto é dar a razão, e mais pedi-la. Os pecados e maldades, que não ocultais, são a razão do castigo: pois se dais a razão, por que a pedis? – Porque ainda que Deus para castigar os pecados, tem a razão de sua justiça, para os perdoar e desistir do castigo, tem outra razão maior, que é a da sua glória: Qui enim misereri consuevit, et non vulgarem in eo gloriam habet; ob quam causam mei non miseretur? Pede razão Jó a Deus, e tem muita razão de a pedir (responde por ele o mesmo santo, que o arguiu), porque, se é condição de Deus usar de misericórdia, e é grande e não vulgar a glória que adquire em perdoar pecados, que razão tem, ou pode dar bastante, de os não perdoar?

 

O mesmo Jó tinha já declarado a força deste seu argumento nas palavras antecedentes com energia para Deus muito forte: Peccavi, quid faciam tibi? Como se dissera: "Se eu fiz, Senhor, como homem em pecar, que razão tendes vós para não fazer, como Deus, em me perdoar?" Ainda disse e quis dizer mais: Peccavi, quid faciam tibi? "Pequei, que mais posso fazer?" E que fizestes vós, Jó, a Deus, em pecar? – Não lhe fiz pouco; porque lhe dei ocasião a me perdoar, e perdoando-me, ganhar muita glória. Eu dever-lhe-ei a ele, como a causa, a graça que me fizer; e ele dever-me-á a mim, como ocasião, a glória que alcançar. E se é assim, Senhor, sem licença, nem encarecimento; se é assim, misericordioso Deus, que em perdoar pecados se aumenta a vossa glória, que é o fim de todas as vossas ações; não digais que nos não perdoais, porque são muitos e grandes os nossos pecados, que antes porque são muitos e grandes, deveis dar essa grande glória à grandeza e multidão de vossas misericórdias. Perdoando-nos e tendo piedade de nós, é que haveis de ostentar a soberania de vossa majestade, e não castigando-nos, em que mais se abate vosso poder, do que se acredita. Vede-o neste último castigo, em que, contra toda a esperança do mundo e do tempo, fizestes que se derrotasse a nossa armada, a maior que nunca passou a Equinocial. Pudestes, Senhor, derrotá- la; e que grande glória foi de vossa omnipotência poder o que pode o vento? Contra folium, quod vento rapitur, ostendis potentiam. Desplantar uma nação, como nos ides desplantando, e plantar outra, também é poder que vós cometestes a um homenzinho de Anatote: Ecce constitui te super gentes et super regna, ut evellas et destruas et disperdas et dissipes et aedifices et plantes. O em que se manifesta a majestade, a grandeza e a glória de vossa infinita omnipotência, é em perdoar e usar de misericórdia: Qui omnipotentiam tuam, parcendo maxime, et miserando, manifestas. Em castigar, venceis-nos a nós grande glória vossa, que somos criaturas fracas; mas em perdoar, venceis-vos a vós mesmo, que sois todo poderoso e infinito. Só esta vitória é digna de vós, porque só vossa misericórdia pode pelejar com armas iguais contra vossa justiça; e sendo infinito o vencido, infinita fica a glória do vencedor. Perdoai, pois, benigníssimo Senhor, por esta Propter magnam gloriam tuam: perdoai por esta glória imensa de vosso santíssimo nome: Propter nomen tuum.

 

E se acaso ainda reclama vossa divina justiça, por certo, não já misericordioso, senão justíssimo Deus, que também a mesma justiça se pudera dar por satisfeita com os rigores e castigos de tantos anos. Não sois vós, enquanto justo, aquele justo juiz de quem canta o vosso Profeta: Deus  Judex justus, fortis et patiens, nunquid irascitur per singulos dies? Pois se a vossa ira, ainda como de justo juiz, não é de todos os dias nem de muitos, por que se não dará por satisfeita com rigores de anos e tantos anos? Sei eu, Legislador Supremo, que nos casos de ira, posto que justificada, nos manda vossa santíssima Lei que não passe de um dia, e que antes de se pôr o Sol tenhamos perdoado: Sol non occidat super iracundiam vestram. Pois se da fraqueza humana, e tão sensitiva, espera tal moderação nos agravos vossa mesma Lei, e lhe manda que perdoe e se aplaque em termo tão breve e tão preciso, vós, que sois Deus infinito e tendes um coração tão dilatado como vossa mesma imensidade, e em matéria de perdão vos propondes aos homens por exemplo, como é possível que os rigores de vossa ira se não abrandem em tantos anos, e que se ponha e torne a nascer o Sol tantas e tantas vezes, vendo sempre desembainhada e correndo sangue a espada de vossa vingança? Sol de justiça cuidei eu que vos chamavam as Escrituras, porque, ainda quando mais fogoso e ardente, dentro do breve espaço de doze horas, passava o rigor de vossos raios; mas não o dirá assim este Sol material que nos alumia e rodeia, pois há tantos dias e tantos anos que, passando duas vezes sobre nós de um trópico a outro, sempre vos vê irado. Já vos não alego, Senhor, com o que dirá a Terra e os homens, mas com o que dirá o Céu e o mesmo Sol. Quando Josué mandou parar o Sol, as palavras da língua hebraica em que lhe falou, foram, não que parasse, senão que se calasse: Sol tace contra Gabaon. Calar mandou ao Sol o valente capitão, porque aqueles resplandores amortecidos com que se ia sepultar no Ocaso, eram umas línguas mudas com que o mesmo Sol o murmurava de demasiadamente vingativo; eram umas vozes altíssimas, com que desde o Céu lhe lembrava a Lei de Deus, e lhe pregava que não podia continuar a vingança, pois ele se ia meter no Ocidente: Sol non occidat super iracundiam vestram. E se Deus, como autor da mesma Lei, ordenou que o Sol parasse, e aquele dia (o maior que viu o Mundo) excedesse os termos da natureza por muitas horas e fosse o maior, foi para que, concordando a justa lei com a justa vingança, nem por uma parte se deixasse de executar o rigor do castigo, nem por outra se dispensasse no rigor do preceito. Castigue-se o gabaonita, pois é justo castigá-lo; mas esteja o Sol parado até que se acabe o castigo, para que a ira, posto que justa, do vencedor, não passe os limites de um dia.

 

Pois se este é, Senhor, o termo prescrito de vossa Lei; se fazeis milagres e tais milagres para que ela se conserve inteira, e se Josué manda calar e emudecer o Sol, porque se não queixe e dê vozes contra a continuação de sua ira, que quereis que diga o mesmo Sol, não parado nem emudecido?

 

Que quereis que diga a Lua e as estrelas, já cansadas de ver nossas misérias? Que quereis que digam todos esses céus criados, não para apregoar vossas justiças, senão para cantar vossas glórias: Coeli enarrant gloriam Dei?

 

Finalmente, benigníssimo Jesus, verdadeiro Josué e verdadeiro Sol, seja o epílogo e conclusão de todas as nossas razões o vosso mesmo nome: Propter nomen tuum. Se o Sol estranha a Josué rigores de mais de um dia, e Josué manda calar o Sol, porque lhos não estranhe; como pode estranhar vossa divina justiça que useis connosco de misericórdia, depois da execução de tantos e tão rigorosos castigos continuados, não por um dia ou muitos dias de doze horas, senão por tantos e tão compridos anos, que cedo serão doze? Se sois Jesus, que quer dizer Salvador, sede Jesus e sede Salvador nosso. Se sois Sol e Sol de justiça, antes que se ponha o deste dia, deponde os rigores da vossa. Deixai já o signo rigoroso de Leão, e dai um passo ao signo de Virgem, signo propício e benéfico. Recebei influências humanas, de quem recebestes a humanidade. Perdoai-nos, Senhor, pelos merecimentos da Virgem Santíssima. Perdoai- nos por seus rogos, ou perdoai- nos por seus impérios; que, se como criatura vos pede por nós o perdão, como Mãe vos pode mandar e vos manda que nos perdoeis. Perdoai-nos, enfim, para que a vosso exemplo perdoemos; e perdoai-nos também a exemplo nosso, que todos desde esta hora perdoamos a todos por vosso amor: Dimitte nobis debita nostra, sicut et nos dimittimus debitoribus nostris. Amen.

 

FIM

Berta Brás.jpgBerta Brás



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PORQUE HOJE É DIA DE VER A DEUS - 4

 

 Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda

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P. António Vieira, SJ.png Padre António Vieira

 

 

IV

Bem vejo que me podeis dizer, Senhor, que a propagação de vossa Fé e as obras de vossa glória não dependem de nós, nem de ninguém, e que sois poderoso, quando faltem homens, para fazer das pedras filhos de Abraão. Mas também a vossa sabedoria e a experiência de todos os séculos nos têm ensinado, que depois de Adão não criastes homens de novo, que vos servis dos que tendes neste Mundo, e que nunca admitis os menos bons, senão em falta dos melhores. Assim o fizestes na parábola do banquete. Mandastes chamar os convidados que tínheis escolhido, e porque eles se escusaram e não quiseram vir, então admitistes os cegos e mancos, e os introduzistes em seu lugar: Caecos et claudos introduc huc. E se esta é, Deus meu, a regular disposição de vossa providência divina, como a vemos agora tão trocada em nós e tão diferente connosco? Quais foram estes convidados e quais são estes cegos e mancos? Os convidados fomos nós, a quem primeiro chamastes para estas terras, e nelas nos pusestes a mesa, tão franca e abundante, como de vossa grandeza se podia esperar. Os cegos e mancos são os luteranos e calvinistas, cegos sem fé e mancos sem obras, na reprovação das quais consiste o principal erro da sua heresia. Pois se nós, que fomos os convidados, não nos escusamos nem duvidamos de vir, antes rompemos por muitos inconvenientes em que pudéramos duvidar; se viemos e nos assentamos à mesa, como nos excluís agora e lançais fora dela e introduzis violentamente os cegos e mancos, e dais os nossos lugares ao herege? Quando em tudo o mais foram eles tão bons como nós, ou nós tão maus como eles, por que nos não há de valer pelo menos o privilégio e prerrogativa da fé? Em tudo parece, Senhor, que trocais os estilos de vossa providência e mudais as leis de vossa justiça connosco.

