Sexta-feira, 3 de Novembro de 2017
CARTA DE UN MINISTRO AL REY FELIPE IV

          Philip_IV_of_Spain (D. Velásquez).jpg

"Dicen a Vuestra Magestad que Portugal no tiene dinero, no tiene navíos, no tiene gente: traidores son los que lo dicen. Pues con qué nos tienen destruidos? Sin gente nos tienen tantas veces desbaratados; Válgame Dios, que fuera con gente! Sin dinero lloramos nuestras ruinas, qué lloráramos si tuvieran dinero? Señor: Portugal nos desbarató en Montijo [batalla de Montijo, 1644], nos destruyó en Yelbes [batalla de Elvas, 1659], Luis Méndez de Haro [Valido de Felipe IV] huyó dejando caballos, artillería, infantes y bagajes.

 

Portugal en Évora [batalla de Estremoz o de Ameixial, 1663] destruyó la Flor de España, lo mejor de Flandres, lo lucido de Milán, lo escogido de Nápoles y lo granado de Extremadura.

 

Vergonzosamente se retiró S.A [El Príncipe D. Juan José de Austria, hijo de Felipe IV] dejando ocho millones que costó la empresa, ocho mil muertos, seis mil prisioneros, cuatro mil caballos, veinticuatro piezas de artillería, y lo más lastimoso fue que, de ciento veinte títulos y cabos, no escaparon sino cinco (...). Cada día espera Vuestra Magestad que se gane, y cada día sepa Vuestra Magestad que se pierde, y que es mucha la pérdida de cada día."

 

[Poco después de estas palabras, tuvo lugar la derrota de Castelo Rodrigo en 1664, y la aplastante derrota de Villaviciosa o Montes Claros en 1665].



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 22:43
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Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
LIDO COM INTERESSE - 19
 
 
 
 
Título«Diário de Leal Marques sobre a formação do primeiro
                 Governo de Salazar»

Fátima Patriarca.jpg

AutoraFátima Patriarca

 
Editora – Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa
              
Edição – “Análise Social” – Vol. XLI, 1º Trimestre 2006, pág. 169 e seg.
 
 
 

Antero_Leal_Marques_1930_1941.jpg

 

 
Poucos serão os portugueses actualmente vivos que já tenham ouvido falar de Antero Leal Marques e ficarão por certo espantados ao saberem que este farmacêutico foi Chefe do Gabinete de Salazar durante uma dúzia de anos, entre 1928 e 1940.
 
Dá para imaginar, num país com 900 anos de História, quantas personalidades ainda estarão envoltas nas brumas da nossa ampla e faustosa ignorância …
 
Pois foi esse desbrumar que a Dr.ª Fátima Patriarca, Investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, nos proporcionou com este trabalho.
 
Trata-se da explicação do manuscrito do «Diário» em apreço que abarca o período compreendido entre os dias 28 de Junho e 11 de Julho de 1932, ou seja, o relativo à formação do primeiro Governo do Doutor Salazar e nele se compreende como foi complicado gerir um processo cheio de nuances.As subtilezas tinham muito a ver com o regime – República ou Monarquia – mas também havia que considerar a indisciplina que grassava no Exército, na Marinha e na Guarda Nacional Republicana.
 
A mudança de regime foi claramente um processo de transição morosa e traumática em que o alevantamento dos espíritos era frequentemente fomentado por quem pretendia ver satisfeitas mordomias a que se habituara ou a que se queria habituar. O jogo de interesses e a “prestação de serviços” está claramente exposto neste «Diário»: por ele se vê como os quartéis tiveram que “ser postos em sentido” e como foi necessário induzir o “sentido de Estado” a todos aqueles que se queriam manter na política.
 
Transparece como evidente que a preparação do terreno que o Doutor Salazar pisou em muito se deveu ao trabalho do General Domingos de Oliveira que não contou com polícias secretas nem terá recorrido a procedimentos democraticamente menos deontológicos. O autor do «Diário» tece-lhe mesmo assinaláveis encómios com os quais o General se comoveu e … comover um General não será uma tarefa de cumprimento diário, presumo.
 
O «Diário» é antecedido de uma breve apresentação em que a Autora resume a biografia de Antero Leal Marques, nomeadamente nos períodos anterior e posterior à época em que trabalhou directamente com o Doutor Salazar e ao longo do texto do documento transcrito vai produzindo Notas do maior interesse identificando as personalidades amiúde nomeadas de tal forma que o leitor se consegue integrar no ambiente descrito.
 
Para além do mérito científico que o trabalho evidencia, trata-se de uma leitura muito agradável que nos faz compreender os acontecimentos sem a influência da actual propaganda política e que nos incentiva à descoberta de outras personalidades ocultas que nos espreitem lá dos recantos em que se encontrem na História de Portugal.
 
 
Tavira, 10 de Agosto de 2007
 
Henrique Salles da Fonseca


publicado por Henrique Salles da Fonseca às 08:46
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Sexta-feira, 8 de Setembro de 2017
PELA ROTA DA ÍNDIA

MOGADOR-ESSAOUIRA.jpg

 

 

Pela rota de Índia se foi fazendo Portugal e disso é prova que foi com os dinheiros realizados na Europa com mercadorias exóticas, tais como o açúcar madeirense, que se financiou o início da construção em Lisboa do Hospital de Todos os Santos. Corria o ano de 1498.

 

Mas foi bem antes disso, em 1430, que os monges da Ordem da Trindade se instalaram definitivamente em Tavira ali construindo o Hospital do Espírito Santo para apoio aos navegantes e combatentes no norte de África. De tal modo a sua acção se destinava a apoiar os agentes da conquista que há quem considere este o primeiro hospital do ultramar português.

 

Dará para imaginar no que nessas épocas remotas consistiam os hospitais e que medicina neles se praticava?

 

Fossem quais fossem, eram os tratamentos que à época se conheciam mas a higiene devia ser bem duvidosa. Normalmente, aproveitavam-se umas casas que estivessem livres e de que o Alcaide ou Governador militar pudessem dispor nelas autorizando a entrada de doentes que se recolhiam a montes de trapos a que chamavam enxerga. Era sobre esses trapos que se derramavam os humores sempre fétidos só que alguns purulentos e outros apenas orgânicos. Dá para imaginar . . .