 

Aquelas dez virgens do vosso Evangelho todas se renderam ao sono, todas adormeceram, todas foram iguais no mesmo descuido: Dormitaverunt omnes et dormierunt. E contudo, a cinco delas passou- lhes o esposo por este defeito, e só porque conservaram as alâmpadas acesas, mereceram entrar às bodas, de que as outras foram excluídas. Se assim é, Senhor meu, se assim o julgastes então (que vós sois aquele Esposo Divino), por que não nos vale a nós também conservar as alâmpadas da Fé acesas, que no herege estão tão apagadas e tão mortas? É possível que haveis de abrir as portas a quem traz as alâmpadas apagadas, e as haveis de fechar a quem as tem acesas? Reparai, senhor, que não é autoridade do vosso divino tribunal que saíam dele no mesmo caso duas sentenças tão encontradas. Se às que deixaram apagar as alâmpadas se disse: Nescio vos; se para elas se fecharam as portas: Clausa est janua; quem merece ouvir de vossa boca um Nescio vos tremendo, senão o herege, que vos não conhece? E a quem deveis dar com a porta nos olhos, senão ao herege, que os tem tão cegos? Mas eu vejo que nem esta cegueira, nem este desconhecimento, tão merecedores de vosso rigor, lhe retarda o progresso de suas fortunas, antes a passo largo se vêm chegando a nós suas armas vitoriosas, e cedo nos baterão às portas desta vossa cidade. Desta vossa cidade disse; mas não sei se o nome do Salvador, com que a honrastes, a salvará e defenderá, como já outra vez não defendeu; nem sei se estas nossas deprecações, posto que tão repetidas e continuadas, acharão acesso a vosso conspecto divino, pois há tantos anos que está bradando ao Céu a nossa justa dor, sem a vossa clemência dar ouvidos a nossos clamores. Se acaso for assim (o que vós não permitais), e está determinado em vosso secreto juízo que entrem os hereges na Bahia, o que só vos represento humildemente e muito deveras, é que antes da execução da sentença repareis bem, Senhor, no que vos pode suceder depois, e que o consulteis com vosso coração enquanto é tempo; porque melhor será arrepender agora, que quando o mal passado não tenha remédio. Bem estais na intenção e alusão com que digo isto, e na razão, fundada em vós mesmo, que tenho para o dizer. Também antes do dilúvio estáveis vós mui colérico e irado contra os homens, e por mais que Noé orava em todos aqueles cem anos, nunca houve remédio para que se aplacasse vossa ira. Romperam-se, enfim, as cataratas do céu, cresceu o mar até os cumes dos montes, alagou-se o Mundo todo: já estaria satisfeita a vossa justiça. Senão quando, ao terceiro dia, começaram a boiar os corpos mortos, e a surgir e aparecer em multidão infinita aquelas figuras pálidas, e então se representou sobre as ondas a mais triste e funesta tragédia que nunca viram os anjos, que homens que a vissem não os havia. Vistes vós também (como se o vísseis de novo) aquele lastimosíssimo espectáculo, e posto que não chorastes, porque ainda não tínheis olhos capazes de lágrimas, enterneceram-se, porém, as entranhas de vossa Divindade, "com tão intrínseca dor": Tactus dolore cordis intrinsecus que, do modo que em vós cabe arrependimento, vos arrependestes do que tínheis feito ao Mundo; e foi tão inteira a vossa contrição, que não só tivestes pesar do passado, senão propósito firme de nunca mais o fazer: Nequanquam ultra maledicam terrae propter homines.

 

Este sois, Senhor, este sois; e pois sois este não vos tomeis com vosso coração. Para que é fazer agora valentias contra ele, se o seu sentimento, e o vosso as há de pagar depois? Já que as execuções de vossa justiça custam arrependimento à vossa bondade, vede o que fazeis antes que o façais, não vos aconteça outra. E para que o vejais com cores humanas, que já vos não são estranhas, dai-me licença que eu vos represente primeiro ao vivo as lástimas e misérias deste futuro dilúvio, e se esta representação vos não enternecer e tiverdes entranhas para o ver sem grande dor, executai-o embora. Finjamos, pois (o que até fingido e imaginado faz horror); finjamos que vem a Bahia e o resto do Brasil a mãos dos holandeses; que é o que há de suceder em tal caso? – Entrarão por esta cidade com fúria de vencedores e de hereges; não perdoarão a estado, a sexo nem a idade; com os fios dos mesmos alfanjes medirão a todos; chorarão as mulheres, vendo que se não guarda decoro à sua modéstia; chorarão os velhos, vendo que se não guarda respeito a suas cãs; chorarão os nobres, vendo que se não guarda cortesia à sua qualidade; chorarão os religiosos e veneráveis sacerdotes, vendo que até as coroas sagradas os não defendem; chorarão finalmente todos, e entre todos mais lastimosamente os inocentes, porque nem a esses perdoará (como em outras ocasiões não perdoou), a desumanidade herética. Sei eu, Senhor, que só por amor dos inocentes dissestes vós alguma hora, que não era bem castigar a Nínive. Mas não sei que tempos, nem que desgraça é esta nossa, que até a mesma inocência vos não abranda. Pois também a vós, Senhor, vos há de alcançar parte do castigo (que é o que mais sente a piedade cristã), também a vós há de chegar. Entrarão os hereges nesta igreja e nas outras; arrebatarão essa custódia, em que agora estais adorado dos anjos; tomarão os cálices e vasos sagrados, e aplicá-los-ão a suas nefandas embriaguezes; derrubarão dos altares os vultos e estátuas dos santos, deformá-las-ão a cutiladas, e metê-las-ão no fogo; e não perdoarão as mãos furiosas e sacrílegas nem às imagens tremendas de Cristo crucificado, nem às da Virgem Maria.

 

Não me admiro tanto, Senhor, de que hajais de consentir semelhantes agravos e afrontas nas vossas imagens, pois já as permitistes em vosso sacratíssimo corpo; mas nas da Virgem Maria, nas de vossa Santíssima Mãe, não sei como isto pode estar com a piedade e amor de Filho. No Monte Calvário esteve esta Senhora sempre ao pé da cruz, e com serem aqueles algozes tão descorteses e cruéis, nenhum se atreveu a lhe tocar nem a lhe perder o respeito. Assim foi e assim havia de ser, porque assim o tínheis vós prometido pelo Profeta: Flagellum non appropinquabit tabernaculo tuo. Pois, Filho da Virgem Maria, se tanto cuidado tivestes então do respeito e decoro de vossa Mãe, como consentis agora que se lhe façam tantos desacatos?

 

Nem me digais, Senhor, que lá era a pessoa, cá a imagem. Imagem somente da mesma Virgem era a Arca do Testamento, e só porque Oza a quis tocar, lhe tirastes a vida. Pois se então havia tanto rigor para quem ofendia a imagem de Maria, por que o não há também agora? Bastava então qualquer dos outros desacatos às coisas sagradas, para uma severíssima demonstração vossa, ainda milagrosa. Se a Jeroboão, por que levantou a mão para um Profeta, se lhe secou logo o braço milagrosamente, como aos hereges, depois de se atreverem a afrontar vossos santos, lhes ficam ainda braços para outros delitos? Se a Baltasar, por beber pelos vasos do templo, em que não se consagrava vosso sangue, o privastes da vida e do reino, por que vivem os hereges, que convertem vossos cálices a usos profanos? Já não há três dedos que escrevam sentença de morte contra sacrílegos?!

 

Enfim, Senhor, despojados assim os templos e derrubados os altares, acabar-se-á no Brasil a cristandade católica; acabar-se-á o culto divino; nascerá erva nas igrejas, como nos campos; não haverá quem entre nelas. Passará um dia de Natal, e não haverá memória de vosso nascimento; passará a Quaresma e a Semana Santa, e não se celebrarão os mistérios de vossa Paixão. Chorarão as pedras das ruas, como diz Jeremias que choravam as de Jerusalém destruída: Viae Sion lugent, eo quod non sint qui veniant ad solemnitatem. Ver-se-ão ermas e solitárias, e que as não pisa a devoção dos fiéis, como costumava em semelhantes dias. Não haverá missas, nem altares,nem sacerdotes que as digam; morrerão os católicos sem confissão nem sacramentos; pregar-se-ão heresias nestes mesmos púlpitos, e em lugar de São Jerónimo e Santo Agostinho, ouvir-se-ão e alegar-se-ão neles os infames nomes de Calvino e Lutero; beberão a falsa doutrina os inocentes que ficarem, relíquias dos portugueses;e chegaremos a estado que, se perguntarem aos filhos e netos dos que aqui estão: – Menino, de que seita sois? Um responderá: – Eu sou calvinista; outro: – Eu sou luterano. Pois isto se há de sofrer, Deus meu? Quando quisestes entregar vossas ovelhas a São Pedro, examinaste- lo três vezes se vos amava: Diligis me, diligis me, diligis me? E agora as entregais desta maneira, não a pastores, senão aos lobos?! Sois o mesmo, ou sois outro? Aos hereges o vosso rebanho? Aos hereges as almas? Como tenho dito, e nomeei almas, não vos quero dizer mais. Já sei, Senhor, que vos haveis de enternecer e arrepender, e que não haveis de ter coração para ver tais lástimas e tais estragos. E se assim é (que assim o estão prometendo vossas entranhas piedosíssimas), se é que há de haver dor, se é que há de haver arrependimento depois, cessem as iras, cessem as execuções agora, que não é justo vos contente antes o de que vos há de pesar em algum tempo. Muito honrastes, Senhor, ao homem na criação do Mundo, formando-o com vossas próprias mãos, informando-o e animando-o com vosso próprio alento e imprimindo nele o carácter de vossa imagem e semelhança. Mas parece que logo desde aquele mesmo dia vos não contentastes dele, porque de todas as outras coisas que criastes, diz a Escritura que vos pareceram bem: Vidit Deus quod esset bonum; e só do homem o não diz. Na admiração desta misteriosa reticência andou desde então suspenso e vacilando o juízo humano, não podendo penetrar qual fosse a causa por que, agradando-vos com tão pública demonstração todas as vossas obras, só do homem, que era a mais perfeita de todas, não mostrásseis agrado. Finalmente, passados mais de mil e setecentos anos, a mesma Escritura, que tinha calado aquele mistério, nos declarou que vós estáveis arrependido de ter criado o homem: Paenituit eum quod hominem fecisset in terra, e que vós mesmo dissestes que vos pesava: Paenitet me fecisse eos; e então ficou patente e manifesto a todos o segredo que tantos tempos tínheis ocultado. E vós, Senhor, dizeis que vos pesa e que estais arrependido de ter criado o homem; pois essa é a causa por que logo desde o princípio de sua criação vos não agradastes dele, nem quisestes que se dissesse que vos parecera bem, julgando, como era razão, por coisa muito alheia de vossa sabedoria e providência, que em nenhum tempo vos agradasse nem parecesse bem aquilo de que depois vos havíeis de arrepender e ter pesar de ter feito: Paenitet me fecisse.

 

Sendo, pois, esta a condição verdadeiramente divina e a altíssima razão de estado de vossa providência – não haver jamais agrado do que há-de haver arrependimento; e sendo também certo nas piedosíssimas entranhas de vossa misericórdia, que se permitirdes agora as lástimas, as misérias, os estragos que tenho representado, é força que vos há de pesar depois e vos haveis de arrepender, arrependei-vos, misericordioso Deus, enquanto estamos em tempo, ponde em nós os olhos de vossa piedade, ide à mão à vossa irritada justiça, quebre vosso amor as setas de vossa ira, e não permitais tantos danos, e tão irreparáveis. Isto é o que vos pedem, tantas vezes prostradas diante de vosso divino acatamento, estas almas tão fielmente católicas, em nome seu e de todas as deste Estado. E não vos fazem esta humilde deprecação pelas perdas temporais, de que cedem, e as podeis executar neles por outras vias; mas pela perda espiritual eterna de tantas almas, pelas injúrias de vossos templos e altares, pela exterminação do sacrossanto sacrifício de vosso corpo e sangue, e pela ausência insofrível, pela ausência e saudades desse Santíssimo Sacramento, que não sabemos quanto tempo teremos presente.

(continua)

 

Berta Brás.jpg  Berta Brás



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Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda

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 III

 

Considerai, Deus meu – e perdoai-me, se falo inconsideradamente – considerai a quem tirais as terras do Brasil e a quem as dais. Tirais estas terras aos portugueses a quem nos princípios as destes; e bastava dizer a quem as dais, para perigar o crédito de vosso nome, que não podem dar nome de liberal mercês com arrependimento. Para que nos disse S. Paulo, que vós, Senhor, "quando dais, não vos arrependeis": Sine paenitentia enim sunt dona Dei? Mas deixado isto à parte: tirais estas terras àqueles mesmos portugueses a quem escolhestes entre todas as nações do Mundo para conquistadores da vossa Fé, e a quem destes por armas como insígnia e divisa singular vossas próprias chagas. E será bem, Supremo Senhor e Governador do Universo, que às sagradas quinas de Portugal e às armas e chagas de Cristo, sucedam as heréticas listas de Holanda, rebeldes a seu rei e a Deus? Será bem que estas se vejam tremular ao vento vitoriosas, e aquelas abatidas, arrastadas e ignominiosamente rendidas? Et quid facies magno nomini tuo? E que fareis (como dizia Josué) ou que será feito de vosso glorioso nome em casos de tanta afronta? Tirais também o Brasil aos portugueses, que assim estas terras vastíssimas, como as remotíssimas do Oriente, as conquistaram à custa de tantas vidas e tanto sangue, mais por dilatar vosso nome e vossa Fé (que esse era o zelo daqueles cristianíssimos reis) que por amplificar e estender seu império. Assim fostes servido que entrássemos nestes novos mundos, tão honrada e tão gloriosamente, e assim permitis que saiamos agora (quem tal imaginaria de vossa bondade!), com tanta afronta e ignomínia! Oh! como receio que não falte quem diga o que diziam os egípcios: Callide eduxit eos, ut interficeret et deleret e terra. Que a larga mão com que nos destes tantosdomínios e reinos não foram mercês de vossa liberalidade, senão cautela e dissimulação de vossa ira, para aqui fora e longe de nossa Pátria nos matardes, nos destruirdes, nos acabardes de todo. Se esta havia de ser a paga e o fruto de nossos trabalhos, para que foi o trabalhar, para que foi o servir, para que foi o derramar tanto e tão ilustre sangue nestas conquistas? Para que abrimos os mares nunca dantes navegados? Para que descobrimos as regiões e os climas não conhecidos? Para que contrastamos os ventos e as tempestades com tanto arrojo, que apenas há baixio no Oceano, que não esteja infamado com miserabilíssimos naufrágios de portugueses? E depois de tantos perigos, depois de tantas desgraças, depois de tantas e tão lastimosas mortes, ou nas praias desertas sem sepultura, ou sepultados nas entranhas dos alarves, das feras, dos peixes, que as terras que assim ganhamos, as hajamos de perder assim? Oh! quanto melhor nos fora nunca conseguir, nem intentar tais empresas! Mais santo que nós era Josué, menos apurada tinha a paciência, e, contudo, em ocasião semelhante, não falou (falando convosco) por diferente linguagem. Depois de os filhos de Israel passarem às terras ultramarinas do Jordão, como nós a estas, avançou parte do exército a dar assalto à cidade de Hai, a qual nos ecos do nome já parece que trazia o prognóstico do infeliz sucesso que os israelitas nela tiveram; porque foram rotos e desbaratados, posto que com menos mortos e feridos, do que nós por cá costumamos. E que faria Josué à vista desta desgraça? Rasga as vestiduras imperiais, lança-se por terra, começa a clamar ao Céu: Heu! Domine Deus, quid voluisti traducere populum istum Jordanem fluvium, ut traderes nos in manus Amorrhaei? "Deus meu e Senhor meu, que é isto? Para que nos mandastes passar o Jordão e nos metestes de posse destas terras, se aqui nos haveis de entregar nas mãos dos amorreus e perder-nos?" Utinam mansissemus trans Jordanem! "Oh! nunca nós passáramos tal rio!"

 

Assim se queixava Josué a Deus, e assim nos podemos nós queixar, e com muito maior razão que ele. Se este havia de ser o fim de nossas navegações, se estas fortunas nos esperavam nas terras conquistadas: "Oh! Nunca nós passáramos tal rio!". Utinam mansissemus trans Jordanem! Prouvera a vossa Divina Majestade que nunca saíramos de Portugal, nem fiáramos nossas vidas às ondas e aos ventos, nem conhecêramos ou puséramos os pés em terras estranhas! Ganhá-las para as não lograr, desgraça foi e não ventura; possuí-las para as perder, castigo foi de vossa ira, Senhor, e não mercê, nem favor de vossa liberalidade. Se determináveis dar estas mesmas terras aos piratas de Holanda, por que lhas não destes enquanto eram agrestes e incultas, senão agora? Tantos serviços vos tem feito esta gente pervertida e apóstata, que nos mandastes primeiro cá por seus aposentadores; para lhe lavrarmos as terras, para lhe edificarmos as cidades, e depois de cultivadas e enriquecidas lhas entregardes? Assim se hão de lograr os hereges e inimigos da Fé, dos trabalhos portugueses e dos suores católicos? En queis consevimus agros! "Eis aqui para quem trabalhamos há tantos anos! "Mas pois vós, Senhor, o quereis e ordenais assim, fazei o que fordes servido. Entregai aos holandeses o Brasil, entregai- lhes as Índias, entregai-lhes as Espanhas (que não são menos perigosas as consequências do Brasil perdido); entregai- lhes quanto temos e possuímos (como já lhes entregastes tanta parte); ponde em suas mãos o Mundo; e a nós, aos portugueses e espanhóis, deixai-nos, repudiai-nos, desfazei-nos, acabai-nos. Mas só digo e lembro a Vossa Majestade, Senhor, que estes mesmos que agora desfavoreceis e lançais de vós, pode ser que os queirais algum dia, e que os não tenhais. Não me atrevera a falar assim, se não tirara as palavras da boca de Jó, que como tão lastimado, não é muito entre muitas vezes nesta tragédia.

 

Queixava-se o exemplo da paciência a Deus (que nos quer Deus sofridos, mas não insensíveis), queixava-se do tesão de suas penas demandando e altercando, por que se lhe não havia de remitir e afrouxar um pouco o rigor delas; e como a todas as réplicas e instâncias o Senhor se mostrasse inexorável, quando já não teve mais que dizer, concluiu assim: Ecce nunc in pulvere dormiam, et si mane me quaesieris, non subsistam. Já que não quereis, Senhor, desistir ou moderar o tormento, já que não quereis senão continuar o rigor e chegar com ele ao cabo, seja muito embora; matai-me, consumi-me,enterrai-me: Ecce nunc in pulvere dormiam; mas só vos digo e vos lembro uma coisa: que "se me buscardes amanhã, que me não haveis de achar": Et si mane me quaesieris, non subsistam. Tereis aos sabeus, tereis aos caldeus, que sejam o roubo e o açoite de vossa casa; mas não achareis a um Jó que a sirva, não achareis a um Jó que a venere, não achareis a um Jó, que ainda com suas chagas a não desautorize. O mesmo digo eu, senhor, que não é muito rompa nos mesmos afectos, quem se vê no mesmo estado. Abrasai, destruí, consumi-nos a todos; mas pode ser que algum dia queirais espanhóis e portugueses, e que os não acheis. Holanda vos dará os apostólicos conquistadores, que levem pelo Mundo os estandartes da cruz; Holanda vos dará os pregadores evangélicos, que semeiem nas terras dos bárbaros a doutrina católica e a reguem com o próprio sangue; Holanda defenderá a verdade de vossos Sacramentos e a autoridade da Igreja Romana; Holanda edificará templos, Holanda levantará altares, Holanda consagrará sacerdotes e oferecerá o sacrifício de vosso Santíssimo Corpo; Holanda, enfim, vos servirá e venerará tão religiosamente, como em Amsterdão, Meldeburgo e Flisinga e em todas as outras colónias daquele frio e alagado inferno se está fazendo todos os dias.

(continua)

Berta Brás.jpg Berta Brás



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PORQUE HOJE É DIA DE VER A DEUS - 2

 Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda

(Biblioteca online)

P. António Vieira, SJ.png Padre António Vieira

 

II

Exurge! Quare obdormis, Domine? Querer argumentar com Deus e convencê-lo com "Homem atrevido – diz S. Paulo – homem temerário, quem és tu, para que te ponhas a altercar com Deus? Porventura o barro que está na roda e entre as mãos do oficial, põe-se às razões com ele e diz-lhe: por que me fazes assim?" Pois se tu és barro, homem mortal, se te formaram as mãos de Deus da matéria vil da terra, como dizes ao mesmo Deus: – Quare? Quare? Como te atreves a argumentar com a sabedoria divina, como pedes razão à sua Providência do que te faz ou deixa de fazer? Quare obdormis? Quare faciem tuam avertis? Venera suas permissões, reverencia e adora seus ocultos juízos, encolhe os ombros com humildade a seus decretos soberanos, e farás o que te ensina a Fé e o que deves à criatura. Assim o fazemos, assim o confessamos, assim o protestamos diante de vossa Majestade infinita, imenso Deus, incompreensível bondade: Justus es, Domine, et rectum judicium tuum. Por mais que nós não saibamos entender vossas obras, por mais que não possamos alcançar vossos conselhos, sempre sois justo, sempre sois santo, sempre sois infinita bondade; e ainda nos maiores rigores de vossa justiça, nunca chegais com a severidade do castigo aonde nossas culpas merecem. Se as razões e argumentos da nossa causa as houvéramos de fundar em merecimentos próprios, temeridade fora grande, antes impiedade manifesta, querer-vos arguir. Mas nós, Senhor, como protestava o vosso profeta Daniel: Neque enim in justificationibus nostris, prosternimus preces ante faciem tuam, sed in miserationibus tuis multis: os requerimentos, e razões deles, que humildemente presentamos ante vosso divino conspecto, as apelações ou embargos que interpomos à execução e continuação dos castigos que padecemos, de  nenhum modo os fundamos na presunção de nossa justiça, mas todos na multidão de vossas misericórdias: In miserationibus tuis multis.