 

Quem desses doentes tratava eram religiosos que tudo faziam por amor a Deus pois outro sentimento não poderá ser invocado no meio de tanta pústula, escara, febre e gemido. Era pois necessário que os religiosos seguissem os mareantes. Sobretudo a partir do momento em que pelo ano de 1434 Gil Eanes dobrou o Cabo Bojador e em que a evacuação de doentes para Portugal deixava de ser possível sem acrescidos riscos na sobrevivência do infeliz. A expansão da Fé passou a ser anunciada como um objectivo das descobertas portuguesas mas não restam muitas dúvidas de que só assim é que se conseguiria convencer a Igreja a acompanhar esses meio azougados aventureiros que estavam certamente muito mais interessados no ouro da Mina e nos curativos hospitalares do que na piedade inspirada no crucifixo.

 

Apesar da relativa proximidade, em 1486 foi instalado em Safim um local de acolhimento dos doentes enquanto não eram evacuados para Tavira. Acabou este local por desempenhar as funções de verdadeiro hospital pois chegou a ter físico, cirurgião e boticário. A terra era pobre naquelas paragens mas o mar, esse, era pródigo em pescarias e era nessa faina que os portugueses lá andavam por longos períodos. O pretexto para se instalar este hospital foi o do apoio aos nossos pescadores mas acabou por servir toda a população indígena que muito beneficiou com a situação. Datam de muito mais tarde, 1516, os hospitais de Tânger e Arzila e é incerta no tempo a fundação do Hospital de Santa Cruz do Cabo de Gué, hoje Agadir, que foi praça portuguesa entre 1505 e 1541.

 

Mas se a rota do Algarve d’além-mar (Marrocos) para Portugal se fazia em linha recta e o porto de chegada era algures no Algarve d’aquém-mar, quando a origem da viagem era a sul do Cabo Bojador, a rota era circular zarpando as caravelas para o mar alto rumo à Madeira e Açores, daí tomando o nascente até Lisboa. Eis a razão pela qual foi necessário edificar em Lisboa o Hospital de Todos os Santos e não mais no sul do reino. Só que o hospital de Lisboa nunca foi considerado afecto ao ultramar pois atendia sobretudo às populações residentes na cidade e cercanias.

 

O mais antigo hospital situado além do Bojador foi mandado erigir em 1497 pelo Rei D. Manuel na Ilha de Santiago, em Cabo Verde, a que se seguiu o de S. Jorge da Mina (actual Gana) em 1498. Foi ainda o Rei D. Manuel que em 1504 mandou instalar o hospital em S. Tomé para apoio aos mareantes que demandavam o Manikongo mas que acabou por se destinar sobretudo às populações residentes em clima tão inóspito como aquele que hoje sabemos ser sobretudo palustre.

 

... e assim foi que Bartolomeu Dias dobrou o Cabo das Tormentas.

 

Chegados ao Índico, havia que prover aos cuidados nessa banda já tão longínqua e nada menos do que dois hospitais foram instalados em 1505 em Sofala e Quilôa e o da Ilha de Moçambique em 1507. Foi este último que passou a assumir a liderança no sistema de saúde português na costa oriental de África dadas as condições de salubridade do local e a afabilidade dos povos indígenas.

 

Mas a navegação no Atlântico sul deixou em 1500 de se fazer ao longo da costa africana passando a fazer-se pelo recém-descoberto Brasil com aproveitamento total dos alísios e evitando as calmarias namibianas. Eis como se tornou necessário e possível instalar um hospital na resguardada Bahia de Todos os Santos. Contando com o de Tavira, foi este o 9º na sucessão.

 

Data de 1511 a instalação do hospital em Melinde, não longe de Zanzibar, onde os portugueses largavam habitualmente a navegação costeira para se fazerem à travessia do Índico rumo a Chaul, já na costa do Malabar.

 

A amizade estabelecida por Vasco da Gama com o Rei de Cochim facilitou a instalação naquele porto em 1505 do mais antigo hospital português naquela costa, a que se seguiu em 1506 o de Cananor. São incertas as datas em que se edificaram os hospitais em Goa e Baçaim mas em 1512 Afonso de Albuquerque vê-se obrigado a expulsar os falsos doentes que se recolhiam em mendicidade no hospital de Goa e por carta datada de 31 de Outubro de 1548 da Misericórdia de Baçaim se ficou a saber que “(…) porque serteficamos a Vossa Alteza, que o ano em que sercarão Dio (1546), forão tantas as necessidades desta terra de feridos e doentes e pobres, que a elle della vyeram que nem ho espritall, nem a misericordia, nem o capitão nem outras nenhumas pessoas erão poderosas pera os agasalhar, nem curar, nem respairar, como hera necessaryo, se não forão os moradores desta terra que, ainda que são pobres, vendo quanto compria ao serviço de Deus e de Vossa Alteza, faziãm de suas casas espritais, e gastavão o seu, e davam muita conssolação dos ferydos e doentes que de Dio vynhão, que herão muytos”.

 

Assim contamos 17 hospitais entre Tavira e Baçaim. Ficam por contar os que se instalaram para lá da Índia. Mas disso tratarei alhures quando o Sol cair em terra e se puser por trás de Madurai e Pondicherry.

 

Lisboa, 28 de Março de 2006

 

Buenos Aires, 2012.jpg

Henrique Salles da Fonseca

 

 

BIBLIOGRAFIA:

ARMADAS PORTUGUESAS – apoio sanitário na época dos Descobrimentos

Autor: Médico Capitão-de-mar-e-guerra José de Vasconcellos e Menezes

Editor: Academia de Marinha, Lisboa, 1987



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 14:52
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Domingo, 29 de Janeiro de 2017
O CULTO AO ESPÍRITO SANTO EM PORTUGAL E AÇORES

 

Arcada 1941-Igreja e Hospital do Espírito Santo,

 

Dizia Marcelino Lima, através do livro do picoense Tomaz Duarte Jr. que ..."A rainha Isabel de Aragão introduziu em Portugal o culto do Espírito Santo, sob a égide espiritual e os ideais escatológicos do Abade Joaquim de Flora". O que levou em 1323 à fundação da primeira Igreja do Espírito Santo e respectivo hospital no nosso país (Vila de Alenquer).

 

À exemplo das Associações alemãs e francesas medievais (1160) que sob a invocação do Espírito Santo se dedicavam ao auxílio indigentes, pobres e doentes, depois da sua expansão em Portugal com a fundação de Confrarias, Irmandades e Casas do Espírito Santo, no século XV chegou com os franciscanos aos Açores. Hoje as festividades do Espírito Santo são uma força que marca a cultura e o turismo religioso no Arquipélago e na diáspora açoriana, apesar da sua decadência no Continente Português.