 

Argumentamos, sim, mas de vós para vós; apelamos, mas de Deus para Deus – de Deus justo, para Deus misericordioso. E como do peito, Senhor, vos hão de sair todas as setas, mal poderão ofender vossa bondade. Mas porque a dor quando é grande sempre arrasta o afecto, e o acerto das palavras é descrédito da mesma dor, para que o justo sentimento dos males presentes não passe os limites sagrados de quem fala diante de Deus e com Deus, em tudo o que me atrever a dizer seguirei as pisadas sólidas dos que em semelhantes ocasiões, guiados por vosso mesmo espírito, oraram e exoraram vossa piedade.

 

Quando o povo de Israel no deserto cometeu aquele gravíssimo pecado de idolatria, adorando o ouro das suas jóias na imagem bruta de um bezerro, revelou Deus o caso a Moisés, que com ele estava, e acrescentou irado e resoluto, que daquela vez havia de acabar para sempre com uma gente tão ingrata, e que a todos havia de assolar e consumir, sem que ficasse rasto de tal geração: Dimitte me, ut irascitur furor meus contra eos et deleam eos. Não lhe sofreu, porém, o coração ao bom Moisés ouvir falar em destruição e assolação do seu povo; põe-se em campo, opõe-se à ira divina e começa a arrazoar assim: Cur, Domine, irascitur furor tuus contra populum tuum? "E bem, Senhor, por que razão se indigna tanto a vossa ira contra o de vos dizer que está o povo idolatrando; que está adorando um animal bruto; que está negando a divindade ao mesmo Deus e dando-a a uma estátua muda, que acabaram de fazer suas mãos, e atribuindo-lhe a ela a liberdade e triunfo com que os livrou do cativeiro do Egito, e sobre tudo isso ainda perguntais a Deus por que razão se agasta: Cur irascitur furor tuus?! – Sim, e com muito prudente zelo; porque ainda que da parte do povo havia muito grandes razões de ser castigado, da parte de Deus era maior a razão que havia de o não castigar: Ne, quaeso, – dá razão Moisés, – ne, quaeso, dicant Aegyptii: Callide eduxit eos, ut interficeret in montibus et deleret e terra. Olhai, Senhor, que porão mácula os egípcios em vosso ser, e, quando menos, em vossa verdade e bondade. Dirão que, cautelosamente e à falsa fé, nos trouxestes a este deserto, para aqui nos tirardes a vida a todos e nos sepultardes. E com esta opinião divulgada e assentada entre eles, qual será o abatimento de vosso santo nome, que tão respeitado e exaltado deixastes no mesmo Egipto, com tantas e tão prodigiosas maravilhas do vosso poder? Convém logo, para conservar o crédito, dissimular o castigo e não dar com ele ocasião àqueles gentios e aos outros, em cujas terras estamos, o que dirão: Ne, quaeso, dicant.

 

Desta maneira arrazoou Moisés em favor do povo; e ficou tão convencido Deus da força deste argumento, que no mesmo ponto revogou a sentença, e, conforme o texto hebreu, não só se arrependeu da execução, senão ainda do pensamento: Et poenituit Dominum mali, quod cogitaverat facere populo suo. E arrependeu-se o Senhor do pensamento e da imaginação que tivera de castigar o seu povo.

 

Muita razão tenho eu logo, Deus meu, de esperar que haveis de sair deste sermão arrependido, pois sois o mesmo que éreis, e não menos amigo agora, que nos tempos passados, de vosso nome: Propter nomen tuum. Moisés disse-vos: Ne, quaeso, dicant: "Olhai, senhor, que dirão." E eu digo e devo dizer: Olhai, senhor, que já dizem. Já dizem os hereges insolentes com os sucessos prósperos, que vós lhes dais ou permitis: já dizem que porque a sua, que eles chamam religião, é a verdadeira, por isso Deus os ajuda e vencem; e porque a nossa é errada e falsa, por isso nos desfavorece e somos vencidos. Assim o dizem, assim o pregam, e ainda mal, porque não faltará quem os creia. Pois é possível, Senhor, que hão de ser vossas permissões argumentos contra vossa Fé? É possível que se hão de ocasionar de nossos castigos blasfêmias contra vosso nome?! Que diga o herege (o que treme de o pronunciar a língua), que diga o herege, que Deus está holandês?! Oh não permitais tal, Deus meu, não permitais tal, por quem sois! Não o digo por nós, que pouco ia em que nos castigásseis; não o digo pelo Brasil, que pouco ia em que o destruísseis; por vós o digo e pela honra de vosso Santíssimo Nome, que tão imprudentemente se vê blasfemado: Propter nomen tuum. Já que o pérfido calvinista dos sucessos que só lhe merecem nossos pecados faz argumento da religião, e se jacta insolente e blasfemo de ser a sua verdadeira, veja ele na roda dessa mesma fortuna, que o desvanece, de que parte está a verdade. Os ventos e tempestades, que descompõem e derrotam as nossas armadas, derrotem e desbaratem as suas; as doenças e pestes, que diminuem e enfraquecem os nossos exércitos, escalem as suas muralhas e despovoem os seus presídios, os conselhos que, quando vós quereis castigar, se corrompem, em nós sejam alumiados e neles enfatuados e confusos. Mude a vitória as insígnias, desafrontem-se as cruzes católicas, triunfem as vossas chagas nas nossas bandeiras, e conheça humilhada e desenganada a perfídia, que só a Fé romana, que professamos, é Fé, e só ela a verdadeira e a vossa. Mas ainda há mais quem diga. Ne, quaeso, dicant Aegyptii: Olhai, Senhor, que vivemos entre gentios, uns que o são, outros que o foram ontem; e estes que dirão? Que dirá o Tapuia bárbaro sem conhecimento de Deus? Que dirá o Índio inconstante, a quem falta a pia afeição da nossa Fé? Que dirá o Etíope boçal, que apenas foi molhado com a água do baptismo sem mais doutrina? Não há dúvida que todos estes, como não têm capacidade para sondar o profundo de vossos juízos, beberão o erro pelos olhos. Dirão, pelos efeitos que vêem, que a nossa Fé é falsa, e a dos holandeses a verdadeira, e crerão que são mais cristãos, sendo como eles. A seita do herege torpe e brutal concorda mais com a brutalidade do bárbaro; a largueza e soltura da vida, que foi a origem e é o fomento da heresia, casa-se mais com os costumes depravados e corrupção do gentilismo; e que pagão haverá que se converta à Fé que lhe pregamos, ou que novo cristão já convertido, que se não perverta, entendendo e persuadindo-se uns e outros que no herege é premiada a sua lei, e no Católico se castiga a nossa? Pois se estes são os efeitos, posto que não pretendidos, de vosso rigor e castigo, justamente começado em nós, se ateia e passa com tanto dano aos que não são cúmplices das nossas culpas: Cur irascitur furor tuus? Por que continua sem estes reparos o que vós mesmo chamastes furor? E por que não acabais já de embainhar a espada de vossa ira? Se tão gravemente ofendido do povo hebreu, por um que dirão dos egípcios lhe perdoastes; o que dizem os hereges, e o que dirão os gentios,não será bastante motivo para que vossa rigorosa mão suspenda o castigo e perdoe também os nossos pecados, pois, ainda que grandes, são menores? Os hebreus adoraram o ídolo, faltaram à Fé, deixaram o culto do verdadeiro Deus, chamaram Deus e Deuses a um bezerro: e nós, por mercê de vossa bondade infinita, tão longe estamos e estivemos sempre de menor defeito ou escrúpulo nesta parte, que muitos deixaram a pátria, a casa, a fazenda, e ainda a mulher e os filhos, e passam em suma miséria desterrados, só por não viver nem comunicar com homens que se separaram da vossa Igreja. Pois, Senhor meu e Deus meu, se por vosso amor e por vossa Fé, ainda sem perigo de a perder ou arriscar, fazem tais finezas os portugueses: Quare oblivisceris inopiae nostrae? et tribulationis nostrae? Por que vos esqueceis de tão religiosas misérias, de tão católicas tribulações? Como é possível que se ponha Vossa Majestade irada contra estes fidelíssimos servos, e favoreça a parte dos infiéis, dos excomungados, dos ímpios? Oh! como nos podemos queixar neste passo, como se queixava lastimado , quando, despojado dos sabeus e caldeus, se viu, como nós nos vemos, no extremo da opressão e miséria: Nunquid bonum tibi videtur, si calumnieris me et opprimas me opus manuum tuarum et consilium impiorum adjuves? Parece-vos bem, Senhor, parece-vos bem isto? Que a mim, que sou vosso servo, me oprimais e aflijais, e aos ímpios, aos inimigos vossos os favoreçais e ajudeis? Parece- vos bem que sejam eles os prosperados e assistidos de vossa providência, e nós os deixados de vossa mão; nós os esquecidos de vossa memória, nós o exemplo de vossos rigores, nós o despojo de vossa ira? Tão pouco é desterrar-nos por vós e deixar tudo? Tão pouco é padecer trabalhos, pobrezas e os desprezos que elas trazem consigo, por vosso amor? Já a fé não tem merecimento? Já a piedade não tem valor? Já a perseverança não vos agrada? Pois se há tanta diferença entre nós, ainda que maus, e aqueles pérfidos, por que os ajudais a eles e nos desfavoreceis a nós? Nunquid bonum tibi videtur: "A vós, que sois a mesma bondade, parece-vos bem isto?"

(continua)

Berta Brás.jpg Berta Brás



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 11:51
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PORQUE HOJE É DIA DE VER A DEUS - 1

UM SERMÃO DE VIEIRA

 

Um artigo do Dr. Salles da Fonseca sobre uma figura da história da Holanda que teve participação na história portuguesa – Maurício de Nassau, governador do Nordeste Brasileiro na altura do domínio filipino em Portugal – fez-me procurar na Internet o Sermão do Padre António Vieira responsável pela revolta portuguesa que repôs o governo português no Recife. Trata-se do “Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda” que eu apenas conhecia por referência, e logo encontrei, com alegria e gratidão pela Internet, mais uma peça de arte oratória que resolvi guardar no meu blog.

 

Um sermão que mais uma vez comprova os extraordinários dons oratórios de Vieira, no seu discurso temerário, desafiante – desta vez ao próprio Deus, tal como o haviam feito outras personagens bíblicas das suas citações, que vai entremeando com ironia ou zanga ao longo dos cinco capítulos da estrutura externa, para adaptar às razões que evoca na argumentação com Deus e o levar ao arrependimento por consentir que o povo que difundiu a fé pelo mundo seja escorraçado em parte desse mundo por um povo herege, o holandês.

 

É este, pois, o tema do sermão, que parte dum juízo bíblico – o conceito predicável – retirado do salmo XLIII de David – que traduzo do manual bíblico de que disponho: Bíblia Sagrada (versão dos textos originais), 5ª Edição, 1973 pela Difusora Bíblica (Missionários Capuchinhos) Lisboa: «Acordai, Senhor, porque dormis? / Despertai e não me rejeiteis para sempre! / Porque escondeis a vossa face? / Esqueceis a nossa miséria e opressões? ( / A nossa alma está prostrada até ao pó, / O nosso ventre pegou-se à terra,) / Levantai-vos, e vinde em nosso auxílio, / E livrai-nos pela vossa bondade!»

 

E as frases do Salmo são retomadas  logo no Exórdio (Cap. I), repetidas a espaços, como refrão, para apoiar paralelisticamente o discurso da sua lógica argumentativa, que finaliza em censura: Se o dedo de Deus esteve presente na acção descobridora portuguesa, como o retirou, castigando um povo devoto, que no amor de Deus tanto fizera e tão longe chegara, espalhando a fé, e vendo agora o seu território ocupado por inimigos dessa mesma fé? Será, pois um discurso de desafio a Deus, propter nomen tuum, para a própria glória de Deus, desviando-o da injustiça.

 

Abrange a Exposição os capítulos II-IV, sempre em forma de libelo repetitivo, justificada a argumentação com o recurso às citações bíblicas do seu paralelismo condenatório, de desafio e acusação, para opor seguidamente a ocupação portuguesa em nome da fé, à dos hereges holandeses em nome do interesse económico:  No capítulo II, cita  S. Paulo a pretexto de uma autocrítica pela sua ousadia em se opor aos juízos de Deus e logo se socorre das críticas bem sucedidas de Moisés contra a severidade de Jeová para com os judeus idólatras do bezerro de ouro. Também Job lhe serve de apoio crítico, na injustiça de que os portugueses são alvo, e no lamento que nele provoca a penúria de fé que a extorsão holandesa traz aos tapuias, evangelizados por Vieira e outros evangelistas. O capítulo III desenvolvendo ainda mais os argumentos históricos e emotivos contra o povo holandês, repisa as citações anteriores, acrescentando Josué, no seu lamento e na sua incompreensão pelo sofrimento do povo de Israel, e exprime dolorosamente o seu desafio irónico de bênçãos divinas para o povo holandês. Outras citações bíblicas são citadas no capítulo IV neste discurso de argumentação e contra-argumentação, como a parábola do banquete ou a das dez virgens para as lâmpadas da Fé acesas, e novamente  o desafio e a ameaça da substituição de S. Jerónimo e de Santo Agostinho pelas doutrinas reformistas de Lutero e de Calvino.

 

Um capítulo V da Peroração, jogando  com uma argumentação cerrada em torno do pecado e do conceito de uma glória maior para um Deus que perdoa do que para um Deus que castiga, seguida do Epílogo de apelo ao perdão de Deus pelos merecimentos da Virgem Santíssima:

 

Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda

(Biblioteca online)

 P. António Vieira, SJ.png Padre António Vieira

Exurge quare obdormis, Domine? Exurge, et ne repellas in finem. Quare faciem tuam avertis, oblivisceris inopiae nostrae et tribulationis nostrae? Exurge, Domine, adjuva nos et redime nos propter nomen tuum.

(Salmo XLIII)

I

 

Com estas palavras piedosamente resolutas, mais protestando, que orando, dá fim o Profeta Rei ao Salmo quarenta e três. Salmo, que desde o princípio até o fim, não parece senão cortado para os tempos e ocasião presente. O Doutor Máximo S. Jerónimo, e depois dele os outros expositores, dizem que se entende à letra de qualquer reino ou província católica, destruída e assolada por inimigos da Fé. Mas entre todos os reinos do Mundo a nenhum lhe quadra melhor que ao nosso Reino de Portugal; e entre todas as províncias de Portugal a nenhuma vem mais ao justo que à miserável província do Brasil.

 

Vamos lendo todo o Salmo, e em todas as cláusulas dele veremos retratadas as da nossa fortuna: o que fomos e o que somos.

 

Deus, auribus nostris audivimus, Patres nostri annuntiaverunt nobis, opus, quod operatus es in diebus eorum, et in diebus antiquis. Ouvimos(começa o profeta) a nossos pais, lemos nas nossas histórias e ainda os mais velhos viram, em parte, com seus olhos as obras maravilhosas, as proezas, as vitórias, as conquistas, que por meio dos portugueses obrou em tempos passados vossa omnipotência, Senhor. Manus tua gentes disperdit, et plantasti eos; afflixisti populos et expulisti eos. Vossa mão foi a que venceu e sujeitou tantas nações bárbaras, belicosas e indómitas, e as despojou do domínio de suas próprias terras para nelas os plantar, como plantou com tão bem fundadas raízes; e para nelas os dilatar, como dilatou e estendeu em todas as partes do Mundo, na África, na Ásia, na América. Nunc autem repulisti et confundisti nos; et non egredieris Deus in virtutibus nostris. Porém agora, Senhor, vemos tudo isso tão trocado, que já parece que nos deixastes de todo e nos lançastes de vós, porque já não ides diante das nossas bandeiras, nem capitaneais como dantes os nossos exércitos. Avertisti nos retrorsum post inimicos nostros, et qui oderunt nos, diripiebant sibi. Os que tão costumados éramos a vencer e triunfar, não por fracos, mas por castigados, fazeis que voltemos as costas a nossos inimigos (que como são açoite de vossa justiça, justo é que lhes demos as costas), e perdidos os que antigamente foram despojos do nosso valor, são agora roubo da sua cobiça. Dedisti nos tanquam oves escarum et in gentibus dispersisti nos. Os velhos, as mulheres, os meninos, que não têm forças nem armas com que se defender, morrem como ovelhas inocentes às mãos da crueldade herética, e os que podem escapar à morte, desterrando-se a terras estranhas, perdem a casa e a pátria. Posuisti nos opprobrium vicinis nostris, subsannationem et derisum his, qui sunt in circuitu nostro. Não fora tanto para sentir, se, perdidas fazendas e vidas, se salvara ao menos a honra; mas também esta a passos contados se vai perdendo; e aquele nome português, tão celebrado nos anais da fama, já o herege insolente com as vitórias o afronta, e o gentio de que estamos cercados, e que tanto o venerava e temia, já o despreza. Tu es ipse rex meus et Deus meus: qui mandas salutes Jacob. Com tanta propriedade como isto descreve David neste Salmo nossas desgraças, contrapondo o que somos hoje ao que fomos enquanto Deus queria, para que na experiência presente cresça a dor por oposição com a memória do passado. Ocorre aqui ao pensamento o que não é lícito sair à língua, e não falta quem discorra tacitamente, que a causa desta diferença tão notável foi a mudança da monarquia. Não havia de ser assim (dizem) se vivera um D. Manuel, um D. João o Terceiro, ou a fatalidade de um Sebastião não sepultara com ele os reis portugueses. Mas o mesmo Profeta no mesmo Salmo nos dá o desengano desta falsa imaginação: Tu es ipse rex meus et Deus meus: qui mandas salutes Jacob. O Reino de Portugal, como o mesmo Deus nos declarou na sua fundação, é reino seu e não nosso: Volo enim in te et in semine tuo imperium mihi stabilire, e como Deus é o rei: Tu es ipse rex meus et Deus meus; e este rei é o que manda e o que governa: Qui mandas salutes Jacob, ele que não se muda é o que causa estas diferenças, e não os reis que se mudaram. À vista, pois, desta verdade certa e sem engano, esteve um pouco suspenso o nosso Profeta na consideração de tantas calamidades, até que para remédio delas o mesmo Deus, que o alumiava  Exurge, quare obdormis, Domine? Exurge, et ne repellas in finem. Quare faciem tuam avertis, oblivisceris inopiae nostrae et tribulationis nostrae? Exurge, Domine, adjuva nos et redime nos propter nomen tuum. Não prega David ao povo, não o exorta ou repreende, não faz contra ele invectivas, posto que bem merecidas; mas todo arrebatado de um novo e extraordinário espírito, se volta não só a Deus, mas piedosamente atrevido contra ele. Assim como Marta disse a Cristo: Domine, non est tibi curae? assim estranha David reverentemente a Deus, e quase o acusa de descuidado. Queixa-se das desatenções de sua misericórdia e providência, que isso é considerar a Deus dormindo: Exurge! Quare obdormis, Domine? Repete-lhe que acorde e que não deixe chegar os danos ao fim, permissão indigna de sua piedade: Exurge, et ne repellas in finem. Pede-lhe a razão por que aparta de nós os olhos e não volta o rosto: Quare faciem tuam avertis?, e por que se esquece da nossa miséria e não faz caso de nossos trabalhos: Oblivisceris inopiae nostrae et tribulationis nostrae?E não só pede de qualquer modo esta razão do que Deus faz e permite, senão que insta a que lha dê, uma e outra vez: Quare obdormis? Quare oblivisceris?

Finalmente, depois destas perguntas, a que supõe que não tem Deus resposta, e destes argumentos com que presume o tem convencido, protesta diante do tribunal de sua justiça e piedade, que tem obrigação de nos acudir, de nos ajudar e de nos libertar logo: Exurge, Domine, adjuva nos et redime nos. E para mais obrigar ao mesmoSenhor, não protesta por nosso bem e remédio, senão por parte da sua honra e glória: Propter nomen tuum. Esta é, Todo-Poderoso e Todo-Misericordioso Deus, esta é a traça de que usou para render vossa piedade, quem tanto se conformava com vosso coração.E desta usarei eu também hoje, pois o estado em que nos vemos, mais é o mesmo que semelhante. Não hei de pregar hoje ao povo, não hei de falar com os homens; mais alto hão de sair as minhas palavras ou as minhas vozes: a vosso peito divino se há de dirigir todo o sermão. É este o último de quinze dias contínuos, em que todas as igrejas desta Metrópole, a esse mesmo trono de vossa patente Majestade, têm representado suas deprecações; e, pois, o dia é o último, justo será que nele se acuda tão bem ao último e único remédio. Todos estes dias se cansaram debalde os oradores evangélicos em pregar penitência aos homens; e, pois, eles se não converteram, quero eu, Senhor, converter-vos a vós. Tão presumido venho da vossa misericórdia, Deus meu, que ainda que nós somos os pecadores, vós haveis de ser o arrependido.