MADUFA-Procissão Açores.jpg

Procissão das Rosquilhas, Vila da Madalena (Pico)

 

Maria Eduarda Fagundes

 Maria Eduarda Fagundes

Fonte: O Culto do Espírito Santo (Tomaz Duarte Jr.) 2001



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 08:56
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Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2017
FUGA OU SALVAÇÃO DO ESTADO?

 

D. João VI

 

 

Na Escola, nem sempre foi essa a interpretação. Na década de 60 do século passado, aprendi que o Príncipe Regente, D. João, era um fraco comilão de frango que fugiu covardemente para o Brasil quando Portugal foi invadido pelas tropas de Napoleão Bonaparte. Só que a História contada, pela maneira que interessava, não explicava qual era o contexto político europeu naquela ocasião... Fuga simplesmente ou estratégia para escapar das forças militares francesas, que já tinham submetido boa parte das nações da Europa? Este texto de Miguel Castelo-Branco dá seu ponto de vista.

 

Nota curiosa:

Segundo o relato do despacho do almirante inglês Sidney Smith, a 29 de Novembro de 1807, enquanto a esquadra se afastava no horizonte, levando rumo ao Brasil a Coroa Portuguesa, em terra, a força francesa, que acabara de invadir Lisboa, se apinhava nos morros para contemplar impotente e raivosa a escapada da sua presa mais cobiçada!. (pg 54 D. João VI no Brasil)


Não foi fuga, foi a salvação do Estado

 

Mais de 200 anos decorridos sobre a invasão franco-espanhola, ainda se discute a conveniência ou o acerto da transferência do governo e corte para o Brasil, apodando-a muitos – os mesmos de sempre – como fuga. Não se foge quando a bordo da quase totalidade esquadra real parte o governo em peso, a rainha e o Regente com a família, o tesouro do Estado, a biblioteca real (que ficou para sempre no Rio de Janeiro), documentos e bens de toda a espécie.

 

Acompanhada por muitas dezenas de navios de comércio, a esquadra de guerra furtou-se à sua utilização por Napoleão. O Príncipe Regente e a família, símbolos da soberania, não vão negociar nem se espoliar aos pés do Corso. Chegado ao Rio, o soberano tem como primeira medida declarar guerra à França, guerra esta que se prolongará até à entrada do exército português em Toulouse (1814). Em toda a Europa, o ditador coroado Napoleão I tinha manipulado, ofendido e humilhado os soberanos e as nações. Retalhara impérios seculares, criara novos Estados à medida dos seus interesses e da sua família. Espezinhara direitos adquiridos e violara todas as regras da diplomacia, levando Talleyrand a pronunciar a célebre frase …”o que é excessivo torna-se insignificante”…

 

Bonaparte estabeleceu uma tirania em todo o continente, impondo pautas aduaneiras abusivas, saqueando recursos dos países ocupados e estabelecendo a desigualdade como base de consolidação da França imperial. A política de destruição e de saque, acompanhada por todo o tipo de atrocidades sobre as populações era o quadro geral que se oferecia. Contudo, sempre houve quem entendesse ir ao encontro do invasor, procurando o entendimento possível que permitisse o exercício de um qualquer tipo de poder, por muito ilusório que fosse. Assim aconteceu com a deputação enviada à pressa a Baiona, prestando vassalagem ao conquistador que já tinha como refém o sogro do Príncipe Regente, o rei Carlos IV de Espanha. Cedendo e negociando, a Espanha sujeitou-se a todas as arbitrariedades inimagináveis, tendo mesmo que suportar a colocação no trono de José Bonaparte, arvorado em simples Maire de Madrid com o pomposo título de rei da Espanha e das Índias.

 

Numa época em que a honra ainda contava no âmbito das relações internacionais, o futuro D. João VI poupou-nos a tudo isto. No memorial de Santa Helena, Bonaparte acabou por reconhecer o fracasso da sua política no ocidente europeu, quando viu frustrado o seu projecto de capitulação portuguesa.

 

Nada surpreendente é a posição da generalidade dos académicos brasileiros, que julgam esta transferência da corte e governo de uma forma absolutamente positiva. Não se encontrando comprometidos com os interesses e “legitimações” dos regimes que têm vigorado em Lisboa, estabelecem a partida da família real como um marco imprescindível para a compreensão dos acontecimentos que, tendo garantido a sobrevivência de um Portugal independente, conduziram também à pacífica independência do Brasil.

Miguel Castelo-Branco

 

PS: A quem interessar, o livro D. João VI no Brasil de Oliveira Lima (escritor e diplomata recifense), um dos maiores estudiosos de D. João, mostra parte dessa história!

 

Maria Eduarda Fagundes

Maria Eduarda Fagundes



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Domingo, 8 de Janeiro de 2017
O TÚMULO DO REI D. DINIS...

Tumulo de D. Dinis.jpg

 


... foi aberto em 1938

 

O Rei D. Dinis escolheu a Igreja do Mosteiro Cisterciense de Odivelas para sua última morada. Indicou mesmo o local: a meio, entre a capela-mor e o coro.

 

Para que a sua vontade fosse cumprida, fez essa declaração no seu testamento.

 

Assim se cumpriu.

 

Naquele local e naquele Igreja foi depositado o seu corpo quando o cortejo fúnebre chegou, vindo de Santarém. Era um mausoléu majestoso. O primeiro a ter uma estátua jacente. O primeiro a ficar dentro de um lugar sagrado.

 

Estava cercado de grades altas de ferro terminando em escudetes nas pontas dos balaústres com as armas de Portugal e cruzes da Ordem de Cristo. Um dossel cobria-o em toda a sua dimensão.

 

O sismo de 1755 precipitou sobre o túmulo a abóbada da igreja, deixando-o gravemente arruinado.

 

Reconstruída a Igreja, foi o túmulo encostado à teia do corredor lateral direito e ali esteve até 1938, ano em que se fizeram novamente obras na Igreja.

 

Em consequência dessas obras, foi necessário mudá-lo de lugar e para facilitar o trabalho transportaram primeiro a tampa, pelo que, logo que a levantaram, ficaram à vista os restos mortais do Rei. Viu-se então um manto de brocado vermelho a cobrir o corpo do Rei, da cabeça aos pés. Este manto era tecido com fios de ouro.