 

O que venho a pedir ou protestar, Senhor, é que nos ajudeis e nos liberteis: Adjuva nos, et redime nos. Mui conformes são estas petições ambas ao lugar e ao tempo. Em tempo que tão oprimidos e tão cativos estamos, que devemos pedir com maior necessidade, senão que nos liberteis: Redime nos? E na casa da Senhora da Ajuda, que devemos esperar com maior confiança, senão que nos ajudeis: Adjuva nos? Não hei de pedir pedindo, senão protestando e argumentando; pois esta é a licença e liberdade que tem quem não pede favor, senão justiça. Se a causa fora só nossa e eu viera a rogar só por nosso remédio, pedira favor e misericórdia. Mas como a causa, Senhor, é mais vossa que nossa, e como venho a requerer por parte de vossa honra e glória, e pelo crédito de vosso nome – Propter nomen tuumrazão é que peça só razão, justo é que peça só justiça. Sobre este pressuposto vos hei de arguir, vos hei de argumentar; e confio tanto da vossa razão e da vossa benignidade, que também vos hei de convencer. Se chegar a me queixar de vós e a acusar as dilatações de vossa justiça, ou as desatenções de vossa misericórdia: Quare obdormis? Quare oblivisceris? Não será esta vez a primeira em que sofrestes semelhantes excessos a quem advoga por vossa causa. As custas de toda a demanda também vós, Senhor, as haveis de pagar, porque me há de dar vossa mesma graça as razões com que vos hei de arguir, a eficácia com que vos hei de apertar e todas as armas com que vos hei de render. E se para isto não bastam os merecimentos da causa, suprirão os da Virgem Santíssima, em cuja ajuda principalmente confio. Ave Maria.

(continua)

Berta Brás.jpg Berta Brás



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 07:11
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Sexta-feira, 21 de Agosto de 2015
BRINCANDO ÀS HISTÓRIAS EM SUSPENSE

 

Texto da professora Berta Brás comentando «E O PRÍNCIPE DE ORANGE?» (o qual se dá aqui por reproduzido), publicado no seu blog “PorAmaisB” em

http://poramaisb.blogspot.pt/2015/08/brincando-as-historias-em-suspense_21.html

 

Com o desafio da pergunta final, já de uma crónica anterior – Quem foi o Príncipe de Orange?», de 15/8, eu já fora à Internet procurar a resposta, mas jamais me disporia a usar o tom de displicência sorridente relativamente a Maurício de Nassau, depois de tantos elogios que lá colhi a respeito daquele, que modernizou o espaço brasileiro em que governou e me deu a mim o sentimento de inferioridade que nos é comum, quando comparamos as colonizações – nossa e saxónica ou gaulesa – estas sempre mais apetrechadas em termos de desenvolvimento social e de espaço, como o comprovam as nações que construíram.

 

O Dr. Salles defende patrioticamente o nosso estar no mundo – aguerridos, sim, mesmo esfarrapados que estejamos, sem receio de com isso perturbar as relações luso-castelhanas - e indica a peça-chave para a resposta portuguesa, após a Restauração libertadora da dependência espanhola: o «Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda», do Padre António Vieira, que inspirou zelos e orgulhos nacionais, abatidos durante sessenta anos.

 

O desafio continua, em torno do Príncipe de Orange – Frederico Henrique entre outros – mas enquanto esperamos pela nova crónica, nesta técnica de suspense a sugerir os esquemas da Sherazade, transcrevo alguns períodos do Sermão de Vieira, que transpus da Internet, confirmativos do zelo patriótico desse extraordinário defensor de causas, humanitárias ou outras, na sua vida de dinamismo e na sua arte oratória inimitável.

 

Dividido em 5 capítulos, com exórdio, exposição/confirmação e peroração ou epílogo, dele retiro alguns parágrafos justificativos das palavras humorísticas de Salles da Fonseca: « Até que… com o Santíssimo exposto, o Padre António Vieira proferiu na igreja de Nossa Senhora da Ajuda, na Bahia, no ano de 1640 o sermão «Polas armas de Portugal contra as de Holanda», ameaçando deixar Deus se ele deixasse o Brasil continuar entregue aos holandeses.»:

 

Igreja d'Ajuda, Salvador, Bahia.jpg

 

Esta é, Todo-Poderoso e Todo-Misericordioso Deus, esta é a traça de que usou (David) para render vossa piedade, quem tanto se conformava com vosso coração. E desta usarei eu também hoje, pois o estado em que nos vemos, mais é o mesmo que semelhante. Não hei-de pregar hoje ao povo, não hei-de falar com os homens; mais alto hão-de sair as minhas palavras ou as minhas vozes: a vosso peito divino se há-de dirigir todo o sermão.» (Exórdio, I)

Muita razão tenho eu logo, Deus meu, de esperar que haveis de sair deste sermão arrependido, pois sois o mesmo que éreis, e não menos amigo agora, que nos tempos passados, de vosso nome: Propter nomen tuum. Moisés disse-vos: Ne, quaeso, dicant: "Olhai, senhor, que dirão." E eu digo e devo dizer: Olhai, senhor, que já dizem. Já dizem os hereges insolentes com os sucessos prósperos, que vós lhes dais ou permitis: já dizem que porque a sua, que eles chamam religião, é a verdadeira, por isso Deus os ajuda e vencem; e porque a nossa é errada e falsa, por isso nos desfavorece e somos vencidos. Assim o dizem, assim o pregam, e ainda mal, porque não faltará quem os creia. Pois é possível, Senhor, que hão de ser vossas permissões argumentos contra vossa Fé? É possível que se hão de ocasionar de nossos castigos blasfémias contra vosso nome?! Que diga o herege (o que treme de o pronunciar a língua), que diga o herege, que Deus está holandês?! Oh não permitais tal, Deus meu, não permitais tal, por quem sois! Não o digo por nós, que pouco ia em que nos castigásseis; não o digo pelo Brasil, que pouco ia em que o destruísseis; por vós o digo e pela honra de vosso Santíssimo Nome, que tão imprudentemente se vê blasfemado: Propter nomen tuum. Já que o pérfido calvinista dos sucessos que só lhe merecem nossos pecados faz argumento da religião, e se jacta insolente e blasfemo de ser a sua verdadeira, veja ele na roda dessa mesma fortuna, que o desvanece, de que parte está a verdade. Os ventos e tempestades, que descompõem e derrotam as nossas armadas, derrotem e desbaratem as suas; as doenças e pestes, que diminuem e enfraquecem os nossos exércitos, escalem as suas muralhas e despovoem os seus presídios, os conselhos que, quando vós quereis castigar, se corrompem, em nós sejam alumiados e neles enfatuados e confusos. Mude a vitória as insígnias, desafrontem-se as cruzes católicas, triunfem as vossas chagas nas nossas bandeiras, e conheça humilhada e desenganada a perfídia, que só a Fé romana, que professamos, é Fé, e só ela a verdadeira e a vossa.» (Exposição, II)

Considerai, Deus meu – e perdoai-me, se falo inconsideradamente – considerai a quem tirais as terras do Brasil e a quem as dais. Tirais estas terras aos portugueses a quem nos princípios as destes; e bastava dizer a quem as dais, para perigar o crédito de vosso nome, que não podem dar nome de liberal mercês com arrependimento. Para que nos disse S. Paulo, que vós, Senhor, "quando dais, não vos arrependeis": Sine paenitentia enim sunt dona Dei? Mas deixado isto à parte: tirais estas terras àqueles mesmos portugueses a quem escolhestes entre todas as nações do Mundo para conquistadores da vossa Fé, e a quem destes por armas como insígnia e divisa singular vossas próprias chagas. E será bem, Supremo Senhor e Governador do Universo, que às sagradas quinas de Portugal e às armas e chagas de Cristo, sucedam as heréticas listas de Holanda, rebeldes a seu rei e a Deus? Será bem que estas se vejam tremular ao vento vitoriosas, e aquelas abatidas, arrastadas e ignominiosamente rendidas? Et quid facies magno nomini tuo? E que fareis (como dizia Josué) ou que será feito de vosso glorioso nome em casos de tanta afronta? Tirais também o Brasil aos portugueses, que assim estas terras vastíssimas, como as remotíssimas do Oriente, as conquistaram à custa de tantas vidas e tanto sangue, mais por dilatar vosso nome e vossa Fé (que esse era o zelo daqueles cristianíssimos reis) que por amplificar e estender seu império. Assim fostes servido que entrássemos nestes novos mundos, tão honrada e tão gloriosamente, e assim permitis que saiamos agora (quem tal imaginaria de vossa bondade!), com tanta afronta e ignomínia! Oh! como receio que não falte quem diga o que diziam os egípcios: Callide eduxit eos, ut interficeret et deleret e terra. Que a larga mão com que nos destes tantos domínios e reinos não foram mercês de vossa liberalidade, senão cautela e dissimulação de vossa ira, para aqui fora e longe de nossa Pátria nos matardes, nos destruirdes, nos acabardes de todo. Se esta havia de ser a paga e o fruto de nossos trabalhos, para que foi o trabalhar, para que foi o servir, para que foi o derramar tanto e tão ilustre sangue nestas conquistas? Para que abrimos os mares nunca dantes navegados? Para que descobrimos as regiões e os climas não conhecidos? Para que contrastamos os ventos e as tempestades com tanto arrojo, que apenas há baixio no Oceano, que não esteja infamado com miserabilíssimos naufrágios de portugueses? E depois de tantos perigos, depois de tantas desgraças, depois de tantas e tão lastimosas mortes, ou nas praias desertas sem sepultura, ou sepultados nas entranhas dos alarves, das feras, dos peixes, que as terras que assim ganhamos, as hajamos de perder assim? Oh! quanto melhor nos fora nunca conseguir, nem intentar tais empresas!»

(Exposição,III)

Bem vejo que me podeis dizer, Senhor, que a propagação de vossa Fé e as obras de vossa glória não dependem de nós, nem de ninguém, e que sois poderoso, quando faltem homens, para fazer das pedras filhos de Abraão.

Mas também a vossa sabedoria e a experiência de todos os séculos nos têm ensinado, que depois de Adão não criastes homens de novo, que vos servis dos que tendes neste Mundo, e que nunca admitis os menos bons, senão em falta dos melhores. Assim o fizestes na parábola do banquete. Mandastes chamar os convidados que tínheis escolhido, e porque eles se escusaram e não quiseram vir, então admitistes os cegos e mancos, e os introduzistes em seu lugar: Caecos et claudos introduc huc. E se esta é, Deus meu, a regular disposição de vossa providência divina, como a vemos agora tão trocada em nós e tão diferente connosco? Quais foram estes convidados e quais são estes cegos e mancos? Os convidados fomos nós, a quem primeiro chamastes para estas terras, e nelas nos pusestes a mesa, tão franca e abundante, como de vossa grandeza se podia esperar. Os cegos e mancos são os luteranos e calvinistas, cegos sem fé e mancos sem obras, na reprovação das quais consiste o principal erro da sua heresia. Pois se nós, que fomos os convidados, não nos escusamos nem duvidamos de vir, antes rompemos por muitos inconvenientes em que pudéramos duvidar; se viemos e nos assentamos à mesa, como nos excluís agora e lançais fora dela e introduzis violentamente os cegos e mancos, e dais os nossos lugares ao herege? Quando em tudo o mais foram eles tão bons como nós, ou nós tão maus como eles, por que nosnão há de valer pelo menos o privilégio e prerrogativa da fé? Em tudo parece, Senhor, que trocais os estilos de vossa providência e mudais as leis de vossa justiça connosco.» (Exposição/Confirmação, IV)

«Mas não sei que tempos, nem que desgraça é esta nossa, que até a mesma inocência vos não abranda. Pois também a vós, Senhor, vos há de alcançar parte do castigo (que é o que mais sente a piedade cristã), também a vós há de chegar. Entrarão os hereges nesta igreja e nas outras; arrebatarão essa custódia, em que agora estais adorado dos anjos; tomarão os cálices e vasos sagrados, e aplicá-los-ão a suas nefandas embriaguezes; derrubarão dos altares os vultos e estátuas dos santos, deformá-las-ão a cutiladas, e metê-las-ão no fogo; e não perdoarão as mãos furiosas e sacrílegas nem às imagens tremendas de Cristo crucificado, nem às da Virgem Maria…

Senhor, despojados assim os templos e derrubados os altares, acabar-se-á no Brasil a cristandade católica; acabar-se-á o culto divino; nascerá erva nas igrejas, como nos campos; não haverá quem entre nelas. Passará um dia de Natal, e não haverá memória de vosso nascimento; passará a Quaresma e a Semana Santa, e não se celebrarão os mistérios de vossa Paixão. Chorarão as pedras das ruas, como diz Jeremias que choravam as de Jerusalém destruída: Viae Sion lugent, eo quod non sint qui veniant ad solemnitatem. Ver-se-ão ermas e solitárias, e que as não pisa a devoção dos fiéis, como costumava em semelhantes dias. Não haverá missas, nem altares,  nem sacerdotes que as digam; morrerão os católicos sem confissão nem sacramentos; pregar-se-ão heresias nestes mesmos púlpitos, e em lugar de São Jerónimo e Santo Agostinho, ouvir-se-ão e alegar-se-ão neles os infames nomes de Calvino e Lutero; beberão a falsa doutrina os inocentes que ficarem, relíquias dos portugueses;e chegaremos a estado que, se perguntarem aos filhos e netos dos que aqui estão: – Menino, de que seita sois? Um responderá: – Eu sou calvinista; outro: – Eu sou luterano. Pois isto se há de sofrer, Deus meu? Quando quisestes entregar vossas ovelhas a São Pedro, examinaste- lo três vezes se vos amava: Diligis me, diligis me, diligis me? E agora as entregais desta maneira, não a pastores, senão aos lobos?! Sois o mesmo, ou sois outro? Aos hereges o vosso rebanho? Aos hereges as almas? Como tenho dito, e nomeei almas, não vos quero dizer mais. Já sei, Senhor, que vos haveis de enternecer e arrepender, e que não haveis de ter coração para ver tais lástimas e tais estragos. E se assim é (que assim o estão prometendo vossas entranhas piedosíssimas), se é que há de haver dor, se é que há de haver arrependimento depois, cessem as iras, cessem as execuções agora, que não é justo vos contente antes o de que vos há de pesar em algum tempo. (Exposição/Confirmação, IV)

«Finalmente, benigníssimo Jesus, verdadeiro Josué e verdadeiro Sol, seja o epílogo e conclusão de todas as nossas razões o vosso mesmo nome: Propter nomen tuum. Se o Sol estranha a Josué rigores de mais de um dia, e Josué manda calar o Sol, porque lhos não estranhe; como pode estranhar vossa divina justiça que useis connosco de misericórdia, depois da execução de tantos e tão rigorosos castigos continuados, não por um dia ou muitos dias de doze horas, senão por tantos e tão compridos anos, que cedo serão doze? Se sois Jesus, que quer dizer Salvador, sede Jesus e sede Salvador nosso. Se sois Sol e Sol de justiça, antes que se ponha o deste dia, deponde os rigores da vossa. Deixai já o signo rigoroso de Leão,  e dai um passo ao signo de Virgem, signo propício e benéfico. Recebei influências humanas, de quem recebestes a humanidade. Perdoai-nos, Senhor, pelos merecimentos da Virgem Santíssima. Perdoai- nos por seus rogos, ou perdoai- nos por seus impérios; que, se como criatura vos pede por nós o perdão, como Mãe vos pode mandar e vos manda que nos perdoeis. Perdoai- nos, enfim, para que a vosso exemplo perdoemos; e perdoai-nos também a exemplo nosso, que todos desde esta hora perdoamos a todos por vosso amor: Dimitte nobis debita nostra, sicut et nos dimittimus debitoribus nostris. Amen.» (Peroração ou Epílogo, V)

(Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda 21 Biblioteca Online de Ciências da Comunicação)

 

Berta Brás.jpgBerta Brás



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 17:48
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Quarta-feira, 19 de Agosto de 2015
PRÉMIO NOBEL DE LITERATURA DE 2014

 

Mergulhada, embora ligeiramente - simples boiar de quem lê por pura diversão - nas escritas um tanto lineares dos escritores de sempre, com maior ou menor ramificação figurativa ou de perspectiva narrativa, de repente deparou-se-me este livro, oferecido pela minha nora Paula: «Dans le café de la jeunesse perdue», Prémio Nobel de Literatura de 2014, de

Patrick Modiano.png Patrick Modiano, escritor conhecido, meu desconhecido, detentor de vários prémios literários, o último vindo coroar o seu livro publicado em 2007, reconstituição de um espaço temporal dos anos 50-60 forjado em muito do desequilíbrio e instabilidade vividos no pós guerra, sem, todavia, a pretensão de um sentido crítico ou de apontamento referencial ordenado por concepção visualista ou de outra qualquer apetência estrutural.

 

Na realidade, trata-se de um livro não linear, enigmático, mas de um constante retomar de nomes e de eventos, sob as perspectivas de diferentes narradores, que nos impõem uma constante retoma de leitura para percepção do quem é quem ou da trama que vai progredindo, ora vai recuando e retomando infindavelmente, em novas alianças de um “eterno retorno”, mesmo nos artifícios da sua evolução ou transformação. Assim, dessa forma enigmática que vai deixando e retomando as pistas, com os nomes e as suas relações, o título da obra -

Dans le café de la jeunesse perdue, Modiano.png «Dans le café de la jeunesse perdue» - é bem a síntese de um enredo em torno de uma jovem, também fugidia e enigmática, figura representativa não só de uma geração jovem, sem rumo, mas também de gerações mais velhas, com o seu passado e os seus segredos, que não interessa decifrar, nos seus tratos e vidas de uma eterna repetição, momentaneamente ou repetidamente desembocada num café de bairro: Café Condé, mais tarde transformado em loja com expositor de objectos marroquinos .”Au Prince Condé”.

 

História de uma Jacqueline Delanque, filha de pai incógnito e mãe trabalhando no “Moulin  Rouge”, cuja menoridade é atravessada por acontecimentos definitivamente marcantes, pelo seu teor de aviltamento, na construção de uma personalidade tímida e fechada e simultaneamente arriscada, polarizadora de afectos, quer pela sua beleza, quer pela sua reserva, e cujo retrato de adolescente, tirado no comissariado da polícia onde fora conduzida por vagabundagem, servirá como ponto de arranque para o reconhecimento do seu paradeiro, ao detective privado Caislay (um dos narradores) – por encargo do marido abandonado da fugitiva Jacqueline – detective que a reconhecerá, no café Condé da Rive Gauche.

 

Os quatro narradores serão, por ordem sequencial na intriga, à volta dos frequentadores do café e suas ligações e sobretudo em torno de Louki (nome de carinho atribuído por um desses frequentadores), um estudante da escola de minas, o detective privado, a própria heroína, e Roland, seu amante (após o abandono do marido, personagem insípida e vulgarmente convencional).

 

Um romance que, na modernidade do seu enredo, de enigmas e pistas a tender para o policial, evoca igualmente a tragédia sofocliana «Édipo», no seu conflito que se vai gradualmente encaminhando, pelas diferentes pistas, para o reconhecimento do parricídio e do incesto, e o desenlace fatal – Um Édipo que se pune cegando-se, uma torturada e enigmática Louki que se suicida lançando-se da janela, ao encontro, certamente, das respostas para as suas incompreensões existenciais.

 

Como epígrafe justificativa, uma citação do escritor francês Guy Debord, parafraseando o dantesco « Nel mezzo del cammin di nostra vita» : «À la moitié du chemin de la vraie vie, nous étions environnés d’une sombre mélancolie, qu’ont exprimée tant de mots railleurs et tristes, dans le café de la jeunesse perdue.»

 

Na realidade, um romance que, mais do que oferecer uma intriga mais ou menos romanesca, na sedução de sensualidades nele inexistentes, embora subentendendo sentimentos reais de amor, carinho e dor, joga antes com o enigma da filosofia da vida: a vida como um eterno retomar, na banalidade ou no significativo dos reencontros, no sentimento de frustração ou de vacuidade que persegue o homem ao longo da vida, vida a que a morte reduz ao nada igualmente sem sentido, embora recurso da inadaptação ou incompreensão totais.

 

Eterno Retorno”, a tese que o livro pretende explicitar, na peugada de Nietzsche (retiro-o da Internet):

«L’Eternel Retour du même sous forme d’une expérience de pensée:

Nietzsche expose sous forme conditionnelle, sous forme d’expérience de pensée sa théorie:

 

Que dirais-tu si un jour, si une nuit , un démon se glissait jusque dans ta solitude la plus reculée et te dise : Cette vie telle que tu l’as vécue, tu devras la vivre encore une fois et d’innombrables fois ; et il n’y aura rien de nouveau en elle, si ce n’est que chaque douleur et chaque plaisir, chaque pensée et chaque gémissement et tout ce qu’il y a d’indiciblement petit et grand dans ta vie devront revenir pour toi, et le tout dans le même ordre et la même succession […]. L’éternel sablier de l’existence ne cesse d’être renversé à nouveau – et toi avec lui, ô grain de poussière de la poussière !  – Le Gai Savoir (aphorisme 341).

Berta Brás.jpgBerta Brás



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 09:42
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Sexta-feira, 14 de Agosto de 2015
«L’INVITÉE»

L'INVITÉE, Simone de Beauvoir.png  Uma Convidada que se instala no grupo formado por Françoise e Pierre, representantes ficcionais da relação amorosa que uniu Simone de Beauvoir a Jean-Paul Sartre.

 

Xavière, a Convidada, é uma jovem caprichosa, chegada da província, abominando Rouen, uma rapariga sem o preconceito das boas maneiras, amando e odiando com exclusividade, instável mas original nos seus desabafos e nos seus conceitos por vezes reveladores de uma maturidade surpreendente, a par de uma entrega absoluta às suas paixões contraditórias, sabendo usar truques de sedução embora de aparência involuntária e mesmo infantil, que atrai inegavelmente um Pierre sereno e nobre, par afectuoso e inseparável da honesta Françoise, a narradora correcta que descreve e se descreve com seriedade e verdade, segundo a consciência que cada personagem toma da existência do “outro”.