 

A todo o cumprimento tinha faixas alternadas, separadas com fios dourados e onde se tinham executado bordados com os seguintes motivos: numa das faixas estavam bordadas pinhas em toda a sua extensão; na faixa seguinte bordaram açores e na última viam-se flores de Liz.

 

Na opinião dos que assistiram a este acontecimento, as pinhas são uma referência ao pinhal de Leiria; os açores, sendo o Rei um amante da caça de volataria[1], lembram-nos as aves de caça que muito estimava (conta-se que até mandou construir uma capela a São Luís em Beja porque este santo lhe ressuscitou um falcão); as flores de Liz são uma afirmação da sua ascendência real francesa.

 

Retirado o manto, ficou à vista o esqueleto do Rei, que estava completo e coberto pela pele ressequida. Tinha vestido um colete de lã branca muito macia, sobre a túnica. A cabeça repousava numa almofada e estava inclinada como quem dorme sobre o lado esquerdo, posição que o corpo acompanhava ligeiramente. O braço direito dobrado sobre o peito e o esquerdo descaído ao longo do corpo. Apenas os ossos dos pés estavam separados uns dos outros. Nos maxilares, a pele estava um pouco separada e apresentava uma longa barba ruiva. Na cabeça, a pele não se apresentava solta do crânio e tinha tufos de cabelos ruivos.

 

O Rei tinha 64 anos quando faleceu, o que para a época era uma idade avançada.

 

Apesar da idade, conservava todos os dentes.

 

Perante os restos mortais do Rei, os pintores dos seus retratos não se podiam ter enganado mais. Foi uma surpresa a verificação que era ruivo, o que se deve ao facto de ter antecedentes germânicos.

Afirma-se que soldados franceses terão tentado profanar o túmulo pensando que o Rei teria sido sepultado com esporas de ouro. De facto, alguém partiu o túmulo no sítio dos pés e terá introduzido um objecto que puxasse as esporas.

 

Não garanto que tivesse sido assim, mas o facto de os ossos dos pés estarem espalhados, pode ter essa explicação.

 

Não há sinais de o túmulo ter sido aberto antes de 1938 nem notícia de ter sido aberto depois.

 

Posteriormente, por decisão dos técnicos das obras, foi levado para o segundo absidíolo esquerdo, decisão que não foi aprovada pelo Presidente do Conselho que ordenou a sua remoção para dentro da Igreja por saber que essa era a vontade do Monarca. Foi então colocado onde hoje se encontra – na capela do lado do Evangelho.

 

"Estes são conhecimentos porque uma pessoa com saber e responsável soube transmitir-nos o que viu. Era então Director do Instituto de Odivelas um grande Militar e Pedagogo, Coronel Ferreira Simas. Assistiu à abertura e ordenou a uma professora de desenho que reproduzisse os bordados do manto.

 

Mais tarde, teve conhecimento de um artigo que fazia uma descrição cheia de atropelos. Então ele fez um relatório dos factos, com a descrição do que viu. Merece todo o crédito a sua descrição e foi aí que obtive as informações que aqui vos deixo com enorme satisfação."

 

Maria Máxima Vaz.jpg

 Maria Máxima Vaz

 

[1] - arte de caçar com falcões ou outras aves; altanaria

 



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 00:02
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Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2017
UM REI PORTUGUÊS NOS AÇORES

Disturbios de Afonso VI em Lisboa.jpg

 «Distúrbios de D. Afonso VI em Lisboa» - quadro de Alfredo Roque Gameiro

 

Depois de ser considerado física e mentalmente incapaz para assumir a direcção do reino, após a morte do rei D. João IV, seu pai, e de Teodósio, seu irmão e herdeiro, D. Afonso VI, El-rei de Portugal, é afastado do Paço Real, onde passou a governar seu irmão o Príncipe D. Pedro.

 

Para evitar tentativas de recolocá-lo no trono, foi levado com todas as mordomias reais para o Castelo e Forte de São João Batista, em Angra, Ilha da Terceira, Açores.

 

Corria o ano de 1669. Em 17 de Julho, em pleno verão, chega ao Porto da Cidade de Angra uma armada composta de três fragatas e uma caravela, comandada pelo Marquez das Minas, D. Francisco de Sousa. Trazia o malfadado D. Afonso VI. Incapaz de dar herdeiros ao reino, vê seu casamento anulado e a rainha casar com seu irmão D. Pedro, o príncipe regente. No dia 21 de Julho, finalmente às 4h desembarca o rei amparado no braço do Marquez após a descarga de boas vindas da artilharia. Andava com dificuldade em razão do achaque de estupor que padecia desde a infância. Já em terra, subiu à liteira com o Marquez que o levou ao Castelo de São João Batista. À entrada, nova salva de 21 tiros, com festas e repiques de sinos, pelas igrejas e mosteiros da cidade de Angra. Aposentou-se El-rei na casa e galeria do governador. Nos alojamentos inferiores ficaram os capitães da guarda e alguns criados de maior foro. Concluídas as novas funções no Castelo, o Marquez volta para Lisboa e entrega à Corte as novas participações dos oficiais. A serviço da pessoa de El-rei ficou em Angra um provedor da casa (Manoel Nunes Leitão), 5 assistentes da guarda com ocupação da porta dia e noite. Cinco guarda-roupas, cinco moços de câmara, um escrivão de cozinha e tesoureiro, um médico, um cirurgião, dois capelães, dois moços de capela, um manteiro, um comprador, um mestre de cozinha, 6 reposteiros, 4 oficiais de cozinha, 4 moços de cozinha, 2 moços da prata, um varredor.

 

Em Outubro chega ao Porto de Angra uma charrua, constante de um coche forrado de damasco vermelho, uma liteira do mesmo e outra de menor valor. Vieram também 6 cavalos que morreram em 3 anos e as pessoas que os deviam tratar. Todas as mesadas eram religiosamente pagas. O que sobrava era distribuído aos oficiais e pessoas que assistiam no Castelo. Abriram e aplanaram caminhos nas montanhas do Castelo de São João para dar divertimento ao rei que ali ia se entreter por várias tardes. Seja no Verão ou no Inverno, costumava levantar-se às onze horas para o meio-dia. Jantava das três às 4 horas da tarde. E todo o tempo que mediava até as 11 h procedia em travessuras de absoluta criação que tivera. E de tão inquieto, nenhum criado se considerava seguro em sua presença. Ninguém o suportava. Era incapaz de guardar menor segredo. Revelava até o nome do autor. Agastava-se com o fidalgo Luiz de Sá e Miranda só por lhe dizerem ser mais valente que ele. Por isso intentou certo dia acometê-lo sobre o Pico do Facho e o mataria às cutiladas se não fosse a humildade com que ele se portou e a presença de Manoel Nunes Leitão. Queixava-se de seus criados de tal maneira que excitava as lágrimas dos que o ouviam, chegando a dizer “... sua desgraça era tal que o príncipe, seu irmão, permitia que os criados o descompusessem, ali estava exposto a tudo! Era dotado de uma prodigiosa retentiva. Bastava que lhe dissessem o nome de qualquer sujeito uma vez para lhe ficar na lembrança para sempre. Compadecido da miserável pobreza, todos os dias a socorria de sua mesa, até com prodigalidade. A mesma roupa que usava no Verão usava no Inverno, mas sobre a camisa se ligava com toalhas, a poder de alinhavos, que por grandes movimentos que fizesse não caiam, sendo assim que dormia. Comia uma única vez, porém com tal avidez que repugnava. Duas a três vezes ficou doente com febre e uma delas, foi a pontos de dar bastante cuidado a sua vida. Ainda não passado um ano da sua chegada à Terceira, espalhou-se a notícia infundada que o príncipe D. Pedro estava mal de saúde. Coisa esclarecida com as novidades trazidas de Lisboa por uma caravela. O príncipe apenas havia caído de um cavalo e passava bem. Mesmo assim, os ciúmes e inimizades grassavam na casa de El-rei em Angra, a ponto de em 1670 vir até aquela ilha um corregedor natural de São Miguel, Manuel Bicudo Delgado de Mendonça, que ali começou a correição e mais tarde passou à corte como Desembargador. Por esse mesmo tempo os do partido do rei urdiram tramas a ponto de se supor que a Terceira havia levantado os povos pondo o rei em liberdade e restituindo-lhe a coroa. O príncipe mandou uma embarcação informar-se como estava a situação na ilha, mesmo depois das notícias sossegadoras do Provedor da Fazenda. Assim correram os anos com arrumadores de tumultos e supostas rebeliões que queriam restituir D. Afonso VI ao poder.

 

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 «D. Afonso VI preso em Sintra» - quadro de Alfredo Roque Gameiro

 

Em 1672, rebentaram nos Cedros, Ilha do Faial, junto ao Capelo, cinco ribeiras de lava ardente com destruição de moradas e campos. O tremor de terra foi sentido apenas levemente na Terceira. Em 1673 é eleito para Governador do Castelo São João Batista Manuel Nunes Leitão. Movimentos para restituir o poder ao rei seguiram-se sem efeito. Até que em 1674, D. Afonso é enviado de volta a Lisboa e é “aposentado” em Sintra, “guardado por soldados e pelos assistentes que o acompanhavam desde que estivera na Terceira. Morreu em 12 de Setembro de 1683 aos 40 anos, prisioneiro em Sintra.

 

Uberaba, 03/01/2017

 

Maria Eduarda Fagundes

Maria Eduarda Fagundes

 

Dados compilados dos ANAIS DA ILHA TERCEIRA (Volume II, pag.157 a 167)

Reimpressão Fac-similada da Edição de 1856

Governo Regional dos Açores (Secretaria Regional de Educação e cultura)



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 08:15
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Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2016
ESTADO DA ÍNDIA PORTUGUESA (III)

 

 

1 – A 17 olhámos para o “antes”. A 18 para o “durante”. A 19 vamos olhar para o “depois”. E o depois, com a agressão militar, não poderia ter sido outro.

 

Goa foi ocupada pelas forças da União Indiana. Com estas a atravessarem o rio Mandovi e a entrarem em Pangim, capital de Goa, com jactos indianos a sobrevoarem a cidade. E no hospital de Pangim, o comandante do aviso «Afonso de Albuquerque» gravemente ferido, depois de sustentar luta feroz, mas desigual, contra um cruzador e dois contratorpedeiros da marinha indiana na baía de Mormugão.

 

2 – Nas Nações Unidas, o delegado francês Armand Berard, referiu a sua “surpresa, pesar e profundo desgosto”, considerando que o acto em si era “caso típico de agressão militar”. O delegado americano Adlai Stevenson, repudiando afirmações do delegado indiano, dizia que o problema não era discutir as vantagens ou inconvenientes do colonialismo português: o problema, sim, era um Estado membro da ONU ter violado a Carta recorrendo ao uso da força. E acrescentou o delegado americano: “É possível que Goa e as suas dependências sejam colónias ou territórios não autónomos, mas o que eles não são é parcelas da União Indiana e em Direito Internacional, pertencem a Portugal”. E o Chanceler Adenauer, da República Federal Alemã (RFA), na sua mensagem de Natal dirigida ao povo alemão, diz que a força passou a governar e acrescentou: “Goa, província portuguesa que se valorizou pelas suas minas de ferro, foi conquistada à mão armada pela União Indiana que tem uma população de 400 milhões de habitantes”.

 

3 – Perante isto, foi apresentado um texto de moção Afro-Asiática, pelo Ceilão (Sri Lanka), Libéria e R.A.U. (República Árabe Unida – Egipto e Síria), em que pedia a Portugal para terminar a sua acção hostil contra a Índia e que os enclaves portugueses constituíam uma ameaça à paz e à segurança internacional. Está-se mesmo a ver que assim era. E como não era, recebeu 4 votos a favor contra 7 no Conselho de Segurança. E, assim sendo, estava em cima da mesa uma moção apresentada pelo bloco ocidental, que recebe 7 votos a favor e 4 contra. Face a esta votação favorável a Portugal, o delegado soviético carimbou-a com o veto. A URSS utilizava, com este, 99 vezes o veto, o que não permitia mais qualquer discussão. Logo, o Conselho de Segurança da ONU não podia discutir mais o assunto. É de acrescentar que a moção ocidental foi apresentada pelos Estados Unidos, Turquia, Inglaterra e França. A Turquia com os seus altos e baixos na ordem política nacional e internacional, merece depois disto, e ainda hoje, toda a compreensão e ajuda que possamos dar.