 

Um romance que li com o entusiasmo que já tivera com a leitura de ”Mémoires d’une jeune fille rangée” e de “La force de l´âge”, ainda em África, “La force des Choses” sendo de leitura posterior, já depois de retornada à pátria do Mestre de Avis, o da Boa Memória, tirando as Canárias e Ceuta que deixaram de fazer parte há mais tempo.

 

Contudo, “L’Invitée” é um romance anterior aos biográficos, publicado em 1943, tinha Simone de Beauvoir 36 anos. Mas a força de vida que imprimirá nos livros posteriores, que retratam dados da sua existência real, é a mesma – esta com mais violência ainda, no seu espaço ficcional da ante guerra (1937/39) – que “L’Invitée” comporta, de uma mocidade que tanto nome traria a uma Paris com os seus bares, cafés, teatros, Montparnasse, passeios, vida nocturna, lascívia e cultura, e o desejo de absorver o mundo, na consciência trágica da guerra iminente.

 

Uma narrativa que vai assim deslizando na tensão dramática de um triângulo amoroso, a que outras figuras se aliarão – Elisabeth, a irmã de Pedro, Gerbert, posterior amante de Xavière e de Françoise, relação que aquela irá descobrir, facto que a intocável Françoise não poderá aceitar. E o crime desta, matando a irredutível Xavière, vem atestar a filosofia de que o existencialismo se fez porta-voz: Cada homem é responsável pelos seus actos, sem condenação nem absolvição de outrem.

 

Um livro esplendoroso, de inteligência e desenho contínuo na articulação dos pensamentos e comportamentos de cada personagem, sem rebuscamentos figurinistas, ou desvios moralistas, verdadeiro, autêntico. É da Gallimard, publicado em 1943, dedicado a Olga Kosakievicz… et pour cause. E na página seguinte está escrita a frase de Hegel, chave deste romance de tese: «Chaque conscience poursuit la mort de l’autre».

 

Tão drástica medida não serve, é claro, de justificação para o gosto actual de matança por este mundo de Cristo. Com Alá à mistura.

 

 Berta Brás.jpg Berta Brás

NOTA:

Este texto deveria ter sido publicado no dia 10 de Agosto, aniversário da Autora, mas as complicações informáticas que levaram à suspensão de publicações no “A bem da Nação”, não permitiram a publicação atempada. Mesmo atrasados, PARABÉNS à Professora Berta Brás. E continuemos…

HSF



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 17:25
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Domingo, 2 de Agosto de 2015
LEMBRANDO NATÁLIA CORREIA

 

Natália Correia.png

 

Conheci-a através de um livro – «O Vinho e a Lira» - que a minha irmã me mandou para África, pelos anos 60, juntamente com o de Ari dos Santos – «Insofrimento in sofrimento». Preferi-lhe este último, cuja escrita mais simples, embora de pensamento explosivo de revolta e violência, quadrava melhor com a minha capacidade perceptiva, educada segundo os padrões reflexivos mas claros dos estilos clássicos, passados e mesmo presentes - como os de Simone de Beauvoir e de Sartre, então na berra, no seu papel contestatário que alargou os horizontes ideológicos da sua época, na criação de personagens modelados em rebeldia ou contestação a uma sociedade burguesa de modelo convencional, embora de uma elegância natural, de expressão séria ou irónica, sem ornatos.

 

Natália Correia era toda ela artifício verbal, de ninfa oceânica em torrentes de palavras fugidias mas poderosas, de uma complexidade surrealística, de pontilhismo inegavelmente engenhoso no rebuscamento da imagem precisa para um discurso de estilhaços verbais em insinuações descritivas, caso do poema introdutório justificativo do título: “O vinho e a lira”, que faz evocar o universo imaginário de “Invitation au voyage” de Baudelaire, onde

Là, tout n’est qu’ordre et beauté

Luxe, calme et volupté,

mas com a vaga pretensão a um desenho de «compasso e esquadro» à Cesário Verde, emaranhado em molezas surrealistas deformadoras:

 

A oriente sou toda lira  

Exacta dérmica solar  

Biografo-me a desenho à pena  

Com a tinta da estrela polar.

 

À maternidade da pedra  

Restituo a casa a levante  

E o teu sorriso é navegável  

Sem rápidos de ciúme e sangue.

 

Por esse lado tive infância  

E derreto a neve das fotografias  

Destapando o quebra-luz  

De uma tépida estampa de tias.

 

A meu oriente de polido mogno  

Meu verso tem cadeiras e o habito  

Com amigos e respiram os móveis  

Um sossego de folhas de eucalipto.

 

Conheci Natália Correia depois, nas proeminências intelectuais que o 25 de Abril projectou para a ribalta das notoriedades contestatárias do antigamente. A televisão deu-nos a imagem de uma mulher esplendorosa, fascinante de beleza e audácia verbal, retorcida nos seus ademanes, de uma inteligência sem tabus, que ficou para sempre gravada na minha memória, pelos seus comentários irónicos e ousados no Parlamento ou em programas televisivos como “Mátria”, em que ficava presa mais à sua mímica engenhosamente voluptuosa do que à sua oratória, embora esclarecida e de uma dicção perfeita.

 

Na Internet descubro os dados biográficos da vida desta açoriana que viveu 70 anos (13/9/23 – 16/3/93), que foi escritora polígrafa - novelista, dramaturga, poeta e ensaísta - além de outros pormenores de um viver de muitos amigos e suponho que admiradores. 70 anos vividos, pois, em pujança e glória, com, certamente, os dissabores naturais a todas as vidas e muito mais a quem enfrentou corajosamente e provocadoramente políticas de que discordava e de que alguns poemas são testemunho, entre outros de cariz mais pessoal, em que a sensualidade é traço dominante, mas também a originalidade das imagens está em harmonia com a intelectualidade rebuscada do pensamento. Cito, de dezoito poemas da Internet, como exemplo dessa originalidade o poema I de O Livro dos Amantes

 

 

Glorifiquei-te no eterno.

Eterno dentro de mim

Fora de mim perecível.

Para que desses um sentido

A uma sede indefinível.

 

Para que desses um nome

À exactidão do instante

Do fruto que cai na terra

Sempre perpendicular

À humidade onde fica.

 

E o que acontece durante

Na rapidez da descida

É a explicação da vida.

 

Como exemplo da sua ideologia pacifista e do seu amor à vida consciencializada em vasta amplitude de afirmações, o poema «Ode à Paz»:

 

 Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,

Pelas aves que voam no olhar de uma criança,

Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,

Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,

Pela branda melodia do rumor dos regatos,

Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,

Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,

Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,

Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,

Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,

Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,

Pelos aromas maduros de suaves outonos,

Pela futura manhã dos grandes transparentes,

Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,

Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas

Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,

Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,

Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.

Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,

Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,

Abre as portas da História,                               

                     deixa passar a Vida!

 

Natália Correia, in "Inéditos (1985/1990)"

Berta Brás.jpg Berta Brás



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 18:07
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Segunda-feira, 20 de Julho de 2015
FILOSOFIA MACABRA DA VIDA

 

Chien de Printemps.jpg

O livro foi-me emprestado pela minha nora Paula. É de Patrick Modiano, chama-se “Chien de Printemps”, galardoado com o prémio Nobel de Literatura de 2014. Éditions du Seuil, texto integral de cerca de 120 páginas. A primeira reacção foi de espanto: livro tão minúsculo merecedor do Nobel! O José Saramago daria pulos na tumba, embora outros “Nobel” se irmanariam em comunhão de tamanhos. Um escritor nascido em 1945, autor já de várias obras e vários prémios, um livrinho que corre mundo, transportando o seu Nobel, numa escrita simples, num entrecho quase diria nulo, de vidas que se confundem na distância do tempo, nos encontros do acaso, um livro de charada que nada pretende esclarecer porque não é seguro de verdade alguma, a insignificância do viver humano, como simples passagem, em divergências dos seres e simultaneamente nas suas equivalências ou afectos, histórias de vidas subentendidas nos próprios silêncios, a memória recuperando, a espaços, a maior ou menor relevância dos encontros, ou das situações.

 

Francis Jansen, a personagem central de quem se vão contar coisas, nos solavancos da vida, de quem pouco se sabe mas que deixou marcas, talvez em mulheres que o amaram, talvez no amigo que morrera, sem dúvida no narrador por ele retratado, quando tinha dezanove anos – “au printemps de 1964, et je veux dire aujourd’hui le peu de choses que je sais de lui.” – é parte do primeiro período e parágrafo. Outras fotografias serão tiradas, com uma Rolleiflex, a este e à namorada, “deux adolescents anonymes et perdus dans Paris”. A visita ao atelier de Jansen, uma breve abordagem do seu mundo de três malas e duas fotos – uma de Colette Laurent, outra dos dois amigos Jansen e Roberto Capra na Alemanha de 1945, Capra que o narrador conhecia pela referência à sua morte na Indochina. A sugestão de partida eminente que as malas denunciavam, o espaço de trinta anos para o retomar das referências, sugeridas pelo repegar na foto de 1964. A perseguição da lembrança, a busca de dados sobre Jansen, a lembrança do seu dito ao saber que o rapaz da sua foto pretendia vir a ser escritor, actividade que ele considerou a “quadratura do círculo”, visto que ele, com a sua de fotógrafo, pretendia apenas o silêncio. E pôs-lhe o desafio de recriar o silêncio com as palavras, os sinais de pontuação mais expressivos sendo para ele as reticências.

 

E foi assim que o jovem se tornou uma espécie de arquivista das fotos das três malas, que testemunhavam “gentes e coisas desaparecidas”. As gentes presentes, “une certaine Nicole”, Jansen não desejava encontrar, talvez no acabrunhamento da morte de Capra e de Colette Laurent, esta última conhecida do narrador, nos seus dez anos, quando passeava com a mãe, desaparecida no espaço, retomada ainda no tempo, alguns anos após.

 

E a narrativa vai rodando, em descritivos e referências, nos desenhos das fotos de Jansen, avolumando o mundo das coisas pequenas – plantas, uma teia de aranha, a concha de um caracol, pequenas ervas onde corriam formigas, a bota do fotógrafo. Ou os espaços amplos dos contrastes de cores, o branco da neve com o azul do céu, os prédios desertos, em que Paris parece abandonada, a busca de uma felicidade perdida para sempre… Mas os ruídos voltam de repente, casos são contados pela multidão, de histórias da vida, as palavras tornam-se puras onomatopeias, do narrador não restará senão “l’imperméable que je portais, roulé en boule, sur le banc”, o nada, a náusea de tudo o que se é ou supõe ser. O próprio Jansen poderia ser outro que, segundo os arquivos da sua terra natal já estava morto e tinha outra história. Et l’ombre de ce double, conclui Jansen, finit par se confondre avec nous.

 

Uma história simples, um pensamento de tragédia nele implícito, o macabro da condição humana. Chien de Printemps, expressão de Jansen, o título do livro de Patrick Modiano, Nobel de Literatura de 2014.

 

Berta Brás.jpgBerta Brás



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 02:46
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