 

4 – E no seguimento da tomada de posição que anulava a moção ocidental, a Inglaterra, pela voz do MNE, Lord Home, e na Câmara dos Lordes, afirmava que tinha comunicado a Portugal que seria impossível empenhar-se em hostilidades contra a Índia. Mas, no Conselho de Segurança das Nações Unidas, o apoio inglês a Portugal foi nítido. E círculos de Nova Deli consideravam-no mesmo como «o mais critico acontecimento nas relações indo-britânicas desde 1947». Aliás, o PM Macmillan e o PM Nehru já andavam de candeia às avessas sobre o Mercado Comum Europeu, a acção das tropas indianas no Congo – Kinshasa e a projectada redução pela Inglaterra da imigração na Comunidade. E agora, Goa era mais uma acha para a fogueira nas relações bilaterais.

 

5 – E as notícias continuavam a chegar. Com um porta-voz indiano a referir que a última bolsa de resistência em Goa, o porto de Mormugão, tinha terminado e que o Governador-Geral português, general Vassalo e Silva, tinha sido aprisionado. Mas não era para admirar tudo ter acabado tão depressa. Porque entre tropas invasoras, outras preparadas para reforçar a invasão e reservistas para actuar em caso de necessidade, estaria um contingente estimado em 45 mil militares e 26 mil reservistas. E para se oporem a tão grande número de efectivos, o máximo que podíamos ter armado eram cerca de 4 mil homens. Assim, o Comandante Cunha de Aragão gravemente ferido e o Alferes Santiago de Carvalho e o Segundo-Tenente Oliveira e Carmo mortos em combate, deram mais que provas de grande resistência e heroísmo perante o adversário. E, é de referir, que o comandante-chefe das forças invasoras general Chowdhury visitou no campo de prisioneiros portugueses o general Vassalo e Silva, tendo-lhe manifestado admiração pela determinação das forças portuguesas em querer combater, visto que, até pelo armamento, não havia possibilidades de resistir por muito tempo. Testemunhou o acto o capitão Carlos Azeredo, como intérprete entre os dois, visto que Vassalo e Silva não dominava o inglês. Carlos Azeredo que, como general, foi depois Chefe da Casa Militar do Presidente Mário Soares.

 

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 Alferes Alberto Santiago de Carvalho

 

JAF-Segundo Tenente Oliveira e Carmo.jpg

 Segundo-Tenente Oliveira e Carmo

 

 6 – Mas não podemos esquecer que para reforçar a guarnição de Timor onde tinha havido incidentes, retiraram-se tropas do Estado da Índia Portuguesa e quando a guerra em Angola rebentou, foi nova sangria de militares e material que dali saíram da mesma maneira. E quando havia exercícios militares das nossas tropas em Goa, verificava-se que as munições não saíam das armas como devia ser. E não tínhamos um único avião militar. As forças indianas tinham artilharia pesada contra a qual não havia possibilidades de enfrentar. No final dos finais, o general Vassalo e Silva, mais uns tantos oficiais, foram gravemente punidos e só com o 25 de Abril lhe foi feita (e a outros) alguma justiça. E na altura, face à atitude das autoridades militares e políticas, vários oficiais pediram para passar à situação de reserva, o que não lhes foi concedido.

 

7 – E nada mais nos restava que não fosse informar entidades e organizações políticas para tudo o que se tinha passado. Mais uma vez, Marcello Mathias era recebido pelo general De Gaulle. A OTAN (NATO) era informada pelo embaixador português na OTAN, Dr. Vasco Pereira da Cunha, sobre os acontecimentos em terras industânicas. O Chefe do Estado cancelava todas as audiências em Belém até ao final do ano e na entrevista concedida por Salazar ao jornal LE FIGARO, o jornalista Serge Groussard questionava: “Os portugueses mantêm uma alma de cruzados. Mas são cruzados sem armas”. Resposta pronta de AOS: “É sempre mais fácil encontrar armas do que cruzados. Por isso não abdico da esperança”.

 

8 – A imprensa internacional como o New York Herald Tribune diz que “a invasão de Goa faz dobrar os sinos pela ordem mundial e também pela organização internacional”. O New York Times considera chocantes as declarações do embaixador indiano junto da ONU. O New York Post refere “uma auréola manchada em Nehru e no seu Ministro da Defesa Krishna Menon porque preferem lançar as armas contra Goa a enfrentar as forças chinesas nos Himalaias que já lhe ocuparam território infinitamente maior que o Estado da Índia Portuguesa”. A imprensa britânica, a começar pelo Daily Telegraph, comenta “que o Pandita Nehru deixou de ser o grande homem que foi até ontem”. O Daily Herald refere “que Nehru desperdiçou todo o prestígio a favor de um pedacinho de território”. Os diários madrilenos condenam a agressão. O Journal de Genève e a Gazette de Lausanne dizem “que Nehru ficou com a imagem enxovalhada”.

 

9 – Em Nova Iorque, o ministro da Defesa da Índia, Krishna Menon, questionado quando a Índia recuperaria os territórios que perdera em favor da China vermelha, referiu que o tentaria fazer sem recorrer à força. Pois… Porque seria?

 

10 – E não. Não se pense que o autor destes textos pensaria que o Ultramar Português não seria questionado algum dia e seria sempre português. Não. Os novos Brasis aconteceriam. Mas seria sempre melhor sem o sofrimento provocado a tantos. De um lado e de outro. Mas, por vezes, a aceleração dos tempos está ligada a muitos imponderáveis. E passados anos, “as mágoas” são ultrapassadas.

 

11 – E a agradecer ao Henrique Salles da Fonseca, camarada de armas há muitos e muitos anos na parcela do Índico, mais uma vez, o espaço que me dá. E a agradecer também que tenha publicado este pobre contributo, apenas como lembrança do que foi a História, a Geografia e a Política de Portugal.

 

Em 19.12.2016.

José Augusto Fonseca

José Augusto da Fonseca

 

Apoio Documental Principal: IMPRENSA Nacional e Internacional – 1961



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 04:25
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Domingo, 18 de Dezembro de 2016
ESTADO DA ÍNDIA PORTUGUESA (II)


1 – São tantas este ano as datas redondas a lembrar em 2016. E nas redondas, umas, mostram-nos mais uma vez, que o hoje não é mais perigoso que o ontem. Outras, com altos e baixos, indicam que vamos percorrendo um caminho que nem sempre é fácil, mas, mesmo assim, vamos caminhando.


2 – Evoquemos o hoje e o agora. Porque olhando o Médio Oriente, vemos tragédias que não se podem repetir. Mas estas são sempre tragédias e apenas repetições noutros lugares de outras que se deram nesta nossa velha, obesa e gasta Europa. Este ano cumprimos os 80 anos do início da Guerra Civil de Espanha, os 70 da Guerra Civil da Grécia e os 60 da Insurreição na Hungria. E se ficamos siderados com a Síria e o Iraque, como ficaríamos perante todas as atrocidades verificadas na Espanha, na Grécia e na Hungria... E se não fosse o erro estratégico há 75 anos das chefias japonesas no ataque a Pearl Harbour e consequente entrada dos USA no segundo conflito mundial, como seria o desenrolar das operações militares aliadas na Frente Russa e na Frente Inglesa, com dois líderes que, apesar dos muitos defeitos, souberam resistir ao desânimo, à descrença e à derrota? Estaline o “georgiano soviético”, e Churchill o “bulldog  inglês”.


3 – Por cá, nas manhãs de Abril, os 40 anos da Constituição da República, os 40 da primeira Eleição Presidencial e os 40 do Poder Local. E no entardecer definitivo do Estado Novo, lembrar os 90 anos do 28 de Maio, os 55 do início da Guerra do Ultramar (ou Colonial, ou de África, ou de Libertação), os 50 da Ponte Salazar (perdão, 25 de Abril) e, para que os mais novos não o esqueçam (e anda tudo tão esquecido), o princípio do fim do Império que nos restava. Porque o Brasil já tinha ido, por obra e graça de futuro rei português.


4 – E neste ano, lembrar que o Estado da Índia Portuguesa, conheceria um destino que sempre lhe estava destinado, mas não da forma como aconteceu. Certo. Tinha de ser assim? Quase apetece responder como o general Carlos Fabião, profundo conhecedor da Guiné-Bissau, a uma questão que lhe foi colocada: se me dissessem que a Guerra da Guiné estava perdida, eu diria que sim; mas se me dissessem que a Guerra da Guiné não estava perdida, também digo que não estava. Confusos? Julgo que não. Se a Índia tinha o problema de Goa, nós acrescentamos, que a China tinha o problema de Macau e, na altura, a Indonésia tinha o de Timor. E para Portugal e União Indiana poderia ser outra coisa (de outra forma, quero dizer).


5 – E não se percebe, ainda hoje, que a Índia, com um problema muito mais grave na Fronteira Indo-Chinesa onde tinha perdido cerca de 40 mil Km2 de território para as mãos do Exército Popular da China, podendo aí demonstrar todo o valor do Exército Indiano, vem demonstrar, afinal, que não está para tolerar um poder colonial, com um minúsculo corpo militar no EIP, sem Força Aérea, com forças navais residuais, praticamente só para fiscalização das águas territoriais. E com um total de 3 mil soldados, com armamento totalmente ultrapassado, no tempo e no modo.


E diga-se o que se disser, não se fez mais porque mais não se poderia fazer. E batemo-nos no tempo possível. Para além dele, o impossível não era justo. E o que não é justo, não pode ser cumprido.


6 – E tudo isto foi pena. De um lado e do outro dois Homens Carismáticos, duas lideranças, ambas fortes, que deveriam ter evitado este conflito. Uma das lideranças em autarcia, outra liderança em democracia. E ambas sabiam o que estava em jogo. Nehru sabia, porque sabia, que o Dr. Salazar não poderia ceder na Índia Portuguesa. Cedendo ali, a enxurrada levaria logo a seguir a casa africana pois cedência naquele lado implicaria cedência na Costa do Atlântico e do Índico.


7 – Nehru poderia ter seguido o modelo paciente chinês para com Portugal. Negociar, negociar sempre. Mesmo para além do limite. E sabendo, porque o sabia, que o Mundo estava a mudar (como hoje) e com ele mudaria um dia a situação da tutela portuguesa em Goa, Damão e Diu. E de homem político respeitado, que o era, tornou-se, de um momento para o outro, de “pacifista” para um vulgar “beligerante” tendo ficado mais enfraquecido, porque a sua beligerância foi fraca com os fortes e forte com os fracos cuja retaguarda estava a milhares de quilómetros de distância. Argumentou-se, depois, quase como desculpa, que foi empurrado pelo seu MD Krishna Menon, um radical no Governo indiano. Se o foi, então fraca era a sua liderança política e abalado ficou o seu prestígio como Homem de Estado.


8 – E passados 55 anos, vem à memória a nota oficiosa da Presidência do Conselho de Ministros: “Depois de nas últimas semanas ter realizado poderosa concentração de forças, a União Indiana iniciou hoje a agressão contra o Estado Português da Índia, segundo acaba de confirmar o governador-geral. Nos termos das instruções que haviam sido dadas, as forças armadas entraram em acção na defesa do território. O Governo confia em que todos saberão cumprir o seu dever”.


Estávamos então em 18 de Dezembro de 1961. Entre 30 mil a 40 mil homens do Exército Indiano, apoiados pela Força Aérea e Marinha, atacavam territórios que tinham apenas forças para pouco mais do que para olhar pela paz social dos mesmos.


9 – Com uma tão grande desproporção de forças, nada mais nos restava que um ou dois dias de resistência. Pouco mais poderia ser feito. Salazar, anos antes, não tinha aceitado a sugestão do seu amigo Marcello Mathias. Faça-se um referendo. O resultado, desde que tudo feito como devia ser, iria mostrar ao Mundo o que os goeses queriam, dizia um. O outro, o timoneiro, nem mais uma palavra. Este, em 1959, insistia em discurso, que a situação que o País enfrentava era difícil, mas tínhamos de ter sempre presente uma palavra: AGUENTAR. Ou melhor. Na sede da União Nacional, em 23 de Maio de 1959, dizia: “Aguentar! Aguentar! E nada mais é preciso para que amaine a tempestade e se nos faça justiça”. Só que o Aguentar nesta data, iria ter um problema. Como dizia Franco Nogueira: tinham chegado a Washington os intelectuais de Harvard com o Presidente Kennedy, e com ele, novos ventos sopravam na e da Casa Branca.

 

Aviso Afonso de Albuquerque.jpg

 NRP Aviso «Afonso de Albuquerque»


10 – Mas o assunto não estava definitivamente arrumado. A Índia administrava como parte integrante a Índia Portuguesa, mas como ocupante. Portugal em momento algum prescindia dos seus Territórios da costa indiana, juntamente com os enclaves. O assunto só ficou arrumado, não em data redonda, mas em data quadrada (de quadro jurídico; nada de confusões) com a lei 9/74, que reconheceu a plena soberania da União Indiana, sobre os territórios de Goa, Damão, Diu, Dadrá e Nagar-Aveli. E este reconhecimento é antecedido pela lei 7/74, que abre em definitivo o fechar da página Imperial e Colonial. Com esta lei, Portugal reconhece o direito dos povos à autodeterminação e independência. É o nosso regresso em definitivo ao território europeu e insular atlântico. 


11- E podíamos aqui encerrar o acontecido e noticiado. Mas, talvez valha a pena um terceiro texto. E o Henrique com a sua paciência para ainda me ir lendo e dando guarida. E eu com a esperança de alguém mais ir ler o que escrevo. Vamos a isso.


Em 18.12.2016

 

José Augusto Fonseca

José Augusto da Fonseca


Apoio Documental Principal: IMPRENSA Nacional e Internacional – 1961



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 00:29
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Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2016
EL PURO D’EL COMANDANTE

 

 

 

Voltando a Fidel Castro, reconheço que se tratava de personagem carismática. Mas não me restam grandes dúvidas de que era um verdadeiro malandro que parece ter mandado matar mais gente do que a ditadura militar do seu antecessor, o boçal sargento Fulgêncio Batista (auto-arvorado em Coronel e em Comandante Chefe das Forças Armadas do seu país) e muitíssimo mais do que a ditadura militar no Brasil. Na ausência de estatísticas fiáveis, fiquemo-nos pelo que se diz.

 

Como já contei noutra crónica (http://abemdanacao.blogs.sapo.pt/na-morte-de-fidel-castro-1747911), a minha tia Amélia Teixeira casou nova com o tio Pairó[1], cubano de origem galega, advogado e que viria a ser professor catedrático de Direito Civil na Universidade da sua Havana natal. E foi por ela que eu soube que a vida em Cuba não era fácil.

HSF-Fulgêncio Batista.jpg

 

Durante o período de Fulgêncio Batista, a boçalidade reinava e Cuba pouco mais seria do que um parque de diversões – eufemismo de prostíbulo – ao largo da Flórida para americanos à busca de diversão mas gerido com grande intervenção da Máfia. Mas os cubanos viviam. Diga-se em abono da verdade que viviam com as dificuldades típicas de um país gerido por gente iletrada, boçal, complexada e, portanto, tendencialmente violenta.

 

Letrado, Fidel pôs um ponto final nesse cenário.

 

O tio Pairó tinha sido professor de Fidel e, conhecendo-o relativamente bem, atribuía aos americanos a culpa da viragem que ele fez para o comunismo. Lembro-me perfeitamente de ouvir a tia Amélia dizer «o Manolo diz que o Fidel não era comunista e que só se virou para a Rússia quando os americanos lhe fizeram a vida negra». E nós, conhecendo o tipo de raciocínio hermético do americano vulgar para quem o mundo é a América e tudo o mais não passa de arrabaldes desprezíveis, estamos mesmo a ver como o caldo se entornou: Fidel fez um Inferno aos negócios da Máfia em Cuba, a Máfia queixou-se ao Governo Americano e este fez um Inferno a Fidel. Não era que a Máfia mandasse no Governo Americano; este apenas pensou que os interesses americanos estavam a ser prejudicados em Cuba e não quis saber de mais nada. A partir daí, todos conhecemos a História...

 

E o que foi a revolução cubana? Muito simplesmente, o alastramento do Inferno a toda a sociedade. Os adeptos do comunismo tecem loas à educação e à saúde mas esquecem-se do pequeno-almoço, do almoço e do jantar; a louvável expulsão dos americanos mafiosos não foi acompanhada da instauração de uma economia virtuosa que criasse níveis mínimos de bem-estar; pelo contrário, o dogma tomou conta de tudo e a economia colapsou. E como a «pureza» da tirania já perdura há quase 58 anos[2], são várias as gerações de cubanos que não sabem viver se não na miséria. E a alta instrução que obtiveram, aplicam-na gerindo stocks de senhas de racionamento e mantendo relações públicas (vulgo, prostituição) com quem lhes acene com moeda forte já que o ordenado médio mensal equivale (em moeda não transaccionável) a € 5,00 e um engenheiro ganha cerca de € 8,00.

 

E não me venham, comunistas, com a conversa mais do que estafada dos malefícios do bloqueio americano. Esse bloqueio não passou de um bluff infantil só «para inglês ver» pois estava super furado pelos próprios americanos disfarçados de canadianos e os outros países cooperaram sempre com Fidel. O problema tem sido um e um só: o modelo económico comunista não funciona e, portanto, não presta. Vi com os meus próprios olhos, não emprenhei de ouvido.

 

E foi por causa do desastre do modelo que muitos cubanos optaram por mandar a «pureza» às urtigas e fugiram em botes, jangadas e câmaras-de-ar devidamente insufladas; os outros, esperaram pelo fim do puro d’el Comandante, esse que não precisava de esperar pelo fim do mês para fumar charutos.

 

HSF-Fidel e o seu Cohiba.jpg

 El Comandante y su puro

E agora?

 

Agora, a ver vamos como dizia o ceguinho. Como assim? Quem é que já viu um comunista abandonar o poder voluntariamente ou em resultado de eleições livres?

 

Não tenho uma bola de cristal que me informe dos passos seguintes em Cuba (nem fora de Cuba) mas creio que tudo terá que ser construído a partir do zero pois o comunismo destruiu completamente a sociedade civil, assim destroçando a Nação cubana que, das duas, uma: ou vive no Partido em obediência cega ou fora dele, numa clandestinidade mais ou menos literal e rigorosa.

 

O sucessor do «tio Manolo» na cátedra de Direito Civil (será que ainda existe?) na Faculdade de Direito da Universidade de Havana vai ter muito trabalho a descodificar as normas partidárias para que, um dia no futuro, Cuba discuta democraticamente um renovado quadro legal e possa finalmente ser aquilo que nunca foi verdadeiramente: um Estado de Direito. Um dia...

 

E que os mafiosos se mantenham à distância.

 

Novembro de 2016

 

HSF-27NOV16.jpg

Henrique Salles da Fonseca

 

[1] Manuel Diaz Pairó - Universidad de La Havana, Facultad de Derecho

[2] - Fidel Castro chegou ao poder no dia 1 de Janeiro de 1959



publicado por Henrique Salles da Fonseca às 08:17
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